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Historia da Litteratura Clássica 



TYP. DA EWFfi. L1TTER. £ 7VPCGRAPHICA 
(§ OíficiDa* movidas a electricidade jf) 
R. DA BQAV:STA 32! « PORTO » MCtyXXH 



DO MESMO AUCTOR: 



Espirito Histórico, 3. a edição. 

Historia da Critica Litteraria em Portugal, 2.» edição. 

A Critica Litteraria como sciencia, 3. a edição. 

Historia da Litteratara Romântica, (esgot.) 

Historia da Litter atura Realista, (esgot.) 

Historia da Litteratura Clássica, 2 vols. (o 1.° em 2.* edição). 

Características da Litteratura Portuguesa, 2." edição. 

Estudos de Litteratura, 3 vols. 

Portugal nas guerras europêas. 

Como dirigi a Bibliotheca Nacional. 

Revista de Historia (direcção e coilaboração), 10 vols. 



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H^ 



BiBLIOTHECA DE ESTUDOS HISTÓRICOS NACÍONAES-VÍ 



F1DELINO DE FIGUEIREDO 



Historia da Litteratura Clássica 



1.» EPOCHA: 1502-1530. 



2.' EDIÇÃO, REVISTA 




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5 I- I--3LM 



LISBOA 
LIVRARIA CLÁSSICA EDITORA 

DK 

A. M. TEIXEIRA & C. a (Filhos) 

17. PRAÇA DOS RESTAURADORES, 1T 

1991 



Apesar dt noutro volume termos exposto já a nosso, concepção 
da critica litteraria, cremos que será de conveniência accentuar, á 
frente deste livro, que neste novo ensaio de critica não pretendemos 
fazer investigações novas sobre as biographias dos andores ou sobre 
a bibliographia de suas obras, nem indagações de historia politica 
ou social, e menos ainda de philologia. Foi nosso propósito fazer 
exclusivamente uma analyse esthetica das obras, interpretá-las cri- 
ticamente, quanto possível explicar a sua contextura litteraria e 
avaliá-las como obras de arte, qzie a exprimir belleza e emoção 
visaram sempre, segundo deliberado intuito de seus andores. Da 
biographia, da bibliographia e da histotia nos soccorremos quando 
ellas podiam de algum modo contribuir para o ?iosso escopo, sem 
deixar de ter bem presente qual este fosse. 

Problemas, que foram longo tempo conhovertidos, mas que á 
data da redacção deste volume se achavam de vez solucionados, 
apenas os relembrámos para prestar homenagem aos C7"uditos que 
na sua solução collaboraram e para recapitular as phases das co?i- 
troversias. 

O rápido bosquejo sobre a litteraiura medieval, o humanismo 
e o renascimento, que conslitue a matéria da introducção, ê fundado 
sobre trabalhos de insignes medieva listas ; organizámo-lo para oppôt 
a esthetica litteraria medieva á neo- clássica, principal assumpto do 
livro. 

Ao publico curioso de historia litteraria desejámos apresentar 



uma pessoal interpretação do quinhentismo português. Com os dados 
que já hoje a erudição proporciona, argamassados pelas nossas 
idéas geraes e pelos nossos princípios críticos, tentámos erguer uma 
construcção , que pudéssemos considetar como não alheia, onde ao 
menos nos fosse legitimo reconhecer a marca de alguns elementos 
pessoaes. Diligenciámos converter os milito s factos dispersos, a vasta 
matéria inorgânica, que já se ha produzido sobte a nossa littera- 
tura do século XVI, em sysiema dejuizos. Condensando em synthese, 
abslrahi?ido, generalizando e julgando é q?ce o espirito passa do 
dado sensorial á idéa ; porque não experimntar fazer trabalho 
semelhante em critica liiterariaf Não faz mal a este ramo de estu- 
dos um pouco de espirito philosophico, 

E se a nossa tentativa fôr insuficiente, não provará isso con- 
tra o critério, mas contra o andor. 



Lisboa, jj de Março de i<jrj. 



F F. 



Para a nova edição revimos o texto, achializando as suas ba- 
ses de erudição perante os progressos desta e os seus conceitos críti- 
cos perante o nosso espirito, que se não immobilizou em idéas feitas. 

Lisboa, iá de Dezembro de 1020. 

F. F. 



1NTRODUCÇÃO 



A LITTER ATURA MEDIEVAL - O HUMA1 
O RENASCIMENTO. 



Gil Vicente e Sá de Miranda, os iniciadores do nosso 
quh:hentismc, não foram os pioneiros da cultura litteraria 
deste paiz, o qual no tempo delles tinha já uma vigorosa 
individualidade histórica e occupava no concerto internacio- 
nal um lugar que não era secundário; antes dessa iniciação 
no gosto clássico, durante os quatro séculos incompletos da 
vida medieva do paiz, havia-se já formado uma tradição 
litteraria, que levou Portugal a collaborar com brilho nos 
principaes géneros da litteratura coetânea. Desde que Paio 
Soares de Taveiros, enamorado de Maria Paes Ribeiro, 
compôs a sua pequena poesia amorosa, em 1189, até que 
Gil Vicente, em 1502, lançasse a pedra inicial da grande 
fabrica do seu theatro, o povo português, apesar de occu- 
pado primeiramente na constituição do seu território e sua 
organização interna, e logo depois nas disputas com Leão e 
Castella, na lucta intestina das classes e nas empresas ultra- 
marinas, pôde encontrar algumas horas de lazer para se dar 
á elaboração artística. Em todos os tempos, por mais com- 
batidos de objectivos cuidados que andem os ânimos, por 
mais que a azáfama interesseira do trato commercial, o mal- 



8 Historia da Litteratura Clássica 

estar económico ou os sobresaltos da guerra absorvam os 
espiritou, sempre dentre estes alguns haverá que do theor 
da vida preoccupada, que vivem, saibam extrahir matéria 
de belleza e traduzi-la com os meios de expressão de que 
possam dispor. Quaes os rincões da vida medieval escolhi- 
dos para elaboração litteraria e que expressão de belleza os 
revestiu — é o que vamos rapidamente expor por meio dum 
conspecto genérico da litteratura anterior a 1502. 

Occupar-nos-hemos da poesia em primeiro lugar. E desce 
já declaramos que, de harmonia com o critério por nós ado- 
ptado, deixamos de lado, não por desinteressante ou desva- 
liosa, mas por estranha ao nosso propósito, a litteratura 
popular, anonyma, que oralmente circulou e se differenciou, 
litteratura occasional que não apresenta cunho de indivi- 
dualidade. Só á litteratura culta, pessoal, assignada, delibe- 
radamente elaborada com intenção artística, que seu auctor 
fica testemunhando e gozando, faremos referencia. 

Pelos monumentos, que da nossa poesia medieval hoje 
nos restam, nós não poderemos com rigor medir a intensi- 
dade e viveza da tradição poética, que chegou á corte de 
D. João 11. Todavia, os muitos nomes de poetas, que enchem 
os quatro cancioneiros conhecidos, os do Vaticano, da 
Ajuda, de Colocci-Brancuti e de Garcia de Rezende, per- 
mittem presumir que o cultivo da poesia de gosto proven- 
çal foi intenso e que nas mais altas espheras elle encontrou 
favor, pois ao lado de simples jograes vemos os reis e os 
nobres a poetar suas canções. O accesso de D. Affonso 11 ao 
throno, que de Bolonha viera para succeder a seu irmão 
desthronado, determinou um recrudescimento no fervor poé- 
tico, que por influencia pessoal do seu su.ccessor se prorcgou 
ao longo do século xm. 

Os três primeiros cancioneiros contêm exclusivamente a 
matéria poética trobadoresca, metrificada de acccrdo com a 
gaia scicncia. Essa matéria poética está longe de ser a expres- 
são esthetica duma superior belleza. Com a obliteração da 



Historia da Lilterafura Clássica 9 

civilização romana, também se quebrara a corrente da sua 
cultura, de modo que, como as sociedades medievas longo 
tempo se agitaram perplexas em procura dum equilíbrio 
estável de intrínseca composição — primeiramente as mcnar- 
chias barbaras, logo o império de Carlos Magno, depois 
o communalismo e o feudalismo até ás nacionalidades mo- 
dernas — assim também para constituir a sua litteratura 
tiveram de ensaiar tentativas varias. Dessas, a que reper- 
cussão maior teve em Portugal foi a do provençalismo. 
Não havia uma opulenta herança a tomar, que abrigasse um 
conteúdo considerável de themas litterarios, de formas e 
modelos, toda uma esthetica theorica e pratica, como o 
século de Augusto herdara dos precedentes e da Grécia; era 
uma tradição que principiava, que a si mesma se constituía. 
Língua, matéria a elaborar, gosto e publico, tudo havia que 
crear. E essa creação fez-se com adoptar uma forma poética 
popular, na forma e no fundo rudimentar, e com insuíiar-ihe 
alentos vigorosos, que a dignificassem e divulgassem. Dessa 
origem popular sempre se lembrou o lyrismo provençal, pois 
foi sempre rudimentar na forma e no fundo. Rudimentar na 
forma, porque a sua lingua é ainda indecisa, mal caracteri- 
zada na differenciação em que se ia dispersando o latim 
vulgar, e não possue riqueza de vocabulário, variedade de 
construcções syntaxicas, nem regularidade, nem harmonia 
que proporcionassem aos poetas meios eloquentes e vivos de 
expressão. Rudimentar no fundo, porque vulgares e desinte- 
ressantes são os sentimentos, os themas e conceitos que 
nessa forma se expressam. O sentimento do amor, a sau- 
dade, o desejo de ir foliar com o namorado, a ausência 
ansiosa, o elogio da formosura, os soffrimentos dum amor 
contrariado e a dor de amar quem nos aborrece — sentimen- 
tos eternos são que nas almas mais rudes e nas mais 
selectas, em todos os tempos, oceuparam lugar exigente. 
E, porém, necessário que duas condições se verifiquem para 
que tão persistentes sentimentos se tornem matéria de arte 



10 Historia da Litteratura Clássica 

litteraria, condigna matéria de arte litteraria: é a primeira 
que a "alma, que os experimenta, tenha individualidade 
typica, característica, que a causas tão communs opponha 
reacções pessoaes, com evidente cunho seu, que ame, soffra, 
se encolerize e sinta saudades de modo pessoal e com con- 
sequências inteiramente suas pesscaes, a tudo imprimindo o 
cunho da sua alma; é a segunda condição que essa alma, 
por si ou por outrem, saiba dar expressão de relevo e de 
belleza a essa individual maneira de sentir. Certo é que 
vidas curiosamente combatidas ou muito aventurosamente 
agitadas decorreram, sem que as almas que taes vidas vi- 
veram fossem almas de eleição, antes sendo muito com- 
muns; mas então o interesse, que essas biographias ou 
esses simples casos offerecem, já não é um interesse lyrico 
ou psychologico, é um interesse romanesco ou maravi- 
lhoso — e este não faltou na idade media turbulenta e incerta. 
O que faltou foi a individualidade: individualidade moral 
no modo de viver a vida, de a sentir, reflectir e interpretar, 
e individualidade artística para encontrar para a primeira a 
expressão litteraria própria. Não obstante, em Portugal, como 
por toda a parte nesse tempo, exuberantemente campeou o 
individualismo — que não é individualidade, differenciação 
das almas, mas egoismo arrogante, audácia volitiva, prepo- 
tência desordenada, ainda que em todas de igual modo se 
revelem esse egoismo, essa audácia e essa prepotência. Não 
faltaram exemplos do individualismo, reis turbulentos e ca- 
prichosos, infantes ciumentos que contra seu pae se rebella- 
vam, amores constantes, amizades fieis até ao heroísmo. Taes 
exemplos são porém ou a exaltação de sentimentos vulgares 
ou a demonstração heróica do conceito de honra do seu tempo ; 
estão inteiramente de accordo com o seu tempo, com o modo 
de sentir e opinar do seu tempo. Mesmo assim seriam excel- 
lente matéria litteraria; mas só a ulterior litteratura, do clas- 
sicismo e do romantismo, aproveitaria esses themas, quando 
o heróico entrou no gosto culto. Os poetas do século XIII, 



Historia da Litteratura Clássica 11 

xiv e xv — principalmente dos dois primeiros — confinaram- 
se estrictamente na gaia sciencia, compondo ingénuos canta- 
res de amor e cantares de amigo; ingénuos artisticamente por 
demonstrarem uma concepção de arte infantil ou popular, 
não porque acatem supersticiosamente as conveniências, que 
pelo contrario com extrema indifferença maltratam. Recita- 
das na corte e nos bailes populares, pelos reis, por nobres 
cortezãos e por simples jograes, as albas, as serranilhas, as 
pastoreias, as bailadas ou bailias, as barcarolas e as romarias 
contêm e exprimem os mesmos sentimentos e empregam a 
mesma forma, sentimentos e formas nuns e noutros rudi- 
mentares — o que confirma o nosso asserto de carência de 
individualidade. Distinguem-se estas espécies não pelo seu 
conteúdo marítimo, pastoril ou religioso, mas apenas por 
summarias e vagas referencias á madrugada que rompe, ás 
ondas do mar, a alguma romaria de grande devoção, adorno 
artificioso que acompanha a affirmação de factos muito com- 
muns, repetidos só com variantes na expressão métrica. Como 
se enganaria o critico que ao folclore actual, que corre oral- 
mente, fosse buscar assumpto para investigações de psycho- 
logia do caracter e para apreciações estheticas — assim se 
illude o que for abeirar a obra poética de D. Diniz, Ayres 
Corpancho, de Martim Codax, Pêro Dardia ou Pêro Garcia 
para estudos de psychologia, de esthetica e alta critica. Prin- 
cipalmente elementos para a historia da métrica e da lingua 
contem a producção desses poetas, dominados pelo gosto 
provençal e ligeiramente tocados da influencia do gosto épico 
da Bretanha, que sem fim repetiram os mesmos themas e 
formas. 

A satyra poética diffundiu-se muito, satyra pungente 
pela intensidade e grosseira pelo seu conteúdo ; ella consti- 
tuía uma prerogativa dos poetas, que pelas suas sirventêses 
e tenções mostravam o reverso das almas enamoradas das 
cantigas de amigo e davam curso á malevolencia e ao des- 
contentamento do seu tempo, desempenhando desse modo 



12 Historia da Litteraturu Clássica 

funcção semelhante á dos soberanos maldizentes, que 
eram os bobos. Esse legado medieval ha-de tomá-lo Gil 
Vicente. 

Em matéria de poesia épica, não fallando do curso oral 
das canções de gesta popularizadas, restam-nos um fragmento 
e uma recordação: o poema em latim de Soeiro Gosuino, do 
século xiv, sobre a tomada de Alcácer do Sal, acerca de 
cujo auctor ainda se não dissiparam as duvidas respeitantes 
á sua nacionalidade ('); e a lembrança dum poema sobre a 
batalha do Salado, de Affonso Giraldes, cuja existência foi 
referida por Frei António Brandão ( 2 ) e que parece haver 
sido traduzido para castelhano. 

Passando a occupar-nos do Cancioneiro geral, colligido 
por Garcia de Rezende, já lhe não poderemos attribuir cara- 
cterização análoga á que acima proposémos para os cancio- 
neiros provençaes, pois o seu conteúdo é muito mais com- 
plexo e trahe influencias mais variadas, correntes estheticas 
mais dispares. Mais largo é o fôlego poético dos auctores, 
que se affoitam a composições bem mais extensas, é mais 
comedida a sua satyra, já accusa pruridos de classicismo 
pelas, suas allusões mythologicas e a Ovídio; o elemento 
dantesco da descida ao inferno também no Cancioneiro geral 
se revela e avulta o elemento épico com elaboração de mo- 
tivos da historia nacional. A grossaria sincera e franca do 
provençalismo succede a lisonja cortesanesca e galante da 
vida palaciana, artificiosamente dissimulada. São, porem, 
muito raros os poetas de elevado mérito dessa galeria nume- 
rosa, apesar de nella já figurarem nomes que vieram a illus- 
trar-se na epocha litteraria seguinte, como Sá de Miranda, 



('; V. Portuçaliae Momtmenta Histórica, volume I, fascículo I, 
Pag. 101-104. 

('-) Também viram esse poema Fr. Francisco Brandão e o P. e 
Francisco José Freire. 



Historia da Litteratura Clássica 13 

Bernardim Ribeiro e Gil Vicente. (') O Cancioneiro geral é um 
documento de subida valia para a historia, já da litteratura 
portuguesa, já da sociedade palaciana de Portugal ; está po- 
rem muito longe de ser uma collectanea de superiores obras 
de arte (*). Têm merecido especial attenção, dentre as suas 
composições, o pleito intitulado Cuidar & Suspirar, em que 
muitos fidalgos poetas intervieram ; os primeiros ensaios poé- 
ticos de Gil Vicente, Sá de Miranda e Bernardim Ribeiro; 
as trovas de Garcia de Rezende á morte de Ignez de Castro; 
a formosa Cantiga partindose de João Rodrigues Castello 
Branco; as traducções de Sabino e Ovidio por João Rodri- 
gues de Lucena; o inferno dos namorados de Duarte de 
Brito, imitação dantesca; as composições epo-historicas de 
Luiz Henriques ( s ); e as coplas do infante D. Pedro, (1420- 
1466) condestavel de Portugal, filho do infeliz vencido de 
Alfarrobeira e elle mesmo vencido por D. João 11 de Aragão. 
D. Pedro teve relações litterarias com Juan de Mena, o poeta 
castelhano mais estimado no seu tempo ; a elle dirigiu versos 
de louvor, a que o poeta respondeu, e sob a sua influencia 
escreveu o poemeto moralista De contempto dei mundo e a 



(') V. na edição Kaussler, Stuttgart, 1852, 3 vols., pag. 316, 
a.° vol., pag. 389 e 539, 3.0 vol. O sr. Braamcamp Freire data a colla- 
boração de Gil Vicente de 1509. 

( â ) Como fonte da documentação histórica o tem considerado pre- 
dominantemente o sr. A. Braamcamp Freire. Recommendamos princi- 
palmente os seus estudos sobre o Cancioneiro geral e sobre Garcia de 
Rezende publicados no vol. Critica e Historia, Lisboa, 1910; e o seu. 
indice de nomes próprios organizado de collaboração com o sr. Júlio de 
Castilho, Índice do Cancioneiro de Resende c das Obras de Gil Vicente, 
Lisboa, 1900. V. também A Corte em Setúbal e os Porquês anonymos, 
no vol. Gente dalgo, sr. Conde de Sabugosa, Lisboa, 1915, pag. 169-195. 

( 3 ) Sobre uma composição erótica deste poeta, veja-se o artigo do 
sr. F. M. Esteves Pereira, Trovas de Luiz Ànrriquez a l/iia moça, publi- 
cado no Boletim da Segunda Classe da Acad, das Sc. de Lisboa, Lisboa, 
1914, vol. VII. 



11 Historia da Litieratura Clássica 

Sátira da felice c infelice vida, (*) Erudição vasta, elevação de 
pensamentos, a nobre e serena melancholia da sua inspiração 
poética e o perfeito conhecimento da lingua castelhana deram 
a este escriptor português um distincto lugar na historia iit- 
teraria hespanhola e fizeram-no um dos espíritos mais curio- 
sos desse período de transição. A este illustre filho do aus- 
tero regente do reino dirigiu o Marquês de Santilhana uma 
celebre epistola sobre matéria litteraria. ( 2 ) 



No género romance, a nossa litteratura medieval iegou- 
nos uma discutível tradição, a noticia duma versão portu- 
guesa do Amadis de Gaula, cuja forma castelhana de Garcia 
Rodriguez de Montai vo, apparecida em 1508, se tornou ini- 
cio duma corrente de favor enthusiastico que produziu o 



(*) Os principaes estudos sobre o condestavel D. Pedro são : }. M. 
Octávio Toledo, El Duque de Coimbra y su hijo El Condestabre D. Pedro, 
na Revista Occidental, Lisboa, 1875, pags. 295-313; J. Coroleu é Inglada, 
El Condestable de Portugal, rey intruso de Cataltnla, na Revista de Ge- 
rona, Gerona, 1878, vol. 2. . ; A. Balaguer y Merino, Don Pedro, el Con- 
destable de Portugal, considerado como escritor, erudito y anticuario 
(1420-1466) — Estúdio histárico-bibliográfico, Barcelona, 1881, 69 pags., 
separata do vol. 2. da Revista de ciências históricas; D. Carolina Mi- 
chaèlis de Vasconcellos, Uma obra inédita do Condestavel D. Pedro de 
Portugal, em Homenaje à Mcncndez y Pelayo, vol. i.°, Madrid, 1899. 

( 2 ) O texto desta carta foi publicado por auetor anonymo no vol 11 
dos Annaes de Sciencias e Letras da Academia Real das Sciencias de 
Lisboa, Lisboa 1858, pags. 284-305, sob o titulo de Carta do Marques de 
Santilhana, Don Inigo Lopes de Mendoza, a D. Pedro, Condestavel de 
Portugal. O texto é precedido de uma introducção explicativa e de 
alguns dados biographicos de Santilhana. 



Historia da Litiefatura Clássica 15 

cyclo dos Amadises ( l ), tão abundante e persistente que só 
no cyclo dos Palmeirins teve um rival. Se bem que a ori- 
gem desta novella de cavallaria seja ainda hoje um myste- 
rio, que as mais pacientes e methodicas investigações ainda 
não conseguiram devassar, sobre a instável base de areia do 
que chamámos uma discutível tradição, construiu um auctor ( 3 ) 
a sua certeza de ser essa obra originariamente portuguesa 
e redigida successivamente por toda uma família, João de 
Lobeira, Vasco de Lobeira e Pedro de Lobeira. (*) Tal hypo- 
these é dum subtil e imaginoso lavor, mas carece de funda- 
ções que a sustentem contra o mais pequeno embate da ar- 
gumentação. 

Vejamos, muito summariamente, quaes as bases de cré- 
dito, em que se funda a tradição da auctoria portuguesa. 
Essa auctoria só pretende attingir os três primeiros livros, 
porque o quarto está hoje geralmente assente que foi addi- 
tado por Montalvo, que é talvez seu redactor original ( 4 ). . 



(*) Do cyclo dos Amadises se occupou o sr. Henry Thomas no tra- 
balho intitulado The Romance of Amadis of Gani, cuja primeira edição 
se publicou em Londres, 1912, e a segunda em Lisboa, a pag. 1-33 do 
5. vol. ca Revista de Historia, 1916. 

(2) E este auctor o sr. Theophilo Braga, que varias vezes se tem 
occupado do Amadis de Gaula. O trabalho que representa mais comple- 
tamente a sua opinião é o vol. intitulado Recapitulação da Historia da 
Literatura — 1. Edadc Média, Porto, 1909, pag. 299-346. 

( 3 ) Sobre a familia Lobeira, que assistiu em Elvas, colleccionou 
alguns documentos o fallecido erudito elvense, António Thomaz Pire3. 
V. Vasco de Lobeira, Elvas, 1905, 63 pags. A peça mais importante é 
o testamento dum João de Lobeira, feito em 1386. 

( 4 ) V. Menéndez y Pelayo, Ori genes de la novela, Tomo 1, Ma- 
drid, 1905, pag. ccxMii. 

Uma das causas do interesse pelas origens do Amadis de Ga/da foi 
a convicção, em que por muito tempo se esteve, de ser essa obra a no- 
vella de cavallaria mais antiga. Tal presumpção não é exacta, pois é 
conhecida outra novella, El Caballero Ciíar, da primeira metade do 
sec.° xiv. 



16 Historia da Litter atura Clássica 

i.° Argumento — É este mais antigo testemunho também 
um dos mais poderosos. No Cancioneiro Colocci'Brancuii, sob 
os n.' 4 230 e 232, figuram duas peças poéticas attribuidas a 
João de Lobeira, (') poeta da corte de D. Diniz, da segunda 
metade do século xm, nas quaes se usa o estribilho empre- 
gado na canção de Oriana, contida na versão castelhana do 
Am adis de Gania, publicada em 1508. Esse estribilho é o se- 
guinte : 

Le [o] noreta sin roseta, 
bella sobre toda fror, 
sin Roseta nome metta 
en tal coi [ta] uosso amor. 

2. — O segundo vestigio contem-se na seguinte passa- 
gem da Chronica do Conde Dom Pedro de Menezes : « Estas cou- 
sas diz o Commentador, que primeiramente esta Istoria ajun- 
tou e escrepveo, vão assy escriptas pela mais chã maneira 
que elle pôde, ainda que muitas leixou, de que se outros 
feitos menores, que aquestes poderam fornecer: jaa seja 
que muitos auctores cubiçosos de alargar suas obras, for- 
neciam seus livros recontando tempos, que os Príncipes 
passavam em convites, e assy de festas e jogos, e tempos 
alegres de que se nom seguia outra cousa se nom a deieita- 
çam d'elles mesmos, assy como som os primeiros feitos de 
Ingraterra, que se chamava Gram Bretanha, e assi o Livro 
d'Amadis, como quer que soomente este fosse feito a prazer 
de hum homem, que se chamava Vasco Lobeira, em tempo 
d'El Rey Dom Fernando, sendo todas-las cousas do dito Li- 
vro fingidas do Autor. . . » ( 2 ). Este testemunho de Azurara 



(') É evidente que este João de Lobeira, já em 1258 e 1285 refe- 
rido como fidalgo da corte de D. Diniz e depois de D. Afibnso iv, não 
c o pae de Vasco de Lobeira, que também se chamou João de Lobeira 
e que fez testamento em Elvas, em 1386, já no reinado de D. João 1. 

í2j Collecção de livros inéditos de historia portuguesa. Lisboa, 1792, 
Edição da Academia Real das Sciencias de Lisboa, tomo 2. , pag. 422. 



Historia da Litteratura Clássica 17 

remonta a algum dos annos, que decorrem de 1458 a 1463, 
epocha em que deve ter sido escripta a Chronica donde o 
extractamos. Como, porem, esta obra esteve inédita até 1792, 
quando o famoso P.° Corrêa da Serra a fez publicar, o tes- 
temunho de Azurara terá participado muito escassamente na 
formação da tradição do original português; pelo menos os 
testemunhos, que se lhe seguiram, são tão diversos que nelle 
se não podem filiar. Esta circunstancia antes augmenta do 
que diminue o seu valor. 

3- e — No Cancioneiro Geral, colligido por Garcia de Re- 
zende e publicado em 15 16, figuram algumas estancias com- 
postas por Nuno Pereira e Jorge da Silveira para o certamen 
do Cuidar cf Suspirar em 1483, ou seja com uma anterioridade 
de vinte e cinco annos sobre Montalvo, nas quaes ha refe- 
rencias a Oriana, a amada do lealdoso Amadis: 

S; o disesse Oryana 
& Iseu allegar posso. . . 

Alegays-me vos Iseu 
& Oriana com el!a .". . 

4. — O doutor João de Barros, que se não deve confun- 
dir com o homonymo historiador da Ásia, na sua obra, ainda 
ha pouco inédita, Libro das Antiguidades e cousas notáveis de 
Antre Douro e Minho ('), provavelmente escripta em 1549, 
refere-se a Vasco de Lobeira, como portuense illustre, nos 
termos seguintes: « E daqui (Porto) foi natural vasco lo- 
beira, que fez os primeiros 4 libros de amadis, obra certo 
mui subtil, e graciosa e aprovada dos gallantes; mas como 
estas cousas se seção em nossas mãos, os castelhanos lhe 
mudaram a linguagem, e atribuirão a obra a si». 



0) V. esta obra manuscripta na Bibliotheca Nacional de Lisboa, 
folhas 32 verso, ras n.° 216. 

H. da L. Cr^seiCA, vol. 1.» 2 



13 Historia da IÀUe << 

5. — António Ferreira, em dois sonetos de sabor ar- 
chaico, propositalmente imitado, refere-se ao assumpto do 
Amadis: num claramente faz a attribuição da alteração do 
episodio de Briolanja a Vasco de Lobeira; noutro apenas ha 
o nome de Briolanja, a amada de Galaor, mãe de Perião e 
Garinter. A estes sonetos se referiu o filho do poeta, Miguel 
Leite Ferreira, organizador da edição dos Poemas Lusitanos ; 
na seguinte nota: «Os dous sonetos que vão ao foi. 24 fez 
meu pay na lingoagem que se costumava neste Reyno em 
tempo dei Rey Don Dinis, que he a mesma em que foi com- 
posta a historia de Amadis de Gaula por Vasco de Lobeira, 
natural da cidade do Porto, cujo original anda na casa de 
Aveiro. Divulgarão-se em nome do Infante Don Affonso, 
filho primogénito dei Rey Don Dinis, por quão mal este 
princepe recebera (como se vê da mesma historia) ser a 
fermosa Briolanja em seus amores maltratada»'. 

Estes sonetos estão incluídos na edição posthuma dos 
Poemas Lusitanos. Lisboa. 1598, e são do theor seguinte: 

«NA ANTIGA L1NGOA PORTUGUESA 

SONETO XXXIIII 

Bom Vasco de Lobeira, e de grã sen, 
De prão que vos avedes bem contado 
O feito d'Amadis o namorado, 
Sem quedar ende por contar hi ren. 

E tanto nos aprougue, e a também, 
Que vós seredes sempre ende loado, 
E entre os homes bôs por bom mentado, 
Que vos lerão adeante, e hora lem. 

Mais porque vós fizestes a fremosa 
Brioranja amar endoado hu nom amarom 
Esto cambade, e compra sa vontade. 

Ca eu hei grã dó de aver queixosa 

Por sa gram fermosura, e sa bondade. 

E er porque ó fim amor nom lhe pagarom. 



a IJtUmrura Clássica 19 



SONETO -\K\V. 

Vinha amor pelo campo trebelhando 
Com sa fremosa madre, e sas donzellas, 
El rindo, e cheo de ledice entre ellas, 
}ã de arco, e de sas setas non curando. 

Brioranja hi a sazom sia pensando 
Na grã coita, que ella ha, e vendo aquellas 
Setas de Amor, filha em sa mão húa d J ellas, 
E mette-a no arco, e vay-se andando. 

Deshi volveo o rostro hu Amor sia, 

Er, disse, ay traydor, que me has fallido, 

Eu prenderey de ti una vendita. 

Largou a mão, quedou Amor ferido, 
E catando a sa sestra, endoado grita : 
Ay mercê, a Brioranja, que fugia. > 

(Ed. Rollandiana, 2. vol., pngs. 94 e 95, Lisboa, 1829). 

6.° — Jorge Cardoso aliudiu também ao Amadis de Gaula 
do modo seguinte, no seu Agiologio Lusitano: «E por seu 
mandado trasladou de francês em a nossa língua Pêro Lo- 
beiro, Tabalião d'Eluas, o liuro de Amadis (que a parecer 
de vários doctos) he o melhor, que saio á luz de fabulosas 
historias» ( } ). Este mandado é do Infante D. Pedro. 

7. — Outro argumento, extrahido do próprio Amadis, da 
edição castelhana de 1508, a mais antiga conhecida, é a de- 
claração inserta no texto de se haver alterado o desfecho do 
episodio de Briolanja, por exigência do infante D. Affonso, 
que outro não era senão o futuro rei Affonso iv, o heroe do 
Salado : «...aunque el senor infante D. Alfonso de Portu- 
gal, habiendo piedad desta formosa doncella, de otra guisa 



^ij Lisboa, 1652, pag. 410, tomo 



20 Historia da Litter atura Clássica 

lo mandase poner. En esto hizo lo que su merced fue, mas 
no aquello que en efecto de sus amores se escribia.» 

8.° — Finalmente apontaremos uma adducção recente do 
sr. Th. Braga, auctor que numerosas vezes se tem occupado 
deste difficil problema ( l ). Consiste ella nas seguintes alle- 
gações : 

O sr. Th. Braga chegou ao conhecimento duma edição 
hebraica, sem data, do primeiro livro do Âmadis, de que exis- 
tem exemplares completos no Museu Britannico e no Semi- 
nário Judaico, de Breslau, e um breve fragmento em posse 
dum particular, de Londres. Esta versão, muito mais resu- 
mida que os textos conhecidos em outras línguas, teria sido 
anterior a Montalvo e feita sobre a lição portuguesa, cujos 
vestígios idiomáticos ainda se trahiriam nessa traducção 
hebraica. Montalvo teria feito uma amplificação, a qual seria 
a fonte commum das traducções para francês, italiano e in- 
glês, o 

Se se interpretarem estes argumentos com são critério, 
desannuviado de nacionalismo parcial, reconhecer-se-ha que 
elles são insufncientes para fundamentar em solida base a 
certeza da auctoria portuguesa, e que nem sequer são con- 
cordes; mas reconhecer-se-ha que delles se tiram conclusões 
várias, que não são para desprezar. Uns têm de ser comple- 
tamente postergados, outros diversamente interpretados — o 
que tudo se pôde conciliar com a conclusão geral que a este 
respeito é hoje mais acceita: que o Amadis tem por fontes 
principaes as novellas bretonicas do Tristão e do Laçarote e 
que por completo se ignora em que língua foi primitiva- 
mente redigida essa obra, hoje só conhecida em castelhano, 



(>) V. a lista dos seus escriptos sobre esta matéria em Critica 
Litter ária como Sciencia, 3.* ed., 1920, pags. 168-175. 

(2) V. Versão hebraica do « Amadis de Caída », nos Trabalhos da 
Academia de Scicncias de Portugal, i. a Serie, tomo 2. e 3. , Coim- 
bra, 1915-1916. 



Historia da Litteratura Clássica 21 

mas que pelo seu assumpto é completamente estranha á 
península e a qualquer outro lugar concretamente identifi- 
cável. 

E como se faz então a conciliação daquelles testemu- 
nhos, por nós acima resumidos, com que se pretende justifi- 
car a auctoria portuguesa, e desta opinião? É ao que nós, 
em seguida, vamos responder. O primeiro argumento, o do 
estribilho das canções do poeta trobadoresco João de Lo- 
beira, indica que este é pelo menos o auctor da canção con- 
tida na edição de Montalvo ; que neste tempo já era conhe- 
cido o texto do Amadis e que foi elle talvez o recenseador 
do episodio de Briolanja, por ordem do sensivel infante 
D. Affonso. Este mesmo argumento, combinado com o ultimo 
— declaração sobre este episodio de Briolanja por Mon- 
talvo — faz crer que já antes correria algum texto mais an- 
tigo, em que doutro modo se contassem os amores de Brio- 
lanja. Assim temos o Amadis de Gania já lido na corte de 
D. Diniz, ou seja antes de 1325, em que Affonso iv occupou 
o throno. 

O testemunho de Azurara fica implicitamente rebatido. 
Tardia é a epocha do rei D. Fernando I para se lhe attri- 
buir a origem desta obra, que já em tempo de D. Diniz era 
estimada. Azurara poderia ter feito este conhecimento de 
leviana outiva e fazer confusão de nomes, visto que vários 
Lobeiras houve. 

O dr. Henry Thomas, que com mestria tem estudado a 
novellistica peninsular, lembra que poderia occorrer uma 
confusão : Vasco, com sua nomeada de guerreiro, poderia 
offuscar o mal conhecido escriptor João e usurpar-lhe, no 
conceito publico e sem o querer, a auctoria da novella. Deste 
modo, attribuindo-a a João de Lobeira e já não a Vasco, não 
ha incompatibilidade chronologica com a referencia feita a 
Amadis na obra De regimine principum, de Egidio Colonna, 
traduzida para castelhano por João Garcia de Castrogeriz, á 
volta de 1350. Tara ser auctor da novella, Vasco teria de ser 



22 Historia da Litteratura Clássica 

um escriptor excessivamente precoce ou um guerreiro exces- 
sivamente serôdio. (*) 

As referencias no Cancioneiro de Rezende — terceiro argu- 
mento — confirmam a voga da novella; esses poetas conhe- 
ciam, de os lerem, os amores de Amadis, e nas suas compo- 
sições deixaram passar reminiscências dessa dilecta leitura. 

O quarto argumento, testemunho do auctor do Espelho 
de Casados, Dr. João de Barros, foi recentemente muito aba- 
lado na sua solidez. Em 1919 a Bibliotheca Publica do Porto 
publicou o seu manuscripto inédito intitulado Geograpkia 
d' entre Douro e Minho e Traz os Montes, pelo Doutor João de 
Barros. Naquella bibliotheca ha cinco copias da obra, mas 
todas incompletas. O sr. J. M. Augusto da Costa, que diri- 
giu a edição, escolheu a n.° 1109, que é a mais antiga e que 
tem na catalogação do estabelecimento a nota, certamente 
não infallivel, de « que é o original do auctor <>, que viveu no 
século xvi ; e em casos de incerteza recorreu ás outras. Neste 
manuscripto agora publicado não ha tal passagem sobre o 
Amadis. Comparando-o com o da Bibliotheca Nacional, a 
nosso pedido, o sr. Pedro de Azevedo verificou que elle 
conferia em muitos passos, mas que também divergia em 
muitos completamente, e que era escripto em calligraphia 
do século xvii. Que valor poderá ter, em vista disto, esse 
testemunho attribuido a João de Barros, se no mais antigo 
dos seus manuscriptos e único que ao seu punho ou á sua 
epocha se attribue, não existe? Possível é que seja uma 
interpolação de copista que, ao reproduzir a obra, a ia com- 
pletando com novas informações. O próprio caracter pole- 
mico do passo faz crer que elle foi redigido, quando já 
corria mundo a reivindicação dos hespanhoes. 

O quinto testemunho, os dois sonetos de António Fer- 



( l ) V. Spanish and Portitgnese Romances 0/ Chiialry, Cambridge, 
1920. 



Historia da Lit ter atura Ghssí . 23 

reira, deve ser a forma já adulterada da tradição; houve 
effecrivamente uma modificação no texto por um Lobeira, 
mas não foi Vasco, que viveu muito depois de D. Affonso IV. 
E indica também leitura da obra num texto antigo, em for- 
mas linguisticas que já não eram as usadas pelo poeta refor- 
mador. Esse texto, porem, mesmo o alterado por João de 
Lobeira, poderia ser uma versão portuguesa, mas não o 
texto primitivo. A própria liberdade com que se fez a alte- 
ração está a indicar o papel irresponsável do traduetor, que 
na edade media gozava do mais amplo e discricionário 
poder de alterar, corrigir e ampliar. 

A hypothese engenhosa do sr. Th. Braga foi plena- 
mente invalidada, com razões de peso, pelo sr. H. Thomas, 
que examinou com minúcia o exemplar do Museu Britan- 
nico. Apesar de não ter data, é possivel attribuir uma com 
segurança a essa edição hebraica. A traducção é do phvsico 
Jacob ben Moses ot Algaba e a edição é de Eleazar ben 
Gershom Soncino, da celebre farnilia de impressores, sobre 
a qua! ha estudos especiaes, biographicos e bibliographicos. 
Este Eleazar exerceu, bem como seu pae, a sua arte em 
Constantinopla e editou muitos livros, de aspecto typogra- 
phico muito semelhante ao Amadis, entre 1534 e 1547. 
De Constantinopla e desse lapso de tempo deve ser a edição 
do fragmento hebraico, feita sobre o texto hespanhol como 
abreviação, em vez duma traducção do texto português, 
«rhetoricamente» amplificado por Montaivo \}). 

A critica dos outros testemunhos está comprehendida 
na discussão dos precedentes, excepto o de Miguel Leite 
Ferreira sobre a existência do original na casa de Aveiro. 
Tal indicação não é sufficiente prova. Saberia o filho do 
auetor da Castro distinguir entre o manuscripto duma versão 



{') V. Spanish <{.hí .' , ices <■;/ Chivahy, Cambridge, 

1920, pags. 59-63. 



24 II Litterafu 

portuguesa, anterior á castelhana já impressa e divulgada 
nesse tempo, e o texto primitivo, sem a alteração de João 
de Lobeira e sem o quarto livro de Montalvo? Sim, iem- 
bremo-nos de que a questão não consiste em saber se o 
Amadis foi primitivamente escripto em lingua portuguesa ou 
em lingua castelhana; consiste em apurar em que lingua elle 
foi originalmente escripto, a qual pode muito bem não ser 
nem a de Portugal, nem a de Castella. Tal problema é evi- 
dentemente mais vasto nestes 1 termos, do que sob a forma 
de pleito a dirimir entre as duas principaes litteraturas 
peninsulares. Será opportuno recordar que uma terceira 
parte se apresenta a reivindicar para si a paternidade: a 
França. 

Esta fá-lo por duas formas. A primeira reivindicação 
foi feita gratuitamente pelo mais antigo traductor francês, 
Nicolas d'Herberay des Essarts, 1540-1543, que afnrmou ter 
visto o texto manuscripto da novella em lingua picarda; 
esta afíirmação infundada não é já considerada pela critica. 
François de la Noue, em 1587 ('), mostrava já que não cria 
no asserto de Herberay. 

A outra forma, por que a critica francesa reivindica a 
paternidade do Amadis, é mais arguta e mais difíicil de con- 
troverter. A novella seria o desenvolvimento de germens 
franceses, da moAiere de Bretagne ; e forçoso é confessar que 
muito poucos elementos peninsulares ostenta. Esta these 
pertence mais ao domínio da critica de fontes e, qualquer 
que seja o veredictum final, não será incompatível com a 
auetoria peninsular. 

Menéndez y Pelayo, analysando cts varias razões ailega- 
das pró e contra a auetoria portuguesa, opinou que Mon- 
talvo seria o coordenador de três versões antigas; que João 
de Lobeira, auetor da canção Lonoreia sin roseta, teria sido o 



(i) D\scuur< politiques et militatres, Bale, 1587, pag. 134. 



Historia da Liderai m a Clássica 25 

recenseador do episodio da reconhecida Briolanja; que no 
fim do século XIII já existia indiscutivelmente um Amadis na 
península, mas que não é possível, com os dados que se pos- 
suíam no tempo em que escrevia, 1905, derimir o pleito da 
lingua primitiva. A tradição da novellistica cavalheiresca foi 
mais viva em Portugal, mas o desenvolvimento da sua prosa 
foi mais tardio, já no século XV, no tempo de Fernão Lo- 
pes, pondera Menéndez y Pelayo ( l ). 

Henry Thomas, sem deixar de fazer transparecer um 
pouco de indifferença pelo pleito, conclue conciliadoramente ; 
« Modem opinion indeed may be summed up in a manner 
that distributes the international honours very evenly. Great 
Britain provides in the main the scene and the actors of the 
story, which reached the Iberian Península through the mé- 
dium of the French jongleurs. Spain has the earliest known 
version and the eariiest mention of Amadis, but Portugal 
has a tradition of an author which appears to justify itself 
to an even remoter period. Did Spain or Portugal receive 
the story íirst? Its most natural progress wouid seem to be 
from French literature into the Portuguese via Galicia; but 
it must be remembered that its route thither lay through 
two ancieut capitais bf Castile, Burgos and León, both of 
which offered opportunities for a leakage into the Castí- 
lian > ( 2 ). 

Hoje só se conhece o texto castelhano de 150S, revisto 
e acerescentado por Montalvo, em cuja lingua ha antigas 
referencias também, como as de Pêro López de Ayala, 
no seu Rimado de Talado, composto entre 1357 e 1403, e as 
do Cancioneiro de Baena, de 1445, as quaes podem coexistir 
a par da tradição portuguesa, quando a obra já era conhe- 
cida por toda a península. A tradição portuguesa é Insuffi- 



( ! ) Origenes de te Novela, vol. i.°, Madrid, 1905. vote 
(-') V. Obra citada, pag. 59. 



26 Historia da Littet -atura Clássica 

ciente ainda, mas 6 a única, sequente e acatada, que se 
ostenta durante os séculos, e como tal, resolvidas certas in- 
congruências chronologicas sem devaneios demonstrativos, 
faz pender o juizo a favor de João de Lobeira, o velho 
poeta um momento offuscado na sua reputação litteraria pela 
gloria militar do seu parente Vasco, como verosimilmente 
opina o sr. H. Thomas. 

Eis quanto de seguro se pôde concluir a respeito da 
querella de Amadis de Gaula, a mais famosa novella de ca- 
\ aliaria, o patrono de todo o género e uma das mais influen- 
tes obras litterarias das línguas românicas. 

É também isto que a respeito da novella na nossa litte- 
ratura medieval ha a dizer, talvez só faltando pôr em relevo 
que na tradição litteraria dos tempos anteriores ao nosso 
quinhentismo, na atmosphera de idéas, gostos e themas lit- 
terarios, no mundo ideal, sobrejacente á vida quotidiana, 
que a leitura e a cultura artistica criam, occupavam proemi- 
nente lugar as figuras do Amadis e da sua plêiade heróica 
e amatória: Galaor, Florisando, Esplandião, Lisuarte da Gré- 
cia, Amadis da Grécia, Florisel, Oriana, Briolanja e Sarda- 
mira. 

Não tomando já como theatro as peças dialogaes dos 
cancioneiros provençaes, sirventeses, bailadas e tenções sa- 
tyricas e amorosas, que não sabemos se seriam recitadas por 
diversas personagens, que juntassem á dicção a mimica, es- 
cassos são os vestígios do theatro medieval, que poderemos 
apontar. Esses vestígios são testemunhos e referencias, não 
obras, nem fragmentos de obras. Outras litteraturas, como a 
francesa e a hespanhola, ostentam ainda hoje abundantes 
textos da forma litúrgica do seu theatro medieval. Em Por- 
tugal, podemos com perfeita segurança aífoitar que o thea- 
tro religioso de Gil Vicente, comediographo já do século 



Historia da Litteratura Clássica 27 

xvi, é que representa o theatro medievo, de mysterios e 
moralidades. Antes do monologo da Visitação, apenas teria 
havido em Portugal, quanto informam os vestígios débeis 
que possuímos, as grandes representações da Igreja, com 
seu cerimonial complicado e imponente, e em theatro pro- 
fano os momos e entremeses referidos em vários testemunhos. 

No Elucidário de Fr. Joaquim de Santa Rosa Viterbo, 
contem-se uma passagem, abaixo reproduzida, em que ha 
referencias a dois bobos, do tempo de D. Sancho I, de no- 
mes Bonamis e Acompaniado que faziam arremedilhos : «No 
(anno) de 1193 El-Rei D. Sancho 1 com sua mulher, e filhos 
fizerão Doação de hum Casal, dos quatro que a coroa tinha 
em Canellas de Poyares do Douro, ao farçante ou bobo, 
chamado Bonamis, e a seu irmão Aconpaniado, para elles e 
seus descendentes. E por Confirmação ou Rébora se diz : 
Nos mimi supranominati debemus Domino nostro Regi, pro 
roboratione unum arremedillum». D. Affonso 11 confirmou 
esta doação de seu pae nos seguintes termos: «Ego Alffon- 
sus secundus Dei gratia Portugaliae Rex... roboro et con- 
firmo vobis Bonamis, et comsuprinis vestris, filliis de Acon- 
paniado, Cartam Illam, quam Pater meus Rex Dommus 
Sancius boné memorie vobis fecit de illo casali, quod vobis 
dedid in villa, que vocatur Canelas » ('). Havemos de confes- 
sar que este testemunho se refere a uma forma de theatro 
muito rudimentar, já pela epocha a que remonta, já pelos 
próprios termos em que está concebido. 

No noticioso Cancioneiro Geral t de Garcia de Rezende, 
ha algumas referencias a representações de momos dos tem- 
pos immediatamente anteriores a Gil Vicente, que já é no- 
meado por Rezende na sua Miscellanea. O poeta Álvaro Bar- 
reto declara numas trovas a el-rei D. Affonso V : 



('] V. Memorias para a historia das cotjf.nnaçõds régias neste reino, 
João Pedro Ribeiro, Lisboa, 1816, Doe. 1. 



08 Historia da Litterafura Clássica 



Ruy de Sousa, que bem cabe 
nesta terra em que somos, 
por tal fazedor de momos, 
qual ante nós se nam sabe, 
Nam no podemos cheguar, 
assy aja eu boa fym ! (1) 

Duarte de Brito, um dos mais fecundos e lamentosos 
poetas do Cancioneiro, refere-se numas trovas endereçadas a 
João Gomez da Ylha ás representações scenicas feitas por 
o ocasião do casamento da infanta D. Leonor, filha de D. Affon- 
so v, com o imperador da Allemanha: 

Eram vossos tempos autos 
nas festas da imperatriz, 
mas agora calar chj^z 
nam he tempo de crisautos. (â| 

Duarte da Gama, o censor das «desordeens que aguora 
se costumam em Portugal», declara que: 

Nom ha hy mays antremeses 
no mundo onyversal 
do que ha em Portugal 
nos Portugueses". ^ 3 ) 

O que eram estas representações facilmente se de- 
prehende, combinando os dados que Garcia de Rezende nos 
proporciona na sua Chronica e no seu Cancioneiro, acerca dos 
momos celebrados em Évora para festejar o casamento do 
filho de D. João II : 

« E logo a terça feira seguinte houve na sala da madeira 
muito excellentes e singulares momos reaes, tantos, tão ricos 
e galantes, com tanta novidade e differenças de entremeses, 



( J ) V. Cancioneiro Geral, ed. Kaussler, vol. 1, pag. 276-7. 
(-') V. Idem. vol. i, pag. 367. 
(') V. Idem, vol II, pag. 514-5. 



Historia da Lu lera/, ura Clássica 29 

que creio que nunca outros taes foram vistos. Entre os quaes 
El-rei entrou primeiro para desafiar a justa que havia de 
manter com invenção e nome do Cavalleiro do Cirne, e veio 
com tanta riqueza e galantaria quanta no mundo podia ser. 

Entrou pelas portas da sala com nove bateis grandes, 
em cada um seu mantedor, e os bateis mettidos em ondas 
do mar feitas de pano de linho e pintadas de maneira que 
parecia agua ; com grande estrondo de artelharia que tirava, 
e trombetas, atabales, e menestris altos que tangiam, e com 
muitas gritas e alvoroços de muitos apitos de mestres, con- 
tra-mestres e marinheiros, vestidos de brocados e sedas com 
trajos de allemães, e os bateis cheios de tochas, e muitas 
velas douradas accesas com toldos de brocado, e muitas e 
ricas bandeiras. 

E assi vinha uma náo á vela, cousa espantosa, com 
muitos homens dentro, e muitas bombardas, sem ninguém 
ver o artificio como andava, que era cousa maravilhosa. O 
toldo e toldos das gáveas de brocado, e as vellas de tafetá 
branco e roxo, a cordoada d'ouro e seda, e as ancoras dou- 
radas. E assi a náo como bateis com muitas vellas de cera 
douradas todas accesas, e as bandeiras e estandartes eram 
das armas d'El-Rei e da Princesa todas de damasco, e dou- 
radas; e vinham deante do batel d'El-Rei, que era o pri- 
meiro, sobre as ondas um muito grande e formoso cirne, 
com as pennas brancas e douradas, e após elle na proa do 
batel vinha o seu cavalleiro, em pé, armado de ricas armas 
e guiado d'elle, e em nome d'El-Rei sahio com sua falia, e 
em joelhos deu á Princesa um breve conforme a sua tenção, 
que era querê-la servir nas festas do seu casamento, e sobre 
conclusão de amores desafiou para justas d'armas com oito 
mantedores a todos os que o contrario quizessem combater. 
E por rei d'armas, trombetas e officiaes para isso ordenados, 
se publicou em alta voz o breve e desafio com as condições 
das justas e grados d'ellas, assi para o que mais galante 
viesse á teia, como para quem melhor justasse. 



Historia da Litteraturã Cias-:' 

E acabado, os bateis botaram pranchas fora, e sahio 
KI-Rei- com seus riquíssimos momos, e a náo e bateis que 
enchiam toda a sala se sahiram com grandes gritos e estrondo 
de artelharia, trombetas e atabales, charamelas e sacabuxas, 
que parecia que a sala tremia e queria cahir em terra. 

El-Rei dançou com a Princesa, e os seus mantedores 
com damas que tomaram ; e logo veio o Duque com fidalgos 
de sua casa com outros riquíssimos momos. 

E veio outro entremês muito grande em que vinham 
muitos momos metidos em uma fortaleza entre uma rocha e 
mata de muitas verdes arvores, e dois grandes selvagens á 
porta com os quaes um homem d'armas pelejou e desbara- 
tou, e cortou umas cadeias e cadeados que tinham cerradas 
as portas do castello, que logo foram abertas, e por uma 
ponte levadiça sahiram muitos e mui ricos momos, e em 
se abrindo as portas sahiram de dentro tantas perdizes vi- 
vas e outras aves, que toda a sala foi posta em revolta e 
cheia d'aves que andavam voando por ella até que as to- 
mavam. 

E sahido este grande e custoso entremês, veio outro em 
que vinham vinte fidalgos todos em trajo de peregrinos com 
bordões dourados nas mãos, e grandes ramaes de contas 
douradas ao pescoço, e seus chapeos com muitas imagens, 
todos com manteos que os cobriam até o joelho, de broca- 
dos, e por cima com remendos de veludo e setim, e dado 
seu breve deitaram os manteos, bordões, contas e chapeos 
no chão. e ficaram ricamente vestidos todos de rica chaparia, 
e os manteos e todo o mais tomavam moços da camará e 
reposteiros e chocarreiros quem mais podia, e valiam muito, 
que cada manteo tinha muitos covados de brocado. E assi 
vieram outros muitos e ricos momos, que não digo, com 
singulares entremeses, riquezas, galantaria, e muitos com 
palavras e invenções d'ardileza acceitavam o desafio com as 
mesmas condições, e dançaram todos até ante-manhã, e foi 
tamanha festa que se não fora vista de muitos que ao 



Historia da Li tu,, atura Clássica 31 

presente são vivos, eu a não ousara escrever» ( l ). O 
mesmo escriptor nos dá informação das letras dessas justas, 
espécie de divisas poéticas e galantes que designavam o 
papel attribuido a cada figurante. Assim quem representava 
o sol ostentava a seguinte letra ou cimeira : 

Sobre todos rresplandece 

my dolor, 

porque es el qu*es mayor. 

Outro que representava Júpiter: 

Aqueste suele dar vida 
ai que mas servir se alha, 
y vos ai vuestro quita-lha (*). 

Como se vê, o que de theatro se fez em Évora, em 1490, 
em tempo de el-rei D. João 11, em pouco se resume: muito 
effeito scenico, vistosa scenographia, imprevistos artifícios de 
magica e como únicos elementos litterarios as letras ou 
cimeiras e os breves, isto é, somente aquelles dizeres que a 
galantaria e a boa intelligencia dos momos tornavam indis- 
pensáveis. De theatro, considerado como integral represen- 
tação da realidade da vida, apenas os simulacros de comba- 
tes cavalheirescos, que também já não eram a predominante 
característica da vida portuguesa de então, na metrópole. 
O elemento, que mais actualidade possuía, era a lucta com 
os selvagens, influencia já da expansão colonial. E se nós 
quizérmos fazer, ainda que conjecturalmente e sob reservas, 
uma distincção entre os significados dessas palavras, tão 
confundidas ordinariamente, proporemos a seguinte: enfrentes 
teria um sentido mais comprehensivo, designaria todo o 



(1) V. Garcia de Rezende, Chronica de El-rei D. João II, ed. Mello 
de Azevedo, Lisboa, 1902, 2. vol., pag. 94-96. 

(2) V. Cancioneiro Geral, vol. 3. , pags. 333-4. 



o2 -Historia da Litteratura Clássica 

conjuncto de representações scenicas, todo o iniermezzo thea- 
tral de- determinado momento, de determinada solemnidade 
festiva; o momo significaria o episodio particular, a acção 
cómica, e vários eram os momos que successivamente, numa 
mesma noite e com a mesma scenographia, se representa- 
vam. No termo entremês quereria assim significar-se mais a 
parte espectaculosa, e no momo a parte episódica. Isto con- 
firma a combinação das referencias coetâneas dessas exhibi- 
ções. O breve era, afora a cimeira oii^ letra, que terá sido tal- 
vez uma particularidade occasional dos entremezes de Évora, 
de 1490, era toda a elocução ( I ). 

Dos Mysterios, essas longas composições litúrgicas que 
chegavam a ter oitenta mil versos e cuja representação che- 
gava a durar mais dum mês, não ha noticia entre nós, já o 
dissemos; é Gil Vicente quem nos seus Autos nos dá os pri- 
meiros exemplos de íheatro religioso. Somente houve, pois, 
durante a epocha medieval da litteratura portuguesa, os 
momos escassamente dramáticos e, dentro dos templos, o 
cerimonial do culto, que produzia então como hoje formosas 
e ostentosas representações que, sem transcender os limites 
prefixados pelas normas do culto e sem chegar á vida própria 
de género autónomo, nem por isso deixavam de possuir certo 
caracter theatral, com seu dialogo ainda que numa lingua 
morta, com seus trajos, alguma enscenação e um evidente pro- 
pósito de ao vivo reconstituir perante o publico certa acção. 

Garcia de Rezende ainda pôde referir-se a Gil Vicente, 
mas como introductor da pastoral dramática, imitada de 
Encina: 



(M É um typico exemplo de breve a peça desse género reprodu- 
zida por Garcia de Rezende, a pag. 157 do vol. 2 ° do seu Cancioneiro 
('trai, sob o titulo de Breue do conde de Vymioso d' um momo que fez 
sendo desavyndo, no quall levava por antrernes kuum anjo &■ huitni diabo. 
& ho anjo deu esta contigua a sua dama. Segue-se uma prévia explica- 
rão em prosa e a annunciada cantiga. 



ia da Lítleraiura Clássica 33 

E vimos singularmente 

fazer representações 

de estilo mui eloquente, 

de mui novas invenções 

e feitas por Gil Vicente; 

elle foi o que inventou 

isto ca, e o usou 

com mais graça e mais doutrina, 

posto que João dei Enzina 

o pastoril começou (*). 



Em matéria de historia, a nossa litteratura medieval não 
foi menos abundante e substanciosa que em matéria poética, 
se nos reportarmos, como devemos, ao critério histórico da 
epocha e aos meios de acção disponíveis então. Convém 
accentuar que nos queremos referir somente a trabalhos 
intencionalmente históricos, a registos de factos proposital- 
mente feitos por seus auctores com a deliberada intenção 
de produzir historia. Com esta restricção, poderemos ainda 
distinguir na nossa historiographia medieval quatro formas ou 
maneiras: a) a dos chronicons; b) a das agiographias; 
c) a dos livros de linhagens; d) e a das chronicas. Fácil é 
distribuir a productividade historiographica, que chegou até 
nós, por essas quatro alineas, para depois determinar as 
essenciaes características de cada uma delias: 

a) —Chronicons: Chronicon conimbricense (fragmento do sec.° 
XII ou principio do sec.° XIII), Chronica gothorum 
(fragmento), Chronicon complutense (fragmento do fim 



0) V. Misccllanca, appensa á Chronica, vol. 3. , pag. 199-200, ed. 
de 1902. 

H. da L. Clássica, vol. :.• 8 



34 Historia da Litteratura Clássica 

do século xm), Chronicon laviecense (fragmento do 
século xiv), Chronicon lauibanénse (fragmento do 
principio do século XIl) ; Breve Chronicon Alcobacense 
(fragmento do século Xlll), Chronica breve do Archivo 
Nacional (do século Xiv): 

b) — Agiographias e matéria ecclesiasíica : S. Rudesindi Vi/a 
et Miracula (sec.° XIl), Vita Sanctce Senorincc, Mia 
Sancii Gcraldi, Viia S. Martini Sauríensis, Vita Tello- 
nis Archidiaconis, Vita Sancii Theotoni, Exordium Mo- 
nasterii S. Joannis de Tarouca, Indicnlum fundaiionis 
Monasierii S. Yicentii, lianslalio et Miracula S. Vin~ 
centii, Legenda Mariyrum Marochii, Vita Sancii Antonii; 

c)— Livros de linhagens: Livro velho com um fragmento de 
outro nobiliário de epocha anterior, Nobiliário do 
Collegio dos Nobres, Livro dos Li7ihagens do Conde 
D. Pedro; 

d) — Chronicas : Chronicas breves e vie?uorias avulsas de Santa 
Cruz de Coi?nbra, De expugnatione Scalabis, De expu- 
gnatione Olisipo?iis A. D. MCXLVJI, Chronica do Con- 
destabre, Chronica do infante D. Fernando de D. Frei 
João Alvares; Chionicas de D. Pedro L, D. Fernando 
e D. João L, de Fernão Lopes; Chronica de D.João L 
(cont.), Chronica do conde D. Pedro de Menezes e de 
Dom Duarte seu filho e Chronica da Conquista da Guiné, 
por Gomes Eannes de Azurara. 

Em maioria, os monumentos históricos enumerados na 
primeira alinea são em língua latina, carecem portanto da essen- 
cial feição numa obra de arte litteraria nacional, a língua, e 
não podem aceusar os desvelos de forma e de expressão, 
que igualmente são também essenciaes; como composições 
históricas reduzem-se a uma tabeliã de ephemerides, secca- 
mente ordenadas segundo o nexo chronologico. São, quando 
muito, uma collecção de apontamentos, em que se fixou a 
memoria dos acontecimentos, um repertório de factos, tão 



Historia da Littcmtara Clássica 35 

longe da complexidade exigente duma construcção histórica 
como a sua barbara linguagem distava do dizer clássico dum 
Tito Lívio. A arte de narrar e descrever, a arte de ordenar 
e compor, e a sciencia de apurar e criticar fontes não appa- 
recem nelles, não se trahem pelo menor indicio. São, porem, 
os primitivos embryões da nossa historiographia nacional, 
pois ao menos a particularidade de se occupar da mesma 
matéria têm- na: e não foram sem utilidade, como peças tão 
vetustas, para cautelosa referencia de testemunho. 

As agiographias eram já um progresso, porque são uma 
exposição seguida, são um todo, a biographia e os milagres 
dos santos ou os progressos da religião christã. A carência 
da lingua nacional permanece, pois é ainda o latim a lingua 
preferida, numas peças porque a lingua nacional estando 
ainda numa atrazada phase de differenciação não podia ser 
considerada como instrumento litterario, noutras por aberta 
preferencia do latim por parte de seu auctor, como sendo 
uma lingua mais nobre que o cahotico romance plebeu e 
provadamente mais expressiva, até mais de accordo com a 
matéria religiosa de taes escriptos. Essas agiographias care- 
cem totalmente de espirito critico, são apologias do milagre 
e do sobrenatural, e occupam-se de matéria ainda estranha 
ao quadro da historia nacional, por lhe ser, em alguns ca- 
sos, anterior, 

São os livros de linhagens que trazem a maior novidade 
da historiographia medieval. Foi essa novidade a de bos- 
quejar um quadro genérico da historia universal, desconhe- 
cido dos clássicos que não julgavam condigna matéria his- 
tórica quanto antecedesse ou excedesse as suas evoluções 
nacionaes. Se Tácito, César e Sallustio excederam na appa- 
rencia esses limites, quando se occuparam dos bárbaros ger- 
manos, dos bárbaros gauleses e dos bárbaros numidas, foi 
para seguir ainda a expansão do povo romano. Não trans- 
cenderam as fronteiras da Itália, levados por quaesquer sen- 
timentos de humana sympathia ou por alguma comprehen- 



36 Historia da Litteratura Clássica 

são da solidariedade e continuidade da civilização humana. 
Longe dum romano imperialista ou dum grego mais res- 
trictamente cidadão tão amplos sentimentos. Foi a Igreja 
que aos homens trouxe esses sentimentos, foi ella que deu 
sentido e calor á expressão humanidade, foi ella, em corres- 
pondência, que creou a expressão de historia universal e fo- 
ram os seus historiadores, como Eusébio e Orosio, que es- 
corçaram os primeiros quadros de historia universal. Em 
Portugal foram os nossos livros de linhagens os introducto- 
res dessa novidade, que não dá mais valor critico a esses 
trabalhos, antes lh'o retira, mas que lhes attribue mais accen- 
tuada intenção histórica. 

Não vá suppôr-se que todos os livros de linhagens, 
conhecidos entre nós, são precedidos deste quadro. O Livro 
Velho e o fragmento de um outro que o acompanha, por al- 
guns infundadamente considerado como uma segunda parte 
do mesmo, são apenas listas de nomes, nuas de qualquer 
consideração por parte de seus auctores, que desse modo 
julgavam preencher cabalmente os fins úteis dessas linha- 
gens. (*) Eram esses fins habilitar os nobres a exercer o seu 
direito de padroado, isto é, saber se era pertença sua tal ou 
tal fundação religiosa, da qual por isso haviam de receber dotes 
de casamento, prendas de cavallaria e comedorias ; era o 
desejo de se conhecerem todos os graus de parentesco para 
evitar casamentos entre próximos em graus prohibidos pela 
Igreja ; o direito de avoenga que dava a preferencia aos pa- 
rentes na arrematação dos bens em bocca de venda ; e final- 
mente a prosápia nobiliarchica, tanto do tempo. O terceiro 
nobiliário já é entresachado de alguns episódios, dos quaes é 



( } ) V. Alexandre Herculano, Memoria sobre a origem provável dos 
Livros de linhagens, publ. nas Memorias da Academia Real das Sciencias 
de Lisboa, tomo i.°, parte i. a , pag. 35, Lisboa, e a Introducçâo que pre- 
cede a edição dos mesmos Livros de Linhagens, nos Portugália? Monu- 
mento Histórica, vpl. I, fase. 11. 



Historia da Litter atura Clássica 37 

o principal a muito desenvolvida e bem movimentada des- 
cripção da batalha do Salado (*) ; só o quarto tem mais des- 
envolvimento, nelle se exemplificando o alludido quadro de 
historia geral. Logo após o prologo, em que o Conde D. Pe- 
dro adduz sete utilidades em justificação do seu trabalho, 
começa a «linhagem dos homeens como uem de padre a fi- 
lho des o começo do mundo e do que cada hun uiueo e de 
que uida foy e começa em Adam o primeiro homem que 
Deus fez quando formou o çeeo e a terra >. ( 8 ) Este quadro 
alcança até meio do titulo vil, em que principia a matéria 
portuguesa, e é organizado com um mixto de noções bíbli- 
cas e de informações da historia phantastica da epocha, sal- 
titando de paiz em paiz segundo uma poética geographia. 
Não é sem significado este' quadro, vasta genealogia que 
de geração em geração, de paiz em paiz, vem ligando os 
homens e os reis, fazendo do nexo histórico um fio de paren- 
tesco ; não é sem interesse porque traduz as noções que pos- 
suía um estudioso do século XIV — e até do século XIII, pois 
é provável que este nobiliário seja obra de vários auctores, 
anteriores e posteriores ao Conde D. Pedro, de Barcellos. 
Não se perdera a memoria de Roma, sob a forma de impé- 
rio. Os seus imperadores perseguidores do christianismo são 
lembrados por este linhagista erudito que citava Aristóteles 
em abono duma utopia de pacifica fraternidade: «Esto diz 
Aristotilles que sse os homeens ouuessem antressy amizade 
verdadeira nom averiam mester rreys nem justiças, ca ami- 
zade os faria viuer seguramente en o serviço de Deus. » (') 
Ainda que aqui e acolá o esmalte algum episodio, o Livro 
de Linhagens, conhecido pelo do Conde D. Pedro, é predo- 
minantemente o que seu titulo e objectivos indicam : um 



( l ) V. Portugália' Monumento, Histórica, vol. i, fase." 2.°, pa£ 
185-rço. 

(*) V. Idem, pag. 230. 

[ 9 ) V. Ibidem. 



38 Historia da Litteratura Clássica 

nobiliário, lista de nomes acompanhados da rubrica explica- 
tiva sobre o grau de parentesco que os unem. Tanto dos 
livros de linhagens como dos lacónicos chronicons se servi- 
ram com proveito os nossos antigos chronistas, sempre que 
se houveram de occupar dos nossos primeiros reis. 

Da quarta alinea e principal agora diremos. Cabe a 
D. Duarte a gloria de haver creado, em 1434, o cargo de 
chronista-mór do Reino, que tradicionalmente andou ligado 
ao de guarda-mór do archivo da Torre do Tombo. Foi nelle 
provido, como ninguém ignora, Fernão Lopes. Este, o ano- 
nymo auctor da Chronica do Condestavel e Fr. João Alvares, 
auctor da chronica do Infante Santo, é que são verdadeira- 
mente os creadores da historiographia nacional. Probidade 
na narrativa, escrúpulo na escolha dos materiaes a aproveitar, 
methodo na ordenação delles, clareza e cuidados na compo- 
sição estructural da sua obra, concentração da attenção num 
único assumpto, e esse sabiamente escolhido; isso fizeram 
estes auctores em suas obras, primeiros monumentos da nossa 
historiographia. Evidentemente é muito grande a distancia 
entre um chronicon e a vida do condestavel, tal como a 
conta o seu anonymo auctor ( 1 ). A probidade em Azurara 
chegou ao ponto deste historiador passar ás partes de Africa, 
onde haviam decorrido os feitos que se propunha narrar; 
Fernão Lopes inquiria testemunhas e enjeitava por impro- 



(') Aproveitamos o ensejo para lembrar que a expressão anonymo 
auctor começa a perder o significado de desconhecido auctor, pois apesar 
de se não haver declarado, ha sólidos fundamentos para crer que o 
auctor da Chronica do Condestavel seja Fernão Lopes e que essa obra 
tenha sido composta entre os annos de 1431 e 1443. Sobre esta muito 
plausível conjectura veja-se a introducção do sr. A. Braamcamp Freire 
á sua edição da Chronica de D. João I, i.a parte, Lisboa, 1915, e a nota 
lida em sessão de 4 de Março de 1915, da Academia das Sciencias, pelo 
sr. Francisco Maria Esteves Pereira, e publicada a pags. 380-389 do 
vol. ix do Boletiy.i da Segunda Classe da Academia das Sciencias de 
Lisboa, Lisboa, 1915. 



Historia da Litteratura Clássica 39 

vados os acontecimentos mal testemunhados. A documenta- 
ção começa a ter papel na construcção histórica, atj então 
reduzida ao registo das tradições de memoria; e a linguagem, 
a principio o latim bárbaro, torna-se instrumento litterario, 
estylo, mais simples e pittoresco em Fernão Lopes, mais 
pretensioso em Azurara, que se comprazia em ostentar eru- 
dição. O estylo do chronista dos Condes de Vianna mantem- 
se sempre a uma altura de digna gravidade, esmaltada de 
citações e ás vezes prejudicada peia tendência para o que 
Herculano chamou «philosophar trivialidades». O que, po- 
rem, cumpre fixar é que biographar circunstanciadamente 
uma grande figura nacional, ou fosse rei, ou fosse o Condes- 
tavel, o Infante Santo ou os Condes de Vianna, expondo os 
acontecimentos com lógica, fazendo-os depender necessaria- 
mente de antecedentes próximos ou remotos e mostrando- 
no-los a desenrolar- se com sequencia quanto possível exhaus- 
tiva, já era fazer historia. Um senão possue essa historiogra- 
phia : um amor dos pormenores ás vezes tão vivo — forma 
extrema da probidade litteraria — que faz perder a noção de 
valor para a escolha desses pormenores. Esse defeito não 
impedirá de se reconhecer que a historiographia seja, como 
o lyrismo provençal, um género litterario copioso, e que a 
sua parte do século xv, pelo escrúpulo de verdade da nar- 
ração, pela linguagem já acurada em estylo, pelos assumptos, 
pela personalidade litteraria de seus auctores e até pela prio- 
ridade de alguns assumptos ( T ) seja a principal actividade 



(1) O Visconde de Santarém lembrou no seu prefacio á edição da 
C/ircnica da Conquista da Guiné, de Paris, 1841, que esta obra é «o pri- 
meiro livro escripto por auctor europeu sobre os paizes situados na costa 
occidental d'Africa além do Cabo Bojador, e no qual se coordenarão 
pela primeira vez as relações de testemunhas contemporâneas dos es- 
forços dos mais intrépidos navegantes portugueses que penetrarão no 
famoso mar Tenebroso dos Árabes n . . . V. Opuscidos e Esparsos, Lis- 
boa, 1910, voi. 2.0, pag. 350. 



40 Historia da iÃUêratura Clássica 

litteraria da nossa edade média e mesmo o único quinhão da 
cultura medieval que o quinhentismo herdará com proveito. 
Esse gérmen — que, convém não desconhecer, representa já 
uma tendência precursora do renascimento do classicismo — 
fecundará e ha-de preparar no século dezaseis a magnifica 
galena de chronistas da metrópole e do ultramar. 

A Virtuosa Bemfeitoria do Infante D. Pedro, Duque de 
Coimbra, é uma das obras mais demonstrativas da edade 
média. Ella revela que seu auctor recebera, por estudo e lei- 
tura, a profunda influencia das letras e da philosophia clás- 
sica e a encorporára em seu espirito tão intimamente que o 
mecanismo da sua intelligencia faz-se de modo differente do 
dum pensador caracteristicamente medieval. Alimentado de 
Aristóteles, de Plutarcho, de Cícero e sobre todos de Séneca, 
•«que antre os moraes philosophos tem o principado», compôs 
o martyr de Alfarrobeira o seu curioso tratado de ethica. 
De Aristóteles recebeu a concepção metaphysica, dos mora- 
listas clássicos a disposição de austeridade severa e da sua 
fé christã o finalismo e a estimação de valores, que a philo- 
sophia aristotélica lhe explicava e que a moral estóica lhe 
ensinava como se alcançavam. O seu livro é um modelo de 
boa composição, da mais lógica estructura, dum equilíbrio 
perfeito e sem igual em toda a productividade medieva. 
Denuncia carinhos de auctor que o pensamento português e 
a prosa portuguesa antes delle n£o conheceram. Fácil seria, 
se a outra matéria se não destinasse o presente volume, re- 
duzir a Virtuosa Bemfeitoria a um eschema, que comprehen- 
deria toda a sua matéria. O infante D. Pedro, serenamente 
e firmemente, sem se perder em divagações nem accumular 
citações, diz-nos qual o objectivo da sua obra, justifica com 
três razões a sua utilidade, explica-nos philosophicamente e 
até etymologicamente o seu titulo; estabelece a differença 
entre beneficio e bemfeitoria; prevê as objecções e rebate-as 
uma por uma; classifica as varias categorias de bemfeitorias, 
e a todas analysa detidamente. Dentro de cada um dos seis 



Historia da Líder atura Clássica 41 

livros, a mesma orgânica estructura. Foi o infante uma con- 
sciência já transformada por influencias extra-medievaes; foi 
bem um precursor da cultura clássica, como moralista e es- 
criptor. (') 

O Leal Co7iseUieiro, do rei D. Duarte, que elle mesmo 
chamou o «abe da lealdade», é um monumento linguistico e 
um elucidativo escripto moralista, mas não é uma obra de 
arte. Filia-se nas mesmas correntes de pensamento e com o 
mesmo propósito da Virtuosa bemfeitoria se justifica; tem o 
mesmo equilíbrio de composição, a mesma ordenada estru- 
ctura, que aceusa já capacidades de auetor, mas só por taes 
méritos seria obra de arte ( 2 ). Iguaes observações se pode- 
rão fazer á cerca do seu Livro da Ensynança de bem cavalgar 
ioda sella, cujo assumpto D. Duarte soube tornar digno da 
sua penna philosophica, vendo nelle lições moraes. 

Ha noticia de numerosas obras perdidas, redacções ori- 
ginaes e traducções livres, como na epocha se faziam. O sr. 
Th. Braga deu- nos um quantioso elencho dessas perdas ('). 



O conspecto, que acabamos de descrever e que melhor 
se completará com as lembranças que cada um conserva da 
nossa litteratura medieval, pois não podemos descer a ana- 



(!) Não assim como doutrinário politico. V. As theorias politicas 
medievaes no « Tratado da Virtuosa Bemfeitoria», sr. Prof. Manuel Paulo 
Merca, na Rnista de Historia, vol. 8.°, Lisboa, 1919, pags. 5-21. 

(2) V. a edição de F. I. Roquete, prefaciada pelo 2. c Visconde de 
Santarém, Paris, 1842. No mesmo volume se comprehende a Ensynança 
de bem cavalgar toda sella. 

( 3 ) V. Edade Media, Porto, 1909, pags. 507-8. — A Academia das 
Sciencias publicou em 1918 um monumento medievo, até então inédito, 
o Luro da Montaria, de D. João f, sob a direcção do sr. F. M. Esteves 
Pereira. 



42 Historia da Litteratura Clássica 

lyses minuciosas e a exemplificações, mostrará que esta 
esthetica era em extremo rudimentar, barbara e grosseira, 
hesitante e imperfeita e mais do que insufficiente para tra- 
duzir as novas aspirações e os altos ideaes, o delicado gosto 
e abundante cabedal de ideas geraes, que enchiam a alma e 
a intelligencia dum homem do século XVI. A esta parca 
litteratura succedeu a litteratura clássica, designação com que 
se pretende genericamente designar toda a creação litteraria 
que decorre do século XVI ao romantismo, por se inspirar 
da imitação das velhas litteraturas hellenica e latina — em 
Portugal desde Gil Vicente a Garrett, ou episodicamente 
desde a representação do Monologo do Vaqueiro á publicação 
do Camões. Tomamos Gil Vicente como pioneiro do gosto 
clássico, apesar do muito de medievalismo que na sua dra- 
maturgia se contém, porque é um imitador do classicismo, 
Juan dei Encina, quem lhe dá a suggestão inicial. Esta 
litteratura apparentemente, quando executada inintelligente- 
mente ou desacompanhada de outros phenomenos, veio 
transportar para outra parte longínqua e muito fora da tra- 
dição litteraria dos paizes, o centro de attenção dos espí- 
ritos, a base esthetica das litteraturas novo-latinas, mas 
verdadeiramente o que essa imitação de gregos e romanos 
veio trazer foi a expressão ampla ás novas aspirações do 
espirito humano, que já não podiam caber na exhausta litte- 
ratura medieval. Ã. confusa indifferenciação de géneros da 
edade media vinha ella oppôr uma extrema variedade de 
géneros bem extremamente caracterizados, já exemplificados 
por uma vasta galeria de obras que iam do talento ao génio, 
todos com sua theoria regulada; á forma inculta e perplexa 
cppunha o estylo fixado por essas mesmas obras primas de 
modelo, e o amor da forma, como essencial condição da 
obra de arte; á monótona versificação medieval oppunha 
essa variedade grande de metros que nos clássicos se 
admira. Não se poderia, sem as mais amplas consequências, 
fazer o paralello entre as canções de gesta e os poemas 



Historia da Litteratura Clássica 43 

homéricos e a Eneida, entre os chronicons e Heródoto, Thu- 
cydides ou Tácito, entre Horácio e os trovadores medievaes. 
A maior dessas consequências foi a imitação e a entrada 
das litteraturas românicas, mal desembaraçadas das vestes 
confusas e pobres do medievalismo, numa éra em que segui- 
ram por novos trilhos. 

Essa entrada em novo trilho, na historia litteraria por- 
tuguesa, deveu-se á causa próxima da suggestão de Juan dei 
Encina sobre Gil Vicente e dos italianos e castelhanos sobre 
Sá de Miranda. O movimento reformador de Castella é já 
um movimento de repercussão, que só na Itália fora origi- 
nal, porque só na Itália algumas causas se verificaram. 
A importação do novo mundo de idéas e sentimentos — que 
em Itália, Sá de Miranda assimilara — e o avultar do raro 
veio de cultura clássica, que já entre nós anteriormente 
corria, produziram o fácil triumpho do novo ideal litterario. 
Não será, por isso, inopportuno desenhar rapidamente a 
génese dessa intensa renovação operada na Itália e apontar 
o leito desse fino veio nacional. 

A evolução politica da península itálica fizéra-se em 
sentido inverso do que observamos nas outras principaes 
unidades politicas da Europa. Nestas triumphou a realeza 
absoluta, em meio do antagonismo das classes. Pela pri- 
meira vez depois da ruina do império romano apparece, 
expressa e realizada, a idéa de Estado, com seu próprio 
machinismo administrativo, para si reservando todas as pre- 
rogativas soberanas e igualando perante si, sob a mesma 
dependência, todas as classes sociaes. É claro que não foi 
sem grande resistência das classes prejudicadas que os reis 
conseguiram fundar a sua realeza absoluta. Para unificar em 
suas mãos o território e também nellas centralizar todos os 
poderes, tiveram de vencer os obstáculos das immunidades 
da nobreza feudal e do clero, ajudando-se do desconten- 
tamento do terceiro estado. Restringindo privilégios e 
appoiando-se no povo — cujas liberdades provisoriamente 



44 Historia da Litteratura Clássica 

fomentavam por meio da concessão de foraes ou da liberta- 
ção das communas e da convocação repetida das cortes 
geraes — os reis crearam uma forma intermédia para passa- 
rem da máxima descentralização feudal da edade média ao 
absolutismo a que aspiravam : a monarchia representativa. 
Mas as immunidades foram postergadas, as próprias liber- 
dades populares foram coarctadas por já desnecessárias e 
o monarchismo absoluto pôde emfim triumphar: na França 
com Luiz xi; na Hespanba com Fernando de Aragão e 
Tzabel de Castella; na Inglaterra com os Tudores, desde 
Henrique vil; na Allemanha com Maximiliano i; em Portu- 
gal com D. João li. Só em Itália se não effectuou essa cen- 
tralização, já porque era muito fragmentaria a divisão poli- 
tica daquella península, já porque a sua evolução histórica 
foi sempre muito perturbada pela invasão estrangeira, que 
tem feito da península itálica, como da Bélgica, um campo 
de batalha da Europa. 

Dominava então na Itália um sentimento que a antigui- 
dade não conhecera, o culto egotista da individualidade. 
Pretendeu Guizot que fora esse sentimento da livre perso- 
nalidade uma novidade moral trazida pelos bárbaros invaso- 
res (*). Assim poderá ter sido, pois em ser muito dominada 
pelo individual egoísmo infrene dos nobres se caracteriza a 
edade média em opposição ao mundo romano, que disso só 
conheceu umas rápidas manifestações na passagem da repu- 
blica para o império por meio dos triumviratos e ainda sob 
a ordinária forma de ambição politica, que é de todos os 
tempos. Poderá ser: mas o que para uma bôa intelligencia 
cumpre distinguir é o conteúdo de cada palavra: individua- 
lismo e culto da individualidade. Individualismo é a dispo- 
sição moral que consiste em não reconhecer ainda a solida- 
riedade dos laços sociaes e só cuidar de exercer o interesseiro 



[ } ) V. Historia da civilização na Europa, 2. a lição. 



Historia da Littcratura Clássica 45 

egoísmo pessoal; cabe em muitas almas ao mesmo tempo, 
das mais vulgares, e todas o podem exercer de semelhante 
modo, como o exercem os rudes camponeses que só das 
suas immediatas necessidades e conveniências se preoccupam. 
Culto da individualidade é o desejo de desenvolver ampla- 
mente, em todas as suas zonas, uma alma e de lhe imprimir 
um sentido original, prepondo aos interesses collectivos esse 
desvelo de ser soberanamente e originalmente uma alma 
bem individualizada, differencialmente bem característica. 
Esta forma de egoísmo, que consiste em procurar oppôr ás 
acções do mundo externo reacções volitivas, affectivas e in- 
tellectuaes muito pessoaes, de modo nenhum vulgares, de 
modo nenhum resignadas aos baixos interesses quotidianos, 
e em seu desvelado cultivo e livre expansão se acurar, já 
não é um estádio psychologico inferior, antes implica deli- 
cadeza e cultura espirituaes não triviaes. Ella existiu princi- 
palmente em Itália, fomentada pelo seu estado social, com 
suas luctas intestinas, com as ambições despertadas pelo re- 
gimen de tyrannia aberto ao primeiro audacioso e com a 
defeza astuciosa a que obrigava os indivíduos não favoreci- 
dos do poder, mas por elle perseguidos. Q) Tal feição dos 
caracteres, se foi um óbice poderoso á centralização monar- 
chica, foi muito determinante factor no grande phenomeno 
da renascença. ( 2 ) Esse culto da individualidade produziu 
umas vezes o amoralismo e o cynismo ( a ), outras o cosmopo- 



(!) V. De Dante à VAreiin, Lefebvre de Saint Ogan, Paris, e Lo~ 
renzino de' Mediei e il Hrannicidio nel Rinascimento, F. Martini, Floren- 
ça, 1882. 

( 2 ) Tão poderoso factor elle foi, que desde que Burckhardí o pôs 
em relevo na sua celebre obra La civilisation en ltalie au temps de la 
Renaissance, trad. fr. em 2 vols., a interpretação deste grande movi- 
mento soífreu um impulso considerável. 

( 3 ) V. Esquisse Psychologique des Peuples europiens, A. Fouillée. 
« Gráce ao culte renaissant de la Nature, au culte naissant de la Science, 
au développement parallèle de Tindividualisme, la faculte de raisonner 



46 Historia da LitUr atura Clássica 

litismo ( l ), outras o amor apaixonado da belleza, da belleza 
formal' sobretudo, ( 2 ) outras essa vasta receptividade que 
tornava os espíritos genericamente curiosos de todos os ra- 
mos do saber e para muitos delles genialmente dotados. 
O amor da natureza, a ambição da gloria, o exercício do 
sarcasmo cáustico como profissão e força social, perante o 
qual a satyra antiga e medieval é uma innocente maledicên- 
cia, tiveram um pujante desenvolvimento no espirito italiano 
dessa epocha. A grande obra da Renascença italiana deve-se 
mais a uma plêiade de homens de génio, de espirito pluri- 
lateral, excepcionalmente e multimodamente comprehensivo 
do que ao esforço collectivo dum povo. (*) Ás pessoas tam- 
bém, individualmente, se tributaram as maiores honras, até 
se lhes relevando o seu amoralismo. Era o que o papa Paulo 
III exprimia, affirmando que os homens do mérito de Cellini 
estavam acima das leis. 

Uma das primeiras consequências deste cultivo da indi- 
vidualidade foi o vivo interesse por quanto respeitava ao 
homem, o qual fora da theologia e da litteratura christã en- 
contrava uma nova via a trilhar: a observação de si próprio. 
Tal descoberta, apparentemente tão banal mas de tão largo 
alcance, estivera o mysticismo a ponto de a fazer, mas disso 
o impedira o propósito escravizante que o dominava, de vi- 
giar que o espirito não sahisse da única matéria que se lhe 



sur les causes et les effets remplaça celle de juger la valeur cie Ia con- 
duite», pag. 77. 

(') V. The Renaissance in Italy, Symonds, Londres, principalmente 
02 o vol., The Revirai of The Leaming. 

(-; V. Burchkardt, ob. cit. V. também as vivas descripçôes de H. 
Taine na sua Philosophie de Vart. 

( 3 ) V. « The work achieved by Italy for the world in that age was 
less the work of a nation than that of men of power, less the collective 
and spontaneous triumph of a puissant people than the aggregate of in- 
dividual efiorts animated by an soul of the íree activity, a common =tri- 
ving after name, » V. Symonds, ob. cit., tomo 2. 



Historia da Litteratura Clássica 47 

permittia para meditação. Foi essa descoberta que constituiu 
o humanismo, que é assim não uma simples tendência litte- 
raria, mas o súbito rasg'ar de horizontes novos ao espirito 
soffrego, horizontes não menos vastos que os novos conti- 
nentes e novos céus que á humanidade deslumbrada revela- 
vam os navegadores portugueses e hespanhoes. (*) Era uma 
nova concepção da vida e do mundo que surgia : o homem 
no novo systema geral do mundo subalternizavase, mas pela 
razão outra soberania adquiria; e o mundo, agora mais largo, 
era explicável de outro modo, organizando-se em systemas 
as conclusões dcs descobrimentos marítimos e os progressos 
das sciencias. Os portugueses, dirigidos sempre por um so- 
lido critério scientiíico por elles mesmos creado, ( s ) revela- 
ram as ilhas do Atlântico central e meridional e toda a costa 
occidental do continente africano; Bartholomeu Dias desco- 
bre o limite austral desse continente ; Vasco da Gama des- 
cobre o caminho marítimo para a índia ; Colombo e Alvares 
Cabral descobrem o novo mundo; ainda portugueses desco- 
brem territórios da America do Norte e penetram pela pri- 
meira vez na christa Abyssinia, na China e no Japão ; Ma- 
galhães emprehende a sua viagem de circumnavegação. Aluia 
de vez o systema das espheras de Aristóteles e a restricta 
geographia hellenica. Tycho Brahé propõe o seu systema do 
sol como centro das orbitas planetárias, excepto a da terra, 
em torno da qual ainda o mesmo sol subalternamente girava. 
Era comtudo um passo considerável para o radical heliocen- 
trismo de Copérnico. ( 3 ) Kepler descobre a forma das orbitas 
dos planetas e formula as leis do seu movimento ( 4 ), e 



(') V. Histoirc de la philosophie moderne, Harald Hõffding, i." vol., 
trad. franc. Paris, 1908, 2. a ed. 

( 4 ) V. L ' Astronomie naulique au Portugal à Vcpoque des dccouver- 
tes, Joaquim Bensaude, Berna, 1912. 

( 5 ) V. De orbium coelesliiim rcvolutionibiis libri zr, Nuremberg, 
1543 

( 4 ) V. Astronomia Nova, Praga, 1609. 



48 Historia da Litteratura Clássica 

mais tarde Galileo revela o duplo movimento da terra 
por meio de telescópio de sua invenção, descobre os satel- 
lites de Júpiter e determina a lei das revoluções desses sa- 
tellites. Leonardo de Vinci e Frascator fazem notáveis pro- 
gressos em physica, óptica e mecânica ; Viète applica a 
álgebra á geometria ; Napier inventa os logarithmos; Vésale 
funda a anatomia humana; Miguel Servedo, Realdo Co- 
lombo e André Cisalpino descobrem a circulação do sangue; 
Pietro Pomponazzi e Xicolo Machiavel encetam a philosophia 
psychologica. 

Outras causas, de diverso alcance, operaram também de 
modo determinante. Mais viva que noutra parte era em Itá- 
lia a tradição clássica, em Itália, que fora berço da civiliza- 
ção romana, ainda muito povoada de ruinas evocadoras, e 
onde, sob o nome de grande Grécia, florescera um impor- 
tante foco da cultura hellenica. Para Itália também emigra- 
ram os grammaticos e eruditos do império romano do Oriente, 
quando os turcos definitivamente o conquistaram (*). Deve-se 
a Barlaam, Leôncio Pilatos, a Dante, Petrarcha e Boccacio, 
o impulso inicial em favor do gosto das letras clássicas, para 
o qual no século xv grandemente contribuiu o ensino de 
Jorge Gemistho, deputado ao concilio de Florença, que ahi 
se estabeleceu, attrahido pela munificência de Cosme de Me- 
dicis, e fundou a Academia Platónica. Bessarionte, também 
grego, continua a sua iniciativa, oppondo o seu ensino do 
platonismo ao do aristotelismo doutros gregos, como Gen- 
nadio, Theodoro de Gaza, conquistando grande numero de 
adeptos. Marsilio Ficino traduz Platão e ensina-o do púlpito, 
prégando-o como doutrina religiosa. Eruditos como Aurispa^ 



(') Faz falta uma monographia em que pormenorizadamente se es- 
tude este movimento migratório dos eruditos, grammaticos e philosophos 
de Constantinopla para o interior da Europa no fim do século xv. De or- 
dinário esta causa do renascimento da cultura clássica é mais apontada 
do que exemplificada e demonstrada. 



Historia da Litleratura Clássica 49 

Guarini e Filelfo, que na propaganda e ensino das letras 
clássicas vivamente se haviam empenhado, tornam-se credores 
de summa gratidão, pois foram elles, no dizer de Francesco 
De Sanctis, os Colornbos deste mundo novo ('). Fundam-se 
academias e os homens de letras reunem-se em verdadeiras 
cortes litterarias, sob o generoso patrocínio de Nicolau v, 
Pio ii, Júlio ii, Leão x, Paulo m, Afronso o Magnânimo, 
Cosme de Medicis, Lourenço o Magnifico e os duques de 
Este (*). A imprensa, recemdeseoberta, é posta ao serviço 
deste renascimento e começam a apparecer edições dos clás- 
sicos gregos e latinos. Os effeitos deste facto nunca serão 
demasiado encarecidos; por um lado a fácil e larga divul- 
gação, por outro lado o apparecimento de novas formas de 
actividade intellectual, restituição de textos, commentarios 
o exegeses, e o ávido alvoroço com que os estudiosos se lan- 
çaram á busca de manuscriptos, pois cada achado era uma 
nova porta de entrada que se abria para esse novo mundo. 
«O mundo greco-latino apresenta-se ás imaginações como 
uma espécie de Pompeia, que todos querem visitar e estu- 
dar." (*) Desse movimento de restauração nasce a nobre cri- 
tica literária, a principio no secundário papel de cotejo tex- 
tual e de exegese explicativa, logo se erguendo a uma 
autonomia condigna, com Th. Morus, Erasmo, Lipsio e Boc- 
calini, Machiavelli, Vasari e Sassetti. A funcção de tradu- 
ctor transforma-se, restringindo-se a licenciosa liberdade de 
adulterar de que na edade média gozara, mas ganhando em 



(') V. Storia delia Lettcratitra Italiana, De Sanctis, i.° vol., Mi- 
lão, 1912, pag. 289. 

(2) Como já observámos a respeito da emigração dos eruditos by- 
zantinos, também é para estranhar que ainda não haja uma obra bem 
documentada, em que se evidenciasse e medisse a parte que cabe á pro- 
tecção dos papas e dos nobres no renascimento intellectual do século xvi. 

( 3 ) V. Storia delia Letteratura Italiana, Francesco De Sanctis, 
pag. 289, 1.0 vol. 

H. da L. Clássica, vol. l.« * 



50 Historia da Ldtteratura Clássica 

escrúpulos e rigor; assim fizeram traducções de Virgílio, 
Ovidio'e Tácito, os italianos Annibal Caro, Giovanni Andrea 
deH'Anguillara e Bernardo Davanzati. E os primeiros en- 
saios de obras originaes que tentam renovar esse ideal clás- 
sico apparecem com Vittoria Colonna, Gaspara Stampa, An- 
gelo Poliziano, Mateo Maria Boiardo, Ariosto, Pulei, Alberti, 
Bembo e Sannazaro. Estava fundada uma Htteratura, que 
achara a complexa e eloquente expressão que o espirito en- 
riquecido de ideaes novos em vão procuraria exercer nos 
moldes, já nesse tempo obsoletos, da Htteratura medieval. (*) 
Vê-se, pois, que humanismo e renascimento das lettras 
clássicas foram phenomenos diversos, antes de se haverem 
conjugado. Grande era já o passo dado pelo humanismo, que 
ao homem interior descobrira e sobre elle fizera convergir 



(1) Mais duma vez tem sido defendida a opinião de que a renas- 
cença litteraria veio fazer abortar a Htteratura medieval quando esta se 
mostrava ainda vigorosa e de que esse movimento humanístico viera 
desnacionalizar a cultura dos paizes. Esta these tem sido vigorosamente 
rebatida por toda a parte com a eloquência dos factos e sua justa inter- 
pretação. Veio depois a opinião de na litteratura medieval termos maio- 
res bellezas que admirar ou pelo menos iguaes ás que nos proporciona 
a epocha dominada pela imitação dos clássicos, opinião que é verdadei- 
ramente um prejuízo. O sr. Th. Braga em todas as suas obras de histo- 
ria litteraria e o sr. H. Raposo na sua these Sentido do Humanismo, 
Coimbra, 1914, mostram perfilhar tal opinião que já hoje cremos pouco 
defensável. Geralmente é essa opinião determinada por sentimentos po- 
líticos, que fazem da idade média a epocha do puro nacionalismo, e ainda 
por influencia dos philologos. Em França foi ella vivamente impugnada 
por Brunetière, o critico mais denodamente paladino do classicismo que 
alli houve. Por essa impugnação começou aquelle escriptor a sua carreira 
de critico em 1879, por meio do artigo Uêrudition contentporaine et la 
Httêrature francaise dti tnoyen âge, que grandes protestos suscitou da 
parte dos philologos. Brunetière apenas respondeu no anno seguinte a 
Auguste Boucherie, director da Revue des Langues Romanes. Bom seria 
que as razões adduzidas pelo grande critico fossem divulgadas e ipre- 
ciadas também em Portugal. 



Historia da Litteratura Clássica 51 

as attenções e que aos espíritos enriquecera de concepções 
novas, que transformavam por completo a sua visão moral 
e metaphysica, quando a Renascença surgiu, só vindo dar 
expressão artística ao mundo revolto de novos sentimentos 
e concepções que combatiam a intelligencia dos séculos XV 
e xvi. Duas ricas litteraturas, até então muito mal conheci- 
das, e toda uma philosophia grandemente ignorada surgiam 
de repente complexas e opulentas. Logo começou a imita- 
ção. Mas, convém desde já esclarecer com vigor, esta imita- 
ção não foi mais do que uma pbase de iniciação. Como o 
espirito do humanismo tinha movimento próprio, seu pro- 
gressivo evoluir, cumpria insuflar vida e movimento a essas 
imitações de mortas litteraturas, com que se propunham 
dar- lhe expressão. Era também necessário que essas littera- 
turas neo-classicas evoluíssem de vida própria, de si tomas- 
sem consciente posse, de forma que os modelos de Grécia e 
Roma exercessem não uma esmag"adora tyrannia, mas só a 
permanente suggestão do seu equillibrio, da sua consciente 
e experiente perfeição. Dentro da conformação — bem ampla, 
mas bem definida também — que o Renascimento dava ás 
litteraturas, urgia achar a autonomia, crear uma critica, con- 
tinuar uma tradição, e a seguir á tragedia, á comedia, ao 
lyrismo, á epopêa. de gregos e romanos, fazer accrescer de 
inventiva própria uma nova tragedia, uma nova comedia, 
um novo lyrismo, uma nova epopêa, que aproveitassem da 
lição dos clássicos, mas que com originalidade os conti- 
nuassem. 

Só as litteraturas, que tal conseguiram, chegaram real- 
mente a executar cabalmente o novo ideal clássico e a crear 
nova belleza, sua própria. Na conclusão desta obra diligen- 
ciamos apurar em que medida attingiu a nossa litteratura o 
cumprimento deste programma — se alguma vez cm língua 
portuguesa se objectivou esse programma. 



CAPITULO I 



GIL VICENTE 



Quando na noite de 7 de Junho de 1502 Gil Vicente, 
caracterizado de pastor, aos repellões, irrompeu pela camará 
da rainha D. Maria, doente do nascimento de D. João, futuro 
rei, terceiro do nome, para lhe recitar o monologo da Visi- 
tação, o poeta quinhentista lançou a base de uma instituição 
nova: o theatro português. Com o seguimento da sua obra 
fecunda veio a merecer dos seus pósteros o nome de creador 
do theatro português. Neste primeiro capitulo do nosso tra- 
balho vamos, antes de segundo o nosso processo critico 
historiar a evolução artistica do comediographo, diligenciar 
discernir os elementos próprios e alheios da construcção vi- 
centina, limitando assim, mas precisando e aclarando a crea- 
ção, que ao notável lyrico se attribue. 

O género dramático é um género, de tom variado como 
todos os outros géneros litterarios, grave ou serio, trágico, 
cómico e mixto, em que ainda como em todos se busca re- 
constituir uma parcella da vida, porem por meio duma repre- 
sentação quanto possivel integral, como em nenhum outro 
género. O dramaturgo tem ao seu dispor muitos meios re- 
presentativos para o seu objectivo: personagens, seu dialogo, 
seus trajos, movimentos e gestos, sua expressão physiono- 
mica, scenario adequado, ao vivo tudo visto e ouvido para 
attingir a resurreição duma parcela de vida moral. Mas pode 



54 Historia da híiteraíura Clássica 

dizer-se que a característica differencial e typica do theatro 
é o dialogo vivo e que o theatro nasceu, quando se empregou 
o dialogo vivo como meio de resurreição artística perante 
espectadores. Todo o restante aperfeiçoamento technico nada 
mais é que consequência da evolução do próprio meio litte- 
rario do dialogo. Assim considerando a expressão theatro, 
perguntaremos que havia de theatro em Portugal e no es- 
trangeiro, principalmente em Hespanha, ao tempo da entrada 
graciosa e ao mesmo tempo genial dum poeta cómico pela 
carnara da rainha D. Maria, segunda esposa de D. Manuel I? 
Ou, tornando mais explicita a nossa curiosidade: em que medida 
continuava Gil Vicente uma tradição nacional, antiga ou recen- 
te, e em- que medida obedecia a uma estranha suggestão? 

Quaes são os muito ténues vestígios de actividade dra- 
mática em Portugal durante a edade média, que de segu- 
rança hoje conhecemos — já na Introdacção dissemos. Se mais 
não foram realmente, pois é justo estabelecer differença entre 
a realidade que vivamente decorreu e a imagem que delia 
creámos com as incompletas informações proporcionadas 
pela historia, se mais não foram, havemos de confessar que 
muito pequena base tinha, dentro de fronteiras, o nosso poeta 
para assentar a sua obra. De além fronteiras lhe veio a prin- 
cipal suggestão, da vizinha Hespanha, que viria a ser uma 
das grandes pátrias do génio dramático. 

Já no século xv a Hespanha tinha algum theatro. 
Na Catalunha, mesmo no século xiv, se representavam algu- 
mas obras de caracter litúrgico ; mas estas de certo não 
chegaram ao conhecimento de Gil Vicente — e o nosso 
objectivo é reconstituir as influencias que provavelmente se 
hajam exercido no espirito do auctor da Ignez Pereira e não 
esboçar um quadro geral do primitivo theatro hespanhol. Do 
drama litúrgico de Castella também ha vestígios, mas menores. 

É Gomez Manrique (141 2-149 1?) que ensaia o theatro 
profano para festejar o nascimento dum irmão do rei Henri- 
que IV, com uma peça na qual é attribuido á infanta Izabel 



Hisi i Litteratura Clássica 55 

o papel duma das musas, particularidade que accusa já certa 
tendência clássica. Torres Naharro e Juan dei Enciha é que 
são verdadeiramente os fundadores do theatro hespanhol. 
O primeiro, cujas datas de nascimento e morte se ignoram, 
representou em Itália as suas peças. Publicadas sob o titulo 
geral de Propaladia, em 15 17, quando já ia adiantada a car- 
reira litteraria de Gil Vicente e não havendo probabilidade 
de antes dessa data chegarem ao conhecimento do nosso 
dramaturgo, não é legitimo attribuir lhe qualquer influencia 
sobre o auctor de Ignez Pereira. Vém-nos confirmar nesta 
opinião, a que somos levados por considerações externas de 
chronologia, os dados da própria analyse intrínseca das 
obras contidas na Propaladia. Torres Naharro divide as suas 
peças em cinco actos, que denomina jornadas; fixa o numero 
das suas personagens entre seis e doze, ainda que ira Tinel- 
laria fizesse grupar vinte figurantes: classifica o drama em 
duas categorias, a comedia de noticia e a comedia de phaniasia; 
cada peça sua abre com um intróito, em que* se pede ao 
publico attenção e indulgência e se apresenta um pequeno 
resumo da intriga — caracteres estes que se não verificam 
no theatro vicentino ('). Ao segundo dramaturgo alludido, 



(') Fallando de Torres Naharro occorre-nos dizer que eile é auctor 
dum drama allegorico intitulado Comedia Trofea, que tem por assumpto 
os feitos da epocha do nosso rei, D. Manuel r. Menéndez y Pelayo no 
seu estudo sobre Bartolomê de Torres Naharro y su Propaladia, repro- 
duzido na 3- a serie dos Estúdios de Critica Literária, Madrid, 1900, ver- 
sou este problema da influencia de Naharro sobre Gil Vicente, apontando 
dois pontos concretos : um artificio métrico, combinação dos versos da 
arte maior com o seu hemistichio, que o poeta português empregou no 
Breve Summario da Historiei de Deus e no Auto da Feira; e uma sug- 
gestão da Aquilara de Naharro sobre a Comedia do viuvo, de Gil Vicente. 
Versaremos em artigo especial esta matéria, bem discutível ainda, para 
a qual nos chamou a attenção o sr. Prof. Georges Cirot no artigo gen- 
tilissimo e profundo que dedicou á i. a edição desta obra na Revuc Criti- 
que, Paris, i.° de agosto de 192T, pags. 288-292. 



56 Historia da LU 'ler atura Clássica 

Juan dei Encina (1469-1533?; é que Gil Vicente deveu indis- 
cutivelmente as primeiras suggestões. 

Do theatro de Encina, hoje reduzido a quatorze peças, 
presume-se que as éclogas representadas perante os duques 
de Alba, em Alba de Tormes, o fossem em 1492, e a sétima 
e oitava, que Ticknor pretendia fossem partes da mesma 
obra, sabe-se que foram representadas respectivamente em 
1494 e 1495. E portanto a maioria do theatro conhecido de 
Encina anterior á estreia litteraria de Gil Vicente. Essas 
quatorze peças, posto que constituam um espolio muito 
reduzido, bastam para attestar uma evolução artistica e 
para muito lucidamente caracterizar uma physioncmia litte- 
raria. Começou Encina por autos religiosos, celebrados pelo 
Natal ou outras datas religiosas, nas quaes se discorria 
apologeticamente sobre certos mysterios da religião, Natal, 
Paixão, Resurreição e em que as personagens, ordinaria- 
mente pastores, concluem por entoar um vilancico de edifi- 
cação religiosa umas vezes, de lisonja cortezã para com os 
duques de Alba, outras vezes. Nessas éclogas de devoção ha 
o elemento sobrenatural, representado pela apparição dum 
anjo, que dialoga com as personagens humanas. A sexta 
écloga é já, embryonariamente, uma écloga de costumes, 
porque ao mesmo tempo que nos reproduz o discorrer dos 
pastores sobre a Quaresma no-los apresenta ceando e fol- 
gando confraternalmente. 

O mesmo se poderá dizer da seguinte, que Ticknor 
dizia ser sua continuação. Mais pronunciadamente se faz 
pintura de costumes na écloga oitava, em que quatro pasto- 
res despreoccupadamente conversam do tempo e das chuvas 
grossas que cahern e da morte dum sachristão, quando um 
anjo — persistência do maravilhoso christão — lhes vem 
annunciar o nascimento do Salvador, que todos vão visitar 
e adorar; ha portanto uma mistura de elementos profanos e 
religiosos. Desde então o vilancico final, nas primeiras obri- 
gado, quasi desapparece. Da nona em diante accentua-se o 



Historia do Litteratura Clássica 57 

predomínio dos elementos profanos. Esta nona écloga, a 
mais estimada dentre o theatro de Encina, é a narração dum 
caso de amor desgraçado, pois termina por um suicídio. 
O lyrismo toma azas e sobe de inspiração, o desenvolvi- 
mento da peça proporciona-se ás necessidades do assumpto, 
os metros variam. A écloga undécima narra um episodio 
entre pastores que vendiam no mercado e uns estudantes 
que os molestam; é um caso do tempo, que se narra, em 
plena independência, e que assim afiirma a adolescência do 
espirito de Encina, já alforriado da tutela religiosa, sob que 
nascera a sua inspiração dramática. 

Na écloga de Plácida y Vitoriano, em que já figuram 
nove personagens, narra-se outro caso de amor, que seria 
fatalmente desgraçado — se não fosse a benéfica intervenção 
de Vénus e Mercúrio que rcsuscitam e restituem a Victo- 
riano a sua bem amada Plácida; portanto já não ha simples 
autonomia do maravilhoso christão, ha preferencia pelo ma- 
ravilhoso pagão e até reducção do recato. Em Christino e 
Phebva o passo é mais ousado: é o Deus do amor, por me- 
diação duma nympba sua mensageira, quem vence as almas 
de dois ermitães, que, havendo-se consagrado ao serviço de 
Deus, o abandonam para regressarem á vida solta do século 
e do amor. 

Estavam, pois, já dados por Juan dei Encina os passos 
mais ousados na creação do theatro peninsular, quando Gi! 
Vicente fez a sua estreia em 1502: nascera o género dra- 
mático de envolta com a liturgia catholica, sob os auspícios 
do mecenatismo dos Duques de Alba e depois do príncipe 
D. João; das suas faixas infantis se fora desprendendo para 
ser um pouco theatro de costumes — simples conversas de 
pastores por emquanto — ; já lançara mão do maravilhoso 
mythologico e até ousara tratar themas de amor com liber- 
dade, não só livremente os narrando, mas affoitamente lhes 
pospondo as coisas divinaes. Estes mesmos passos rapida- 
mente percorre Gil Vicente, com a firmeza e decisão rápida 



58 Historia da Liitcralura Clássica 

de quem segue trilho já conhecido, e chegado á phase 
ultima, "creada por Juan dei Encina, alarga-se não só em 
comprehsnsão de limites, mas também em expressão, se- 
guindo o próprio movimento do género e as próprias sollici- 
tações do seu talento litterario. 

Historiando a evolução do theatro vicentino melhor se 
destacará a parte que nesse theatro ultrapassou os prodro- 
mos lançados por esse Encina que, convém não esquecer, os 
próprios contemporâneos de Gil Vicente tiveram como seu 
antecessor : 

« E vimos singularmente 

fazer representações 

de estilo mui eloquente, 

de mui novas invenções 

e feitas por Gil Vicente ; 

eile foi o que inventou 

isto cá, e o usou 

com mais graça e mais doutrina, 

posto que João dei Enzina 

o pastoril começou» ('). 



('} V. Miscellaneaj Garcia de Rezende no 3. vol. da Chronica de 
D. João Ilj pag. 199-200, ed. de 1902. 

Muito pouco se sabe da vida de Gil Vicente. Poderia ter nascido 
nos annos de 1470 e 1475, data que arbitrariamente lhe foi fixada pela 
sua declaração de ser velho, vizinho da morte, em 1531, numa carta a 
D. João ih; o sr. Braamcamp Freire, num estudo notável publicado no 
6.° volume da Revista de Historia, propõe sob reserva o anno de 1460 
para data do nascimento. Também se não sabe a sua naturalidade: das 
suas obras apenas se conclue que muito bem conhecia e prezava a pro- 
víncia da Beira, como primeiramente notou o sr. Anbrey Bell. Gil Vi- 
cente foi pessoa muito acceita na corte, acceitação que terá tido bòa 
parte nos seus triumphos dramáticos e que derivaria dos cargos de 
ourives da rainha D. Leonor, viuva do rei D. João 11, e de mestre da 
balança da Casa da Moeda, de Lisboa. Ignora-se como e quando entrou 
para o serviço da rainha velha; para a Casa da Moeda entrou em 1513, 
segundo carta regia ainda existente, cujo apparecimento veio de vez 



Historia da Litteratura Clássica 59 

i. a PHASE 

(1502-1508) 

Começou Gil Vicente em 1502 a sua carreira dramática 
peio monologo da Visitação. Trajado e caracterizado de pas- 
tor, entrou de surpresa na camará da rainha D. Maria, doente 
do parto do príncipe D. João, futuro rei, terceiro do nome — 
liberdade em parte explicável pelo seu cargo de ourives da 
rainha velha. Ahi saudou a rainha graciosamente, fiagindo-se 
deslumbrado da opulência da camará e, chamando uns com- 
panheiros, offereceu uns presentes que elles traziam. No 
Natal seguinte, em língua castelhana como o primeiro mo- 
nologo, fez representar o Auto Pastoril Castelhano, muito no 
gosto de Encina, em que ainda se reconhecem as hesitações 
de quem tenta um género novo. Já tem dialogo, mas ainda 



confirmar a identificação do poeta e do ourives, por ter no alto a cota 
seguinte lançada por mão contemporânea : Gil Vicente trovador, mestre 
da balança. 

São poucas as datas positivas conhecidas na sua biographia. Em 
1509 é nomeado vedor dos trabalhos de ourivesaria para o Convento de 
Thomar e mosteiro de Nossa Senhora de Belém. Em 1512 é eleito para 
a Casa dos Vinte e Quatro e delegado dos mesteiraes junto da vereação 
de Lisboa. Em 1513 é nomeado mestre da balança da Casa da Moeda, 
de Lisboa. 

A sua estreia litteraria fez -se em 1502, pelo Monologo do Vaqueiro, 
provado como está pelo sr. Braamcamp Freire que a sua collaboração 
no Cancioneiro Geral, de Rezende, é de 1509, por ter occorrido nesse 
anno o Processo de Vasco Abul, em que Gil Vicente também deu o seu 
parecer. Em 1506 concluiu o poeta-ourives a famosa Custodia de Belém, 
lavrada com o ouro das primeiras páreas trazidas do Oriente por Vasco 
da Gama. Foi casado com Branca Bezerra, de quem houve um filho 
também Gil, que militou na índia; o sr. Braamcamp Freire fixa este 
casamento entre os annos de 1490 a 1492, mas sob reserva. Em 1520 foi 



60 Historia da Litteratura Clássica 

pouco mais é alem duma narrativa. Havendo começado por 
propoT dois assumptos, um moral, o caracter contemplativo 
do pastor Gil, outro material, a perda dos gados do pastor 
Lucas, ambos esses assumptos são bruscamente abandona- 
dos; um anjo annuncia o nascimento do Redemptor e todos 
partem, cantando, para o adorar. Logo nessa segunda peça, 
Gil Vicente inclue o elemento coral, que é um dos typicos 
componentes do seu theatro e que não pouco teria contri- 
buido para a sua boa fortuna. O Atito dos Reis Magos, con- 
servando a feição religiosa, já comprehende elementos novos, 
pois já admitte personagens não pastoris, como um ermitão 
e um cavalleiro, mas ainda a todos reúne no mesmo pro- 
pósito religioso, que neste auto é também a adoração do 
Redemptor. O Auio de S. Martinho, incompleto, contaria o 
milagre da capa do santo, dada ao mendigo da estrada. 

Estas quatro peças, de caracter religioso e de perso- 
nagens pastoris, constituem a primeira phase da evolução 



por D. Manuel i encarregado de dirigir os festejes com que o Município 
de Lisboa celebrava a chegada da rainha D. Leonor, irmã de Carlos v 
e sua terceira mulher, e em 1531 intervém inteligentemente junto do 
clero santareno que attribuia um recente tremor de terra ao desconten- 
tamento com que Deus via os christãos-novos ainda em Portugal; o 
poeta esclareceu sensatamente o caso e conseguiu apaziguar os ânimos. 
Morreu em Évora, provavelmente em fins de 1536. Têm controvertido 
os problemas da biographia de Gil Vicente principalmente Camillo Cas- 
♦ ello Branco, Sanches de Baena, Sousa Viterbo e os srs. Braamcamp 
Freire, Th. Braga, D. Carolina Michaêlis de Vasconcellos, Brito Rebello 
e Aubrey Bell. Pòde-se'ver uma rememoração das varias phases dessas 
investigações nas Notas Vicentinas I, da sr. a D. Carolina Michaêlis, Coim- 
bra, 1912, nas notas á conferencia CU Vicente e a sua obra, Lisboa, 1914, 
do sr. Queiroz Velloso, e na introducção ao artigo do sr. Braamcamp Frei- 
re, CU Vicente, trovador, mestre da balança, publ. nos 6.0 e 7. vols. da 
Revista de Historia, Lisboa, 1917 e 1918. Para a bibliographia destes 
estudos póde-se consultar o appendice bibliographico do nosso trabalho 
Critica Lit ler ária como Sciencia, 3.* ed., Lisboa, 1920, pags. 176-180. 



Historia da Litteratura Clássica 61 

dramática de Gil Vicente, então ainda adstricto á imitação 
das éclogas de Encina e reduzido a themas religiosos, só de 
propósitos apologéticos. O caracter pessimista e lyrico da 
sua poesia também já se confessa nessa primeira phase e 
principalmente no inacabado S. Martinho. 

A chronologia das rubricas de suas peças, taes como se 
exaram na edição de 1562, remette para este periodo inicial 
outras obras como a Sibylla Cassandra, o Auto da Fé e o dos 
Quatro Tempos, mas as investigações do sr. Braamcamp 
Freire organizaram outra chronologia mais de harmonia 
com os successos coevos. Ha que acatá-la, ainda que nem 
sempre se accorde plenamente com a lógica evolução artís- 
tica do poeta. Os argumentos de ordem intrínseca e esthe- 
tica são muito contingentes, mas para os que sentem as 
differenças subtis da technica artística são tão imperiosos 
como os da concreta historia episódica. Estas perplexidades 
derivam por certo de que, se muitas vezes é possível fixar a 
data da representação das peças, outras tantas é impossível 
fixar-lhes a da composição, muito mais importante para o 
seu desenvolvimento artístico. 

Nãp deixou também a nova chronologia de tornar mais 
verosímil a evolução espiritual do escriptor, em alguns ca- 
sos, e um delies foi a deslocação do Auto da Alma, de 150S 
para 15 18, mais próximo da phase madura e quando elle re- 
volvia com inspirada mão a matéria religiosa para compor 
as suas Barcas. 

Alliviando-se de producção litteraria esta primeira 
phase. torna- se também mais viável a execução de numero- 
sas e complicadas obras de ourivesaria, que haverá que 
attribuir-lhe, uma vez que se assente na identidade do poeta 
com o ourives, a qual tem feito progressos importantes. 



02 Historia da Litt era tara Clássica 

2 . a PHASE 

(1508-1516) 

A farsa de Quem tem farelos?, representada em 1508, ao 
vulgo e em 15 n, no paço da Ribeira, perante D. Manuel 1, 
inaugura o seu theatro de critica social, que é já um passo 
muito além do theatro de Encina, exclusivamente religioso 
ou lyrico. Essa farsa ainda não contem um thema tratado 
completamente, com intenção artística, intima e mais profunda 
que a que logo se apresenta, não é obra do moralista ou do 
pensador, que adiante se revelará Gil Vicente, nem sequer 
do dramaturgo ; é apenas um episodio, um quadro do viver 
commum da sociedade do tempo. Dois creados conversam; 
através da sua maledicência sabemos do theor de vida do 
escudeiro, que um delles serve, o qual occulta sob a mais 
blasonante apparencia miséria extrema. Entretanto chega 
o mesmo escudeiro, que debaixo da janella duma burguesi- 
nha lança um descante namorado. Surprehende-os a mãe 
desta, que esconjura o escudeiro e reprehende a filha. É tudo 
— e tudo isto não chega a ser theatro. É um estudo de typos 
da epocha. habilmente caricaturados, que veremos repeti- 
rem-se na obra de Gil Vicente, e de futuro figurando já 
como comparsas numa acção, não em ensaios soltos,- como 
aqui. São esses typos : os creados descontentes e maldizen- 
tes, o fidalgo pobre, fanfarrão e ocioso, a donzella burguesa 
agastada da sua humilde condição, que muito presume das 
suas prendas, dada á phantasia, propensa aos amores roma- 
nescos e enjeitando o trabalho, como indicio servil, e final- 
mente a velha plebêa, rabujenta, quasi bruxa. A partir deste 
feliz ensaio — feliz pela mestria com que foi executado e 
mais feliz pela popularidade de que veio a gozar — Gil Vi- 
cente nunca mais abandona o theatro de satyra social e de 
caricaturas moraes e, segundo a lei do progresso, a da diffe- 



Historia, da Li l ler atura Clássica 6Í5 

renciação, diligenciará discriminar o que é theatro litúrgico 
do que é theatro contemporâneo, só mais tarde pela tragico- 
media vindo a crear um género mixto. 

Mais completo quadro é o Auto da índia, do anno imme- 
diato ('), em que com vivos diálogos nos descreve a levian- 
dade e hypocrisia duma mulher que, alegrando-se com a 
ausência do marido numa armada na índia e delia aprovei- 
tando, recebe amantes e se entrega á esperança de que elle 
não volte. Mas elle regressa e a esposa infiel alvoroçada- 
mente finge júbilos e protesta recatos e penas. Este typo de 
mulher do povo, ligeira e fácil nos amores, que perseguia 
com afan os prazeres, é muito vicentino e por todo o thea- 
tro se repetirá bastas vezes. 

É neste Auto da índia que se encontram aquelles versos 
muito citados pelos detractores da nossa expansão maritima 
e commercial no Oriente : 



Fomos ao rio de Meca, 
Pelejámos e roubámos, 
E muitos riscos passámos, 
À J vela, e arvore sêcca. 

Abarcando agora um vasto lapso de tempo, o que de- 
corria da partida do marido até ao seu regresso, ou sejam 
três annos, Gil Vicente começava a usar um expediente que 
era na sua technica um importante elemento, mas que 6 
sempre um vicio contra a verosimilhança, lei imprescindível 
da obra de arte : a dilação do tempo da acção com a con- 
sequente precipitação dos acontecimentos. O Auto da Fé, 



(1) E' também de 1509 o parecer de Gil Vicente no Processo de 
Vasco Abul. V. o texto no Cancioneiro Geral de Garcia de Rezende, e a 
demonstração dessa data na obra fundamental do sr. A. Braamcamp 
Freire, Gil Vicente-trovador, mestre da balança, Lisboa, 1919, pag. 
42-44. 



(14 Historia da Lit ter atura Clássica 

de 15 io, decorrido ainda entre pastores, tem de novo a in- 
troducção, como figurante, da personificação da Fé, primeira 
personagem abstracta do theatro vicentino, que, falando em 
português, quando as outras personagens só falam em cas- 
telhano, fcos pastores explica os mysterios da religião. 

No Auto das Fadas occupa-se Gil Vicente duma pratica 
muito divulgada no tempo e a um tempo receada e desejada, 
a feitiçaria. Tida em desdém e perseguida pelas justiças, a 
feitiçaria quando se reduzia a certos limites, á previsão de 
males e á sua explicação, era uma pratica inoffensiva e até 
pittoresca. Isso mostra Gil Vicente audaciosamente, fazendo 
dessa matéria de desdém um objecto de gracioso entreteni- 
mento para a corte. A feiticeira, com sua barbara liturgia e 
mais bárbaros exorcismos, chama um frade, que discursa 
sobre o thema suggestivo Amor omnia vincit, thema de que 
o clérigo, apesar da sua qualidade, se mostra miudamente 
conhecedor. Nesse sermão fervilham as allusões aos amores 
dos circunstantes, tácitos entendimentos que alli se denun- 
ciam ou simples inclinações silenciosas e discretas, que o 
poeta malevolamente expõe. Vêm depois as fadas marinhas 
que aos reis e infantes e a alguns cortesãos dizem as sortes, 
sessenta e quatro sortes que indicam o limite minimo da 
assistência dessa representação. Esta peça, que é simulta- 
neamente uma peça de costumes, de lisonja cortesã, senti- 
mento inicial do theatro de Encina, pelo assoalhar da intriga 
amorosa do paço, revela que Gil Vicente alli occupava 
situação tal que lhe permittia a miúda observação dos mais 
íntimos segredos e a livre satyra, sem se temer de inimiza- 
des. Um poeta cómico, espécie de jogral medievo, que fosse 
chamado ao paço para dar as suas representações scenicas 
espaçadas, não se julgaria em situação segura para o fazer; 
seria sempre um dependente e receoso subalterno. 

Os clérigos continuaram e os médicos começaram a 
experimentar a satyra de Gil Vicente na Farsa dos Pkysicos, 
de 15 12. Um clérigo, contra as prudentes advertências dum 



Historia <ht ÍÂUemtum Clássica ' 65 



creado desabusado, deixase tomar de peccaminosa paixão 
por uma moça, que o desdenha. Adoece e vêm physicos, 
cada qual com seu diagnostico e sua therapeutica, e até com 
seu estribilho. Um confessor, que ouve o doente de paixão 
e que parece mais versado nesses mysterios do amor, escla- 
rece-o da natureza do mal e dá-lhe indulgências generosas. 
Pelo prazo de duração da doença, que declara a cada um 
dos quatro médicos, e que é cada vez maior, se reconhece o 
propósito do poeta representar um longo percurso de tempo, 
que no caso presente é de dez dias. Lembremonos de que 
no Auto da índia era de dez annos. 

No Velho da Horta é ainda um episodio, que se narra, 
um quadro da epocha, em torno das tontarias dum velho, 
serôdio apaixonado duma moça, que o auctor faz casar com 
noivo digno; nelle nos descreve um typo novo, a alcoviteira, 
ihteresseira, perseguida pela justiça. Mais ainda que nos 
antecedentes, o dialogo desta peça é de grande naturalidade, 
graciosamente encadeado, denotando uma grande observa- 
ção do fallar popular, das reacções de certos espíritos vul- 
gares ao que lhes diz o interlocutor. A Exhortação da guerra, 
de 15 13, retocada em 1534, é a primeira tragi-comedia vicen- 
tina, género- mixto de assumpto grave, tratado em grande 
liberdade, que admítte a satyra cómica, soltura de linguagem, 
a heteróclita promiscuidade de personagens. Não se pode 
fixar a data do apparecimento desta nova maneira do theatro 
de Gil Vicente, porque a obra contem allusões a aconteci- 
mentos posteriores á data consignada na rubrica ; ou soffreu 
retoques ou essa data não é exacta, como acontece a outras 
semelhantes. A tragi-comedia vicentina, pela liberdade de 
composição, \ da heterogeneidade das personagens, corres- 
ponde á moderna magica. O elemento grave da Exhortação 
da guerra é o quadro final, apotheose patriótica, a-proposito 
glorificador do rei D. Manuel I, que então mandava uma 
expedição ao norte da Africa. 

Na Sybilla Cassandra reapparece o velho thema religioso 

j{. 1M L. ClArfltCA, VOl. 1." 5 



6K Historio, da Litterctfura Cia 

da adoração do Redemptcr, apenas retardado pelos diálo- 
gos, naturaes e graciosos,, em torno da presumpção de Cas- 
sandra, que se não quer casar por julgar que delia nasceria 
o Senhor. 

Na Comedia do Viuvo se narra a romanesca ave 
dum namorado, nobre senhor de grande nascimento, simul- 
taneamente apaixonado por duas irmãs orphãs de mãe, para 
seguir as quaes se disfarça de pastor, que o viuvo, pae 
delias, toma a seu serviço. O apparecimento dum irmão do 
falso pastor, que o vem procurando, favorece o desfecho, e 
as duas irmãs casam com os dois irmãos. E uma passagem 
curiosa na peça o contraste entre a saudade da mulher 
morta, que a cada momento o viuvo vivamente confessa, e 
o tédio que da mulher viva inflamma um seu compadre. Esta 
peça, ainda que á primeira vista o não pareça, também é 
portadora de algum elemento novo no theatro vicentino; eUa 
introduz o maravilhoso romanesco ao serviço do amor. Essa 
pratica ao depois tão usada e abusada nos romances quinhen- 
tistas, que nas complicações desse maravilhoso romanesco 
cifrariam o seu maior interesse, como demonstração das 
habilidades e atrevimentos de que é capaz o amor, essa pra- 
tica usa-a sempre Gil Vicente, muito comedidamente, não 
só por força da mesma brevidade do auto, mas também por 
causa do espirito, que anima esses disfarces e aventuras, o 
amor muito burguês que pelo casamento conclue e se satis- 
faz; não pode ter as complicações intrincadas do romance, 
nem tem a plangencia de fatalidade irremediável. 

No Auto da Fama é o elemento patriótico da Exhortação 
da guerra que toma corpo e que constitue o próprio assumpto 
da peça. Uma pastora humilde symbollza a fama portuguesa, 
rendidamente sequestrada e em vão por um francos, que 
representa a França, por um italiano, que representa a Itália, 
e igualmente por um castelhano. A todos resiste, oppondo 
aos próprios louvores, que aquelles desfiam, o elogio calo- 
roso dos feitos portugueses, os descobrimentos e conquistas 



Historia da Lit ter 'atura Clássica 67 

do ultramar, então ainda recentes. Finalmente a Fé e a For- 
taleza vêm coroar a pastora — a fama portuguesa, que posta 
em carro triumpbal ó conduzida entre musicas, depois da Fé 
recitar uma apologia. Não havia para os meios do tempo, 
num theatro incipiente, modo mais saliente, mais intenso e 
eloquente de lisonjear o rei do que esta allegoria patriótica. 
A apotheose, que o século XIX tanto usaria e que o theatro 
popular cansaria, inventou-a Gil Vicente, no século XVI, no 
momento histórico, em que assistia á consumação dos gran- 
des feitos. O encómio final, recitado pela Fé, é metrificado 
noutra medida, em verso heróico, que se vê ser já então 
praticado, mas as oitavas vicentinas perdem a naturalidade 
e fluência de seus versos curtos, sem ganharem a grandilo- 
quencia que lhes é própria. A epopêa não era o pendor 
espontâneo da musa vicentina. Não deixa de ser elucidativa 
a comparação dos modos por que o poeta cómico e o poeta 
épico -exprimem o mesmo pensamento: o maior valor dos 
feitos reaes dos portugueses ante os feitos fabulosos da anti- 
guidade heróica: 

« Os feitos Troianos, também os Romãos, 
Mui alta Princeza, que são tão louvados, 
E neste mundo estão collocados 
Por façanhosos e por muito vãos, 
Em o regimento de seus cidadãos, 
E alguas virtudes e moraes costumes, 
Vós, Portugueza Fama, não tenhais ciúmes, 
Que estais collocada na flor dos Christãos.» 

F.m Camões: 

Cessem do sábio grego, e do Troiano 
As navegações grandes que fizeram, 
Calle-se de Alexandre e de Trajano 
A Fama das victorias que tiveram ; 
Que eu canto o peito illustre Lusitano 
A quem Neptuno e Marte obedeceram : 
Cesse tudo que a Musa antiga canta ; 
Que outro valor mais alto se alevanta. 



68 Historia da Litter atura Clássica 

Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, 
Phantasticas, fingidas, mentirosas, 
Louvar os vossos, como nas estranhas 
Musas, de engrandecer-se desejosas : 
As verdadeiras vossas são tamanhas, 
Que excedem as sonhadas, fabulosas ; 
Oue excedem Rodamonte, e o vão Rogeiro, 
E Orlando, inda que fora verdadeiro.» 

Mesmo depois de abatidas as circunstancias dos dois 
momentos em que os poetas escreveram, é evidente o con- 
traste. A boa acceitação desta peça de apologia está implí- 
cita na declaração da rubrica de se haver repetido, declara- 
ção que outras peças não contêm. 

E' nesta altura da carreira dramática do Gil Vicente 
que o sr. Braamcamp Freire colloca a representação do 
Auto da Festa, que o sr. Conde de Sabugosa possue em fo- 
lheto volante e que o mesmo escriptor divulgou e estudou 
em 1906, Lisboa, Auto da Festa, Obra desconhecida com uma 
explicação previa. O sr. Braamcamp fundamenta o seu alvitre 
do modo seguinte: Gil Vicente, só no estado de viuvez po- 
deria incluir estes versos no auto, em que são ditos pela 
personagem designada de Velha: 

Olhay, filho, eu vos direy, 
lá me a mim mandou rogar 
muitas vezes Gil Vicente, 
que faz os autos a Elrey, 
porem eu não vou contente, 
antes me assy estarey. 

Em 15 14 o poeta estava viuvo, em 15 17 estava já cas; do 
de novo, segundo o seu erudito biographo, e neste currículo 
só ha disponível para attribuição da peça o Natal de 15 15. 
Porem, como conciliar este corollario com a premissa do 
mesmo sr. Braamcamp Freire que estabelece como provável 
o nascimento do poeta em 1460? Em 15 15, havendo nascido 



Historia da lÂttcr atura Clássica 69 

em 1460, o comediographo não poderia passar dos sessenta 
annos, como elle mesmo declara, num passo muito próximo 
do allegado pelo seu insigne biographo. Sollicitada a dizer 
por que recusava ao poeta para marido, a Velha respondeu : 

He logo mui barregudo 
E mais passa dos sessenta. 

Estes versos não merecerão menos credito que os que 
indirectamente alludem á sua viuvez. Nesta allusão á sua 
idade, se ateve o sr. Conde de Sabugosa para propor a data 
de 1532. Contando desde 1470, anno que este escriptor toma 
para nascimento do poeta, passaria este dos sessenta em 
1470. Percorrendo um a um os annos que medeiam de 1530 
até 1536, ultimo da sua carreira dramática, só ha dois Nataes 
disponíveis para essa attribuição, o de 1532 e o de 1535. E' 
este ultimo o adoptado pelo sr. Conde de Sabugosa. 

Esta segunda hypothese é, em nosso parecer, mais 
coherente com as premissas acceitas pelo demonstrador, mas 
contraria a data de 1460, do sr. Braamcamp Freire, por que 
optamos, e não se harmoniza muito com a evolução artística 
do poeta. A estructura da obra é vicentina plenamente, mas 
é tarda, atrazada digamos mesmo, em relação á maturidade 
espiritual de quem já em 1535 havia produzido as suas 
obras primas, de lyrismo, de graça, de satyra, de naturali- 
dade no dialogo, de necessidade na composição. Contando 
desde 1460, Gil Vicente teria em 1520 sessenta annos per- 
feitos; poderia representar no Natal desse anno de 1520 o 
Auto da Festa a um particular, porque desse Natal não ha 
noticia de representação de qualquer auto vicentino e porque 
a ausência da corte em Évora até fim de dezembro e a pre- 
sença do escriptor em Lisboa não contrariam a hypothese. 
A morte de D. Manuel em Dezembro do anno immediato 
já não permitte que alem dessa data se passe. 

O auto não foi incluído na edição das suas obras com- 



70 Historia da Litteratura Clássica 

pletas, em 1562, mas delle extrahiu o poeta trechos impor- 
tantes para o Templo de Apollo, de 1526. Não indicarão estes 
factos que o escriptor enjeitara a obra, depois de lhe apro- 
veitar d trecho e os pensamentos que mais prezava? E uma 
pratica frequente em escriptores d'arte, revelada pela indis- 
creta publicação dessas obras enjeitadas e pela critica de 
fontes. 

O Atito da Festa é das obras mais obscuras e descuida- 
das de Gil Vicente e o Templo de Apollo está também longe 
das mais características ou mais formosas, mas de modo 
geral, o trecho do primeiro, que passou ao segundo, melhorou 
cem a revisão, umas vezes na clareza, outras na metrificação. 
E a confirmar a posterioridade do Templo de Apollo está aquelle 
verso 

carpir ninguém no mosteyro 

em que por influencia do texto primitivo o templo de Apollo 
é chamado christã e impropriamente de mosteiro. 

Todo o conteúdo do Auto da Festa o encontramos disse- 
minado por outras obras, com maior fortuna, ainda a sua 
philosophia triste de scepticismo e as suas mais typicas 
personagens. 

3 . a PH ASE 

(1516. 1536) 

Nesta altura da sua evolução dramática, depois de feita 
uma larga aprendizagem da scena e de um a um haver 
achado por sua experiência os elementos da innovação pro- 
gressiva, acura-se Gil Vicente em obter a maior expressão, 
mais perfeito relevo e aproveitamento artístico dos seus 
achados. Então, com maior fecundidade produz as suas 
obras-primas no theatro litúrgico e no theatro de critica 
social; então se verifica a differenciacão em algumas das 



Historia rfa Litteratura Classiea 71 



suas poças, que são por isso as suas obras-primas : a um 
lado a veia cómica e o látego da satyra; a outro o pensador 
cbristão, preoccupado do bom emprego da vida. 

É a famosa trilogia das Barcas, que inaugura este 
período. Compõem-na três peças, intituladas respectiva- 
mente Auto da Barca do Inferno, representada em 1516 na 
camará da rainba D. Maria, Auto da Barca do Purgatório, 
representada em 1518 no hospital de Todos os Santos 
perante a rainha D. Leonor, e Auto da Barca da Gloria, em 
15 19. em Almeirim, perante o rei D. Manuel 1. O agudo 
espirito critico de Gil Vicente, a sua veia satyrica servindo 
aquelle, a sua severa consciência de cbristão, a sua indepen- 
dência e o seu génio creador deram se as mãos, e Gil 
Vicente pôde reunir os seus dotes artísticos e os seus pro- 
pósitos sociaes com o máximo relevo da expressão numa 
obra, cuja composição elle mesmo creou. Como no Auto da 
Alma, o poeta quinhentista usou na sua máxima extensão 
da liberdade permiítida no theatro litúrgico, cujas bases 
estão previamente fixadas pela orthodoxia religiosa ; fez 
mysterio religioso, porque reconstituiu factos e verdades 
estabelecidas pela religião christã, que delias mesmas se 
não pôde affastar porque são pedras angulares do seu edifí- 
cio, dogmas: a immortalidade da alma; o principio do bem e 
do mal e suas tentações; a liberdade de escolha entre as 
tentações dum e doutro; a responsabilidade que d'ahi se 
deriva; o julgamento em-pós a morte e a distribuição das 
almas pelo inferno e pelo paraizo. Um dramaturgo medíocre, 
em quem escasseasse o génio inventivo, contaria tudo isto, 
animaria apenas por meio do dialogo e das personagens o 
texto litúrgico, conseguindo, quando muito, maior vigor de 
expressão, mais intensa suggestão, e os sentimentos que 
provocaria não seriam decerto sentimentos estheticos de 
belleza, mas comparáveis ao soffrimento physico; a vista do 
inferno e a presença dos horrores do inferno infundiriam 
terror: a descripção da vida do paraizo ajudaria pelo inte" 



72 Historia da Látter atura Clássica 

rcsse do gozo a doutrinação a conseguir o seu fiai. Eram 
assim os mysterios medievos. Mas não os pratica desse 
modo Gil Vicente. 

Abicadas á praia estão duas barcas: a que conduz ao 
Céo e a que conduz ao Purgatório e Inferno. A primeira é 
tripulada por anjos, a segunda pelo diabo e seus compa- 
nheiros. A margem vêm chegando as almas dos recem- 
mortos, que, segundo o seu próprio juizo, julgam haver 
merecido por suas acções embarcar na barca que conduz á 
mansão celeste. Ahi decorre o seu julgamento, em que são 
accusadores o anjo arraes e o diabo-arraes e elles seus úni- 
cos defensores. Verdadeiramente quem os julga é a satyra 
vicentina ao serviço das concepções moraes, sociaes e reli- 
giosas do poeta, e nesses juizos consiste a originalidade e 
belleza da obra; belleza de fluência no dialogo, de graça 
effusiva, de incisiva e pungente mordacidade, de idéas sãs e 
claras; originalidade de trazer progresso a um género em 
via de se extinguir, o mysterio, e de erguer a critica social 
no theatro a urna altura de independência e a uma extensão 
de alcance, naquelle tempo inteiramente desconhecidas. No 
primeiro auto, comparecem e embarcam na barca do inferno 
um fidalgo que desprezou os pequenos; um onzeneiro, a 
quem o próprio orneio condemnava; um parvo salvo pela 
própria pobreza de espirito; um sapateiro que durante bem 
trinta annos roubou o povo com seu officio; um padre brigão 
que cohabitou maritalmente; uma mulher, Brígida Vaz, que 
exerceu o officio de proxeneta; um corregedor que prevari- 
cou: um judeu porque escarnecia dos mysterios da Igreja; 
e um enforcado já condemnado pelos juizes da terra. Apenas 
se salvam quatro cavalleiros de Christo, que haviam morrido 
em Africa, batalhando pela cruz e que á praia acodem, can- 
tando: 



Historia da Lilteratura Chssim 73 

« Á barca, á barca segura, 
Guardar da barca perdida ; 
Á barca, á barca da vida. 
Senhores, que trabalhais 
Pola vida transitória, 
Memoria, por Deus, memoria 
Deste temeroso cais. 
Á barca, á barca, mortaes ; 
Porém na vida perdida 
Se perde a barca da vida.» 

Promptamente os acolhe o anjo-arraes no seu batel: 

Ó cavalleiros de Deos, 
A vós estou esperando ; 
Que m&rrestes pelejando 
Por Christo, Stnhor dos Ceos. 
Sois livres de todo o mal, 
Sanctos por certo sem falha; 
Que quem morre em tal batalha 
Merece paz eternal». 

Neste fecho se cifra a moralidade da peça; a canção dos 
cavalleiros é um aviso ao auditório; a fala do anjo, em 
elogio dos cavalleiros. é o contraste moralizador que se 
oppõe aos modos de viver, anteriormente alludidos e con- 
demnados, é a apologia da despreoccupação dos bens terre- 
nos e da vida dada em sacrifício pela Fé. Esta concepção 
moral, da forma da vida, tida como suprema, pôde parecer 
um pouco em contradicção com a liberdade critica demons 
trada por Gil Vicente e peccar por muito unilateralmente 
exclusiva. Devemo-nos, porem, lembrar que o poeta ensce- 
nava as suas peças na corte de D. Manuel I, em pleno 
apogeu das empresas ultramarinas, ao qual decerto muito 
agradaria ver apontar com tão grande o bella expressão 
artistica um modo de vida, inteiramente de accordo com a 
sua politica militar e religiosa. Gil Vicente era uma conscien- 



74 Historia da Litter -atura Clássica 

cia altamente religiosa e aquelle processo de apreciar os 
actos moraes pela sua máxima extensão, só Kant o ensinou 
muito mais tarde... sem ter sido ouvido. 

No segundo auto, continua o julgamento e a distribui- 
ção das almas pelas barcas. São ainda typos de variadas 
classes sociaes : o lavrador, que tendo-se-lhe em conta as 
suas fadigas e suores vae para o purgatório a purificar-se; 
Martha Gil, lavradora e colareja, que pequenos delictos pra- 
ticou, pelo que fica na zona intermédia do Purgatório; o pas- 
tor que tem a mesma sentença; um taful que é condemnado; 
e uma creança pura de peccados que é levada para o pa- 
raíso. 

No terceiro auto, todo escripto em iingua castelhana, 
as personagens não são extrahida^ das baixas ou medias 
classes, como ncs dois anteriores, nem os delictos para cas- 
tigar são tão attenuados como no segundo. Perante a rea- 
leza, o mais alto clero e a mais alta nobreza, o dramaturgo, 
sob o disfarce litterario, permitte-se censurar alguns repre- 
sentantes da realeza, do alto clero e da alta nobreza. O uso 
tão amplo da sua natural independência critica só se explica 
por segura situação na corte, como seria a de funccionario, 
ourives da rainha viuva e mestre da balança na Casa da 
Moeda, qualidades em que poderia agradar aos reis e ga- 
nhar-lhes ascendente e jus á protecção. A justificação de 
que perante a Morte e os juizos de Deus todos são iguaes 
— única litterariamente allegavel — não colheria no animo 
daquelles que se vissem aggredidos na sua prosápia com 
baldas certas. E effecti vãmente como uma justificação da 
liberdade irreverente da peça que se vae representar, que 
nós interpretamos o dialogo preliminar entre a personifica- 
ção da Morte e o Diabo, espécie de prologo em que o 
auctor se desculpa e visa a produzir a consciência do fim 
próximo, sentimento muito christão: 



Historia da JÂtleratura Clássica 76 



Diabo ao seu companheiro : <Patudo, vé muy saltando, 
Llamame la Muerte acá ; 
Dile que ando navegando, 

Y que la estoy esperando, 
Que luego vuelverá. 

(Vem a Morte) 

Morte — Quê me quieres ? 

Diabo ~ Que me digas porque eres 
Tanto de los probreeitos? 
Bajos hombres y mugeres, 
Destos matas cuantos quieres, 

Y tardan grandes y ricos. 
En el viage primero 

Me enviaste oficiales : 

No fue más que un caballero, 

Y lo ai, pueblo grosero. 
Pejaste los principales 

Y villanage 

En el segundo viage, 
Siendo mi barco ensecado. 
A pesar de mi linage, 
Los grandes de alto estado 
Como tárdan en mi pasage ! 

Morte — Tienen más guaridas esos, 
Que lagartos de arenal. 

Diabo — De carne son y de huesos, 

Vengan, vengan, que son nuesos, 
Nuestro derecho real. 

Morte — Ya lo hiciera, 

Su deuda paga me fuera ; 
Mas el tiempo le dá Dios, 
E preces le dan espera, 
Pêro deuda es verdadera, 

Y los porné ante vós. 
Voyme allá de soticapa 
A mi estrada seguida, 
Verás como no me escapa 
Desde el Conde hasta el Papa ». 



76 Historia da Litteratura Clássica 

E realmente, desde um Conde até ao Papa, grandes 
personagens acodem á praia, a embarcar-se para a viagem 
ultima ; Gil Vicente só mostra excepcional benevolência ao 
pôr na-bocca do anjo-arraes da Barca do Paraizo uma prece 
á Virgem por todas essas grandes personagens que vão 
apparecer no severo tribunal... da consciência do mesmo 
Gil Vicente: 

« Ó Virgen nuestra Seriora, 
Sed vós su socorredora 
En la hora de la muerte ». 

Vem um conde, confiado no seu dinheiro, que viveu 
vida vici osa, dado a amores levianos, desdenhoso para os 
pobres e despreoceupado dos seus deveres religiosos; vem 
um duque, a quem se não attribue mais culpa que a própria 
grandeza, o seu castello amarello que elle suppunha de oiro; 
vem um rei que ouviu lisonjas, que se deixou adorar como 
se não fosse da terra, que se encolerizou com os grandes, 
desprezou os pequenos e fulminou injusta guerra; um impe- 
rador desvairado e cruel; um bispo desde a juventude des- 
posado e com filhes; um arcebispo que se desfruetou de 
dinheiros dos pobres confiados á sua guarda; um cardeal 
despeitado porque não conseguira a tiara pontifícia; um 
papa tyranno, mundano, luxurioso, soberbo e que praticara 
a simonia. Em vão todos se responsam ansiosamente; taes 
responsos tardios são, qualifica-os o poeta, como cevada lan- 
çada a asno morto. A todos o diabo-arraes embarca no seu 
batel. Para o papa, é Gil Vicente acintosamente severo : 

Papa ao Diabo — « Sabes tu que soy sagrado 
Vicário en el santo templo ? 
Diabo — Cuanto mas de alto estado, 
Tanto mas es obligado 
Dar á todos buen ejemplo, 
Y ser Ilano, 
Á todos manso y humano. 



Historia da Ldtteratura Clas*> 77 

Cuanto más ser de corona, 
Antes muerto que tirano, 
Antes pobre que mundano ; 
Como fue vuestra persona. 
Lujuria os desconsagró, 
Soberbia os hizo dano ; 

Y lo más que os condanó, 
Simonia con engano. 
Venid embarcar. 

Veis aquellos azotar 

Con vergas de hierro ardiendo, 

Y despues atanazar ? 
Pués alli hábeis de andar 
Para sempre padeciendo». 

E conde, duque, rei e imperador, e bispo, arcebispo, 
cardeal e papa, em grande desolação, todos vêem partir a 
barca do Paraizo, cujos arraes — novo signal da já referida 
benevolência de excepção — , ainda os lastima: 

« Pésanos tales senores 
Iren á aquellos ardores 
Animas tan escogidas. » 

E é ainda por excepcional benevolência, que grande- 
mente contradiz todo o entrecho do auto, que Gil Vicente 
os salva; quando a barca do Paraizo desfere as velas, os 
pobres condemnados erguem aos céus, em grita, afflictivas 
preces, e essas preces, sem duvida só por serem de «almas 
tão escolhidas» são ouvidas. Assim remata o poeta: «e veio 
Christo da resurreição, e repartio por elles os remos das 
chagas e os levou comsigo.» 

Este termo da inesperada e injustificada apparição de 



78 Historia du Látteratura Clássica 

Ckristo é um deus ex machina, artificio pouco feliz com que 
Gil Vicente quiz attenuar o desconsolador effeito moral do 
seu auto ou reduzir a sua liberdade critica ou satisfazer 
sentimentos aristocráticos de jerarchia a que não podia ser 
estranho, como homem do século XVI, catholico e cortesão 
dum soberano que engrandeceu o poder real. 

Gil Vicente escreveu o seu theatro para ser immediata- 
rnente representado, elle mesmo o ensaiava e enscenava, 
adaptando-o provavelmente aos lugares e tendo em conside- 
ração os actores, com que contava e o publico para que o 
destinava. Nós temos de fazer o nosso juizo exclusivamente 
sobre a leitura, leitura dum texto defeituoso e guiando nos 
por uma chronologia ou manifestamente errada ou discutivel. 
Esta circunstancia adversa limita-nos a justeza da apreciação 
do seu theatro. A magnificente belleza de alguns effeitos 
scenicos escapa-nos, como nos escapa o papel sem duvida 
muito influente das suas canções e coros, da maioria dos 
qiu-.es não possuímos mais que o titulo, nem a letra, nem a 
musica. Vem isto a propósito porque, mais duma vez, nos 
acodem duvidas sobre o arranjo scenico das personagens. 
Quando Gil Vicente auetor, levado pelo no da peça, por 
algum principal dialogo, se esquecia das personagens que 
tinha em scena, certo seria que Gil Vicente ensaiador, 
habilidosamente remediaria a difficuldade com arranjos de 
occasião, entradas e sabidas, pequenos grupos, falsos diálo- 
gos e outros artifícios. Esta duvida nos occorre acerca da 
Barca do Parai zo ; nos autos anteriores as differentes perso- 
nagens vão conversando com os que vêm chegando e vão 
embarcando. Mas no terceiro auto, que fazem, na praia, 
grupados até final, os altos magnates e soberanos? Neste, 
como noutros pontos do theatro vicentino, não ha possibili- 
dade de fazer estudo completo, emquanto se não conseguir 
representar esse theatro, pelo menos as principaes peças, as 
que são como que marcos miliarios de evolução. Referi- 
mo-nos a uma representação critica, com os textos authenti- 



Historia da LU ter atura Clássica 79 

cos, sem serem adulterados para facilitar uma mal entendida 
vulgarização. (') 

A rubrica da edição de 1562, que precede o Auto da 
Alma, fixa a sua representação em 1508, mas o sr. Braam- 
camp Freire remette-a para 15 18, com o fundamento de que 
nas Endoenças de 1508 estava D. Manuel ausente na Cha- 
musca, e não podia portanto assistir nos Paços da Ribeira á 
representação. 

Artisticamente, o Auto da Alma presuppõe maturidade e 
senhorio das faculdades mestras de technica e inspiração, 



(!) Nos annos de 1910 u 1914 operou-se em Portugal utn synipa- 
thico movimento de propaganda do theaíro vicentino, em que coopera- 
ram principalmente o sr. A. Lopes Vieira, a Escola da Arte de Repre- 
sentar, alguns dos nossos melhores actores e abastados particulares de 
gosto elevado. Apesar dos sentimentos de sympathia, que essa propa- 
ganda nos suscita, não deixaremos de apontar dois erros, que a domina- 
ram e que não são, segundo cremos, para desattender. O primeiro foi 
um erro de facto, o de alterar o texto dos autos, com o propósito de o 
modernizar e tornar mais facilmente representavel. Esta pratica é deli- 
ctuosa, porque a propriedade litíeraria intrínseca é eterna, e ninguém 
deve bolir nesse bem alheio senão para restituir o que falte á sua inte- 
gridade. O texto das obras de Gil Vicente está realmente muito adulte- 
rado, já porque das. varias edições e da revisão da censura do Santo 
Officio sahiu sempre modificado, já em virtude de nelle haver passado 
aquelle fatal irracional, cuja existência até nas melhores obras de génio 
G. Fraccaroli exuberantemente proveu ; devo por isso ser restituído, 
mas não modernizado como tem sido, ao ponto do próprio sr. Lopes 
Vieira confessar : 

. . .0 Auto 
Que ora aqui para vós se representa 
Não é de Gil Vicente — mas é quasi; 

O outro erro de doutrina e consiste em apreciar com exaggerado 
enthusiasmo o theatro vicentino. O lado meritório deste movimento de 
propaganda de textos que são quasi os de Gil Vicente e os dois alludidos 
erros patenteiam-se com clareza no volume A Companha Vicentino, 
Lisboa, 1914. do sr. Lopes Vieira. 



80 Historia da Litteraíura Ghssica 

que não observamos ainda nos esciiptos vizinhos de 1508, 
quando o poeta se iniciava no theatro cómico, Quem tem 
farelos e Atito da índia, e quando era ainda incaracteristica e 
pouco progressiva em relação aos auctores castelhanos a sua 
dramática pastoril e religiosa. K mais consentânea a coexis- 
tência desse bello auto junto das Barcas, mas não deixa de 
fazer pensar a circunstancia de o poeta quebrar a execução 
da sua Trilogia, que o absorveu durante mais de três annos 
com a redacção doutra obra. As conjecturas com que se 
supprern as erradas ou vagas informações consignadas por 
seus filhos raramente conseguem dissipar todas as duvidas. 
O Auto da Alma é, na sua própria phrase, a perfigura- 
çio da seguinte idéa : «Assi como foi cousa muito necessá- 
ria haver nos caminhos estalagens, pêra repouso e refeição 
dos cansados caminhantes, assi foi cousa conveniente que 
nesta caminhante vida houvesse húa estalajadeira, pêra re- 
feição e descanso das almas que vão caminhantes pêra a 
eternal morada de Deos. Esta estalajadeira das almas he a 
Madre Sancta Igreja; a mesa he o altar, os manjares as- 
insignias da paixão. E desta perfiguração tracta a obra se- 
guinte ». Este Auto da Alma é uma das mais bellas allego- 
rias do theatro vicentino. Peia carreira da vida, vae seguindo 
a alma, hesitando entre as seducções que lhe pinta um demó- 
nio e os rigores presentes introductórios dum mór bem 
futuro, que lhe descreve um anjo. Qual delles mais solicito 
se esforça junto da alma fatigada e perplexa, que afinal 
consegue arrastar se até á estalagem, a Santa Madre Igreja, 
onde lhe é servida refeição restauradora. Essa refeição é 
servida sobre a verónica, como toalha, e consta de varias 
iguarias taes como açoutes, a coroa de espinhos, os cravos 
c o crucifixo ; a fructa vão colhê-la ao pomar, onde adoram 
o santo sepulchro. Á parte a aliegoria final da refeição, 
muito grosseiramente materializada, este auto é uma verda- 
deira obra de arte, onde sobra a iuspiração lyrica e onde 
nobremente se affirma o poder inventivo de Gil Vicente, 



Historia da Litteratura Clássica 81 

como dramaturgo litúrgico. Effecti vãmente, basta que se 
considere um momento na qualidade dos recursos de arte 
da Biblia, compendio dos principaes themas litterarios de 
inspiração christã, para se reconhecer que da Biblia se pq- 
diam tomar themas de amplo lyrismo, intensa eloquência, 
profunda moralidade, subtil edificação espiritualista, mas 
muito difficilmente se poderia extrahir theatro. O mysterio 
— e só mysterios produziu o theatro bíblico — só era thea- 
tro por ser representado ao vivo, dito, dialogado, portanto 
visto e ouvido ; na essência permaneceu sempre narrativa, 
exegese, eloquência apologética, quanto se quizér, mas 
muito escassamente theatro. E isto por algumas razões : 
o thema religioso, que o mysterio desenvolve, é essencial- 
mente contemplativo, e o verdadeiro theatro deve ser acti- 
vo; a Sagrada Escriptura fixa ao mysterio todo o plano nos 
mais pequenos pormenores, o que limita a liberdade do 
auetor dramático á dependência de narrador dum thema 
inalterável ; a realidade do mundo objectivo, que ao drama- 
turgo deve ser tão querida, é desdenhada pelo mysterio, 
pois acima dessa materialidade quotidiana quer elle erguer 
as almas; a única vida, que condescende em abeirar, é a 
vida christã, a vida que se deveria viver, ou a vida eterna, 
que se pretenderá viver alem da morte terrena ; vida ter- 
rena commum, só para a execrar, ou então para lhe contra- 
por a vida angélica que viveram os martyres e os santos. 
Estes distinctivos fataes do mysterio reduziam muito a sua 
variedade artística e a autonomia creadora do dramaturgo. 
E, pois, necessário muito génio inventivo e grande inspira- 
ção lyrica para de tão limitado campo de acção extrahir 
obra pessoal. Isso conseguiu Gil Vicente com a allegoria do 
Auto da Alma, representando, na sua concepção christã, de 
delicado espiritualismo, de discreto pessimismo e desapego 
das coisas mundanaes, a pobre humanidade seguindo pela 
vida fora, sempre perplexa entre as tentações do bem pre- 
sente e fácil e os espinhos do bem longínquo e difficil. 
H. r>A L. Clássica, vol. l.° 8 



82 Historia da Litteratura Clássica 

É neste auto religioso que Gil Vicente pela primeira vez 
põe á prova o seu lyrismo de vasta inspiração, um lyrismo 
de intensa emoção, que não exclue eloquência, pois é até 
sob a forma exclamativa e vocativa, que as mais das vezes 
se expande. Aquelles, dentre os poetas modernos que só á 
força dos sonoros alexandrinos, estirados e pejados de adje- 
ctivos, conseguem dar largas á vehemencia das suas emo- 
ções, muito tem que aprender em matéria de expressão 
litteraria com o velho Gil Vicente, que só usou metros cur- 
tos, hoje obsoletos para esses poetas. 

Na Comedia de Rubena encontramos duas innovações: a 
divisão da obra em três scenas, em três actos como hoje se 
diz, e a presença dum licenceado, que ao publico se dirige 
a explicar o entrecho. Este licenceado, que fala no prologo, 
ou melhor a existência dum prologo, em que fala uma per- 
sonagem estranha ao decurso da acção, é já um signal da 
influencia clássica, visto que só a comedia clássica o usou, 
e rnais a latina que a grega. O prologo era um aviso ao 
publico, que antecipadamente conhecia o propósito ou o 
thema da peça, a que ia assistir, e que ao mesmo tempo era 
sollicitado na sua attenção e benevolência. 

Juan dei Encina, mais sujeito a influencias clássicas que 
o nosso comediographo, não usou prologo: apenas á sua 
écloga Pálcida y Victoriano antepôs um argumento extenso. 
A divisão da peça em três actos tem seu fundamento; os 
dois intervallos, que separam esses três actos, dividem três 
phases da acção, a vida de Cismena, rilha de Rubena, que 
realmente distavam de muitos annos: seu nascimento, sua vida 
na serra a pastorear até se transferir para Creta; seu casa- 
mento com um príncipe da Syria. A Comedia de Rubena é 
uma narrativa de extensa acção, é um romance de aventuras 
dialogado, representado em episódios, em que tudo é movi- 
mento, e que participa do caracter do romance pastorií, 
pelos disfarces pastoris de Cismena e do meio pastoril do 
segundo acto, e pelas aventuras romanescas, que corre o 



Historia da Li (ter atara Clássica 83 

príncipe da Syria, que vem a possuir a mão de Cismena. De 
theatro muito pouco ha nesta peça, contaminada pelos dois 
maiores inimigos dos géneros dramáticos: o lyrismo e o 
maravilhoso romanesco. O primeiro ainda produziu a pri- 
meira parte do i.° acto, lamentações de Rubena e seu 
dialogo com a creada, a parte mais sentida da peça; o 
segundo determinou a sobreposição dos lugares e a precipi- 
tação dos acontecimentos, ainda os afastados de muitos 
annos. Desta sobreposição de lugares na mesma scena, 
lugares que a realidade separa por larga jornada e desta 
precipitação dos acontecimentos a succederem-se no mesmo 
instante, acontecimentos que a realidade separa por longos 
prazos, virá a usar d'ora avante em seu theatro o nosso 
comediographo quinhentista. De si para si, o escriptor pen- 
sará ter realizado um progresso, porque alargou o alcance 
chronologico e espacial do seu theatro, podendo agora abar- 
car um mais vasto e variado quadro, excitando mais viva- 
mente a attenção do seu publico, já muito habituado a 
pequenos quadrinhos. E todavia o theatro clássico e o 
moderno, que o imitava, realizaram a sua evolução em sen- 
tido opposto, caminhando cada vez mais appressadamente 
para a reducção dos lugares, para a limitação do tempo e 
para a concentração da acção, chegando á severidade da 
regra das três unidades: uma só acção decorrida em vinte e 
quatro horas e sobre o mesmo lugar. Nunca se exaggerará 
o benéfico papel desta theoria no desenvolvimento do theatro 
clássico francês, como também nunca será de boa prudência 
esquecer o seu papel coercivo sobre a liberdade dos escripto- 
res. Mas o que é indubitável é que as coacções dessa theoria 
foram o agente principal que conduziu o theatro de enredo, 
em que as personagens eram simples instrumentos do entre- 
cho, ao theatro moral, em que as personagens moralmente 
definidas é que conduziam esse enredo. Bem merecem da 
posteridade o Conde de Cramail, o cardeal de La Valette, 
Mairet, Chapei aio, o P. e d'Aubignac e Richelieu pelo papel 



84 Historia da Litteratura Clássica 

que tiveram na adopção da theoria das unidades no theatro 
francês. O génio inventivo de Gil Vicente e o conhecimento 
da sua própria arte levá-lo-hão á unidade de acção, mas 
desconhecerá sempre a de lugar e-ade tempo, como verifi- 
caremos já na sua obra prima, Ignez Pereira, de 1523. 

A esta peça chegou Gil Vicente logo depois de duas 
obras, sem originalidade: as Cortes de Júpiter, lisonjaria cor- 
tesanesca em favor da Infanta D. Beatriz de Saboya, onde 
uma vez mais se misturam o maravilhoso christão e o pagão, 
mas este subordinado áquelle, como era próprio de bom 
christão, e com personificações de entidades abstractas; 
e a Farsa das Ciganas, um quadro descriptivo de costumes 
dos ciganos. Porem, sob o estimulo da emulação, o drama- 
turgo compõe a Ignez Pereira. Na rubrica da própria peça, 
brevemente, elle próprio nos conta a origem delia; O seu 
argumento he que, porquanto duvidavão certos homens de òotn saber, 
se o Autor fazia de si mesmo estas obras, ou se as furtava de 
outros autores, lhe derão este thema sobre que fizesse: s. hum 
exemplo commum que dizem: Mais quero asno que me leve, 
que cavallo que me derrube. E sobre este motivo se fez esta 
farça». Com genial habilidade se sahiu o poeta que nesta 
peça ostentou todos os seus melhores dotes: o seu cómico 
ordinariamente grosseiro e licencioso attenuou-se em justa 
proporção, passando a ser mais o necessário effeito das 
situações que um deliberado intento, á custa do abuso de 
liberdade de linguagem e da aravia praguenta e extrava- 
gante do populacho; eliminou dentre os figurantes as perso- 
nificações e os svmboios, só tomando reaes personagens ; 
excluiu da acção quanto não fosse em convergência do effeito 
visado. E o êxito foi completo. 

Ignez Pereira, filha duma mulher do povo e pobre, 
ansiava por um casamento que a libertasse da sua condição, 
vivia no devaneio ocioso e na espectativa dum marido 
fidalgo, elegante e prendado, que a divertisse e a dispensasse 
da dura necessidade das occupações grosseiras. Por isso 



Historia da Litteratura Clássica 85 

repudia um pretendente da sua classe, um lavrador abastado, 
mas atoleimado, risível. Fazendo a experiência desse casa- 
mento, vive vida cruel de prisioneira e em privações até ao 
momento em que a liberta a morte do fidalgo, seu marido, 
em cobarde situação. Essa lição da experiência, como o 
cavallo que derruba, fez-lhe ver quanto fora mais sensato 
haver preferido o marido fraco e rico, o asno que leva, tão 
asno que ella pôde á vista delle concertar uma entrevista 
com um seu antigo pretendente, tão asno que é elle mesmo 
que a essa entrevista a conduz, ao collo. No tempo de Gil 
Vicente ninguém poderia ter feito melhor. Certo é que se 
sente que os caracteres precisavam de maior relevo, a pol- 
tranice do escudeiro primeiro marido e a sua prepotência 
precisavam mais estadeadas, como também mais documen- 
tada a boçalidade larvada de Pêro Marques, segundo ma- 
rido. E Gil Vicente poderia te-lo feito, a avaliar pela docu- 
mentação que nos deu de Leonor Vaz, figurante da mesma 
peça, a que vindo falar a Ignez Pereira e sua mãe do casa- 
mento, antes conta toda offegante, mais lisonjeada que 
offendida, o assalto dum clérigo libidinoso, no caminho. 
O dialogo é seguido e naturalmente fluente, sem certa 
tibieza, que noutras peças notamos, e que determinam sus- 
pensões de expressão, e a acção é una; o casamento de 
Ignez Pereira, sem episódios que perturbem essa unidade, 
visto que o episodio do clérigo existe só na narrativa de 
Leonor Vaz e serve para pintar o seu caracter. A juxtapo- 
sição de lugares muito afastados e a successão rápida de 
acontecimentos muito distantes no tempo são aqui muito 
praticados, claramente mostrando que era um processo novo, 
de que Gil Vicente usava como dum novo recurso, que lhe 
permittia abarcar muito dilatados limites. O processo, poste- 
riormente muito usado, com o maior êxito ou com a máxima 
infelicidade, de supprir essa necessidade de muitos lugares 
e grande espaço de tempo pela narrativa dentro da conversa 
entre personagens e até um pouco — não muito legitima- 



86 Historia da Liíteratura Clássica 

mente — peia aclaração do prologo, não o conheceu Gil 
Vicente em toda a sua amplitude, se bem que delle usasse 
alguma vez. O theatro vicentino é uma successão de pre- 
sentes, è o desfilar de quadros chronológicamente grupados. 
Na Ignez Pereira, temos os vários quadros em successão: — 
I: A vida de Ignez Pereira, em solteira, com sua mãe. 
— II: Conselhos de Leonor Vaz para que case. — III: Apre- 
senta-se Pêro Marques. —IV: Apresenta se o escudeiro.— 
V: Vida de Ignez Pereira casada com o escudeiro. — VI: Vida 
de Ignez Pereira, viuva. VII: Vida de Ignez Pereira casada 
com Pêro Marques. Daqui resulta a obrigada brevidade dos 
quadros, as bruscas metamorphoses da acção, a variedade 
dos lugares e a inverosimilhança. Lembremo-nos de que 
Gil Vicente, exceptuando as Barcas e a Comedia de Rubena, 
não usou a divisão em actos, o que aggravava este defeito. 
Assim, num acto único da Ignez Pereira, temos á vista, sobre 
a mesma scena, a casa de Ignez, a rua e um rio; em rápidos 
momentos se casa Ignez, parte o escudeiro para a Africa e 
é morto próximo de Arzilia, enviuva Ignez e de novo casa. 
Mas, como já dissemos, Gil Vicente também usou o pro- 
cesso indirecto : é pela narrativa de Leonor Vaz, que sabe- 
mos da sua aventura com o clérigo e é por uma carta que 
sabemos da morte do escudeiro. Não nos fez assistir a estes 
dois episódios por virtude do seu fito de não se distrahir da 
acção. Doutro modo procederia um auctor moderno, que 
aproveitasse a lição da longa historia do theatro : de toda a 
acção, faria presente apenas uma phase, a ultima; todas as 
antecedentes as conheceríamos de modo indirecto. 

O Auto Pastoril Português, também de 1523, é a repeti- 
ção do seu primeiro theatro religioso; tem a mais o prologo, 
um pequeno thema profano dum casal de pastores que se 
julga mal casado, e termina pela adoração da Virgem. 
A Fragoa de Amor, de 1524, mistura o intuito de lisonjear a 
futura rainha D. Catharina, com uma descripção represen- 
tada do magico poder transformador do Amor. O intuito de 



Historia da Litteratura Ciai 87 



um castello, cujas torres, fortalezas e defesas são as virtudes 
moraes e ao qual conquista o rei D. João III. A meio da 
peça opera-se uma metamorphose, que dá começo ao segundo 
intuito. Gil Vicente no-la descreve na seguinte rubrica: 
« Em este p:\sso foi posto hum muito formoso castello, e 
abrio se a porta delle, e sahirão de dentro quatro galantes 
em trajo de caldeireiros, com, cada hum, sua Serrana muito 
louçan pela mão, e elles mui ricamente ataviados, cubertos 
d'estrellas, porque figurão quatro Planetas, e ellas os gozos 
d'amor; e cada hum delles traz seu martello muito faça- 
nhoso, e todos dourados e prateados, e huma muito grande 
e formosa fragoa, e o Deos Cupido por Capitão d'elles: e 
estas Serranas trazem cada hua sua tenaz do teor dos mar- 
teilcs, para servirem quando lavrar a fragoa d'amor. E assi 
sahirão do dito Castello com sua musica, e acabando fazem 
o razoamento seguinte, para declaração do significado das 
ditas figuras, e cada Planeta falia com sua Serrana». As ser- 
ranas enumeram a seguir os prazeres do amor, honesta e 
christãmente considerados, e trabalhando depois na forja do 
amor demonstram o seu condão transformador fazendo trans- 
mudar em gentil homem branco um negro da Guiné e endi- 
reitar e aformosear uma velha torta que representava a jus- 
tiça. A metamorphose da justiça faz-se por meio duma 
depuração moral, symbolizada no apparecimento dos obje- 
ctos dados em suborno, que a forja expelle. Esta peça é, 
pois, mantendo ainda a ordinária philosophia pessimista e 
moralista de Gil Vicente, uma verdadeira magica. E magi- 
cas são as restantes tragi-comedias, com suas bruscas meta- 
morphoses de personagens, seus inesperados apparecimentos 
e desapparecimentos de edifícios e objectos, sua mistura 
hybrida de personagens sobre-naturaes, symbolicas e simples 
typos pessoaes, e ainda com a curiosa forma de compor, 
que consiste em fazer desfilar uma galeria de personagens 
ephemeras perante algumas poucas, que permanecem. Geral- 



88 Historia da Litteratura Clássica 

mente as que passam, param um momento e desapparecem 
são as de concreta e pessoal representação, e as que perma- 
necem são symbolos. mythos ou personificações. 

Gil Vicente também sacrificou á moda dos romances de 
cavallarias, extrahindo do Amadis de Gania e do Palmeirim de 
Inglaterra, sua continuação, duas tragi-comedias, D. Duardos, 
de 1525, e Amadis de Gaula, de 1533. Estas datas são as das 
representações, taes como as rubricas consignam, mas de 
crer é que a segunda não distasse tanto da primeira. 

D. Duardos foi extraindo do segundo livro do Palmeirim, 
publicado em i5ió e 1524; o Amadis do romance do mesmo 
nome de que corria a edição de 1508, de Montalvo. Ambas 
as tragi-comedias são em castelhano completamente. Seria 
curioso ver a economia delias, na passagem dos intrincados 
romances de aventuras para a sua dramatização. Neste par- 
ticular, Amadis de Gaula accusa progresso importante sobre 
D. Duardos, onde nem sempre se fez a eliminação do que 
nao era essencial e que é por isso a obra mais longa e de 
mais moroso andamento de Gil Vicente. Mas como que a 
resgatar esse vicio contra a arte dramática possuem a vir- 
tude poética, attestada nas formosas peças lyricas que con- 
tém, canções pujantes de sentimento c imagens. 

O Juiz da Beira é uma caricatura dum juiz de paz, das 
aldeias, encabeçada era Pêro Marques, o tolerante marido 
de Ignez Pereira, já nosso conhecido. Assistimos a uma au- 
diência, ao ar livre, ern que Pêro Marques julga vários 
casos picarescos, já pelo género da querella, já pelo modo 
de sentenciar. O escudeiro pobre e fanfarrão, em desavença 
com o creado a quem não paga e mal alimenta, e a alcoveta 
tornam a appare.cer, como typos dilectos para a satyra de 
Gil Vicente. Não é esta peça uma continuação da Ignez Pe- 
reira, como se tem affirmado, porque, com ella apenas tem 
de commum ser seu protagonista Pêro Marques, marido de 
Ignez, já por nós tido como um rústico, que sendo cómico 
marido, a caracter o achariamos a sentenciar comicamente 



Historia da Litteratura Clássica 89 

em casos cómicos. O mesmo intuito de descripção cómica 
domina a farsa do Clérigo da Beira, região a que se attribuia 
toda a vis cómica do paiz. Mas no Clérigo da Beira, como no 
Auto das Fadas já anteriormente alludido, esse intuito de 
descripção cómica é accrescido de referencias pessoaes que 
temperavam a peça duma, para o tempo, deliciosa curiosi- 
dade: ao dialogo entre um clérigo da Beira e seu filho, ás 
rezas das matinas venatóriamente commentadas, succede-se 
o caso dum roubo de peças de caça descoberto por Cecilia, 
uma possessa «em que dizião que fallava hum Pedreanes>, 
segundo a crença popular. Esta Cecilia, que descobre o 
furto, satisfaz também outras curiosidades respeitantes a 
certos espectadores : 

Porque por astrolomia 
Conheço os seus nascimentos. 
E pola filosomia 
Sei todolos pensamentos 
Que trazem na fantesia. 

E faz em seguida revelações galantes sobre o Conde de 
Penella, «o mór namorado de Portugal e Castella », do em- 
baixador do imperador Carlos v, do vedor, do Conde de 
Marialva, Vasco de Foes, Affonso de Albuquerque, Jorge 
de Mello, Gaspar Gonçalves e Pedreanes. Nesta farsa os 
três episódios são muito extensos até á prolixidade e tor- 
nam a acção muito arrastada ; qualquer dos episódios podia, 
de per si, fornecer assumpto para uma peça independente, 
mas subsistindo os três era necessário abreviá-los e estreitar 
o nexo que os unia. Nesta farsa do Clérigo da Beira ha uma 
passagem, que uma vez mais evidencia aquelle defeito já 
referido da precipitação dos acontecimentos : o filho do clé- 
rigo anda uma légua até á casa, onde estava guardada uma 
furôa, e regressa percorrendo a mesma légua emquanto o 
pae monologa os versos, comprehendidos nas seguintes ru- 
bricas : 



90 Historia da Lille? atura Clássica 

< (Vai o moço pela f uiva e fica o Clérigo entre si dizendo:) 

Cl cr. — Medraria este rapaz 

Na corte mais que ninguém, 
Porque lá não fazem bem 
Senão a quem menos faz. 
Outras manhas tem assaz, 
Cada húa muito bôa : 

Nunca diz bem de pessoa, 
Nem verdade nunca a traz. 
Mexerica que por nada 
Revolverá San Francisco ; 
Que pêra a Corte é hum visco, 
Que caça toda a manada. 
[ J r em o filho cor.i a furôa e diz :) 

Do mesmo armo do Juis da Beira, 1525, deve ser o 
Jubileu de Amores, auto bilingue perdido, mas que se sabe 
haver sido representado em Portugal entre os annos de 
1525 e 153 1 e repetido neste ultimo anno, em Dezembro, 
em Bruxellas, em casa do Embaixador de Portugal, D. Pe- 
dro de Mascarenhas, nas festas com que este solemnizou o 
nascimento do príncipe D. Manuel. Apenas se conservaram 
testemunhos da irreverência do poeta contra o clero e dos 
applausos hilariantes que suscitara. (*) 

O Templo do Apollo é uma adulação gentil á Infanta 
D. Izabel, irmã de João 111, que partia para se casar com o 
Imperador Carlos V, com personificações e allegorias a par 
de personagens communs que praticam o mais chão rea- 
lismo, como o desse romeiro que antes de entrar no Templo- 
do Apollo, cospe para o lado e diz o por que o faz. É a 



(1) Este episodio da vida litteraria de Gil Vicente foi illustrado 
com muitas noticias novas pela sr. a D. Carolina Michaêlis de Vasconcel- 
los nas suas Notas Vicentinas, í — Gil Vicente em Bruxellas ou o Jubi- 
leu de Amor, publ. na Revista da Universidade de Coimbra, vol. i.-o, 
n.° 2, Coimbra, 1912. 



Historia da Litteratura Clássica 91 

Apollo que os romeiros de Carlos v e sua mulher pedem 
auxilio para vencerem os pagãos. A tragi-comedia tem um 
prologo pelo auctor que apresenta o argumento, particulari- 
dade que daqui em deante mais se repetirá. 

Os annos de 1527 e 1528 parece terem sido os mais fe- 
cundos do poeta, já porque fossem mais repetidas as sollicita- 
ções da corte, já porque Gil Vicente se sentisse no seu mo« 
mento de mais prompta e fácil productividade. São desses 
annos : a Serra da Estrella, pittoresca peça, em que elogia calo- 
rosamente a serra, onde decorre, em meio pastoril, o seu 
pequeno e simples entrecho ; a Nau de Amores, cuja com- 
posição é semelhante á das Barcas e igualmente de grande 
effeito ; o Auto da Feira, mixto de moralidade e de peça de 
costumes, onde se contêm algumas invectivas severas con- 
tra a cúria romana (*); o Brazão da cidade de Coimbra, inter- 
pretação e correcção do brazão da cidade, provavelmente 
segundo tradições locaes; e finalmente os dois mysterios 
sobre a Historia de Deus e a Resurreição, dos quaes o pri- 
meiro tem verdadeira inspiração lyrica, principalmente 
nos lamentos de Job. A primeira parte é uma descripção, 
fiel á narrativa bíblica, apenas vivificada peio dialogo e pelo 
lyrismo pessimista que lhe communicou Gil Vicente : a 
segunda, talvez incompleta, reduz-se á conversa de al- 
guns judeus incrédulos. Possível é até que só isso o poeta 
tivesse querido fazer, pois ao menos o titulo executou-o 
completamente : Dialogo sobre a resurreição entre os judeus. 



(1) Alguns auetores, especialmente o sr. Th. Braga e a sr. a D. Ca- 
rolina Michaélis de Vasconcellos, têm attribuido a Gil Vicente intuitos de 
heterodoxia religiosa, fazendo-o precursor de Erasmo e Luthero. Con- 
tra essa attribuição protestou o sr. Fortunato de Almeida na sua Histo- 
ria da Igreja em Portugal tomo 8.", parte 2.a, Coimbra, '1915-19 [7, 
pag. 119-126. Affigura-se-nos mais razoável a interpretação que eate 
auctor dá ás irreverências do poeta cómico. 



02 Historia da Litteraiura Clássica 

As peças que se seguem não trazem progresso apreciá- 
vel á evolução artistica do escriptor. 

Durante trinta e quatro annos, com fecundidade varia, 
mas sempre com seguro êxito, Gil Vicente divertiu a corte 
portuguesa, em Lisboa, em Coimbra, Évora, Santarém, Al- 
meirim, por toda a parte aonde os cuidados da administra- 
ção, o desejo de distracção e as fugidas ás epidemias levaram 
os reis a estancear. Comsigo levava Gil Vicente, com seu 
génio, não só a alegria descuidada, mas também verdadeiro 
poder de cultura artistica, de que se tornava centro e pre- 
texto, pois para a enscenação dos seus autos era necessário 
congregar actores, músicos, caracterização, scenographia, 
posto que rudimentar, e ma.is ainda porque elles faziam 
meditar os seus espectadores no sentido transcendente das 
suas obras. Gil Vicente era um poeta essencialmente christão 
e as suas obras representam a visão da vida e da sociedade 
do seu tempo, através de olhos de artista christão e mora- 
lista, que tem sempre presente a rápida caducidade das 
obras humanas, quanto é finita a vida terrena, quanto é 
frágil a argilla humana, porque muito vivamente sente tam- 
bém a bemaventurança da vida eterna, que aos justos 
aguarda, e a cada passo vê sobre si postos e sobre esses 
que descuidosos se abandonam á vida peccadora os olhos 
omnividentes de Deus, que tudo devassam e inquirem. Em 
muitas das suas obras, numas pelo sentido, noutras pelas 
personagens, noutras pelas estancias lyricas do poeta e nou- 
tras ainda pela própria disposição do tablado — são estas as 
mais grosseiras — simultaneamente se entrevem dois mundos, 
o finito e o infinito, simultaneidade que evidencia a certeza 
permanente da continuidade da vida para alem da morte. 
Nós hoje, homens do século xx, impregnados de materia- 
lismo e naturalismo, temos grande difnculdade em compre- 
hender esta convicção da longevidade do Bem, da vida 
transcendente aiêm do seu terreno limite e todo o thesouro 
immenso de sentimentos que delia brotavam. Não fazemos 



Historia da Litteratura Clássica 93 

coisas grandes, porque para as fazer é .necessário muito 
tempo e a vida não chega para as vermos concluídas, temos 
sempre ante nós a consciência do fim próximo, e se essa 
certeza deixa de ser serena e calma, é para ainda se per- 
turbar com a perspectiva dum fim antecipado. Não vale 
a pena principiar, porque não chegaremos ao fim ; por isso 
nada de grande se principia. O maior problema da philoso- 
phia moral, o illudir esta certeza do fim, temo-lo nós pen- 
dente, porque pusemos de lado todas as soluções que a 
religião e o espiritualismo nos propuseram, avaliando essas 
soluções não pela sua efficacidade determinante, mas por 
um mesquinho cotejo com a fria razão. Por isso se abriu 
esse vácuo, por isso a vida é sempre mais curta e cada vez 
mais estéril. Não era assim no tempo de Gil Vicente, e essa 
certeza da compensação da brevidade da vida terrena pela 
continuidade do alem é eloquentemente expressada no seu 
theatro, todo palpitante dum sopro metaphysico. A outra 
vida é-lhe tão familiar, tão certa e segura, que por ella já 
entram elle e as suas personagens, que delia vêm ao tablado 
os que lá desfructam a eterna paz dos eleitos. E como o 
descanso em Deus era a recompensa da fadiga do mundo, 
como esta fadiga era o preço necessário daquelle descanso, 
as suas personagens afadigam-se buliçosamente, batalhando 
pela religião e pelo rei, pela gloria e pela fama, pelo amor 
e pela formusura. Isto fazem as suas personagens symbolicas, 
os cavalleiros da cruz, de seu especial respeito, todos os 
justos e esforçados que collaboram nas grandes empresas 
do grande século da historia portuguesa. Ao lado delles, 
em grande numero e em pungente contraste, pululam os 
pastores grosseiros e sensuais ou ingénuos crentes, os fidal- 
gotes ostentadores, as raparigas pobres e pretensiosas, as 
alcouvetas, os poderosos do mundo, orgulhosos e tyrannos, 
os maus clérigos, os parvos. É por ser a sua visão do mundo 
tão amplamente comprehensiva, com seus districtos a 
penetrarem-se reciprocamente, que o theatro vicentino é tão 



94 Historia da Li f terá fura Clássica 

inextricavelmen te mixto, emmaranhadamente confuso dos mais 
dispares e inconciliáveis géneros dramáticos: ao lado do 
mais alado idealismo religioso ou lyrico o mais chão rea- 
lismo, -a par de figuras transcendentes de pureza os grossei- 
ros villãos, dialogando com figuras que são materializações 
de virtudes, de idéas abstractas ou sentimentos, Satanaz e 
Mercúrio e um parvo... Ao tom alto da grandiloquencia, 
á máxima gravidade própria do theatro dum povo ufano de 
tão grandes cinprehendimentos levados a cabo, casa-se sem- 
pre o baixo tom cómico, o mais baixo tom cómico, o bur- 
lesco ; os dois poios do sublime e do ridículo a par. 

O cómico vicentino é como todos os effeitos cómicos 
um contraste, mas um contraste extremamente pictórico, 
não é o das boas respostas, boas sahidas de difficeis situa- 
ções — contraste entre o enigma que se preparava e o modo 
prompto por que é desfeito — é o contraste entre a mediania 
corrente e natural e a expansão proposital da ínfima 
mediocridade. Queremos dizer: as personagens cómicas de 
Gil Vicente cornprazem-se, gozam do próprio cómico, de se 
mostrarem infimamente grosseiras e boçaes, voluntariamente 
se confinando no seu eu miserável : os parvos muito parvos, 
as bruxas muito disparatadas na sua aravía, Pêro Vaz, como 
noivo e juiz estúpido, procurando requintar a sua própria 
estupidez, orgulhosos da pobreza de espirito, dos trapos 
andrajosos e da situação social que todos desdenham. A. este 
cómico chamamos nós burlesco, um pouco como o cómico 
carnavalesco dos que, de alma grosseira e medíocre intelli- 
gencia, comprehendem o Carnaval como um rápido período 
de liberdade e irresponsabilidade em que possam ser abso- 
lutamente elles, subjectivamente se revelarem como são. 
Este cómico é todo de effeito externo, não vem do contraste 
entre os factos e a significação excessiva, que se lhes attri- 
bue como o de D. Quixote, este cómico participa da bobice 
medieval e tem de lançar meio de toda a apparencia externa 
que o auxilie, a qualidade de parvo, a situação de quem tem 



Historia da Litteratura Clássica 95 

medo, os trocadilhos da phrase, a grossaria obscura de per- 
sonagens taes corno regateiras, peixeiras, negros, ferreiros, 
mendigos, ciganos, creadas, um padeiro, um sapateiro e os 
parvos. O Pranto de Maria Parda, a fala de Mercúrio á frente 
do Auto da Feira, o medo do escudeiro na Farsa de quem tem 
farelos, o medo do pastor que ouve a mulher no Auto da 
Feira, todas as aravías e exorcismos das bruxas e dos tolos, 
a gala que o diabo faz da própria maldade garota, Pêro Vaz 
na Ig?iez Pereira e no Juiz da Beira, são exemplos do burlesco 
vicentino. Ha felizmente outros cómicos, de contrastes mais 
suaves : a paixão serôdia do Velho da Horta, a cólera e o 
desdém irrespeitoso, no dialogo entre pae e filho no Clérigo 
da Beira, a mentira na narrativa do encontro com o clérigo 
curioso, que faz Leonor Vaz na Ignez Pereira, a grossaria 
desilludida do creado e a fanfarronada do escudeiro pobre 
na mesma Ignez Pereira, e também cómico triste, de mais 
profundo sentido, como no episodio da Mofina Mendes e no 
dialogo entre Todo o mundo e Ninguém. 

Gil Vicente teve continuadores que tomaram a sua 
forma dramática do auto, assim mixta e confusa, e a immo- 
bilizaram ('). Em Lisboa, na província e nas colónias, no 
século XVI e depois, se representaram os autos de Affonso 
Alvares, Ribeiro Chiado, António Prestes, o neto do creador. 
Gil Vicente de Almeida, Balthazar Dias, Luiz de Camões e 
outros auetores. Nenhum gozou o favor, que na corte des- 
fruetou o auetor da Igncz Pereira, como nenhum teve o 
génio dramático deste, a sua inspiração lyrica, a sua origi- 
nalidade de vistas e a sua capacidade critica social. Outro 
foi, pois, o publico destes seus continuadores, foi o povo 
rude e grosseiro, sem educação esthetica, o qual quando 



(') Occupamo-ncs deste aspecto do theatro na Historia da Litte 
ratara Clássica [2* Epocha: ijXo-ijjó). 



96 Historia da Litteratura Clássica 

acudia aos coitos ou pateos de comedias só procurava a 
satisfação da sua sede de cómico desopilante ou a enscena- 
ção barbara dos mysterios religiosos. Alguns fidalgos mais 
cultos, .que ahi occorressem dissimuladamente, nenhum in- 
fluxo poderiam exercer. Tudo isto fez que o auto estagnasse 
na servil imitação da obra de Gil Vicente, ao qual só se ia 
pedir suggestão de themas burlescos, o hilariante cómico do 
gosto popular, e os exemplos dos mysterios postos em scena 
— essa forma de theatro, já revelha, já caduca perante novas 
formas tomadas das letras clássicas. O que salva o theatro 
vicentino é a alta individualidade do poeta, porque as suas 
formas dramáticas eram, pela sua própria grossaria e indiffe- 
renciação, mixto cahotico dos mais heterogéneos elementos, 
condemnadas a uma morte immediata, se outros espiritos 
creadores lhes não imprimissem movimento e não continuas- 
sem a evolução differenciadora indispensável ao progresso dos 
géneros litterarios e que já no theatro vicentino observá- 
mos. Pastoral dramática, mysterio religioso, theatro de caval- 
larias e algum theatro de costumes, tudo envolto na maravi- 
lha e acanhado na sua rudimentar composição não são 
formas de theatro para perdurar, contêm já em si o 
próprio factor da morte; são pontos de partida para uma 
seguida evolução, mas se se immobilizarem em formas crys- 
tallizadas morrem. Ora o theatro vicentino não morreu, mas 
seguiu destino que para a nossa interpretação é equiva- 
lente: exaggerou os seus próprios defeitos e assim mais 
grosseiro sumiu-se para a litteratura popular, onde tem 
vivido da própria grossaria e insignificância esthetica (% 



( l ) Este phenomeno, que é tão plenamente explicável e cuja in- 
terpretação justa não pôde deixar de ser a que tem caracter condemna- 
tório, foi descripto e julgado do modo seguinte pelo sr. Th. Braga. «Os 
elementos tradicionaes e populares do theatro português a que Gil 
Vicente deu forma litteraria foram a primeira condição para a estabili- 
dade da sua obra; porém, como um génio synthetico, comprehendendo 



Historia da IAtter atura Clássica 97 

No final desta obra, na conclusão apresentaremos das causas 
deste phenomeno a parte social, mais concreta e provável. 
Como exemplificação da doutrina, que acabamos de 
expor, bastará a leitura de algumas peças dos dois princi- 
paes continuadores de Gil Vicente ; António Prestes Q) e 
António rlibeiro Chiado ( 2 ). Dos autos de Camões fallaremos 
no capitulo a elle consagrado. A analyse da estructura 
interna das obras dos continuadores mostrar- nos-ha matéria 
vicentina sem as boas qualidades do auctor da trilogia das 
Barcas. O progresso da forma dramática do auto havia de 
fazer-se fora da lingua portuguesa, em Hespanha, no século 
immediato. 



a transição da Edade média para a Renascença, amando e servindo o 
futuro sem renegar o passado, essa obra tornou-se a expressão das ne- 
cessidades moraes da sociedade portuguesa, encantou os espíritos pela 
sua belleza artística, exerceu uma influencia profunda no successivo 
desenvolvimento da Litteratura dramática ». (V. Escola de Gil Vicente 
e o desenvolvimento do thcatro nacional, pag. 5). 

(') V. O Auto da Ave Maria, Lisboa, 1889, edição da Bibliotheca 
Universal Antiga e Moderna, 131 pags. ; comprehende também o Auto 
dos Cantar inhos. 

(*) V. Obras do Poeta Chiado, colligidas, annotadas e prefaciadas 
por Alberto Pimentel, Lisboa, 1889, 248 pags. 

H. da L. Clássica, vol. I.« 7 



CAPITULO II 

SA DE MIRANDA 
A VIDA 

Francisco de Sá de Miranda nasceu em 1485 ( l ) na 
cidade de Coimbra, a «antiga e nobre cidade > no seu dizer, 
fiiho do cónego Gonçalo Mendes de Sá, que mais tarde 
cbteve a sua legitimarão. A família dos Sás pertencia á 
antiga nebreza do reino e assignalára-se já por alguns mem- 
bros illustres e também por outros de ingrata recordação. 
A larga e emmaranhada copa da sua arvore genealógica 
attribuia-lhe parentes também em Hespanha e em Itália. 
Dos seus parentes castelhanos seria o poeta Garcilaso de la 
Vega o que mais desvaneceria o nosso reformador, como 
parece confirmar-se por suas próprias palavras, na peça de 
dedicatória da écloga Nemoroso. commemorativa da morte 
daquelle poeta castelhano. E dos seus parentes italianos 
seria a escriptora Vittoria Colonna, igualmente, quem mais 
o lisonjearia com sua consaguinidade e amistosa disposição 
— que o próprio poeta frequentou e cultivou, quando fez a 
sua famosa e fecunda viagem á Itália. 



(') V. D. Carolina Michaêlis de Vasconcellos, magistral estudo 
biograpH:o de Sá de Miranda, que acompanha a edição critica das 
Poesias, e Sousa Viterbo, Estudos sobre Sá de Miranda, vols. 42. e 
43. do Instituto, Coimbra, 1895 e 1896. 

* 



100 Historia da Idtter atura Clássica 

Ignora-se todo o período da sua vida que decorre até á 
adolescência, qual fosse a sua educação, a sua convivência e 
se alguns acontecimentos notórios haveriam imprimido em 
seu espirito dessas impressões indeléveis, de tão determi- 
nante influencia na formação da consciência dum artista. 
Julga-se que em Buarcos passara a sua primeira infância, 
junto do seu avô paterno João Gonçalves de Miranda. Se o 
exemplar das epopêas homéricas annotado por Sá de Mi- 
randa, que o anonymo auctor da Vida, que precede a i. a edi- 
ção de suas obras, disse existir ainda em 15 84 em poder 
dum fidalgo da Beira Alta, Gonçalo da Fonseca de Castro 
— se tal exemplar pudesse ser referido á adolescência do 
poe.a, affbitariamos a conjectura de que o poeta se familiari- 
zara com as letras clássicas, muito antes da sua viagem. 
Demais, esse elemento de informação apenas viria confirmar 
o que é uma muito verosímil hypothese. A esse tempo eram 
bem conhecidos os nomes primaciaes das boas letras da 
antiguidade; encontramo-los citados pelos auctores e descri- 
ptos nos inventários das bibliothecas. E de facto, só por 
esse prévio conhecimento e pela noticia da effervescencia 
litteraria, que em Itália occorria, se comprehenderia que o 
poeta se aventurasse a essa viagem. 

Em Lisboa frequentou a Universidade, concluindo a sua 
formatura de leis e ingressando naquella escola como pro- 
fessor. Isto deve ter occorrido depois de 15 16, data em que 
apparece nomeado com o titulo de doutor. Não quiz, porém, 
seguir a carreira das leis, abandonou o ensino e recusou 
lugares ofRciaes para se retirar e devotar ao «estudo da 
Philosophia Moral e Estoyca a que sua natureza o incli- 
nava» — diz o seu anonymo e sempre útil biographo. 

A Universidade, então com sede em Lisboa desde que 
em 1384 para aqui fora transferida por D. João 1, recebera 
de D. Manuel I importantes elementos de progresso : casas 
novas, augmento dos vencimentos do seu pessoal e um novo 
estatuto, outorgado em 1504, cujo plano de estudos era 



Historia da Litteratura Clássica 101 

mais vasto que o anterior. Nelle se consignava o ensino de 
theologia, de cânones, de philosophia natural, de philoso- 
phia moral, de leis, de medicina, de lógica e de grammatica, 
distribuído por cadeiras de prima, de terça e de véspera — 
designações estas tomadas das horas canónicas, em que as 
aulas se realizavam. Estes estudos, tão summariamente co- 
nhecidos hoje, seguiu-os Sá de Miranda, mas não nos é 
possível saber o que de litterario e clássico se contivesse 
nesse quadro, para presumir a parte que na sua deliberação 
de ir a Itália pudesse ter tido a aprendizagem escolar. 

Por esse tempo frequentou o poeta a corte de D. Ma- 
nuel I. onde se realizavam serões, que pela sua opulência 
e elegância se tornaram famosos. A elles assistiam os poe- 
tas do tempo, nelles exhibia Gil Vicente os seus autos. No 
Cancioneiro Geral, colleccionado por Garcia de Rezende e 
publicado em 151 6, figura o nome de Sá de Miranda entre 
os muitos que preenchem aquella obra. Alguns destes aucto- 
res teriam ainda sido do conhecimento do poeta, que che- 
gava á corte quando alguns delles se retiravam pela velhice 
ou arrebatados pela morte. De taes serões no paço da Ri- 
beira e em outros muitos lugares, por onde a corte transi- 
tou e estanceou, conservou Sá de Miranda uma grata recor- 
dação, que confessou quando a mais larga e mais intelligente 
comprehensão da belleza e do ideal clássico o faziam lasti- 
mar o desapparecimento dessa atmosphera de elegância, de 
luxo e bom gosto tão idónea para fazer desenvolver e fru- 
ctificar os ambiciosos sonhos litterarios, que lhe enchiam o 
espirito : 

Os momos, os serãos de Portugal, 

Tam falados no mundo, onde são idos? 

E as graças temperadas do seu sal? 

Dos motes o primor, e altos sentidos? 

Uns ditos delicados cortesãos. 

Que é delles? Quem lhes dá somente ouvidos? 



102 Historia da Litter atura Clássica 

Não era a taciturna corte de D. João iii o meio mais 
propicio para fecundar planos litterarios, dessa mundana 
arte litteraria do renascimento que elevou o amor a primeiro 
thema e á mulher dignificou como suprema inspiradora. 
O mercantilismo, que para as empresas ultramarinas impel- 
lia a nobreza, e os sustos e cautelas, que o estabelecimento 
do tribunal do Santo Ofíicio originava, faziam crear sauda- 
des da corte de D. Manuel I, de quando a índia era ainda 
um ideal heróico e christão. 

Desse lapso de tempo, que alcança até á sua partida 
para o estrangeiro, restam as composições de gosto medie- 
va 1 , cantigas e vilancetes, de que adiante se falará. 

Em 152 1 sahiu de Portugal, levado pela curiosidade de 
observar de perto a actividade litteraria da Itália e talvez, 
como c verosímil, pelo desejo de melhor conhecer o mundo 
e os homens, para mais sabiamente se erguer acima da sua 
ordinária estimação de valores com aquelle philosophico 
scepticismo, a que seu espirito parece haver sido de natural 
tão propenso. Diz o seu primeiro biographo que elle per- 
correu os mais celebres lugares de Hespanha, e com vagar 
e curiosidade Roma, A r eneza, Nápoles, Milão, Florença e o 
melhor da Sicília. Este depoimento é, mais ou menos, confir- 
mado pela confissão do próprio poeta: 

Vi Roma, vi Veneza, vi Milão 

Em tempo de Espanhoes e de Franceses, 

Os jardins de Valença de Aragão 

Em que o amor vive e reina, onde ílorece, 

Por onde tantas rebuçadas vão. 

Este « tempo de hespanhoes e franceses » é o da guerra 
entre Carlos v e Francisco 1, que se feria na Itália, onde 
também teve termo pela decisiva batalha de Pavia. 

Qual era a direcção do intenso movimento litterario, de 
que então palpitava o génio italiano, qual o espirito que o 
dominava, já o dissemos quando na Introducção do presente 



Historia da Ldtteratura Clássica 103 

livro desenhámos a physionomia do renascimento em Itália. 
Foi essa febre de belleza, que Sá de Miranda em flagrante 
surprcíiendeu, e na sua intimidade pôde penetrar graças ás 
facilidades que certo lhe proporcionaria o seu parentesco 
com um dos corypheus desse movimento, Vittoria Colonna. 
Se se relembrarem as predominantes feições do movimento 
litterario da Itália de então e se se lhes accrescentarem as 
do quadro social e as do magnifico esplendor das artes plás- 
ticas, em que culminavam Leonardo de Vinci, Raphael, 
Miguel Angelo, Cellini, teremos reconstituido as impressões 
colhidas por Sá de Miranda — em cujo espirito ellas se or- 
ganizaram -em toda uma esthetica : nova concepção da vida, 
novas aspirações de belleza e novas formas de arte para lhes 
dar expressão, aquelle ideal que delineámos na hitroducção. 

Portador dum ambicioso programma, regressou a Portu- 
gal em 1526, indo acolher-se a uma sua quinta dos arredores 
de Coimbra, donde só sahiu para saudar os reis que áquella 
cidade se abrigavam, fugindo duma peste, que em Lisboa 
grassava. Esse encontro com D. João 111 em Coimbra foi o 
inicio das suas novas relações com a corte, de que ia ser um 
severo censor, que desassombradamente adverte o rei dos 
perigos que antevê. Relacionado com os mais cultos fidalgos 
e os mais talentosos espiritos desse tempo, começa então a 
serena execução do seu programma triplice: acclimar o novo 
gosto litterario, orientar os ensaios dos outros poetas que 
queriam seguir os seus ensinamentos e fazer o que hoje 
chamaríamos critica social. Este triplice programma não 
excluía benévola syrnpathia pelas formas poéticas tradicio- 
naes que já cultivara e que continuaria a exercitar. 

Foi durante a curta estada de D. João 111 em Coimbra, 
em 1527, que Sá de Miranda compôs a sua primeira tenta- 
tiva de theatro clássico, a comedia Os Estrangeiros. 

Entre 1533 e 1534, ou fcsse pelo pendor do seu espirito 
para a tranquilla solidão e porque lhe desagradasse o theor 
de vida que na corte se vivia, tão opposto ao seu modo de 



10 A Historia da Lditi atura Cias m ca 

sentir e ás suas opiniões, ou fosse porque a reacção provo- 
cada no animo dos cortesãos pelas suas censuras se aziumasse 
com as allusões da écloga Aleixo, o poeta retira-se para a 
Commenda das Duas Igrejas, que acabava de receber de 
D. João iii. Essas terras, em que se ia isolar, convizinham 
com o Pico dos Regalados, sobre a margem esquerda do 
rio Neiva, na província do Minho. A belleza da paizagem, 
luxuriante e variada de aspectos, ajustava-se com o estado 
de espirito meditativo do poeta, em cujos sentimentos litte- 
rarios figurava o amor da natureza e em cujo programma se 
incluía o cultivo do bucolismo. Com António Pereira Marra- 
maque, senhor de Basto, nas cercanias das Duas Igrejas, 
lavrador e poeta também curioso do novo movimento de idéas, 
estreitou o poeta relações e permutou trabalhos poéticos. 
E este senhor de Basto um dos destinatários das suas famo- 
sas Cartas. Na leitura, no exercício da musica, na caça e na 
conversa, na qual segundo o seu anonymo biographo foi de 
raro e suggestivo encanto, passou Sá de Miranda esse 
tempo, até que a partida de António Basto para a corte ou 
para Coimbra, com toda sua família, pôs rim a esse fraternal 
convívio. Depois da partida de Basto, o poeta transferiu-se 
para a Quinta da Tapada, que alli possuía talvez já ante- 
riormente á Commenda das Duas Igrejas e que talvez hou- 
vesse sido a causa de haver sollicitado do rei D. João iii a 
doação dessa Commenda, tão distante da sua terra natal. 
Pouco depois, em 1536, casou com D. Briolanj a de Aze- 
vedo, senhora da nobreza local, com que o poeta iniciara 
convivência. Era D. Briolanja irmã de Manuel Machado, 
senhor das terras de Entre-Homem e Cavado e opulento de 
haveres. Desde então, sem descontinuar os seus fervorosos 
estudos litterarios, Sá de Miranda attrahe a sua casa amigos 
e admiradores que generosamente acolhe, formando no seu 
retiro já pela afBuencia dos visitantes, já pela correspondên- 
cia que mantinha, uma pequena corte litteraria. Vêm 
depois os filhos e os cuidados da sua educação, em que 



Historia da Litteratura Clássica 105 

desveladamente se esmera. De 1538, segundo se julga, é o 
seu segundo ensaio dramático, Vilhalpandcs , que o Cardeal 
Infante D. Henrique honrou com a sua estima. Em 155 1, o 
principe D. João, mallogrado herdeiro do throno, pae de 
D. Sebastião, mandou-lhe pedir os seus versos — o que era en- 
tão um supremo signalde apreço. Em 1553» soffreu o desgosto 
de perder em Ceuta seu filho mais velho, Gonçalo Mendes; 
dois annos depois morreu D. Briolanja. Estas dores causa- 
ram-lhe profundo abalo. Desde então, refere o seu utilissimo 
e benemérito biographo, «nunca mais sahio' de sua casa, 
senão pêra ovir os officios Divinos, nem apparou a barba, 
nem cortou as unhas, nem respondeu a carta que lhe alguém 
escrevesse até que acabou de todo». E de todo acabou em 
155S, tendo ainda assistido ás mortes consecutivas do infante 
D. Luiz, do Principe D. João e do rei D. João III. Tinha 
então setenta e três annos de edade, bem providos de saber 
e de experiência, e bem tranquillos de rectamente haverem 
sido vividos. Foi sepultado em S. Martinho de Carrezedo, 
ao lado do tumulo de sua mulher. 

O HOMEM 

O biographo anonymo, que coiligiu as suas informações 
«de pessoas fidedignas que o conhecerão e tratarão», des- 
creve do modo seguinte o retrato physico do poeta, ao 
mesmo tempo que presta alguns dados sobre o seu caracter. 
«Foy homem grosso de corpo, de meãa estatura, muito aluo 
de mãos, e rostro, com pouca cor nelle, o cabello preto e 
corredio, a barba muito povoada, c de seu natural crecida, 
os olhos verdes bem assombrados, mas com alguma demasia 
grandes, o naris comprido, e com cavallo, graue na pessoa, 
melancólico na apparencia, mais fácil e humano na conver- 
sação, engraçado nella com bom tom de falia, e menos parco 
em fallar que em rir...»- Estas breves informações, os sen- 
timentos que dominam as suas obras e o alto conceito que 



106 Historia da Litteratura Clássica 

delle fizeram os seus discípulos e continuadores, não menos 
solicitos em lhe louvar a austeridade que as obras, fazem- 
nos crer que foi Sá de Miranda um destes caracteres auste- 
ros, graves, de firme vontade e sombrio aspecto, mas que 
occultam sob essa severa apparencia uma sensibilidade ex- 
trema e uma affabilidade acolhedora. Essa sensibilidade te- 
ria dois principaes aspectos : a bonhornia amável e hospita- 
leira, communicativa e jovial, quando o rodeavam amigos 
na intimidade, e uma viva sympathia social, que o levava a 
commover-se a lagrimas perante os prenúncios dos graves 
infortúnios que Portugal haveria de correr : « se suspendia 
alguas vezes, e muy de ordinário derramava lagrimas sem o 
sentir.» A jovialidade ruidosa da conversação era nelle um 
meio de distrahir essa viva preoccupação dos destinos do 
seu paiz, era uma maneira de se livrar de si, das consequên- 
cias pungentes dessa viva solidariedade de sentimentos com 
a sociedade em que vivia. A dedicada ansiedade e a fran- 
queza leal com que a D. João III e aos seus amigos confes- 
sava os seus juizos e opiniões, fazem crer que foi Sá de Mi- 
randa uma destas excepcionaes organizações moraes que 
tratam do interesse social como dum interesse seu próprio e 
que no que é pessoalmente seu buscam um valor e um al- 
cance social. Essa solicitude faria delle, nos tempos moder- 
nos, um bom cidadão, sempre prompto a intervir com o seu 
voto e a sua opinião em todos os momentosos assumptos. 
Em vez de cartas poéticas ao soberano e a um pequeno cir- 
culo de amigos, teria então escripto manifestos e pamphletos 
dirigidos á nação. Não faz esta consciência social, esta cora- 
gem lembrar o papel de Alexandre Herculano, sahindo dos 
seus estudos históricos e do seu retiro para se pronunciar 
sobre algumas importantes questões publicas do seu tempo? 
Não é este o único ponto de semelhança entre os caracteres 
dos dois escriptores: Embora seja melindroso estabelecer 
approximações entre naturezas moraes tão distantes no 
tempo e que se alimentaram de emoções e pensamentos tão 



Historia da Lit ter atura Clássica 107 

diversos e de certo modo tão oppostos, não temos outro pro- 
cesso de esclarecer e completar a synthese que cremos fazer 
da constituição moral do introductor do gosto clássico em 
Portugal. Como Herculano, soffreu uma influencia profunda 
no seu systema de idéas, no estrangeiro; como elle foi tam- 
bém um reformador; viveu retirado e mais se retirou em 
certa altura da sua vida ; tarde casou, mais preoccupado de 
bem-estar e bôa-ordem caseira que impellido por um vivo 
sentimento de amor. A razão serena e sensata predominava 
sobre a exalçada imaginação poética; escasso era o seu sen- 
timento da natureza, que cedia todo o lugar á melancholia 
pessimista e desilludida. Desdenhoso das grandezas do mun- 
do, da riqueza e do poder, parecia comprazer-se em exerci- 
tar pelo isolamento, pela meditação e pelo estudo a sua vida 
interior. Para nesse seu gosto se concentrar abondonou o 
magistério, recusou cargos públicos e affastou se da corte. 
A sinceridade terá sido sempre sua inspiradora, sinceridade 
exigente que á sua própria consciência fiscalizava. Por ter 
sido uma consciência recta, que se não deslumbrou com a 
miragem do Oriente e com as retumbantes glorias e prodi- 
giosos esplendores do seu tempo, e porque sempre fallou a 
verdade dos seus sentimentos, foi venerado não menos como 
reformador litterario que como philosopho — quando philo- 
sopho tinha um significado principalmente moral, mixto de 
integridade, de rude simpleza, de sinceridade e de sobrance- 
ria para com as enganosas apparencias do mundo. 

O POETA 

A acção de Sá de Miranda na nossa historia litteraria é 
a dum reformador ; foi elle que primeiro ensaiou alguns no- 
vos géneros poéticos: o soneto e a canção de Petrarcha, os 
tercetos de Dante, a oitava rima de Policiano, Boccacio e 
Ariosto, as éclogas de Sannazaro e seus versos encadeados, 
e o hendecassylabo jainbico. Como a lingua ainda não adqui- 



108 Historia da Litter atura Clássica 

rira por um longo exercício de culta arte malleabilidade e 
expressão flexível para os novos ideaes do renascimento e 
como Sá de Miranda, espirito viril e austero, não era uma 
alta organização poética, grandemente carecem de inspira- 
ção as suas obras, pela maior parte. Menos analysar o fundo 
individual, que ás novas formas incutiu, do que verificar em 
que termos fez as suas exemplificações, terá de ser o nosso 
processo. 

Posta completamente de parte a hrypotese de haver sido 
o soneto cultivado antes de Sá de Miranda, (*) a este cabe a 
gloria de ter feito o seu primeiro ensaio com as vinte e 
nove peças desse género, que andam nas suas obras. Não 
foi da antiguidade, que Sá de Miranda tomou esta sua inno- 
vação, porque a antiguidade o desconheceu; o soneto é um 
género poético moderno. 

O seu nome proveio da lyrica provençal, mas nella com 
o significado genérico de qualquer peça poética acompa- 
nhada de musica. Com a estructura, com que hoje o conhe- 
cemos, tornada inalterável pela consagração dos séculos, foi 
a Sicília, no século xill, que o produziu e foi Petrarcha que 
o pôs triumphalmente em moda. Dois quartetos e dois ter- 
cetos de dez syllabas com as rimas encadeadas segundo as 
formulas ABBA — ABBA — CCD — EDE — ouABBA 

— ABBA — CDE— CDE — ou ainda ABAB — BABA 

— CDC — DCD — tal é a organização do soneto que se 



(1) V. Poesias de Sá de Mirando, ed. de D. Carolina Michaêlis de 
Vasconcellos. As obras poéticas de Sá de Miranda correm impressas nos 
seguintes volumes: Poesias, edição critica da sr.a D. Carolina Michaêlis 
de Vasconcellos, Halle, 1886 : A r cvos estudos sobre Sá de Miranda, da 
mesma senhora, publicados no vol. V do Boletim da Segunda Classe da 
Academia das Sciencias de Lisbca, Lisboa, 1912, pag. 9-230, os quaes 
comprehendem uma écloga Aleixo, duas trovas, oito vilancetes, cinco 
cantigas e um fragmento minúsculo da tragedia perdida Cleópatra; o 
poema de Santa Maria Egypciaca, editado pelo sr. Th. Braga, Porto, 
1913- 



Historia da Litteratura Clássica 109 

fixou, na qual raramente com êxito mão profana ousou intro- 
duzir modificações de sua lavra. ( l ) Com o largo cultivo que 
deste género poético fez, Petrarcha não só lhe fixou tal 
estructura, mas nelle embutiu um ideal litterario novo. Pelo 
soneto petrarcheano entrou na litteratura o amor, não já 
como accessorio ou baixamente interpretado, mas expressão 
suprema de todas as delicadezas da alma humana, como vida 
interior, como sacrifício de todos os sentimentos e de toda a 
meditação a um modelo de belleza perfeito até ao ideal e, 
como ideal, inattingivel. Exhumando-o da multidão confusa 
de mythos, allegorias, concepções metaphysicas e materiaes 
perfigurações que sobre elle tinham accumulado Dante e a 
escholastica medieva, Petrarcha purificou o amor e revelou-o. 
Esse amor, assim largamente comprehendido, é todo um 
vasto mundo de emoções novas, toda uma fecunda seara de 
novos themas para a imaginação artística e para a meditação 
subjectiva; esse amor é mesmo uma completa concepção 
moral, uma interpretação da vida, á qual dava causa e obje- 
ctivo ; segundo elle, só se vivia porque se amava e só se 
vivia para amar, pois era o amor, com seu conteúdo 
inexhaurivel, que revelava ás almas a sua vida interna e as 
fazia vibrar. Este alto ideal já não era o realizado pela 
Beatriz do Dante, symbolo da Belleza e da Perfeição, voz e 
consciência do Universo, caminho do céu, representação 
esthetica da construcção lógica da escholatisca, essa Beatriz 
feita de transcendencias subtis menos representada nas 
expressões do poeta que na imaginação ansiosa de a com- 
pletar, essa luce intelleíual e incoercível. Agora a Laura do 
Petrarcha é um ideal mais humano, é a mulher formosa, que 



(1) Ao soneto de typo italiano oppõe-se o soneto de typo de inglês. 
Ha muitas noticias sobre o soneto inglês e suas características no estudo 
do académico J. Fernandes Costa, Camões, exemplar e modelo dos moder- 
nos sonetistas ingleses — Elisabeth Browning e Catharina de At/iaydc, 
pub. no vol. ii.° do Boletim da 2." Classe da Academia. 



110 Historia da lÁtteraivra Clássica 

ardentemente se ama, é um corpo esculpturalmente bello, 
que irradia belleza que á natureza se communica a adoçá-la 
por sympathia e desejo de concordância entre as formas 
bellas. Tem mesmo um modelo, alvo como a neve, olhos 
serenos e castamente modestos, cabellos de ouro, fallar 
discreto em voz duma harmonia musical, movimentos lentos 
de graciosa suavidade. Amar esse modelo, ansiosamente 
lhe implorar a graça dum sorriso, o favor sem par dalguma 
benévola palavra, reproduzir na harmonia do verso e na 
expressão da linguagem poética esse modelo, desesperar de 
o fazer e sempre recomeçar, num continuo esforço de arte, 
logo seguido de desfallecimento, será o objecto deliberada- 
mente preferido dos poetas do quinhentismo. Nem sombra de 
desejo carnal transparece nos seus ardores de amor; a tal 
matéria fecharam-se as portas da poesia e da imaginação 
dos poetas quinhentistas, impregnados do puro idealismo 
platónico, que no amor via também uma idéa pura daquellas 
de que o philosopho atheniense tecia e povoava o mundo, 
delias fazendo a própria essência deste. O amor de Petrarcha 
e dos que no exercicio do soneto o seguiram é também uma 
idéa pura, que por si mesma actua sobre a matéria, o corpo 
e a natureza, e por si conduz ao soberano bem. Largos hori- 
zontes se estendiam á imaginação poética : reproduzir a 
mulher amada, esse modelo sempre imitado em esboços 
parciaes do grande quadro ideal que cada alma trazia em 
si ; inquirir dos movimentos do coração, devassar todos os 
escaninhos da própria alma e trazer ao relevo da arte, da 
expressão poética todas as descobertas dessa intuspecção 
assídua e attenta ; gozar o soffrimento de amar e exprimir as 
contradicções desse sentimento ; em meio de tentativas sem 
fim de desenhar o seu ideal modelo, explicar em que con- 
siste a sua almejada belieza e localizá-la na mais adequada 
paizagem, ridente e meiga, eram themas de infinitas variantes. 
Pelo soneto petrarcheano entra na nossa litteratura o amor, 
como primeiro grau na hierarchia dos themas litterarios, e 



Historia da Litteratura Clássica 111 

revela-se essa disposição de espirito, extremamente artística 
e mais que nenhuma outra fecunda para o bem e para a 
belleza, que é muitas vezes a disposição de quem ama, mas' 
que é sempre a disposição de quem soffre. Pelo soffrimento 
se sente a vida, pcis é elle o mais solido ponto de referencia 
e de relação, por elle se adquire esse poder de sympathia, 
de perspicácia psychologica, de desillusão, de sensibilidade 
e de bondade, por elle se aprendem os verdadeiros valores 
do mundo. Abundante inspiração poética communicou á 
nossa litteratura o soneto petrarcheano, o qual com as trans- 
formações das idéas estheticas foi também transformando o 
seu fundo. A aprendizagem do soneto, que os nossos poetas 
quinhentistas vão fazer, será longa, laboriosa e mais duma 
vez frustrada peles defeitos inherentes á estruetura severa 
desse género poético : comprimir num exiguo quadro a 
inspiração iyrica, quebrando o impulso do sentimento ou a 
sequencia da idéa, mutilando portanto a expressão dum ou 
doutro ; recahir em virtude do cunho conceituoso, que a 
mesma brevidade do soneto lhe imprime, na insignificância 
ou na complicação especiosa. Este ultimo defeito tornará 
mais tarde o soneto pábulo predilecto do gongorismo. 

Não foi o soneto amoroso, tal como Petrarcha o interpre- 
tara, e como o gosto da philosophia platónica o confirmara, 
que Sá de Miranda cultivou; essa maneira coube a António 
Ferreira adoptá-la. O soneto de Miranda tem como thema pre- 
dominante o desengano da vida terrena, com seu scepticismo 
que tudo mostra ser vão, «he tudo híí vento », com o descon- 
solo de que após uma desillusão outra illusão vem ludibriar o 
sapiente bom- senso, com a ânsia de encontrar para tão fundo 
tédio alguma consolação. Este mal da inadaptação ao seu 
tempo não o curaria o amor, que tão pequeno papel parece 
ter desempenhado na vida do poeta, esse «desarrezoado amor» 
de que o próprio poeta se teme, pois bem conhece as suas 
fataes contradicções e cruéis cegueiras. O thema da summa 
desesperança inspirou-lhe o seu mais bello soneto : 



112 Historia da Litteratura Clássica 

O sol he grande, caem co a calma as aves 
Do tempo em tal sazão que soe ser fria : 
Esta agoa que d J alto cae accordar-me-hia, 
Do sono não, mas de cuidados graves. 

O coisas todas vãs, todas mudaves, 
Qual he o coração que em vós confia? 
Passando hum dia vae, passa outro dia 
Incertos todos mais que ao vento as naves. 

Eu vi já por aqui sombras e flores, 
Vi agoas e fontes, vi verdura, 
As aves vi cantar todas d J amores. 

Mudo e seco he já tudo, e de mistura, 
Também fazendo-me eu fuy d J outras cores, 
E tudo o mais renova, isto he sem cura. 

Envolvendo o sentimento da desesperança, tão commum 
na sua poesia, no conceito da caducidade da vida humana, 
que cumpre seu cyclo previsto e desapparece, em contraste 
com a natureza que indefinidamente envelhece e se renova, 
Sá de Miranda conseguiu dar-lhe expressão, salientando 
esse contraste. Raramente, como neste soneto, conseguiu o 
poeta obter expressão, pois na maior parte dos seus sonetos 
a execução é tão defeituosa ou tão inesthetica que dessa 
laboriosa e inacabada execução não passou. Os conceitos 
são grandemente vulgares; chegou mesmo a dar ao soneto 
assumptos que lhe repugnavam e que só nas cartas teriam 
cabida: como agradecer e elogiar versos, como desculpar-se 
das suas perplexidades artísticas. Então o soneto ainda 
não tinha a franca liberdade, que hoje lhe attribuem os 
innovadores audaciosos; era sempre uma nobre peça poética, 
que para themas de amor nascera ou, pelo menos, para 
expandir uma intensa vida interior e que sempre conservara 
um caracter conceituoso. Era esse conceito que, segundo 
mais tarde diria Boileau, deveria fechar o soneto com chave 
d'ouro. Assim praticou Miranda nos seus mais felizes 



Historia da IÀtter atura Clássica 113 

sonetos, o que já reproduzimos, e o da morte de Lean- 
dro. No gosto petrarcheano — e quando nos occuparmos de 
António Ferreira, delinearemos em que consistia esse gosto 
— Sá de Miranda apenas compôs um soneto, o que começa 
Este retrato vosso... que exprime o desespero de pintar um 
modelo de suprema formosura, para o qual são escassos os 
recursos da sua poesia. E escassos eram de facto. 

As éclogas, inspiradas na imitação de Boscan e Garcilaso 
e em grande parte escriptas em lingua castelhana, são 
mediocres exercidos de versificação em que pastores lon- 
gamente discorrem banalidades fúteis. Só merece excepcional 
menção a écloga Basto, em que Sá de Miranda especialmente 
se desvelou porque muito a reviu e a emendou, como provam 
as numerosas variantes delia, conhecidas. Essa écloga tem 
espontaneidade de estylo, mais correcção métrica, mais 
variado conteúdo; é menos frouxo o seu dialogo, sobretudo 
na parte em que calorosamente faz o elogio da vida 
campesina, menos perra e tortuosa a narrativa, principal- 
mente nas duas fabulas nella engastadas, Gil Ratinho e 
Bácoro Ove lhe iro. 

As Cartas, que tão repetidamente têm sido invocadas 
pelos panegyristas (') de Sá de Miranda como obras primas, 
são o seu principal titulo de gloria. Ora essas Carias, sendo 
muito curiosas, estão longe de ser a obra de arte superior 
que se pretende, porque lhes falta um conteúdo original e 
profundo e uma forma perfeita que dê expressão a esse 
conteúdo de idcas, formando com elle o conjuncto harmó- 
nico de que nasce a belleza. Taes críticos confundem a 
belleza e a valia artística corn o sentimento de jubilo, que 
se experimenta quando após longa travessia por uma floresta 



0\ Parece-nos que Pinheiro Chagas, a sr. a D. Carolina Michaelis, 
o sr. Thcophilo Braga e o sr. Décio Carneiro mais duma vez se excede- 
ram nas expressões encomiásticas que empregaram ao fazerem a apre- 
ciação das obras de Sá de Miranda. 

H. da L. Clássica, vol. l.° * 



114 Historia da Litteratura Clássica 

de versos abstrusos e aborridos se nos deparam clareiras, 
em que o sentido é facilmente intelligivel pelo exprimir 
uma forma correntia. Então, em vez de exprimirem esse 
sentimento com exclamações de triumpho, saúdam esse 
achado com expressões da mais intensa e apaixonada admi- 
ração. Assim succede com Sá de Miranda; porque as suas 
cartas são mais inteliigiveis e pelos sentimentos e opiniões, 
que declaram, mais dignas de interesse, logo se proclama a 
sua quintilha «admirável de vivacidade, sublime de causti- 
cidade sentenciosa» ('). Grande seria, por certo, o embaraço 
destes auctores se se lhes pedisse que nos demonstrassem 
essa vivacidade e essa sublimidade. A sr. a D. Carolina 
Michaêlis, ao apreciar a carta a D. João III, fundamenta a 
sua admiração em merecimentos taes como a nobreza da 
linguagem e a ironia aguda do moralista, méritos muito 
discutíveis ou pelo menos ampliados, o patriotismo e e 
fidalguia de caracter que tal carta revela — os quaes não 
são méritos por que se aquilatem valores litterarios. 

Essas cartas demonstram effectivamente desassombro 
de caracter, independência de opinião, revelam os juízos do 
poeta sobre a sociedade do seu tempo, opulenta de riquezas 
e cubiçosa de glorias, denotam uma perspicácia prophetica, 
uma alta sympathia social, consciência cívica como agora se 
usa dizer, inteiramente vasadas nas doutrinas do tempo, do 
absolutismo real, de que Ferreira na sua Castro também 
se tornaria echo. O desdém pelas dissimulações e ociosida- 
des cortesanescas, o elogio da rectidão de caracter, o amor 
da vida modesta mas tranquilla, perfigurado na fabula dos 
dois ratos, a confissão das suas leituras dos modernos poetas 
italianos e hespanhoes e dos seus gostos litterarios, a 
recordação da sua viagem são títulos que reclamam curiosi- 



(') Sã de Miranda e a sua obra, Décio Carneiro, Lisbca, 1895, 
pag. 58. 



Historia da Litteratura Clássica 115 

dade e sympathia para as Cartas, mas nunca a admiração 
commovida que só ás obras de génio ou de superior talento 
se deve. A carta a D. João m, dir-se-ha, foi uma advertência 
corajosa e sincera que utilíssima seria, se o rei a ouvisse; 
accrescentaremos que muito útil poderia ter sido se houvesse 
sido escripta em livre prosa, que permitisse a máxima 
explanação no adduzir das razões. A forma poética só 
prejudicou a obra moral, que é essa carta, compromettendo 
o seu effeito. 

Mais correntia é a forma e mais gracioso o jogo de 
sentimento das peças de gosto medieval, vilancicos, voltas e 
esparsas, porque a simplicidade de conceitos mais se coadu- 
nava com a imaginação pouco rica do poeta, e porque a 
forma, menos exigente, era ha muito longamente praticada, 
até mesmo pelo poeta. 

A sua peça poética mais inspirada é a Ca?ição a Nossa 
Senhora, na qual expressa a aspiração vehemente duma alma 
afflicta que em seu soffrer appeila para a infinita bondade e 
generosa intercessão da Virgem. Em nenhuma outra sua 
poesia o lyrismo lhe brota tão espontâneo e tão vivo. Já 
porque essa situação afflictiva é para uma imaginação sen- 
sivel intensamente inspiradora, já porque o modelo da 
canção viu de Petrarcha era um guia seguro, Sá de Miranda 
soube tirar da sua lyra tarda e hesitante os accentos vibran- 
tes e ansiosos de quem no naufrágio angustioso duma situa- 
ção afflictiva á fé na misericórdia da Virgem abandonada- 
mente se confia. Na canção, que a de Sá de Miranda imita, 
Petrarcha pede á Virgem que o liberte do amor de Laura, 
de que tão pungitivamente soffria; na sua, Sá de Miranda 
confessa-se culpado e pede a mediação da Mãe de Deus 
para que o liberte dum captiveiro. Qual fosse esse captiveiro 
não apuraram os seus biographos modernos e não o refere 
o seu primeiro panegyrista, mas nós cremos que essa idéa 
do captiveiro lhe veio também imitada da canção de Petrar- 
cha e que no nosso poeta reformador significará um estado 



116 Historia da Litteratura Clássica 

indefinido de descontentamento, a prisão no tempo presente, 
o desagrado de viver num ambiente a que seu animo se 
não adaptara. 

A 'situação de Petrarcha é muito mais poética, por isso 
mais eloquentemente arrebatado o seu ardente implorar. Na 
estructura métrica a semelhança é completa. 

O poema Santa Maria Egypciaca, que só recentemente 
foi publicado, (*) como o seu próprio titulo indica, narra a 
vida e conversão religiosa da cortesã dissoluta de Alexan- 
dria que, por seu arrependimento e seu penar no deserto 
durante cerca de cincoenta annos, veio a ser Santa Maria 
Egypciaca venerada pela Igreja. Já existia uma narrativa 
agiographica com tal objecto, de auctor anonymo do sé- 
culo XIV, ( 2 ) mas Sá de Miranda amplificou consideravel- 
mente a matéria, reconstituindo chronologicamente toda a 
vida da protagonista, principalmente nos seus primórdios, 
em casa de seus pães, entresachando a narração de muitas 
reflexões e conselhos moraes, e desenvolvendo os seus diá- 
logos com o frade Zozimas e os monólogos da santa. São 
em extremo surprehendentes a fluência correntia das redon- 
dilhas — de que exclusivamente se compõe o poema — e a 
delicada discreção com que o poeta trata pormenores me- 
lindrosos. 

Dominando a execução métrica, pôde cuidar da expres- 
são, que mais duma vez conseguiu tornar vibrante de inspi- 
ração christã. Bem sabemos que, no conjuncto das suas 
obras, sempre Sá de Miranda se mostrou mais propenso ao 
cultivo do metro popular que ao dos metros italianos; é, 
porem, tão g.ande a flexibilidade do verso deste poema, é 
tão sequente e lógica a sua ordenação estructural que este 



(') V. A Egypciaca Santa Maria, poema de Francisco de Sá e 
Miranda, pela primeira vez publicado por Theophilo Braga, Porto, 1913. 

(*j Publicada pela primeira vez pelo sr. Júlio Cornu na Romania 
e reproduzida pelo sr. Th. Braga na sua recente edição. 



Historia da Litteratura Clássica 117 

poema forma um flagrante contraste com todas as outras 
obras do escriptor. Certo é que, como pretende o seu editor, 
este poema poderia ser obra do fim da sua carreira litteraria 
e por isso aproveitar não só da sua sabia aprendizagem 
poética, mas também da sua esclarecida experiência do 
mundo. 

Mas se Sá de Miranda para produzir a sua mais inspi- 
rada poesia lyrica imitou juxtalinearmente a Petrarcha, se 
sempre a sua musa tarda e hesitante revelou dispor de curto 
fôlego, não é para surprehender que tão inesperado êxito 
conseguisse no poema de Sa?ita Maria Egypciacaf Se a liber- 
dade, que a redondilha lhe proporcionava, era grande, maior 
era a que lhe offertava a prosa, e nella escreveu as suas 
comedias pouco felizes. Pouco independente no lyrismo e 
no theatro, veio a ser original na composição dum poema 
agiographico, de assumpto prefixado, que não permittia 
grandes liberdades artísticas. As reflexões moraes das suas 
muito louvadas Cartas são completamente offuscadas pelas 
que se acham engastadas neste poema, com a restricção de 
principalmente se referirem á educação dos filhos e ás nor- 
mas moraes das mulheres, considerações que Sá de Miranda 
não fez nas comedias, onde poderiam ter opportuna cabida. 
Ha sobre todos um pormenor muito humano e esthetica- 
mente muito bello que denuncia uma constituição poética 
muito diversa da que pelas outras obras se trahe : a conver- 
são de Maria Egypciaca faz-se quando a sua alma se achava 
já idoneamente preparada pelo desconsolo e pelas apprehen- 
sões de ver a sua belleza fenecer. Os primeiros indícios de 
fadiga ou velhice nas cortesãs deram aos romancistas do 
romantismo e do realismo algumas das suas mais emocio- 
nantes paginas, quando a ampla liberdade, quasi licença, da 
arte moderna fez entrar a vida das meretrizes no quadro dos 
themas litterarios. Pois o auctor deste velho poema, condu- 
zido pelo pensamento religioso e pelo seu conhecimento das 
realidades achou esse thema: 



118 Historia da Litteratura Clássica 



Mas se nos primeiros annos 
mundanos a perseguiam, 
depois que os annos corriam 
ella seguia aos mundanos, 
por que elles a não seguiam. 

Como o viver de estragado 
estraga o corpo mortal, 
este fermoso animal 
já não era tão presado 
por se presar de sensual . 



Passa o tempo brevemente 
com muita velocidade 
e quando está mais contente 
que te parece que mente 
em ti se encherga a verdade. 

Por esta o tempo passou, 

mas vingou- se o tempo d'ella, 
que como quem acordou, 
olhou para si e achou 
que já não era tão bella. 



Concertando um dia o rosto 
e vendo que a côr perdia, 
triste o concerta outro dia 
e vê que quanto tem posto 
que no rosto lhe morria. 

Sente notável tormento 

na côr que perdida traz, 
porém cega-a Satanaz, 
que não tenha sentimento 
de quantos peccados faz. 



Affligem-na mil receos, 

d J esta negra côr perdida, 
e perdida e esquecida 
de seos peccados tão feos 
não vive nada affligida. 



Histoiia da Litteratura Clássica 119 



Pêra a falsa formosura 

com que Deus hade offender, 
faz uma e outra postura, 
mas para se converter 
nenhum remédio procura ! '}) 

E verdadeiramente para surprehender que a imaginação 
hirta e secca das outras obras neste poema se tornasse tão 
fecunda e fiexuosa e que a forma hesitante, já na expressão, 
já nas próprias formas linguisticas, se convertesse em estylo 
fluente, espontâneo, perfeitamente accommodado ás necessi- 
dades da matéria. E' também para surprehender que o ano- 
nymo biographo de Sá de Miranda, que prefaciou as suas 
Obras, não fizesse referencia a obra de tanta monta, pelo mé- 
rito e até pela extensão como a Santa Maria Egypáaca, — ( ! ) 
e ainda que de todas as obras fosse justamente a principal 
que durante séculos houvesse permanecido inédita. Estas 
considerações servem para indicar que será conveniente 
rever os títulos com que se attribue este poema a Sá de 
Miranda. 

O COMEDIOGRAPHO 

• O anno de 1527 foi talvez o anno de maior fecundidade 
de toda a carreira litteraria de Gil Vicente. Nesse anno, 
quando a corte se encontrava em Coimbra, representou elle 
nessa cidade a Divisa da cidade de Coimbra e a Serra da Esirella. 
Como nesse mesmo anno e na mesma cidade de Coimbra se 
diz ter sido representada a comedia Estrangeiros, de Sá de 



0) V. as quintilhas de pag. 34 a 41 da ed. cit. 

( s ) Leonel da Costa, (1570-1640), o erudito traductor de Vergilio 
e exegeta de Terêncio, publicou em Lisboa, 1627, um poema sobre o 
mesmo assumpto, do seguinte titulo : A conversão miraculosa da felice 
egypcia penitente Santa Maria, sua vida c morte, composta em redondi- 
lhas. Foi reeditado em 1674 e 1771. O sr. Th. Braga na sua já citada 
edição reproduz algumas quintilhas da obra de Leonel da Costa. 



120 Ri aio ria da Liiteratura Clássica 

Miranda, os biographos deste escriptor attribuiram tal repre- 
sentação a um acintoso propósito de oppôr ao gosto do thea- 
tro vicentino, em voga, os modelos clássicos exemplificados 
no primeiro ensaio de comedia clássica entre nós tentado. 
Ignoramos os fundamentos cem que se assevera que tal 
comedia tivesse sido representada em Coimbra, em 1527, e 
não reconhecemos também as razões por que ella haja de 
ser considerada como um repto endereçado a Gil Vicente. 
Para nós ella será somente a primeira comedia clássica. 

A comedia clássica, a que se fundava na imitação dos 
comediographos da antiga Grécia e da antiga Roma, surgia 
de súbito já tão bem apetrechada, tão perfeita na sua com- 
posição, tão senhora dos seus meios de arte que estabelecia 
efectivamente um vigoroso contraste com o auto vicentino. 
A' indifferenciação daquelle oppunha uma discriminação de 
partes, tons e géneros; á sua massiça unidade oppunha uma 
muito nitida e lógica divisão em actos e scenas, que muito 
e muito reduzia os graves defeitos do auto vicentino — a pre- 
cipitação dos acontecimentos e a forçada adjacência de lu- 
gares remotos, que conduziam á inverosimilhança e ac des- 
agrado. Emquanto a comedia neo-classica, quanto mais 
os escriptores fossem apprehendendo o espirito das littera- 
turas modelos, ia tendendo para a concentração de meios e 
de effeitos, formulada pela theoria das três unidades, o thea- 
tro vicentino iria, inversamente, aproveitar a dispersão no 
tempo e nos lugares, como uma nova e produetiva acquisi- 
ção. Gil Vicente apenas cultivara e fizera crescer e desen- 
volver-se a semente lançada por Juan dei Encina, mas estra- 
nho a influencias e a suggestões pelo exemplo de quem ante- 
riormente houvesse pisado o mesmo caminho, vae descobrindo 
coisas já descobertas e postas de lado. Nessa forma disper- 
siva foi o seu iheatro tomado pelos seus continuadores e 
nessa forma para sempre se deteve, por causas em lugar 
próprio já por nós apontadas. Ha ainda que a comedia clás- 
sica não vae buscar assumpto na sociedade que rodeia o seu 



Historia da Litteratura Clássica 121 

auctor, nem vae perscrutar desvãos sociaes ainda não devas- 
sados, mas com os olhos postos fora do seu tempo e dos 
seus lugares, como os auctores de attenções fixas na idade 
clássica, apenas abeira longínquas matérias, que pelo affasta- 
mento e por já haverem fornecido assumpto aos seus mode- 
los, tinham ganho dignidade e idoneidade litterarias, que 
não desdouravam a austeridade do género. Se de creados 
trata, não o faz com a fiel observação, sem prejuízos, como 
Gil Vicente, que lhes reproduz as palavras e as opiniões e o 
em que se occupam ; a comedia clássica preferirá os escravos 
das antigas sociedades, perfeitos e argutos conversadores, 
amos de filhos-familias, e a gaiatice que lhes reproduzirá será 
a de se bandearem ás vezes com os seus pupillos contra seus 
pães. O cómico burlesco, que encontramos em Gil Vicente, 
e a comedia inaugurada por Sá de Miranda serão inconci- 
liáveis; só a comedia tabernaria acceitaria o burlesco. Os 
nossos comediographos pretenderão rir de modo muito com- 
posto das mesmas situações que fizeram rir os seus muito 
admirados gregos e romanos. O monologo, espécie de medi- 
tação em voz alta, que Gil Vicente não usa, será largamente 
usado pelos comediographos quinhentistas, o aparte sabia- 
mente aproveitado, o reconhecimento inesperado das perso- 
nagens, a agniçãOy como diziam os críticos, será episódio 
obrigado. 

A comedia apparecerá, portanto, executada com maior 
ou menor mestria, mas dispondo logo de todos os progres- 
sos e de excellentes modelos. Fazer desses progressos 
uma sensata adaptação aos tempos modernos e desses mo- 
delos receber apenas prudentes e fecundas inspirações, era 
o que cumpria aos nossos comediographos quinhentistas, 
mas tal empresa demandava o génio dum Molière ou a per- 
sistência de diligentes esforços duma longa tradição do gé- 
nero. Continuar o desenvolvimento do theatro vicentino, 
extrahir da sua própria irregularidade mixta os elementos 
utilizáveis e integrar-lhe novos elementos, poderia ter sido 



122 Historia da Litteratura Clássica 

também tarefa dos nossos quinhentistas, se não se tivessem 
absorvido tão exclusivamente na admiração dos clássicos e 
se houvessem possuído o génio de Lope de Vega e Cal- 
deron.- 

A comedia de Sá de Miranda, Estrangeiros, em prosa, é 
precedida dum prologo, parte obrigada da composição, dito 
por uma personificação da própria comedia, «hua pobre ve- 
lha estrangeira » , que nasceu na Grécia, donde passou a 
Roma, chegando numa e noutra parte a gozar de tanto fa- 
vor que pouco lhe faltou para ser Deusa. Depois, com o 
império romano, todas as artes — com ellas a comedia — se 
arruinaram e jazeram em esquecimento longo tempo até que 
o renascimento dos estudos as accordou. Em Itália princi- 
piava com o melhor êxito esse renascimento quando a guerra 
entre Francisco I e Carlos A' de momento perturbou esse 
despertar. A Portugal, «neste cabo de mundo», se veio 
acolher a comedia, em busca de sossego. É, como se vê, 
este prologo, uma declaração do seu papel de introductor 
dum género novo, que não é o auto vicentino, nem com elle 
se quer confundir: «Ia sois no cabo, & dizeis ora não mais, 
isto he auto, & desfazeis as carrancas, mas eu o que não fiz 
atégora, não queria fazer no cabo de meus dias, que he mu- 
dar o nome. » 

A acção dos Estrangeiros é também estrangeira, pois em 
Palermo decorre totalmente. A esta cidade tinham chegado 
alguns foragidos á guerra entre papistas e hespanhoes dum 
lado e franceses do outro. Lucrécia, filha de Reynaldo, de 
quem não havia noticias depois da destruição de Pisa, estava 
na cidade confiada a Betrando e a sua mulher. Nem seus 
tios Guido e Petronio, nem seu próprio pae Reynaldo haviam 
conseguido novas delia. Apenas se sabia que quando a peste 
se declarara em Roma, um abbade, irmão do mercador flo- 
rentino, em casa de quem se achava, a trouxera a Palermo. 
Sem ser reconhecida, Lucrécia está. na cidade, pouco visível, 
pois nem appareceu em scena, e desperta vehementes amo- 



Historia da Liticratura Clássica 123 

res em Amente, filho de Galbano, natural de Valença de 
Aragão, que em Palermo dissipa os seus bens, sob a branda 
vigilância de seu aio Cassiano; em Briobris, soldado bebe- 
dor e fanfarrão, que se orgulha das suas inventadas proezas 
de amor e de guerra; e no velho doutor Petronio, que não 
sabe que é tio da sua pretendida. A chegada de Galbano, 
pae de Amente, de Guido, irmão de Petronio, e de Rey- 
naldo, pae de Lucrécia, também irmão de Petronio e Guido, 
provoca uma serie de reconhecimentos, que desfazem a trama 
de intrigas e combinações, com que cada um dos pretenden- 
tes procura levar a cabo o seu capricho amoroso. E a 
Amente que Lucrécia prefere, e é Petronio o único rival que 
Amente teme, porque os depositários de Lucrécia favorecem 
esse pretendido enlace. Quando, portanto, se sabe que a 
Lucrécia, que vive em Palermo, é a perdida sobrinha e afi- 
lhada de Petronio, fica este casamento prejudicado e em be- 
neficio de Amente. Cassiano, num monologo, resume as 
consequências da chegada inesperada de Galbano, Guido e 
Reynaldo e dos reconhecimentos, que determina: «Venho 
pasmado dos acontecimentos; andando em busca de nosso 
amo fuy dar com Reynaldo nosso natural, que também che- 
gou. A hum trouxe cá hum filho perdido, ao outro húa filha 
que perdera muito ha. Ó filhos desejados, & estes são os 
vossos descansos? D'outra parte tendo o Doctor concertado 
seu casamento, chega Reynaldo, e acha neste próprio dia, 
nesta hora, neste ponto, que Lucrécia, aquella que a todos 
nos tem dado tanto trabalho, he a sua própria filha, que an- 
dava buscando por mar, & por terra, e sobre tudo que he a 
filhada do mesmo Doctor, assi lhe poderá ser inda mais. 
E não se saber a tempo. O coitado que não via já o dia, 
nem a hora, & que estava co'a boca aberta pêra papar a 
moça, ficará assi co'ella ás moscas. E pollo contrario meu 
criado Amente que lhe era lá posto o cutello na garganta, 
esperando só pollo pregão, vem a fortuna melhor casamen- 
teira muito que Dorio, & negocealho tudo a pedir de 



124 Hútoria da Litter atura Clássica 

boca. » (') Facilmente perdoou Galbano ao pródigo filho e 
com igual facilidade se consolaram em outros amores o sol- 
dado Briobris e o Doutor Petronio, informa no fim o repre- 
sentador, figura estranha ao elenco das personagens e que 
significa uma adaptação por Sá de Miranda do corypheu, 
que nas comedias antigas despedia o publico com desejos 
de boa- saúde e pedindo applausos : Vos, valete et piaudite. 

Como promptamente se reconhece este primeiro ensaio 
de Sá de Miranda é uma imitação demasiado fiel do theatro 
de Terêncio, principalmente da comedia Phormio ; demasiado 
fiel em se apropriar dalguns caracteres da comedia teren- 
riana, mas sem lhe reproduzir os méritos. A acção passa-se 
principalmente num meio servil, não já entre escravos, — 
pois aos escravos do século XVI inverosímil seria attribuir 
os papeis de intimidade e influencia que os escravos roma- 
nos desempenhavam muitas vezes — mas entre creadagem : 
Alda, «moça de servir»; Dorio, casamenteiro; Devorante, 
«truhão»; Vidal, «servidor»; Cassiano, «ayo»; Ambrósia 
velha ; Briobris, soldado ; Callidio « mancebo de serviço » ; 
Sarjanta, « molher de serviço». Escusado será accentuar 
que nenhum destes servidores tem a argúcia enredadora e 
desenvincilhadora de difficuldades do celebre Geta, de Te- 
rêncio, antecessor de Scapin e Figaro. Como em Terêncio é 
a chegada inopinada de personagens, que se crêem longe, 
que modifica todo o desenvolvimento da acção. Briobris, 
soldado gabarola de aventuras amorosas e bellicas, é uma 
reproducção do Miles Gloriosus, de Plauto. E de Terêncio o 
abuso do processo de fazer falar algumas personagens, com- 
prometedoramente, deante de outras próximas de que não 
vêem logo a presença. 

Mas é de Sá de Miranda a lentidão de desenvolvimento, 
a falta de vigor das personagens, exceptuando apenas Brio- 



(') V. Obras, 7. a ed., Lisboa, 1784, 2. vol. pag. 149. 



Historia da Litter 'atura Clássica 125 

bris, desenhado com mais algum relevo ; a falta de evidencia 
da própria intriga ; a indifferente divisão da mesma pelos 
obrigados cinco actos, tão injustificada do modo que decorre 
o entrecho, que fácil era condensá-la num só acto. Como os 
tratados theoricos exigiam e era do próprio temperamento 
de Sá de Miranda, Estrangeiros têm sua moralidade. A con- 
clusão geral da peça dá-no-la o próprio Cassiano, no seu já 
citado monologo : «Que diremos ás cousas deste mundo ? 
híias parece que se alcanção a poder de negociação, e viva 
diligencia, outras por só dita, & bom acerto>. O cunho pes- 
soal do caracter moralista de Sá de Miranda, pessimista do 
presente, laudator temporis adi, expressa-se principalmente 
noutro monologo, que começa : «Hi lá tomar cuidado de 
filhos alheos. Onde há isto de ir ter? Que se fez do acata- 
mento que estes moços sohião de ter a seus avós ? que não 
somente lhe ousavão de levantar os olhos. Agora vedes em 
que mundo somos » . . . ( l ) 

A segunda comedia, dos Vilhalpandos, escripta prova- 
velmente em 1538, decorre em Roma e tem por principal 
intriga as diligencias e manejos que os pães dum filho dissi- 
pador fazem para o libertar da infeliz naixão que o prende 
a uma cortesã. Quer na mecânica interna, quer na acção 
e nas personagens, é ainda uma imitação nada livre do thea- 
tro de Plauto e Terêncio : filhos pródigos e pães avaros, 
cortesãs, servos e parasitas. Os melhores effeitos cómicos, 
as situações para elles mais adequadas são abandonadas, 
esquecidas só porque, de olhos postos nos modelos antigos, 
estes comediographos do quinhentismo nada viam em volta, 
pois reproduzir queriam e não crear. Em compensação são 
repetidas abusadamente as situações mais características da 
comedia antiga, como por exemplo, o encontro fortuito mas 
muito a propósito para o effeito que o auetor tem em vista, 



( x ) V. Idem, pag. 77-79. 



12G Historia da Litteratura Clássica 

o monologo em voz alta que os interessados sempre ouvem 
indiscretamente. Mas estes ensaios não mantêm o interesse, 
nem conseguem mesmo salientar, como querem, os seus 
effeitos cómicos, porque são já descoloridas imitações sem 
talento do que era uma real imitação da vida de extinctas 
sociedades. A natureza deste cómico, já de si um pouco 
delicada, é ainda mais adoçada e attenuada através da imi- 
tação e torna-se um frio architectar de situações acreditadas 
como cómicas mas não soffridas como taes, architectar lento 
e laborioso que muito escassos resultados obtinha. 

Sá de Miranda também fez sua tentativa de theatro 
trágico, revelação só conhecida recentemente, após a publi- 
cação dum manuscripto de poesias suas. ( J ) Sabemos hoje 
haver composto uma tragedia, Cleópatra, perdida, da qual só 
restam os doze versos seguintes, no manuscripto precedidos 
da rubrica que também reproduzimos: 



Estanca 



tirada d J ú"a sua Tragedia, 
intitulada Cleópatra 
que anda assi por fora. 



Amor e Fortuna são 

doces deoses que os antigos 
ambos os pintaram çégos. 
Ambos nam seguem rezão, 
ambos hos mores amjgos 
põem em mais desassessegos. 



(') V. Novos Estudos sobre Sá de Miranda, sr. a D. Carolina 
Michaêlis de Vasconcellos, publ. no Boletim da Segunda Classe da Aca- 
demia das Sciencias de Lisboa, vol. v, Lisboa, 1912, pag. 9-230. Sobre 
o vestigio da tragedia Cleópatra, vejam-se pag. 47, 73, 81, 90 e 185. O 



Historia da Litteratura Clássica 127 

Ambos sam sem piedade 
ambos se passam, sem tino, 
do querer ôo nam-querer. 
Ambos nam tratam verdade: 
Amor he cego e mjnjno 
Fortuna, cega e molher. 

Perante tão pequeno vestígio, inteiramente desacompa- 
nhado de quaesquer informações externas, nada ha que 
comrnentar; regista-se a noticia e depiora-se a perda. 



nome insigne da sr. a D. Carolina Michaèlis de Vasconcellos é insepará- 
vel da gloria de Sá de Miranda, porque se lhe devem uma primorosa 
edição critica das poesias, a revelação de novos textos e o apuramento 
de novos factos biographicos. Também á sua influencia se devem as 
novas investigações de Sousa Viterbo sobre a vida e de Xavier da Cunha 
sobre o retrato do nosso reformador quinhentista. 



CAPITULO líí 

O fHEATRO CLÁSSICO 
A - TRAGEDIA 

Na renovação litteraria que se deu nos séculos XV e 
xvi, o estudo e a imitação do nobre género da tragedia 
mereceram attenções proporcionaes ao vasto lugar que 
esse género occupava nas velhas litteraturas. Eschylo, 
Sophocles, Eu-ipides, dentre os gregos, e Séneca, dentre 
os romanos, foram modelos muito assiduamente estudados. 
O primeiro trabalho consistiu em pôr ao serviço das novas 
predilecções litterarias o novo meio de vulgarização, recen- 
temente descoberto, a imprensa. Effectivamente, das edições 
«príncipes» dos trágicos da antiguidade algumas se contam 
entre os mais preciosos incunabulos. Em 1496 foram im- 
pressas em Veneza quatro tragedias de Euripides, e a 
edição das suas peças proseguiu em 1503 e concluiu-se em 
1545. O theatro de Sophocles appareceu em 1502, ainda 
em Veneza, e o de Eschylo em 15 18 e 1557, respectiva- 
mente em Veneza e Paris. As obras de .Séneca foram 
impressas em Ferrara, no anno de 1484, e em Paris, em 
15 14. Também muito cedo começou o trabalho de os imitar 
e traduzir. 

Foi a litteratura italiana que se antecipou a todas as 
litteraturas neo-iatinas, suas irmãs, com apresentar os pri- 
meiros exemplares de tragedias originaes; deixamos de lado 

H. DA L. CLABBICA, vol. 1.» « 



130 Historia, da Litteratura Clássica 

as traducções declaradas. Albertino Mussato, de Pádua 
(1261-1329), um dos precursores do humanismo italiano, 
deveu boa parte do seu renome á circunstancia de haver 
composto um ensaio dramático intitulado Eccerinh, tentativa 
de tragedia ao gosto de Séneca, que apresenta ainda a 
particularidade muito para registar de tratar dum assumpto 
nacional, a sinistra figura do tyranno Ezzelino 111 ; Leon 
Battista Alberti, morto em 1472, escreve o seu Philodoxeus, 
e Leonardo Bruni Aretino (1369- 1444) a sua PoIisse?ia; Gian 
Giorgio Trissino ^1478-1550) conclue a sua Sofonisba em 
1515, logo muito imitada, principalmente por Rucellai 
(1475-1525?) auctor da Rosmunda, por Sperone Speroni (1500- 
1588), auctor de Canace, e por Torquato Tasso (1544-1595^ 
que se não desdourou de ser auctor de Torrismondo i 1 ). 

Em Hespanha, Fernando Perez de Oliva (1492-1530) 
deu em 1528 uma traducção da Hecuba de Euripides e da 
Electra de Sophocles e Juan de Malara (1525-157 1) publicou 
em 1548 o seu Absaloyi e a sua Loatsia. Só mais tarde com 
Bermudez (1533 r-1589), imitador do nosso António Ferreira, 
com Christobal de Virués (1550-16 10) que considerou o 
terror trágico como exhibição de carnagens em scena, com 
Juan de La Cueva (i55o?-i6o9?), propugnador da tragedia 
de assumptos nacionaes, com Lupercio Leonardo Argensola, 
(1562-163 1), só já em mais de meado do século xyi a tra- 
gedia entra em favor no vizinho paiz {- . 

Em França o movimento de introducção do género trá- 
gico ( s ), por meio de ensaios originais, começou com Jodelle, 



(1) Acerca das origens da tragedia italiana pódem-se consultar 
com vantagem as seguintes obras: La Tragedia, E. Bertana, Milão, 1904 
e La Tragedia italiana dei Cinqucceiíto, F. Neri, Florença, 1904. 

(2) V. Teatro espafiol dei Sig/o XVI, Manuel Cariete, Madrid, 1885 
e Littératitre Espagnole, J. Fitzmaurice-Kelly, trad. fr., Paris ; 1904. 

( 9 ) Sobre as origens da tragedia francesa, hoje já muito estudada, 
consultem-se as seguintes obras: La Tragedie frauçaise au XVI e siccle, 



Historia da Litteratura Clássica 131 

(1532-1573). que Ronsard reconhecia ter sido o primeiro que 
«françoisement sonna la grecque tragedie». Abriu a histo- 
ria do género a representação da sua Clêopâtre Captive dada 
em 1552. Continuaram os esforços de Jodelle outros aucto- 
res, principalmente Jacques Grévin (1538-1570) que fez 
representar a sua Mort de César, em 1560; Robert Garnier 
(1 545-1 601), auctor de Por cie, de 1568, de Comélie, de 1574, 
de Marc Antoine, de 1578. Logo em 1572 teve a França, o 
paiz da critica litteraria, o seu tratado da tragedia, o de 
Jean de la Taille, Art de la Tragedie. 

Em Portugal, dos trágicos foi mais conhecido Séneca, 
se bem que muito menos que o seu homonymo philo- 
sopho, pois emquanto este apparece repetidamente citado 
nos catálogos das livrarias manuscriptas de D. Duarte, 
D. Affonso V, do condestavel de Portugal, D. Manuel I, 
D. João III e da rainha D. Catharina, o trágico só é nomeado 
por Gomes Eannes de Azurara, nas seguintes passagens da 
sua Chromca da Conquista da Guiné: «Deste labarinto falia 
Séneca na tragedia, onde põem a- causa de Ypollito com 
Fedra» (*). E algumas paginas adfante: «Oo quam poucos 
som, segundo diz Senneca na primeira tragedya, os que 
husem bem do tempo de sua vida, nem que pensem a sua 
brevidade» ( 2 ). Parece, pois, provável que algumas trage- 
dias de Séneca existissem na livraria de D. Affonso v, de 
que Gomes Eannes de Azurara foi bibliothecario. Deste 
rápido enumerar de factos antecedentes e coetâneos do 
alvorecer da era clássica da nossa litteratura se poderá 
concluir que Sá de Miranda e os seus sequazes já tinham 



E. Faguet, Paris, 1883; Étude sur Robert Garnier, Bernage, Paris, 1880. 
Estes livros indicam muitos outros trabalhos dos primeiros críticos de 
França sobre esta matéria. 

(') V. Edição de I. Roquete e Visconde de Santarém, Paris, pag. 
12, nota. 

(*) Idem, pag. 43. 



132 Historia da LitUr atura Clássica 

presenceado exemplos suficientemente suggestivos de imita- 
ções das velhas tragedias. 

O auctor dos Estrangeiros e dos Vilhalpandos quiz tam- 
bém introduzir o género trágico e fez aquella tentativa de 
Cleópatra, cujo único fragmento restante já reproduzimos em 
seu próprio lugar. 

A segunda tragedia portuguesa, de que ha noticia se- 
gura, é a Vingança de Agamenon, por Henrique Ayres Victo- 
ria. Sabe-se por confissão do próprio auctor que foi con- 
cluida no anno de 1536; elle o diz no fim da obra, numa 
Exortaram do autor aos leetores : 



A presente obra foi acabada 

de em nossa lingoagem se traduzir 

a quinze de março sem nada mentir, 

na era do parto da virgem sagrada, 

de mil e quinhentos sem errar nada 

e trinta e seis falando verdade 

no Porto, que he muy nobre cidade 

e por Anrrique Ayres foy trasladada. 



A primeira edição perdeu-se totalmente, e da segunda, 
feita em Lisboa, no anno de 1555, ha noticia de dois exem- 
plares, um perdido no fim do século xvin, outro em 1858, 
de maneira que depois desta data apenas se conheceu da 
obra a descripção extrínseca feita pelos bibliographos com 
as oito primeiras estancias de cinco versos, transcriptas por 
Innocencio. 

Desse pequeno fragmento pouco se podia concluir com 
segurança acerca da tragedia de Ayres Victoria. Como não 
foi estudada criticamente emquanto foi conhecida, antes de 
aventurar qualquer hypothese critica haveria que resolver o 
problema bibliographico, descobrir o paradeiro dos últimos 
exemplares da segunda edição. Todavia alguns auctores ti- 
nham chegado a affoitar hypotheses criticas: o sr. Men- 



Historia da Litteratura Clássica 13>3 

des dos Remédios (') considerava a perdida obra de Ayres 
de Victoria, como traducção de alguma peça de Eschylo, e 
o sr. Esteves Pereira ( 2 ) como imitação da imitação caste- 
lhana, La Venganza de Agamcnon, de Perez de Oliva, publi- 
cada em 1528. 

Foi o segundo auctor quem teve a boa fortuna de ver 
documentadamente confirmado o 'seu juízo. Havendo noticia 
da existência dum exemplar da edição de 1555, em poder 
do Conde de Samodães, o sr. Esteves Pereira obteve per- 
missão para o reimprimir, o que effectivamente realizou na 
collecção Monumentos da Litteratura Dramática Portuguesa, 
que por sua iniciativa a Academia das Sciencias vem publi- 
cando (*)< 

Examinando e comparando o texto de Victoria com o 
de La Venganza de Agamenon, de Fernando Perez Oliva, tra- 
ducção livre, em prosa, da Electra de Sophocles, o sr. Este- 
ves Pereira conjectura com plena verosimilhança que a obra 
portugueza era traducção também livre, mas em verso, da 
traducção castelhana do texto grego. O metro adoptado é 
popular, a redondilha maior em quintilhas, mas o estylo 
mantem-se grave e austero como convinha á acção e ás per- 
sonagens. 

Traducção directa ou traducção de traducção, como se 
afigura mais crivei, a tragedia de Victoria é um dos passos 
primordiaes do hellenismo litterario em Portugal. 



(*) V. A Castro de António Ferreira conforme a edição de ijç8, 
Coimbra, 1915. 

( 2 ) V. A Vingança de Agamcnon, Tragedia de Anrrique Ayres Vi- 
ctoria, nota de historia lideraria, publicada no vol. x do Boletim da Se- 
gunda Classe da Academia das Sciencias de Lisboa, Lisboa, 1916, pag. 
226-237. 

í 3 ) V. A Vingança de Agamenon — Tragedia de Anrrique Ayres 
Victoria, conforme a impressão de ijjj, publicada por ordem da Acade- 
mia das Sciencias de Lisboa por F rancisco Maria Esteves Pereira, Lisboa, 
1918, 118 pags. 



1'34 Historia da Litter -atura Clássica 

Só António Ferreira (') nos haveria de legar a nossa única 
tragedia do século xvi, notável por essa circunstancia, pela 
sua belleza artística e pela particularidade de tratar já, em 
pleno inicio do classicismo, um assumpto de historia pátria. 
É em haver tomado um assumpto de historia pátria para a 
sua tragedia que os historiadores da nossa litteratura cifram 
a originalidade de António Ferreira; nós permitimo-nos 
alargar um pouco mais esse mérito da originalidade e redu- 
zir apreciavelmente outro, que com maior insistência se lhe 
attribue, o da belleza perfeita da execução. 

Quando os poetas quinhentistas, por toda a parte, onde 
o conhecimento e gosto dos trágicos gregos e de Séneca 
accordavam, começaram as suas imitações, não se aperce- 
beram de que para esse género, nobre entre os mais nobres, 
não bastaria uma imitação fiel e inspirada dos bons modelos, 
segundo os caracteres geraes que haviam delles extrahido 
Aristóteles na sua Poética e Horácio na sua Epistola aos 
Pisões. Não. A tragedia era um género official; á medida 
que fora perdendo o seu cunho litúrgico e se fora depurando 
de todos os elementos anti- trágicos — já diremos quaes — ■ 
fora se tornando o género mais nobre da litteratura grega, 
pela grandeza da matéria e pela sua funeção civica. Os trá- 
gicos gregos não escreveram para ser lidos. De olhos postos 
nas lendas homéricas, fonte e alimento da matéria trágica 
por excellencia, animados pela emulação de vencer compe- 
tidores, escreveram para que as suas peças fossem represen- 
tadas perante uma multidão de dezenas de milhares de 
espectadores, em amplos theatros ao ar livre, cujos senti- 



(') António Ferreira nasceu em Lisboa, em 1528, e doutorou-se na 
Universidade de Coimbra em direito civil, e alli foi também professor. 
Morreu de peste em 1569, deixando inéditas todas as suas obras, só em 
1598 editadas por seu filho Miguel Leite Ferreira, sob o titulo de Poemas 
Lusitanos, mas ainda sem comprender as comedias, que corriam juntas 
com as de Sá de Miranda. 



Hii • LitteratUra Clássica 135 

mentos ora preciso não oífer.der, antes lisonjear c manter. 
Nunca houve tal alliança, tão estreita e tão fecunda, entre o 
individual, livremente creador, e a arte official, com 
suas coacções moraes e legaes! Para que as figuras dos 
actores se não apoucassem perante tão vasta multidão, era 
necessário alteá-las de modo artificial, calçando-lhes altos 
cothurnos; para que a expressão physionomica não deixasse 
de ser percebida ao longe, adoptava-se o uso das mascaras, 
que accentuavam, exaggeravam mesmo essa expressão da 
physionomia. E para que a voz se não perdesse no espaço 
e chegasse aos mais longínquos espectadores, as mascaras 
tinham a bocca desmesuradamente aberta e com uma dispo- 
sição especial para fazer reboar a voz. Feita em taes condi- 
ções a representação material das tragedias, comprehende-se 
que cunhos profundos imprimiria a esse género. E eram 
elles principalmente: ser assumpto obrigado a matéria dos 
poemas homéricos, sem variantes nem innovações, sempre 
os mesmos deuses, os mesmos heroes e os mesmos episó- 
dios fataes ; portanto a prompta exhaustão dessa matéria 
trágica, única officialmente reconhecida, desde que a esgo- 
taram os génios de Eschylo, F.ophocles e Euripides, que 
ainda se repetiram ; a psychologia de generalidades, cara- 
cteres extremos, expressões physionomicas extremas, só 
aquelles estados de alma e modos de ser, que todos ao 
longe comprehendiam e sentiam, só as expressões que as 
mascaras, por todos vistas, podiam traduzir. A arte mo- 
derna, impregnada de espirito scientifico, engeitará a in- 
verosimilhança e quanto respire um ar sobre-humano; a 
tragedia antiga deliberadamente organizava um mundo su- 
periormente inverosímil, acima das contingências humanas. 
Ora os poetas do humanismo, trabalhando no recolhi- 
mento dos seus gabinetes, não iam compor tragedias por 
solicitação publica e com o destino complexo e previsto que 
aguardava uma tetraiogia de Sopholes; iam fazer uma ten- 
tativa cheia de incertezas para restaurar um género morto, 



136 Historia da Ldtteratura Clássica 

cuja recordação só fora alimentada por Séneca, cuja obra 
era já uma extrema decadência da tragedia grega. E por 
melhor que fosse o êxito que esses ensaios dos imitadores 
da renascença alcançassem, nunca seria outro além da lei- 
tura por alguns amigos das boas letras, quando muito a 
representação por esses mesmos eruditos em sua casa. A 
vida larga do grande publico ao ar livre, o auctor e o pu- 
blico vibrando em unisono, o cothurno, a mascara, a inve- 
rosimilhança ideal e todas as suas consequências haviam 
desapparecido, e os novos trágicos, ao abalançarem-se ao 
seu emprehendimento de restaurar a tragedia, haviam de 
introduzir na sua estructura e no seu espirito modificações 
taes que por ellas se abria uma nova phase da historia desse 
género. A outra parte, fora do mundo homérico, havia que 
ir buscar a matéria trágica; desmascarando e descalçando 
os actores, cobrindo a representação com o tecto constran- 
gedor duma breve sala, frequentada dalguns selectos espe- 
ctadores, havia que humanizar as personagens e a acção, e 
podia-se já dar expressão a estados intermédios da alma, 
quantos podiam perceber esses selectos espectadores, quan- 
tos podiam traduzir no rosto sem mascara os actores. O 
coro, simultaneamente vestígio da origem religiosa e ele- 
mento de lyrismo, tenderia a desapparecer para que a acção 
decorresse lógica e natural, espontaneamente tendendo para 
o seu desfecho trágico, sem a intrusa interferência dos com- 
mentarios e aclarações dos coristas. Mesmo para que a 
tragedia fosse cada vez mais trágica era preciso que fosse 
cada vez menos lyrica, sem deixar de ser essencialmente 
dramática. Por lyrismo nós entendemos expansão subjectiva; 
por drama nós entendemos acção objectiva, susceptível de 
representação scenica. O trágico é uma categoria superior 
do dramático, mais pura e mais nobre. 

A differenciação, que havia a fazer no espirito e na estru- 
ctura da tragedia moderna, mal a comprehenderam os aueto- 
res que nesse género se ensaiaram nos séculos XV e xvi. 



Historia da Litteratura Clássica 187 

Por intelligentemente a haver comprehendido e sabiamente 
a haver praticado, deve a litteratura francesa o possuir em 
si a segunda grande epocha da tragedia. E porque no século 
XVI, o nosso António Ferreira alguma coisa comprehendeu 
e praticou dessa differenciação é que nós dissemos que 
devíamos alargar o mérito de originalidade á Castro attri- 
buido ; como também por não haver purificado a tragedia 
de alguns elementos anti-tragicos, nós limitamos o mérito 
da belleza esthetica. 

António Ferreira, tomando para assumpto da sua trage- 
dia a paixão de Ignez e D. Pedro l, ia buscar a matéria 
trágica a um domínio — paixão amorosa — que viria a fazer 
toda a originalidade e belleza da moderna tragedia francesa. 
E que Ferreira muito bem presentira qual o ponto de vista 
por que devia considerar essa paixão, rnostra-o o haver 
tomado da longa duração desse amor, apenas o desfecho 
desgraçado, a brusca reviravolta da fortuna, como recom- 
mendavam os theoricos. Nada havia de trágico no decurso 
feliz desses molles amores, quando felizes. Seria effectiva- 
mente a paixão amorosa que forneceria a matéria trágica a 
quantos não quizessem ir de novo buscá-la ao mundo homé- 
rico — o qual já dera quanto podia dar á tragedia grega. 
Mas havia que saber tomar essa paixão amorosa, escolher 
o que ella contem de trágico, sem o confundir com o muito 
de romanesco e heróico, que pôde comportar. Brunetière, 
num estudo breve, mas notável pela argúcia ('), apontou o 
meio por que os auctores trágicos tornaram a paixão amo- 
rosa em matéria trágica: reparando na universalidade da 
paixão amorosa, que a todos attinge e que por isso poderia 
dirigir-se a um largo publico, como o das festas Dyonisia- 
cas ; na sua particularidade ou seja no modo particular por 



(!) V. L' Evolution d'im genro - La Tragedie. 1901. Incluído na 
7.» serie dos Études Critiques. 



138 Historia da Litteratura Clássica 

que cada um a experimenta; na sua fatalidade caprichosa; 
na sua condição contradictória de existência doce e sempre 
inquieta. Trazer a um relevo de primeiro plano, eloquente 
e emocional, estas características da paixão amorosa e, em 
episódios históricos e lendários, delia fazer depender grandes 
interesses e grandes causas, e eis achada nova matéria trá- 
gica, onde não faltariam o horror e a piedade, a violência 
dos sentimentos, a magestade digna e nobre das pessoas, 
a fatalidade, a lucta e a lição histórica — de certo género de 
historia, que os antigos chamavam «a mestra da vida>. 

Como se vê, disto alguma coisa fez o nosso António 
Ferreira. Poderemos, pois, tirar a conclusão de que Ferreira 
teve mérito de originalidade, não por ter extrahido da sua 
historia pátria o thema da sua tragedia — o que Mussato já 
fizera — mas sim por ter tomado para ella a paixão vibrante 
e desgraçada de Ignez de Castro. Se o nome pouco conhe-. 
eido de Mussato se não pôde apagar da historia geral da 
tragedia, muito menos é legitimo esquecer o de Ferreira, 
que entre tantas e tão infelizes tentativas de restauração da 
tragedia francesa soube apontar o domínio de que se ali- 
mentaria a futura tragedia francesa — a qual só chegou a 
essa conclusão após uma longa e lenta historia, desde Jodelle 
e Hardy. Este mérito não é pequeno. 

Expliquemos agora por que julgamos, em contrario, 
que deve ser restringido o conceito de summa belleza que da 
Castro commummente se faz. Os nossos historiadores littera- 
rios chamam-lhe mesmo obra prima. 

O coro tem um grande papel na Castro : intervém no 
primeiro acto estimulando o secretario do infante D. Pedro 
a proseguir nos seus conselhos; ainda no mesmo acto inter- 
vém a commentar a cegueira amorosa do infante ; e no fim 
do mesmo desempenha a sua fuucção de commentario e 
explicação da fatalidade do amor; no fim do segundo acto 
do mesmo modo ; no terceiro trava dialogo com Ignez e a 
ama, a quem presagia cruéis novas, mistura- se, portanto, 



Historia da Litter -atura Clássica 139 

á acção ; no fim deste desempenha o seu legitimo papel : no 
quarto acto dialoga com Ignez e depois com D. Affonso iv ; 
no fim outra vez desempenha o seu legitimo papel ; no 
quinto acto desapparece. A regra clássica era que os cinco 
actos da tragedia deviam ser separados por quatro cantos 
do coro, dos quacs o primeiro era quasi sempre uma canção 
lyrica genérica e estranha ao entrecho ; nos seguintes é que 
tinham cabimento os commentarios á acção. A parsistencia 
do coro era um obstáculo ao progresso da tragedia, porque 
representava um elemento de subjectivismo, o lyrismo do 
auctor, e maior obstáculo seria intervindo na acção, appa- 
recendo como causa externa que influe no movimento lógico 
da intriga; por um lado imprime-lhe lyrismo, por outro 
retira á tragedia aquelle caracter de necessidade, de exacta- 
mente bem determinada que lhe é próprio e que conduziria 
á famosa theoria das três unidades. — 

A lucta, principio indispensável no sentimento trágico, 
soube muito bem aproveitá-la António Ferreira ; ella consiste 
no antagonismo entre a paixão de Ignez e D. Pedro e os 
altos interesses do estado ; ella trava-se principalmente no 
animo de Affonso iv. E se se attender bem neste facto — 
quaes os elementos da lucta e em que espirito é que a lucta 
se trava — teremos muito bem explicada a falta que se 
assaca tão frequentemente a António Ferreira: de não haver 
feito encontrarem-se em scena Ignez e D. Pedro. Nós expli- 
caremos que esse encontro não traria belleza, nem emoção 
trágica á peça, apenas lhe acrescentaria um episodio dispen- 
sável. Os dois amantes não estavam em opposição de sen- 
timentos, nenhuma lucta trágica os poria em conflicto ; vê- 
los-hiamos cahir nos braços um do outro. Mais tarde Cor- 
neille faria encontrar-se Cid com Chiména porque era entre 
elles a lucta ; Cid era o namorado de Chiména, mas era tam- 
bém o assassino de seu pai, e Chiména, ao mesmo tempo 
que loucamente o amava, pertinazmente pedia vingança 
desse assassínio. Na Castro os dois amantes estão de accordo, 



140 Historia da Litter atura Clássica 

perdidamente amorosos como são — sabemo-lo bem : era 
necessário que ambos apparecessem em scena, Ignez para 
revelar a sua alma apaixonada e os seus angustiosos receios 
e previsões, D. Pedro para nos mostrar a sua obstinação 
em pospor os interesses do estado ao do seu coração. Isso 
faz Ferreira. Mas havia que os separar e dar o infante por 
ausente, porque só na ausência estaria Ignez indefesa e po- 
deria consumar-se o assassínio. É no animo do rei que a 
lucta se trava ; é por isso que com elle se encontra Ignez 
a exacerbar essa lucta. Não se pôde dizer que António Fer- 
reira não houvesse sabido tomar o lado trágico do thema. 

Discretamente, Ferreira não nos faz assistir ao assassí- 
nio de Ignez; sabemos no fim do quarto acto que se vae 
perpetrar, e sabêmo-lo já perpetrado no 5. acto, quando o 
mensageiro leva essa noticia ao infante. Esta delicadeza do 
gosto de Ferreira não é para deixar de mencionar, visto que 
já então em Itália os continuadores de Trissino, principal- 
mente Rucellai, Speroni e Giraldi, haviam posto em moda 
a tragedia de carnificinas, mostradas em scena. Depois, com 
o tempo, dividir- se-hiam as opiniões: os partidários do der- 
ramamento do sangue em scena e os partidários do modo 
de proceder, entre nós inaugurado por Ferreira ('). 

Na lucta, apresentada na Castro, dissemos nós que era 
novo o elemento paixão amorosa; accrescentaremos agora 
que novo é também e muito do tempo de Ferreira, o outro, 
razão de estado. Nas allegações dos conselheiros do rei e na 



C 1 ) Este problema do derramamento do sangue em scena foi pos- 
teriormente discutido em Portugal por Francisco José Freire na sua 
Arte Poética, Lisboa, 1748, e por Corrêa Garção, que em sessão da Arcá- 
dia Lusitana leu uma dissertação a tal respeito. O primeiro, como eru- 
dito, acatava as duas praticas — fazer presencear mortes e só as narrar 
— de ambas as quaes conhecia exemplos; o segundo, menos erudito, 
mas de mais delicado gosto, opinava pela narração. V. a este respeito a 
nossa Historia da Critica Litter ária em Portugal, Lisboa, 1916, 2. a ed., 
pags. 76, 88 e 91. 



Historia da Litteratura Clássica 141 

final deliberação deste ha sempre presente o espirito da 
politica machiavelica, a tyrannia esclarecida que de todos os 
meios usa, quando a superior razão os justifica, a omnipo- 
tência e sciencia certa dos reis, repetidamente expressas : 

CONSELHEIROS 

O bem commum, Senhor, tem taes larguezas 
Com que justifica obras duvidosas. 



Deos o faça, 
Cuja vontade he ley, e a minha não 



Essa licença têm também os Reys, 
Que em seu lugar estão. 



CONSELHEIROS 

Inda que houvesse excessos, todavia 
Mais males atalharam do que deram. 



REY 

Mal parece 
Matar húa innocente. 

PACHECO 

Não he mal : 
Que a causa o justifica. 

Os sentimentos pessoaes de António Ferreira trahiram- 
se na disposição moral que attribue a D. Affonso iv, can- 
sado da sua realeza, desilludido e sedento da tranquilla e 



142 Historia da Litteralura Clássica 

descuidada humildade dos que não têm a seu cargo reger 
os destinos dos homens. E' o gosto da áurea mediocritas, nas 
suas hi iças confessado por António Ferreira, poeta horacia- 
no e. discípulo do estóico solitário da Quinta da Tapada, de 
Sá de Miranda. 

Na Castro apparece já um artificio litterario, ao depois 
muito usado no theatro trágico, o sonho, e não só no theatro 
trágico. Devemos esclarecer que o sonho terrífico, que Ignez 
de Castro narra á ama, como sempre que os trágicos usaram 
desse artificio, tinha por fim augmentar o effeito de terror, 
annunciar através duma consciência desassossegada a fatali- 
dade próxima a desencadear-se. Veremos, depois, no realis- 
mo, o sonho completamente livre da acção ser apenas ele- 
mento psychologico a documentar uma consciência a si mes- 
ma entregue, durante o somno, sem as coacções que sobre 
ella desperta ordinariamente se exercem ( l ). 



( ! ) Como a Castro só foi publicada em 1587 e como anteriormente, 
em 1577, appareceu a Alse lastimosa do dominicano gallego Jeronymo 
Bermudez, traducção livre da peça portuguesa, formou-se a opinião de 
ser a obra hespanhola a original. Sobre este assumpto pleitearam vários 
auetores portugueses e hespanhoes, sendo hoje unanimemente acceita a 
certeza da auetoria portuguesa. V. principalmente Martinez de la Rosa, 
Arte Poética, 1827 ; as muitas obras que tratam das origens do theatro 
hespanhol, indicadas na Bibliographie de VHistoire de la Litlér ature Es- 
pagnole, do sr. Fitzmaurice-Kelly, Paris, ed. Colin ; Costa e Silva, En- 
saio bio gr aphico- critico ; Visconde de Castilho, Livraria Clássica; Th. 
Braga, Historia do Theatro; e o prologo do sr. Mendes dos Remédios á 
sua edição da Castro. É um episodio curioso deste pleito o estranho 
modo por que a tal respeito se pronunciou o critico hespanhol, Menéndez 
y Pelayo : «Resueltamente no puede afirmarse nada. Por lo demás, no 
tengo inconveniente en dejar a nuestros vecinos, tan pobres de teatro, 
la pieza objeto de esta rencilla provincial. Una tragedia clásica más o 
menos, sin acción ni movimiento apenas, bien escrita, aunque falta de 
color, y adornada de lindos coros, en nada acrece ni amengua el tesoro 
de la literatura dramática castellana, con cuyos despojos hubo siempre 
bastante para enriquecer a extrahas gentes. No vale a pena reriir por 



Historia da Litteratura Clássica 143 

E nada mais nos apresenta no género trágico a nossa 
litteratura quinhentista. A razão ó obvia. Portugal não offe- 
recia a idónea atmosphera de sentimento trágico para a crea- 
ção de obras desse género. Houvera matéria trágica no rei- 
nado de D. João II, quando este monarcha e a nobreza 
andaram empenhados numa iucta de extermínio, mas depois 
com D. Manuel I e D. João III a vida da metrópole, o meio 
da corte estavelmente se amodorrou numa serena quietação 
de luxo e conforto. Vasta matéria offerecia decerto á ideali- 
zação litteraria a dissolução das famílias, os soffrimentos 
indizíveis de que a Inquisição, estabelecida em 1547, foi 
portadora : os receios angustiosos, as devassas, as prisões, 
os soffrimentos pb/ysicos e moraes dos interrogatórios, a 
dispersão das familias, a morte, a miséria e a forçada per- 
versão dos caracteres. Mas este theor de vida, eminente- 
mente trágico, ninguém ousou expressá-lo em arte, nem se- 
ria possível tê-lo feito de modo fructifero, tantas e tão 
severas eram as defezas e cautellas do tribunal inquisitorial, 
obediente instrumento da igreja e do rei. A vida guerreira 
dos domínios ultramarinos e as tradições das viagens de 
descoberta anteriormente realizadas creavam um intenso 
espirito heróico, mais tarde soberanamente expresso nos 
Lusíadas. Os naufrágios e soffrimentos atrozes das armadas 
determinaram o apparecimento dum género próprio, as nar- 
rativas dos naufrágios, onde o sentimento trágico se expressa 



tan poço. De todas suertes, la Castro es espariola, y no és cuestión de 
vida ó muerte el que fuese un galego ó un português su primitivo autor». 
V. Horácio en Espana, Madrid, 1885, 2.0 vol., pag. 303-4. O eminente 
critico esqueceu-se de emendar esta passagem tão contraria ao seu me- 
thodo ordinário. 

Ainda a propósito da Castro se discute o conhecimento directo que 
dos trágicos gregos teria tido Ferreira. É partidário da opinião da imita- 
ção directa, e não de Séneca, o sr. Prof. Adolpho Coelho que a expôs 
no artigo A Castro, de Ferreira, na revista Theatralia, n. cs 1 e 2, Lis- 
boa, 1913. Infelizmente não se concluiu a publicação desse artigo. 



144 Historia da Liitcr atura Clássica 

por vezes com a intensidade possível com tão ingénuos 
meios de arte. 

B - COMEDIA 

António Ferreira, o auctor innovador da nossa primeira 
tragedia regular, Castro, deixou-nos também duas comedias, 
que se contam entre os primeiros ensaios de theatro cómico 
no gosto clássico. São essas comedias Bruto e Cioso, compos- 
tas em Coimbra, quando Ferreira frequentava os estudos 
universitários. Das duas comedias, só a primeira tem pro- 
logo, mas como peça estranha á obra, uma espécie de pre- 
facio do auctor. Nesse prefacio, allude Ferreira a alguns 
seus predecessores nacionaes no cultivo desse género, refe- 
rindo-se sem duvida a Sá de Miranda, também auctor dos 
Estrangeiros e dos Vilhalpandos, e — particularidade curiosa 
num espirito tão erudito — cita o nome de Livio Andronico, 
esquecendo Terêncio e Plauto, para só falar dos latinos : 
«E pola qual (a grande fama da comedia antiga) aquelle 
Livio Andronico Romam antiquíssimo, alcançou famoso 
nome pêra sempre; não falo nos que o seguiram desde en- 
tão até agora em Itália, pois em nossos dias vemos neste 
Reyno a honra, e o louvor de quem novamente a trouxe a 
elle, com tanta differença de todos os Antigos, quanta he a 
dos mesmos tempos. Porque quem negará, que na pureza 
de sua lingoagem, na arte da composição, naquelle estilo 
tão cómico, no decoro das pessoas, na invenção, na gravi- 
dade, na graça, no artificio, não possa triumphar de to- 
dos?» (') Tem esta comedia por assumpto um thema tão 
repetido nos comedicgraphos clássicos e nos seus imitadores 
da Renascença que bem se pode considerar um thema 
cyclico, de escola : as assiduidades de vários pretendentes 



[!) V. BristOj pag. 2, ed. de 1771, 2. vol. 



Historia da Litteralurà Clássica 145 

em voka da mesma donzella, cada um dos quaes envida os 
seus melhores esforços e utiliza o melhor que pôde a media- 
ção de terceiros. O mediador geralmente aproveitado nesta 
comedia é Bristo, alcoviteiro sem escrúpulos, que vive de 
embair os namorados e os libidinosos, eniretendo-os com fal- 
sas promessas e generosamente se fazendo pagar. Na scena 
2. a do 2.° acto, num monologo, Bristo faz como que o seu 
perfil e expõe os meios de acção da sua arte, como opera e 
como lucra. Todavia Bristo não é uma personagem tão sem 
escrúpulos que se negue a auxiliar os honestos amores de 
Camillia, a donzella por todos pretendida, e Leonardo, o pre- 
ferido dentre esses pretendentes. A fanfarronada prepotente, 
domjoanesca e bellica do Miles Ghriosus acha-se em Bristo 
distribuída por duas personagens, Annibal, cavalleiro de 
Rhodes, e Montalvão, o primeiro dos quaes inteiramente se 
entrega ás machinações de Bristo. A comedia, muito á ma- 
neira de Terêncio, termina pela chegada inesperada de Pin- 
daro e Arnclío, respectivamente pae e irmão de Camillia, 
que havia dois anhos eram julgados como perdidos por 
«essa índia, que he peor que as covas de Salamanca, por 
. n ;~cão sete» ( J ). 

Pindaro e Arnolfo chegam ricos e prósperos, e patroci- 
nam o casamento de Camillia com Arnaldo. Ainda outros 
casamentos se realizam e põem feliz remate á serie muito 
confusa de machinações e habilidades de Bristo. Também 
á maneira clássica, ha na peça um filho dissipador e enamo- 
rado, que o pae colérico persegue. Em Ferreira o dialogo é 
mais natural, mais humanas as reflexões, mais logicamente 
encadeadas e mais coherentes com os papeis das. persona- 
gens. Dizemos assim — papeis das personagens — e não ca- 
racteres, porque essas comedias não agitam nem põem em 
lueta caracteres; todos os figurantes se animam exclusiva- 
mente da vaga psychologia de Terêncio, recortadas como 



(>) Pag. 21, ed. cií. 
V dí L. Clássica, vol. ).• 



140 Historia da Liíteraiura Clássica 

são do seu theatro. Um processo muito usado por Terêncio 
é abusivamente praticado por Ferreira, e também por Sá de 
Miranda: todas as personagens, a quem outra quer fallar, 
logo apparecem inesperadamente e vem fallando em voz alta, 
sem notarem que são ouvidas, a dizer precisamente o que 
as outras querem saber. A acção decorre assim como uma 
serie de episódios ligados por outra serie de coincidências 
e acasos, os quac-s acasos — encontros, chegadas imprevistas 
e monólogos que ouvidos interessados e indiscretos escutam 
— tcdos se realizam no praça publica. Para esta praça abrem 
as portas das casas dos figurantes. 

A comedia do Cioso narra o caso dum marido extrema- 
mente ciumento, que do mesmo passo que encerra a esposa 
em casa, sob a mais severa vigilância, para si reserva plena 
liberdade para correr em busca de novos prazeres d'amôr, 
em casa duma cortesã. Essa severidade determina da parte 
da esposa uma represália. Disso informado só parcialmente, 
o marido ciumento, receoso das ultimas consequências do 
seu proceder, põe de lado taes clausuras e passa a ser um 
mando razoável. Tem o desenvolvimento desta acção, prin- 
cipio, meio e fim, tem lógica, pois se visa a um effeito, des- 
crevem-se as causas que influem até á realização desse fim J( 
mas não tem brilho de execução e o desenvolvimento da 
acção passa-se no abstracto espaço, reduzido a uma serie de 
acontecimentos, nunca elaborados em phencmenos mcraes, 
em acções e reacções de caracteres. 



Jorge Ferreira de Vasconcellos (*) legou-nos três come- 
dias : Euphrosina, que se julga composta por 1537, mas que 
só foi publicada em 1561; Ulyssipo, de 1547; e Aulegraphia, 



(1) Ignora-se quasi por completo a biographia de Jorge Ferreira 
de Vasconcellos. O pouco que delia se conhece está compendiado no 



Historia da Litter atura Clássica 147 

que parece ter sido escripta em 1554, mas que"só foi im- 
pressa em 1619, por diligencias de D. António de Noronha, 
genro do escriptor. 

Nas comedias de Jorge Ferreira, bem como nas de Sá 
de Miranda e António Ferreira e ainda nos autos de Gil Vi- 
cente, é muito frequente a presença duma proxeneta de illi- 
citos amores, como personagem quasi obrigada. Em Gil Vi- 
cente queremos crer que uma causa desse pormenor de com- 
posição seja a observação dos costumes do seu tempo, mas 
outra causa haverá também influído quer em Gil Vicente, 
quer nos outros comediographos de gosto clássico, nestes 
com mais directa suggestão : a imitação da Celestina, de Fer- 
nando de Rojas, publicada em 1499. A Euphrosina de Jorge 
Ferreira é disso um documento e dos mais antigos, Sá de 
Miranda e Gil Vicente dérám representações de suas peças 
em Coimbra, onde também Jorge Ferreira redigiu a sua Eu- 
phrosina, em Coimbra, no dizer do próprio escriptor, «coroa 
destes Reynos, á sombra dos verdes sinceiraes do Mon- 
dego. ■» 

As comedias de Jorge Ferreira foram" publicadas sem 
nome de auctor, mas a attribuição delias a este escriptor é 



tomo 3. de Origenes de la Novela, de Menéndez y Pelayo, Madrid, 1910, 
pags. ccxxvm-ccxLiii e na Introducção da edição académica da Comedia 
Euphrosina, do sr. Aubrey Bell, Lisboa, 1913 O critico hespanhol apro- 
veitou informes, que lhe ministrou a sr. a D. Carolina Michaelis, como 
declara. 

Attribuem-se a Jorge Ferreira três naturalidades : Lisboa, segundo 
uma nota manuscripta lançada por mão anonyma sobre um exemplar 
da Euphrosina, na edição de 1561, e revelada por J. J. da Costa e Sá; 
Coimbra, que mostrou bem conhecer, ou Montemór-o- Velho, ambas 
apontadas por Barbosa Machado. Fez parte da casa do infante D. Duarte 
e, por morte deste, da do rei D. João 111. Foi escrivão do thesouro, 
como consta dum documento sobre a sua substituição por Luiz Vicente, 
em 1563. Barbosa Machado regista que (Ora escrivão da casa da índia. 
Morreu em 1585. 



148 Historia da Litteratara Glassim 

de plena segurança, segundo testemunhos de escriptores coe- 
vos e posteriores. A Euphrosina foi reproduzida por Rodri- 
drigues Lobo, em 1616, mas com o texto emendado e inter- 
pretado arbitrariamente; em 1787, por diligencias de Bento 
José de Sousa Farinha, mas sem progresso sensível quanto 
á melhoria do texto; e em 19 19 pelo sr. Aubrey Bell, con- 
forme a edição de 1561, sem deixar de em passos numero- 
sos estabelecer a sua lição própria. O sr. Aubrey Bell acre- 
dita na existência duma edição mais antiga, de 1554, por 
inferências. 

Os primeiros trabalhos que ha a fazer, como bases essen- 
ciaes do estudo da comedia de Ferreira, são tornar os textos 
accessiveis por meio de edições de confiança e depois, sobre 
ellas, diligenciar restituir o texto e interpretá-lo. A Euphro* 
sina é uma das obras mais obscuras da nossa litteratura, 
tanto por deliberado propósito do auctor como por desfigura- 
ção do texto. A edição do sr. Aubrey Bell é um passo impor- 
tante nesse caminho, embora não possam ser sanccionadas 
todas as suas interpretações. Sobre ella fez um estudo tex- 
tual o sr. Dr. José Maria Rodrigues, o fundador entre nós 
da critica de fontes. Quando os seus commentarios e emen- 
das se imprimam, tornarse-ha mais intelligivei esta come- 
dia. Comedia lhe chama o seu auctor e assim foi designada 
pelos seus fervorosos leitores, mas ella é na verdade uma 
novella dialogada, para ser lida, pacientemente, saborean- 
do-se na analyse e na meditação as suas longas divagações 
moraes, os seus arrazoados, ainda que essa leitura fosse para 
um publico, como pode inferir-se do prologo de João de Es- 
pera em Deus. Mas uma leitura publica é coisa muito di- 
versa duma representação scenica. Para ser lida também 
parece haver sido ; composta a Celestina, directo modelo de 
Jorge Ferreira, « o novo^autor em nova invençam ». 

A Euphrosina narra os amores de dois mancebos presos 
dos encantos duma jovcn nobre, de cujo nome se intitulou 
a comedia. Zelotipo e Cariofilo oppõem se em contraste 



Historia da Litteralura Clássica 149 

vivíssimo pela sua concepção do amor, absorvente, submisso 
e cavalheiresco no primeiro; leviano, voluptuoso e gabarola 
até á libertinagem no segundo. Quando este exprime as suas 
opiniões e processos de amor, com o mais cru cynismo, Me- 
néndez y Pelayo vê nelle um verdadeiro antecessor de D. Juan. 
A medianeira dos amores deshonestos é Filtria, correspon- 
dente á Celestina, e a dos amores castos é Silvia de Sousa, 
correspondente á Poncia, da Segunda Celestina. 

Kscripta em prosa, dividida em cinco actos e em scenas, 
de grande numero de personages, mas de que raro se jun- 
tam mais de três em cada scena, imitada da Celestina, com 
matéria local e popular, como são os episódios da vida 
coimbrã e a farta ostentação de provérbios e annexins ('), com- 
pletos uns, apenas enunciados outros, a Euphrosina não é bem 
para ser considerada uma comedia do typo clássico, como das 
de Sá de Miranda e Ferreira, mas antes como uma novella 
dialogada do typo castelhano ( 2 ). 

Á Euphrosina, «invenção nova nesta terra >, seguiu-se 
Ulyssipo onde se encontram as peripécias cccorridas num 
lar, cujo chefe, Ulyssipo, apesar de ser um libidinoso dissi- 
pador, exerce sobre suas duas filhas, Tenoluia e Gliceria, e 
sobre seu filho Hippolyto uma severa tyrannia. Todavia 
esses rigores não impedem que o filho se dê a excessos e 
aventuras e que as filhas casem de modo muito contrario á 
vontade desse severo mas pouco auctorizado pae. 

Tem a peça um prologo, em que Mercúrio lembra a 
estimação que os antigos davam á comedia, sua origem, o 
argumento da peça que introduz e o seu objectivo: «com 



(') V. o appendice III, Lista dos adágios, na edição do sr. Aubrey 
Bell e Sr. Cândido de Figueiredo, A « Euphrosina » c a sabedoria das 
nações, na Revista de Língua Portuguesa, n.° 3, Rio de Janeiro, 1920. 

( 8 j Fernando de Ballesteros y Saabedra fez uma traducçâo caste- 
lhana, que se publicou em Madrid, 1631. Foi reproduzida no tomo 3. de 
Origenes de Ia novela, de Menéndez y Pelayo, Madrid, 1910, pags. 61-156. 



150 Historia da JAtter atura Clássica 

seu exemplo anisar ao pouo de seus vicies, e incitar ás 
virtudes.» Os cinco actos são muito prolixamente preenchi- 
dos pelo decurso dos episódios lentos 6 complicados, mas 
necessários para demonstrarem a these moral da obra, que 
Deus escreve direito por linhas tortas, pois com as estou- 
vanices de Hippolyto e com os casamentos das filhas, puniu 
a Ulyssipo. Das personagens, é a alcoviteira Macarena a 
melhor desenhada, sem duvida porque a sua moral e o seu 
caracter constituíam já o que nós chamamos lugarescom- 
muns de escola. Estes comediographos do século xvi usavam 
muito fazer que essas mesmas personagens confessassem o 
seu cynismo. Macarena não foge a essa pratica. Dá um indi- 
cio do theor dessa confissão de processos a seguinte norma 
a respeito de promessas: «Não sei disso nada, mas dir- 
vos-ey a minha regra nessa parte. As promessas não devem 
cumprirse quando são danosas áquelle a que forão pro- 
mettidas; nem também quando danão mais a quem as pro- 
mette do que aproveitarão a quem se prometterão. E por 
tanto cumpro sempre o que digo se me convém ; e se não 
a ninguém sou mais obrigada que a mim.» Tem esta comedia 
a particularidade de conter cantigas intercaladas no texto 
e de usar, como a Euphrosina, do expediente da leitura de 
cartas. 

Apesar de Jorge Ferreira ter os olhos tão absorvida- 
mente fitos na antiguidade que a exemplos antigos recorre 
para demonstrar conceitos muito communs, é grande o valor 
documental das suas comedias, sob esse ponto de vista já 
utilizadas por um auetor. (') Para mostrar que «nunca outra 
cousa vemos cada dia senão baratarem filhos os fundamentos 
dos pays por leve gosto próprio», vae buscar a opinião de 



(l) V. Memorias históricas do Ministério do Púlpito por um reli- 
gioso da Ordem terceira de S. Francisco, Fr. Manuel do Cenáculo, 
Lisboa, 1776. Cenáculo no appendice á 3 a parte das suas Memorias 
recorreu ás comedias de Jorge Ferreira repetidamente. 



Historia da LU Ur atura Clássica 151 

Ménandro, o caso de Acrisio e Medêa, de Niso e sua filha, 
e de Astiages e sua filha. É cora Argos dos cem olhos que 
Ulyssipo argumenta a sua mulher para a advertir de que de 
nada servem cautellas. Sobre a educação das mulheres, o 
mesmo Ulyssipo opina com os casos de Tanquenil, mulher 
de Tarquinio, Andromaca, mulher de Heitor e outros lon- 
gínquos exemplos. 

A Aulegraphia, como as precedentes, é em prosa e divi- 
de-se em cinco actos. Faz o prologo o deus Momo, que ao 
publico — publico de leitores, não de espectadores — expõe 
o assumpto da comedia, a costumada intriga amorosa, pela 
qual «pretende mostrar-nos no olho o rascunho da vida cor- 
tesão, em que vereis hua pentura que fala Sc vos fará vente 
Sc palpável a vaydade de certa relê.» É ainda o deus Momo 
que nos elucida acerca da prudente discrição e delicadeza, 
com que na comedia se pratica a imitação da realidade 
ambiente : 

«Nesta selada Portuguesa vereys varias difierenças, & 
certeza que passão em uso, & costume por estes bairros. 
Donde deve notar-se, & advertir-se que as calidades, Sc epí- 
tetos atribuídos em singular a toda a especia de pessoa aqui 
introduzida, compete geralmente ao género de taes especias, 
convém saber declarandome : Quando se pinta hua especia 
de cortesão, ou cortesãa que dizemos especiaes, ao natural 
de suas artes & modos principal Sc singularmente: entende- 
se em geral por o género das taes pessoas. Ca de particular 
nada se trata, por quanto seria odioso, cS: alheyo do estilo 
cómico moderno.» 

O assumpto da comedia é constituído pelos leves amores 
de Grasidel de Abreu e Philomela, cuja leveza com leveza 
se cura. Os mesmos creados das outras comedias, de imita- 
ção de Terêncio, sempre descontentes de sua condição e 
ainda mais de seus amos, a quem não obstante grandes ser- 
viços prestam, como correios de recados amorosos e como 
conselheiros. Os mesmos encontros a propósito, as mesmas 



152 Historia da Li 

divagações longas e difficeis a entorpecerem o dialogo o a 
complicarem inutilmente a acção, os mesmos característicos 
das outras obras já alludidas. 

O gosto dos jogos de palavras, que já vimos, sob forma 
de annexins se ostenta na Aulegraphia, mas com mais recato 
e por meio da confusão de homophonas ou quasihomophonas, 
como no pequeno exemplo que recortamos: «Rocha: Suas 
mãos beijo. — Cardoso: O senhor, grão saber vir. — Rocha: 
Donde buens? — Cardoso: Estava naquella travessa sobre 
ver hua rapariga que me atravessa. — Rocha: E ella he tra- 
vessa ? — Cardoso: Mas travessa d'alma. — Rocha : Dessa ma- 
neira fazeis d 'amor kila cancella? Rocha: Essa alcàcella de 
mim a seu salvo. — Rocha: E a esse alvo pretendeis vós 
fazer tiro? — Cardoso : Mas tiro pouco mays de nada em pen- 
samentos altivos.» 

As três comedias de Jorge Ferreira têm um valor exclu- 
sivamente documental sobre os costumes sociaes, sobre a 
língua e sobre o gosto da sua época, portanto valor histo 
rico e muito limitadamente esíhetico. 



CAPÍTULO Vi 



O LVR1SMO 



Agrupámos neste capitulo os dois iniciadores do buco- 
lismo e os continuadores directos de Sá de Miranda, porque 
sendo nosso propósito estudar nesta parte do nosso livro as 
principaes manifestações da poesia subjectiva do século xví, 
pouco era para considerar a conjectura de que o bucolismo 
em redondilhas seja anterior a Sá de Miranda e delle inde- 
pendente. Certo é que se suppõe ordinariamente que a vaga 
viagem de Bernardim Ribeiro á Itália se realizou entre os 
annos de 1520 e 1524, datas estas um pouco anteriores ás 
que limitam a famosa viagem de Sá de Miranda ; mais certo 
é ainda que Bernardim Ribeiro nasceu alguns annos antes 
de Miranda. Mas estes elementos não são sufficientes para 
estabelecer que Bernardim Ribeiro é um precursor de Sá de 
Miranda, ( l ) portanto formado em plena independência da 
acção deste reformador, porque falta a base essencial duma 
chronologia authentica e incontroversa de suas obras. Têm se, 



(') Recentemente, repetiu esta opinião o sr. Achille Pellizzari no 
seu livro Portogallo e Itália nel seco/o xri, Nápoles, 1914, onde a pag. 27 
escreve : «Onde non esito a ritenerlo precursore, sebbene a piccola 
distanza d'anni, di Sá de Miranda e a riconoscere in Iui e nella sua poesia 
1'anello dj congiunzione, o, meglio, Tatto di passaggio dalla vecchia 
lírica cortigiana di Portogallo alia scuoja italiana di Sá e di Camoens.» 



154 Historia eh IAtieratura Clássica 

é facto, datado suas obras, mas taes hypotheses deixam quasi 
sempre grande campo á duvida. Tanto Bernardim Ribeiro 
como 9 seu immediato imitador íormaram-se na atmosphera 
de idéas estheticas e gosto litterario, a que a Itália dava 
expressão, e que Sá de Miranda com mais affoiteza pro- 
pugnou. Tanto basta para que os reunamos neste capitulo, 
e para que a Miranda déssemos o lugar de relevo, que lhe 
arbitrámos. 

BERNARDIM RIBEIRO 

Como na arte litteraria do nosso quínkentismo se deu 
forma á concepção da vida trágica, da vida heróica e da 
vida lyrica, assim também a vida privada, medíocre de aspi- 
rações e na sua mediocridade satisfeita, encontrou a sua 
expressão litteraria na écloga. 

A concepção trágica exprimem-na os ensaios trágicos 
e, parcialmente, as narrativas dos naufrágios; a concepção 
heróica os romances de cavallaria, os roteiros das peregri- 
nações terrestres, a epopea camoneana e boa parte da histo- 
riographia ; a concepção lyrica reproduzerr.-na os sonetos 
platónicos. 

Os amores terrenos, em que a alma já não aspira a um 
ceu de idealidades puras, mas para a terra mui gostosamente 
propende e alliada ao corpo se estreita, formam o fundo da 
écloga pastoril e piscatória, com largueza cultivada no sé- 
culo xvi. Como a paisagem, os costumes pastoris e piscató- 
rios e a confissão do viver tranquillo se tornariam monóto- 
nos, porque não comportavam variantes de maior, pois para 
ver a paisagem de modo original seriam necessários outros 
olhos, menos obcecados pela visão clássica, a écloga foi bus- 
car para esse fundo permanente e uniforme um elemento- 
variável e mais emotivo, o drama amoroso. Este elemento 
predomina exclusivamente na nossa écloga que é muito 
uni-lateral, por não haver admittido os elementos cómicos 



Historia da Litteratura Cias sim 155 

que em Itália continha e que davam ao género um maior 
poder de comprehensão. A écloga portuguesa é exclusiva- 
mente lyrica, de tom lamentoso, e tem por obrigada compo- 
sição o fundo permanente da paisagem com seus adornos 
pastoris ou piscatórios — mais daquelles que destes — e dum 
primeiro plano em que o protagonista ou protagonistas se 
lamentam de seus infelizes amores. São sempre infelizes 
esses amores e é essa sua infelicidade que os torna matéria 
litteraria. Consiste a causa dessa infelicidade no abandono 
dum dos amantes, que parte para «longes terras > . 

Bernardim Ribeiro (*) é que fixa estes caracteres á écloga, 
que cultiva com brilho, não comparável ao pequeno êxito 
dos ensaios de Sá de Miranda nesse género. Fixa-lhe tam- 
bém Ribeiro uma forma métrica própria, a redondilha me- 
nor, depura-a de elementos mythicos, dá mais alguma natu- 
ralidade e sequencia lógica ao dialogo e introduz o gosto 
dos jogos de palavras homonymas e as repetições parallelis- 
ticas. O jogo de palavras será largamente praticado por 
Christovam Falcão, seu principal discipulo. 

Das cinco éclogas de Bernardim Ribeiro é, sem duvida, 
a primeira a mais bella, porque é a única que transcende os 
limites do medíocre interesse ordinariamente despertado 
pelo assumpto duma écloga. Pérsio pastor, ama Catharina e 
como esta para sempre se affastasse para outros lugares 



(') Bernardim Ribeiro nasceu na villa de Torrão (Alemtejo) em 
1482. Como seu pae, creado do duque de Vizeu, se refugiasse em Ca?- 
tella após o assassínio deste nobre por D João ix, Bernardim com a 
mãe e uma irmã recolheram-se a Cintra, á quinta dos Lobos, duns seus 
parentes. Em 1505 recebeu por doação regia as terras e azenha dos 
Ferreiros, em Extremoz. De 1507 a 15 12 frequentou a Universidade de 
Lisboa, tomando o grau de bacharel em leis. Em 1524 recebeu a nomea- 
ção de escrivão da camará de D.João 111, cargo que exerceu até que,, 
enlouquecendo, se recolheu ao Hospital de Todos os Santos, onde mor- 
reu em 1552. Ha uma vaga noticia duma sua viagem á Itália entre m 
annos 1520 a 1524. 



150 Historia da Liite? atura Clássica 

grande é a sua tristeza e saudade. Expandir essas saudosas 
tristezas passou a ser toda a razão da existência de Pérsio, 
que dessas lamentações só sahe para pedir e ardentemente 
desejai* a morte. Outro pastor, o seu amigo Fauno, procura 
consola-lo, oppondo á obstinação de Pérsio razões sensatas 
e seguras, respondendo ao conceito amoroso e fraco que da 
vida Pérsio exterioriza, com outro conceito forte, sereno, 
inacessível ao desanimo. 

Este dialogo, em especial na parte em que falia Fauno, 
é a principal belleza das éclogas de Bernardim Ribeiro, por- 
que é o único lugar em que o poeta, por si ou por outra 
personagem de sua creação, mostra ser superior ao mundo 
infantil e ingénuo das éclogas. Effectivamente, é sempre 
infantil e ingénuo fazer cifrar todo o interesse da vida, toda 
a sua razão nos medíocres amores das éclogas. A écloga 
segunda exemplifica de modo muito frizante esta concepção 
de pueris bagatellas porque é a mais movimentada, a que 
maior acção tem. Jano, pastor, vem para margem do Tejo 
fugindo ás seccas e fomes do Alemtejo; — no bucolismo as 
deslocações migratórias são um elemento importante na cau- 
salidade dos acontecimentos e são também um dos mais 
característicos adornos pastoris, por exprimirem vestigios 
do antigo viver nómada das populações pastoris. Chegado 
ás margens do Tejo, onde apascentava o seu gado, vê dum 
esconderijo Joanna, guardadora de patas e filha dum vizinho, 
colher flores para tecer uma grinalda com que, soltos os 
cabellos, se enfeita. Joanna, para ver o effeito dessa grinalda, 
vae mirar- se ás aguas do rio e, deslumbrada da própria for- 
mosura, lamenta a sua soledade de guardadora de patas. 
Acode Jano, promptamente enamorado, mas Joanna, assus- 
tada da surpresa, foge para casa e deixa com a pressa cahir 
uma das sapatas. Jano guarda essa sapata, a esquerda, e 
lamentoso e apaixonado sobre ella desmaia de amor. For- 
tuitamente passa por elle Franco de Sandovir, que acatando 
muito respeitosamente aquella grande dor, busca consolá-lo. 



Historia da Litteratura Clássica 1.". « 

Essa desgraça, retorque Jano, não é mais do que a confir- 
mação duma prophecia que lhe fizera Pierio. E como o cão 
de Franco de Sandovir lhe trouxesse a sua flauta, que sup- 
punha perdida, canta uma cantiga. A écloga terceira é uma 
permuta de razões entre Silvestre e Amador, cada um dos 
quaes se suppõe mais infeliz por mais apaixonado. A quarta 
é uma variante do episodio nodal da primeira: é o pastor que 
é affaslado; e a quinta narra um encontro do pastor Ribeiro, 
desterrado «bem contra sua vontade>, com Agrestes que lhe 
aconselha o regresso e a esperança nalgum bem futuro. 

Recuar a este mundo pueril para encontrar a idade de 
ouro da vida era muito recuar, porque se creava um mundo 
igualmente artificioso e ainda sob a dura condição do soífri- 
mento e porque não se fazia, como a écloga clássica ensi- 
nava, a reconstituição quanto possível integral dum mundo 
tranquillo, grave e cómico, e bem caracteristico. Na écloga 
de Bernardim desapparece essa tranquillidade, a gravidade 
reduz-se ao excessivo acatamento dado a amores medíocres, 
o cómico desapparece e a parte pinturesca é muito reduzida. 

CHRISTOVAM FALCÃO 

E pequena a obra poética de Falcão, que como Bernar- 
dim Ribeiro manteve as formas métricas medievaes ada- 
ptando-as á expressão dos novos géneros do Renascimento. 
Por meio do verso de sete syllabas das suas cantigas, soltas 
e esparsas, formas já nossas conhecidas do Cancioneiro Geral, 
de Garcia de Rezende, cantou Falcão (*) o amor, sempre e 



(1) Christovam Falcão de Sousa nasceu provavelmente no segundo 
decennio do século xvi, em Portalegre. Em 1542 esteve em Roma, na 
embaixada portuguesa, donde escreveu a bem conhecida carta a D.João 11. 
Em 1545 recebeu a nomeação, por três annos, de feitor e capitão da for- 
taleza de Arguim. Ignora-se a data da sua morte. 

Recentemente o sr. Delphim Guimarães defendeu a these de ser 



158 Historia da Liiteratura Clássica 

só o amor ; narrando o drama da sua vida, sob disfarces pas- 
toris, mas ainda em redondiihas menores, compôs esse arre- 
medo de écloga, que é a sua principal peça. O exclusivismo 
do thema amoroso que assim denuncia uma intensa vida 
psychològica, um intimo isolamento, os escassos adornos 
pastoris da narrativa do seu drama amoroso e o gosto das 
subtilezas engenhosas, dos ditos agudos, dos jogos de pala- 
vras e o registar por elles as contradicções do senti- 
mento do amor são caracteres litterarios typicamente qui- 
nhentistas. A estes só falta juntar o carinho esthetico da 
própria obra, o desenvolvimento amplo dos themas de quem 
se não contenta com a simples enunciação, mas quer extra- 
hir-lhes todo o conteúdo, para se ver o que recebeu Falcão 
da atmosphera de idéas estheticas e gosto litterario que em 
torno de si se formara desde que Sá de Miranda iniciara a 
■sua reforma. Ha porém que notar que a interpretação do 
sentimento do amor, expressa por Falcão, não 6 a que o pla- 
tonismo e o petrarchismo haviam creado e posto em voga, 
sentimento idealissimo de adoração, mas uma muito terrena 
paixão de que é objecto muito real determinada mulher que 



a obra attribuida a Falcão pertença de Bernardim Ribeiro, não tendo por- 
tanto fundamento a existência dum poeta de nome Christovam Falcão. 
Em seu livro Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal), Lisboa, 1908, apre- 
senta os seguintes fundamentos para essa these : i.° — O nome de Cris- 
fal é formado pelas syllabas iniciaes de crisma falso e de crismas falsos 
somente teria Bernardim usado nessa écloga de Crisfal que o sr. D. G. 
ihe attribue ; 2. — A carta que Christovam Falcão escreveu de Roma a 
D. João 11 revela uma instrucção rudimentar pelo que julga o sr. D. G. 
cque não podia ter sido o gentil-homem Falcão, que tão incorrectamente 
escrevia, o delicado auctor da formosíssima écloga que lhe era attribuida» 
(Pag. 183) ; 3. — As coincidências de forma nas obras dos dois poetas. 
— Esta these insubsistente foi sabiamente rebatida pelo escriptor brasi- 
leiro, sr. Raul Soares, na obra O Pceta Crisfal, Campinas, 1909. Ainda 
do Brasil surgiu outro estudo sobre este assumpto, mas em appoio do sr. 
D. G. ; A Mascara dum Poeta (Bernardim Ribeiro), Lisboa, 1913, peio sr. 
Silvio de Almeida. Estes dois trabalhos brasileiros appareceram primeiro 



Historia da Litleratura Clássica 150 

o poeta quer possuir. Se na escala dos delicados valores 
litterarios, esta concepção desce, torna-se não obstante mais 
humana e real, pois a foi buscar não a um amalgama de 
pensamentos, aspirações e gostos que formava a essência das 
almas de escol do seu tempo, mas ao próprio fundo do seu 
ser. Com a sensibilidade aguçada pelo seu temperamento e 
com alguns dos meios litterarios em voga no seu tempo, já 
neo clássicos, contou as dores da sua alma. 

Essa narrativa, que alguns auetores têm querido consi- 
derar menos como obra de arte do que como enigma ardiloso 
offerecido ás suas conjecturas biographicas, é summariamente 
a seguinte: 

Num lugar, de extravagante situação geographica, entre 
Cintra e a serra da Arrábida, dois pastores, vivamente se 
amaram, Maria e Chrisfal, dum amor tranquillo, a que só as 
saudades da ausência perturbavam. Outra pastora, Joanna, 
delatou esses amores á família de Maria, o que junto á cir- 
cunstancia de ser Chrisfal pobre de bens, determinou o 
sequestro de Maria para muito longe. Doridos da separação, 
ambos choram as suas saudades. Para exemplificar a dor do 
pastor apaixonado, faz o poeta que elle exponha as suas 



no jornal Estado de S. Paulo. Para contrapor ás razões do sr. D. G. ha 
os seguintes argumentos : i.° — O testemunho de Gaspar Fructuoso (1522- 
1591) que nas suas Saudades da Terra, claramente allude a Christovam 
Falcão como auetor da écloga Crisfal; 2. — Testemunho semelhante de 
Diogo do Couto (1542-1616; na sua Década vm, Cap.° 34., ed. de 1673; 
3. — O de Faria e Sousa (1590-1649) no seu Commentario ás Rimas de 
Camões, tomo iv, pag. 266; 4.0 — O de António dos Reis (1690-1738) no 
seu Enthusiasmas Poeticus ; 5. — O de Diogo Barbosa Machado (1682- 
1772) na sua Bibliotlieca Lusitana; 6.° — O do manuscripto genealógico 
da Bibliotheca Nacional de Lisboa, C.-1-18 ; 7. — A carta de Roma, depois 
de bem ortographada e bem pontuada, é um documento de prosa regu- 
lar, que de modo nenhum impossibilita o séu auetor de ser bom poeta ; 
8.° — A par de semelhanças e coincidências de versos, ha uma grande 
abundância de differenças estylisticas sufíiciente para comprovar serem 
as éclogas de auetores diversos. 



100. Historia da Littèratura Clássica 

lamentações. EíFectivamente Chrisfal, afundado em melan- 
cholica saudade, lastima a sua separação do ente amado e 
pede ao pensamento e ás illusões delle alguma consolação. 
Narra-nos depois ainda o pastor em seu monologo um sonho 
que tivera. 

Um forte vento do mar o erguera muito alto, donde 
podia contemplar larga extensão. Paisagem e pastores que 
cantam de amor e pastoras suspirosas é quanto vê: António, 
Guiomar e outros companheiros. Vê também Maria, que para 
o mesmo cume, onde Chrisfal se ficara, se vae dirigindo a 
cantar as suas saudades, íastimando-sc de que a houvessem 
feito trocar o amor de Chrisfal pela riqueza daquelle com 
quem a haviam casado. Encontrando- se, Chrisfal vê com 
surpresa que Maria o aceusava de só ter amado a riqueza* 
delia, o que provoca profunda decepção, mas como a voz. 
do coração é sempre eloquente para fallar ao ouvido doutro 
coração prompto a escutá-la, desíaz-se o engano de Maria. 
Mas ao desfazer-se esse engano, dissipase também a illusão 
do pastor, que do seu sonho accorda para o tormento da 
realidade. 

Como.se vê, o assumpto deste pequeno couto em verso 
é muito commummente humano, dum realismo quotidiana». 
em franco contraste com o alto idealismo da matéria dos 
sonetos e éclogas dos outros poetas contemporâneos. Esta 
interpretação tão commum, tão burguesa do amor que pelo 
casamento se satisfaz, não caberia no quadro dos themas 
litterarios dum Camões. É porém muito do seu tempo, como 
já referimos, o lugar dominante na vida dado ao amor. Como 
enche o coração de Chrisfal, clle só também enche a vasta 
paisagem que do alto, aonde o transporta o seu sonho, pôde 
contemplar: 



ia da I Altera fura Clássica 161 



Já o sol se encobria 
A este tempo, e, mais 
Ficando a terra sombria, 
O gado aos curraes 
Já então se recolhia. 
Ouvi cães longe ladrar, 
E os chocalhos do gado 
Com um tom tam concertado 
Que me fizeram lembrar 
De quanto tinha passado. 

Por serem as queixas vans, 
Vi berrar o gado mocho 
Coberto das finas lans, 
E assuviava o moncho, 
E o triste cantar d J arrans. 
Já serranas ao abrigo 
Se iam, prados leixando, 
As mais d^ellas sospirando ; 
Uma dezia : Ay, Rodrigo ! 
Outra dezia : Ay, Fernando. 

Uma ciúmes temia, 
Outra de si tem receio : 
Uma ouvi que dezia : 
« Quam asinha a noite veo ! » 
Outra : «Já tarda o dia ! » 
E por este experimento 
Foy amor de mim julgado 
Por nam menos occupado 
Do que é o pensamento, 
Que nunca está descansado. 

Alli triste, soo, saudosa, 
Vi. antre duas ribeiras, 
Uma serrana queyxosa 
Carreando umas cordeiras, 
Sendo cordeira fermosa. 
E, como alli tem por uso, 
Em uma roca fiando, 
Mas, com o que ia cuydando 
Caía-se-ihe o fuso 
Da mão de quando em quando. 
IT. da L. 0!.assica vsl. 1.» 



162 Historia da Litteratura Clássica 

É no lyrismo que consiste o principal dom poético de 
Falcão, isto é, no poder de exprimir em forma fluente os 
momentos vários e os escaninhos Íntimos da dôr, da saudade 
e da paixão, da tristeza sem consolação, que os annos não 
attenuam : 



Não mudam dias nem annos 
Ao triste a tristeza, 
Antes tenho por certeza 
Que o longo uso dos damnos 
Se converte em natureza. 



É á tristeza intima e permanente, tornada já em habite 
da alma, que Falcão sabe ver aspectos variados e dar-ibes 
traducção litteraria já em forma fluente de simplicidade, já 
recorrendo ao jogo da palavras, ás formas de conceitos 
parallelos para fazer sobresahir contrastes. E é mais nessa 
expressão sempre clara e de sentido prompto do que na 
profundeza do pensamento e do sentimento que reside a 
valia da obra de Falcão. 

Do gosto daquelle jogo com o significado das palavras 
anton}-mas é um exemplo muito írizante a cantiga seguinte: 



Vi o cabo no começo, 
Vejo o começo no cabo, 
De feição que não conheço 
Se começo nem se acabo. 

Quando meu mal comecei, 
Com muito bem começou, 
Mas o fim que lhe esperei 
No começo se acabou ; 
Acabou-se no começo, 
Pois se começa no cabo, 
De modo que não conheço 
Se começo nem se acabo. 



Historia da Liiteratura Clássica 163 



No começo de meu mal 
Vi cabos de muito bem, 
Mas este bem saiu tal 
Que nenhum bom cabo tem ; 
Faço no cabo começo, 
Sendo no começo cabo. 
De feição que não conheço 
Se começo nem se acabo. 

Dizer de formas sempre bellas de simplicidade ou de 
engenhosa agudeza a dor da sua paixão frustrada, a lem- 
brança pungente do casamento da sua amada com outro e a 
absorpção da sua alma inteira nessa infelicidade é o fundo 
de toda a obra poética de Falcão, que assim define o seu 
estado moral : 

Os meus cuidados cresceram, 
As esperanças minguaram ; 
Prazeres adormeceram, 
Os pesares accordaram ; 
Ao bem os olhos cegaram, 
Ao mal os foram abrir: 
Nunca mais pude dormir. 

Não vá porem suppôr-se que Falcão tira da sua dor 
gritos d'alma vehementes, que traduzam a violência deses- 
perada dos grandes soffrimentos, as horas agudas e trágicas 
da dor ; não. Christovam Falcão não descreve e não diz poe- 
ticamente as suas horas arrebatadas, dia a dia, com pontua- 
lidade, ainda que sem consolação, vae-nos dizendo a perma- 
nência do seu soffrimento que «se converte em natureza». 
É por isso o seu lyrismo enternecido, viva e delicadamente 
sensível, mas de emoção comedida, quasi resignada, duma 
passividade sofFredora, sem revoltas, sem imprecações, todo 
de lagrimas silenciosas ('). 



'!) Tem- se querido reconstituir inteiramente até nos seus mais 
particulares pormenores o drama amoroso, que Christovam Falcão conta 



164 Historia da Litter 'atura Clássica 

Em 157 i (*) appareceu a Silvia de Lisardo, obra anonyma 
attribuida a Frei Bernardo de Brito, o famoso historiador 
alcobacense, ainda que sem grande probabilidade. ( ? ) Na 
Silvia de Lisardo se contem uma peça poética intitulada 
Sonho de Lisardo que é quasi como a segunda parte de Chrisfal. 
Nesse poemeto se figura que Lisardo conta a Silvia o sonho 
que tivera, durante o qual a phantasia o transporta ao valle 
de Lorvão, umbroso e florido, onde Maria, a amada de Chris- 
fal, vivera. Ahi surprehende a cantar ao próprio Chrisfal, 
que a Lisardo canta as suas maguas e lhe dá conselhos tira- 
dos da sua cruel experiência. 



e idealiza em suas obras. Essa reconstituição tomou como protagonista, 
além cio poeta, a D. Maria Brandão, que seria quem desdenhou os affe- 
ctos de Chrisfal. V. Bernardim Ribeiro e o Bucolismo, snr. Th. Braga, 
Porto, 1897, pags. 324-37 l, capitulo intitulado Os amores de Chrisfal e 
Maria. Destruiu essa imaginosa construcção de interpretações o sr. An- 
selmo Braamcamp Freire com seus eruditos e severamente lógicos arti- 
gos Maria Brandão, a do Chrisfal, publicados no Archivo Histórico Por- 
tuguês, volumes 7. e 8.°, Lisboa, 1909 e 1910, e na Atlântida, revista 
de Lisboa, 1916. O sr. Braga insiste nas suas hypotheses no seu escri- 
pto Maria Brandão, a do Chrisfal, não foi apeada, na Atlântida, 1916. 

(!) Desta edição de 1571 apenas se conhece a referencia a um 
exemplar feita por Innocencio. V. Diccionario Bibliographico Português, 
vol. 1, pag. 374-375- 

(2j Foi Faria e Sousa quem primeiro fez essa attribuiçâq, perfi- 
lhada e desenvolvida pelo sr. Th. Braga no ser. vol. Bernardim Ribeiro 
e o Bucolismo, pag. 377. Numa nota inserta a pag. 155 das Obras de 
Christovam Falcão, Porto, 1915, o sr. Braga declara abandonar essa hy- 
pothese de ser Fr. Bernardo de Brito o auctor da Silvia de Lisardo. Tal 
hypothese fora já refutada por Fr. Fortunato de S. Boaventura. 

D. Francisco Manuel de Mello não repetiu essa attribuição, como 
affirma o sr. Th. Braga, pois apenas allude á qualidade religiosa de seu 
auctor presumptivo : « Lipsio.— Que sylvia, ou silva ou selva é essa, que 
não está no meu mappa, nem nas taboas de Cláudio Ptolomeu ? Boca- 
iino. — São certas obrasinhas de um poeta nosso, cousa do mundo muito 
escusada. Auctor. — Comtudo se affirma que era homem douto e reli- 
gioso. Bocalino. — Jurava-o eu, porque nunca vi frade bom poeta. » V. 
Hospital das Letras, pag. 16, ed. de 1900. 



Historia da Lit ter atura Clássica 165 

Lisardo achava- se perante Silvia numa situação análoga 
á de Chrisfal perante Maria. A despeito dos conselhos de 
Chrisfal, quer perseverar na sua paixão, que vehementemente 
crê maior que a que victimou o namorado de Maria e declara 
que a sua Silvia vence a formosura de Maria : 



Em fim, que sigo esta via 
De te vencer em tristura, 
Como Silvia em formosura 
Excede lua Maria 
E toda mais creatura. 



A esta obstinação, responde Chrisfal prophetizando-lhe 
os soffrimentos que de tal desatino resultarão. Fenecendo a 
descripção do sonho, o poeta conta o modo por que se des- 
pediram e os protestos e prendas de amor que trocaram 
Silvia e Lisardo no momento de se apartarem, quando o 
pastor enamorado partia para uma dessas súbitas e inexpli- 
cadas ausências, obrigadas nas éclogas e fonte principal de 
.seu lyrismo, sobretudo quando combinadas com o prompto 
esquecimento da pastora. 

Ainda que o auctor da Silvia de Lisardo se revele mais 
litterato, mais preoccupado dos effeitos poéticos que da es- 
pontânea sinceridade que em Christovam Falcão, poeta da 
própria dor, se surprehende, e ainda que seja uma peça de 
imitação, justo é considerar a fluência elegante dos versos e 
limpida forma. • 

Como adeante, ao estudarmos o soneto, nos referiremos 
a themas e processos poéticos muito generalizados entre 
todos os lyricos quinhentistas, é opportuno referirmos um 
exemplo dum desses processos poéticos, a enumeração de 
impossíveis e paradoxos para dar idéa da vehemencia duma 
paixão ou dos illogismos contradictórios do amor: 



166 Historia da Litter atura Clássica 



E vêr-se-hão mais facilmente 
Andar os peixes na serra, 
E o céo não cobrir a terra 
Que engeitar vivendo ausente, 
As leis de tão justa guerra. 

O sol poderá perder 
A claridade que tem, 
O mar seccar-se também 
Sem que deixe de querer 
Quem na vida me sustem. 

Fugirá o cordeirinho 
Da própria mãe que o cria, 
Trocar-se-ha a noite em dia 
E o falcão e passarinho 
Viverão em companhia. 

Convém lembrar que esta passagem, acima transcripta, 
é posterior já a uma larga exemplificação desse processo 
poético no soneto. 

ANTÓNIO FERREIRA 

Dos dois livros de sonetos, que António Ferreira nos 
legou, é no primeiro que mais sobe a sua inspiração. Só 
d'amor trata o poeta neste primeiro livro e disso se louva. 
Ora esboçando o retrato da que com seu amor ou seu desdém 
o inspirava, não segundo a realidade, que não era chamada 
a concurso, mas segundo modelo que todos criam a summa 
belleza, ora notando as impressões subjectivas desse amor, 
Ferreira impelle esta forma poética para uma vereda mais 
conforme ao forte cunho petrarcheano, que trazia, e versa 
com felicidade variável alguns motivos que hão-de circular 
de poeta em poeta até que Camões lhes encontre a expressão 
suprema, da máxima simplicidade e do máximo relevo. 
Ferreira forma assim aquella matéria poética cyclica que 
gravitará incerta até se fixar nalguns sonetos camoneanos: 






Historia da Ldtteraiura Clássica 107 

os retratos, a fatalidade do amor, as suas contradicções, 
o prazer de soffrer de amor, a aspiração á alma pura e imma- 
culada de todo o vestígio terreno, sentimento do mais 
extremo espiritualismo. São esboços de retratos, ou melhor 
tentativa do retrato único, a que todos visavam os sonetos 
ou partes dos sonetos v, XV, xvm, xix, xxin e xxv, prin- 
cipalmente o antepenúltimo delles, o qual a seguir repro- 
duzimos: 

-Donde lomou Amor, e de qual vea 
O ouro tam fino e puro para aquellas 
Tranças louras? de que esphera, ou estrellas 
A luz, e o fogo que assi em mim se atea? 

Donde as perlas? a voz de que serea ? 
Os brancos lyrios donde, e as rosas bellas, 
Aquelle vivo sprito pondo nellas, 
De que formou húa nova ao Mundo idéa? 

Antes a neve, a alvura, a cor as rosas 
Do seu rosto tomaram, e a harmonia 
As aves da voz doce, suave e branda. 

Não são ante ella as estrellas mais fermosas, 

Nem mais sereno o Ceo, ou claro dia, 

Nem mais formoso o Sol na sua esphera anda. 

Também um só pormenor desse retrato, os cabellos dou- 
rados, inspira outro soneto, todo de amplificações poéticas, 
o XXV, mas propriamente sem um conceito próprio. A natu- 
reza abrandada, colorida pela visão enamorada do poeta 
em adequado fundo para o primeiro plano do retrato, dá 
também a matéria de alguns sonetos, o XII, XIII, XIV, 
xxxvni e xliv, segundo os quaes o magico effeito do 
amor, por toda a parte se derramando, tudo espiritualizando, 
exprime uma espécie de pantheismo amoroso, pois tudo 
revela a presença do deus vendado, a sympathia da natureza 
com o sentimento dominante na alma do poeta. Alguns mo- 



168 Historia da Ldtterakira Glasw 

mentos do amor, a ausência, a desgedida e o lugar onde 
nasceu o amor também Ferreira os idealiza nos sonetos XV, 
XLIII e XLV, e a creaçâo duma natureza subjectiva, que 
plenamente satisfaz a alma e que se lhe revela tão completa 
e organizada como a natureza externa constitue o thema do 
soneto xlviii. E as contradições do amor, representadas por 
extravagantes paradoxos, também já as abeira Ferreira no 
soneto : 

Quem vio neve queimar? quem \ io tão írio 
Hum fogo, de que eu arco? quem chegs 
A morte vivo e ledo estar canta 
Parece quanto digo desvario. 

Os sonetos do 2. livro não ostentam já a variedade dos 
do i.°, nem lhes equivalem em altura de inspiração. Posto 
que se mantenha a mesma forma, mais perfeita, muito menos 
contrafeita que em Sá de Miranda, a carência de conceitos 
bellos ou engenhosos grandemente os prejudica. A maior 
parte delles é suggerida por propósitos de amabilidade cor- 
tesanesca, a outros inspira-os a saudade da esposa morta, 
dois são um brinquedo litterarrio, os na cantiga lingua por- 
tuguesa», seis são de matéria religiosa. Dos que são consa- 
grados á memoria da esposa, um ha que merece registo 
porque tem como forma a invocação directa á alma que se 
amou e que para sempre partiu e que nós também consi- 
deramos como elemento daquella cyclica matéria poética, só 
fixada por Camões. É o que começa: 

O alma pura, em quanto cá vivias, 
Alma lá onde vives já mais pura, 
Porque me desprezaste ? quem tam dura 
Te tornou ao amor, que me devias? 

Dos sonetos religiosos, que iniciaram a variante em que 
se confinou Frei Agostinho da Cruz, um tem um caracter 
descriptivo e episódico, que apesar de repugnar á índole do 



Historia da LiUcralu.ru Gltissica 109 

soneto viria a ser muito exercitado pelos poetas do século 
xix. Em António Ferreira esse soneto offerece só o interesse 
da prioridade, pois é um quadro incompleto, num soneto 
incompleto : nos dois quartetos delineia o quadro e brusca- 
mente muda de tom e passa nos dois tercetos para o mundo 
subjectivo, sob a forma dum commentario moral extraindo 
do inacabado quadro da serenidade heróica dos martyres que 
iam soffrer a morte. 

Treze odes possuímos de António Ferreira. Era a ode 
um género poético, que Pindaro e Horácio haviam elevado 
a grande prestigio e belleza. Pindaro fizera da ode um 
género orficial, em que eram celebrados os grandes triumphos 
dos jogos nacionaes da Grécia, e um género coral, um 
numero das festas que acompanhavam a celebração desses 
jogos. Horácio déra-lhe uma interpretação mais ampla, porque 
ao mesmo tempo que lhe attribuia um papel semelhante ao 
das odes pindaricas, engastava-lhe assumptos muito variados, 
como cumpria a composições que por um lado haviam de 
satisfazer c gosto do imperador Augusto e por outro as 
tendências pessoaes do poeta. No renascimento a ode foi 
cultivada como um género bastante amplo na comprehensão 
dos assumptos, só exigente quanto á dignidade dos mesmos 
e a certa gravidade de sentimentos. Foi Horácio o modelo 
de Ferreira, que sempre o imitou de perto. Ferreira confessou 
na primeira das suas odes a novidade e gravidade desse 
ger.ero. Em algumas odes a imitação é muito próxima, 
nomeadamente na i. a , 4.*, 6. a do i.° livro, na 2. a e 5.° do 
2. livro e dentre estas na 6.* do livro i.°, dedicada a seu 
irmão Garcia Froes, que é quasi uma traducção da de Horácio 
a Virgílio, que começa Sic te diva potens Cypri. As odes de 
Ferreira ou têm um caracter laudatório ou contem confissões 
moraes onde a austeridade e o amor da simplicidade são 
mais declarada e convictamente exalçadas que no poeta 
venusino, Se, porém, essas idéas são nobres o elevadas, não 
é individualmente original a sua expressão litteraria, quasi 



170 Historia da Litter atura Clássica 

sempre muito chã e vulgar, se não fora o artificio da 
métrica. 

As nove elegias de Ferreira apartam-se dos outros 
generc-s poéticos, por elle cultivados não pelo tom do senti- 
mento, que as domina ou pela natureza de seus assumptos, 
mas somente pela metrificação e combinação das rimas. 
Os seus assumptos eram também idóneos para preencherem 
outras tantas odes. Sentimento elegíaco só o possuem a 
primeira e a segunda elegias á morte do príncipe D. João, 
pae de D. Sebastião, e á morte dum companheiro litterario, 
Diogo de Bettencourt, e ainda assim mais na intenção trahida 
pelo assumpto que pela suggestão produzida nos leitores. 
As recordações da camaradagem litterária com um amigo 
que se deplora e as saudades dum príncipe bondoso são 
evidentemente matéria de maior cunho elegíaco que o re- 
gresso da Primavera, amorosa e festiva, a saudação a um 
amigo que regressa, a correspondência amistosa com Andrade 
Caminha, o elogio dos desvelos de terno amor filial de Braz 
de Albuquerque, auetor dos Commentarios. Destacam por 
terem realmente um assumpto bem caracterizado e posto em 
relevo aquellas em que traduziu Moscho e Anacreonte, Amot 
fugido e Amor perdido. A ultima, A Santa Maria Magdalena, 
revela bem como António Ferreira, pobre imitador, não sabia 
trilhar veredas novas, que elle mesmo houvesse de abrir; 
sem o bordão de Horácio, o seu andar era tardo, hesitante 
e não o levava aonde queria chegar. 

As doze éclogas de Ferreira carecem de movimento e 
acção, que lhes dêem interesse; são predominantemente 
lyricas e escassamente descriptivas. Androgeo, Filis, Vincio, 
Aonic, Alcippo, Serrano, Silvano, Castalio, Ménaío, Falcino, 
toda uma povoação de pastores canta ao vento seus amores, 
vivo fogo em que todos gostosamente se consomem, mesmo 
quando as suas amadas lhes não retribuem, ou saudosamente 
lamenta a morte de algum pastor, Daphnis, Miranda ou Jânio. 
Delias destacam a quarta, em que Aonio declara a Lilia seu 



Historia da Litter atura Clássica 171 

ardente amor, e a quinta em que Vincio, enamorado de 
Célia, e Aonio de Lilia, cantam ao desafio sobre a vehemencia 
de seus amores. É juiz deste pleito poético e amoroso o 
pastor Tevio, que profere a seguinte sentença, que trahe o 
pensamento constante dos poetas quinhentistas de que todos 
os seus esforços deveriam visar a attingir a belleza exem- 
plificada nos modelos clássicos, desprevenidos como estavam 
da moderna noção de progresso litterario : 

Cesse já dos Pastores de Amo a fama. 
Doce me he vosso canto, e doce seja, 
Meus Pastores, a quem mal vos desama. 

Ambos iguaes no canto, inda ambos veja 
Muitos annos cantar, e vejais cedo 
A alma chea cada hum do que deseja, 
Sem pender d J esperança, nem de medo. 

Os amores alludidos nas éclogas de Ferreira são obri- 
gados themas litterarios, não têm a vehemencia dos que nos 
narram Ribeiro e Falcão, que da sentida experiência pessoal 
se inspiravam ; são sentimentos que o poeta affirma serem 
muitos intensos e infelicitadores ou absorventes, mas a que 
não adapta a sua expressão litteraria, quasi sempre sem 
calor nem vibração. Este amor é verdadeiramente o deus 
Amor, da antiguidade, caprichoso, formoso e loiro, uma 
personagem que se faz mover duma parte a outra com sua 
aljava de traiçoeiras settas, nunca o mundo de sentimentos, 
de tendências, de curiosos cambiantes psychicos que encerra 
o amor humano. Os quinhentistas abriram horizontes novos, 
mas não os devassaram com curiosidade igual á novidade. 

Os propósitos adulatórios e as pessoaes allusões também 
prejudicam e complicam algumas das éclogas de Ferreira. 

Quanto á paisagem, ella não é a flagrante natureza, que 
Ferreira não queria detidamente examinar, mas um exemplo 
da concepção clássica, toda animista e genérica, isto é, a 



172 Historia da Litter atura Clássica 

•natureza povoada de divindades e semi- divindades e só vista 
nos seus aspectos mais geraes, posta de lado por desinte- 
ressante ou por não conseguir fazerse ver a particularidade 
typica., o pormenor regional, o accidente imprevisto. Como o 
deus Amor, Ferreira acaçapava o seu impressionismo com 
uma venda. É com a presença da pessoa amada ou com a 
sua ausência que o campo se torna alegre ou triste, ou são 
a vaga primavera e o vago outomno que lhe restituem ou 
retiram as galas : 

Torna á saudosa praya, que pisaste, 
Torna a este campo, que tam verde, e ledo 
Comtigo era, e tam triste já tornaste. 

Aqui a menham rosada, o vento quedo, 
Aqui claras, e brandas sempre as agoas, 
A noite trazias tarde, o dia cedo. 

Pastor fermoso, agora as altas taboas 
Da dura rocha turvam o claro rio, 
Mostrando em suas quedas tristes mágoas. 

Quantas vezes aqui o dourado fio 
Tiravam as brandas Nimphas ao Sol alto 
No frio Inverno, á sombra no Estio ? 

Esconde-os no mar o sobresalto 

Da tua morte ; deixas d J herva o monte, 

E d J agoa o rio, e d^aves já o ar falto. 

Nem arvore dá sombra, nem dá fonte 
Agoa, nem dia o Sol, nem a noite Estrellas, 
Nem ha quem ledo cante, ou de amor conte. 

Foi muito do gosto do quinhentismo applicar á agio- 
graphia os novos recursos de composição e métrica, fazendo 
assim uma espécie de conciliação entre o fundo medieval e 
a forma neo-classica. Como Sá de Miranda, a quem se attri- 
tme o poema da Egypciaca Santa Maria, como Diogo Bernar- 



Historia da Litteratura Clássica 173 

des, auctor de Santa Úrsula, como Frei Paulo da Cruz, o 
Fradinho da rainha, no século Jorge Fernandes, auctor da 
Trasladação de São Vicente, como Vasco Mousinho de Que- 
vedo Castello Branco, auctor de Santa Isabel, ( l ) António 
Ferreira compôs o seu poemeto de Santa Comba dos Vallcs. 
Nelle narra como a pastora Colomba fugiu aos rogos e de- 
pois á ira do rei mouro e fá-lo com certa fluência narrativa. 
O poemeto é em oitava-rima — já empregada nas éclogas, a 
par dos tercetos e dos versos quebrados — e tem proposi- 
ção, invocação e dedicatória, como nas poéticas se exigia. 

PEDRO DE ANDRADE CAMINHA 

As primeiras poesias impressas deste poeta ( 2 ) foram as 
insertas na Relação do solemne recebimento, que se fez em Lisboa 
ás Santas Reliqiuas, que se levarão á Igreja cm S. Roque, Lis- 
boa, 1588. Nessa collectánea se contêm alguns sonetos mys- 
ticos que, se lhes juntarmos os que precedem a Auslriada, e 
o Segztndo Cerco de Diu de Jeronymo Corte Real, o outro so- 
bre a Elegiada, de Luiz Pereira Brandão, o que lhe inspirou 
a morte de D. João e ainda os que se contem na edição 



( 1 ) Sobre as obras litterárias suggeridas pela vida da rainha santa, 
consultem-se os seguintes trabalhos : A Evolução do culto de D. Isabel 
de Aragão.. . , Doutor António de Vasconcellos, Coimbra, 1894, 2 vols. ;. 
Santa Isabel c a Poesia, artigo de Sousa Viterbo publicado no vol. 2. da. 
Revista da Universidade de Coimbra. 

(2) Ignora-se o lugar e a data do nascimento de Pedro de Andrade 
Caminha; presume- se, todavia, que houvesse nascido no Porto em 1520. 
Somente são conhecidas as seguintes informações : que serviu o Duque 
de Guimarães, D. Duarte, como seu camareiro e guarda-roupa, o qual 
o recommendou especialmente em seu testamento; que em 1556 recebeu 
de D. João 111 doação dos direitos reaes sobre os vinhos exportados 
pela barra do Douro; que em 1570 denunciou Francisco Jorge á inquisi- 
ção attribuindo-lhe relações com judeus ; que em 1557 recebeu de D. Se- 
bastião uma importante tença annual e logo no ar.no seguinte pelo 



174 Historia da Litter atura Clássica 

Priebsch constituem quanto se conhece de Caminha, do seu 
cultivo desse género poético. Estes sonetos mysticcs e lau- 
datórios de Caminha são puros exercícios de metrificação, 
onde não sobra o estro; mais feliz será nesse tentamen do 
soneto mystico Frei Agostinho da Cruz. Foi pela edição de 
1898 que se conheceu a maior parte das obras poéticas de 
Caminha. Cento e dezoito sonetos contem essa edição, das 
quaes só um laudatório, em homenagem ao conde da Feira, 
vice-rei da índia. Os outros cento e dezasete versam matéria 
amorosa, segundo os processos poéticos em curso no seu 
tempo e já por nós apontados. O amor ideal é em Caminha 
um pouco prejudicado pela falta de expressão para as abs- 
tracções e subtilezas dessa elevada concepção. Os themas 
do retrato, de effeito sympathico da formosura da amada 
sobre a natureza, o desenvolvimento de certos pormenores 
do retrato, as contradicções do amor, a permanência immu- 
tavel cio soffrimento do poeta ante as vicissitudes cyclicas da 
natureza, a absorpção da sua personalidade no objecto amado, 
as cruezas gostosas do amor, extrema submissão da vontade 
e dos sentidos são themas predominantes nos sonetos de Ca- 
minha e muito no gosto da epocha, que fazem parte daquella 
cyclica matéria poética que todos os poetas quinhentistas 
elaboraram á compita. A forma é geralmente correcta e har- 
moniosa, mas carece de alto relevo, de poder emotivo, por- 
que Caminha, imaginação escassa e tendo vivido uma vida 
palaciana de aulico. tranquilla e commoda, não pôde attingir 



mesmo monarcha acerescida a doação do castello de Celorico de Basto, 
a cuja alcaidaria renunciou em 1581 ; e que falleceu em Villa Viçosa 
em 1589, achando-se então ao serviço dos duques de Bragança. As suas 
obras correm impressas na edição académica de 1781, Poesias de... e 
no volume publicado pelo sr. J. Priebsch, em 1898, Gbras Inéditas 
de. . Em 1916, o sr. António Baião communicou á Academia das Scien- 
cias a existência na Torre do Tcmbo dum cancioneiro do mesmo poeta. 
V. O Pceta Andrade Caminha e um seu Cancioneiro desconhecido, vol, x 
do Boletim da 2." Classe da Academia. 



Historia da Littoratura Classiea 175 

as formas poéticas superiores duma imaginação poderosa 
que renova com variantes de inspiração genial velhos the- 
-mas, nem pôde vivificar esses themas com a vibratilidade 
sensível duma alma provada pelo sofFrimento real. As suas 
emoções, as suas dores são soffrimentos litterarios e são ar- 
gucias e sophismas, em que a imaginação se compraz, obri- 
gada a agitar-se num estreito campo e a só desses limites 
acanhados buscar os seus themas. Por isso as dores de 
amar, que Caminha conta e descreve, o elogio da formosura 
de D. Francisca de Aragão, sua musa inspiradora, têm seu 
cunho de artificioso, de brinquedo litterario, são como disse- 
mos acima sophismas. O thema das mudanças está engas- 
tado nos sonetos xix, XXXVII, lix, neste ultimo principal- 
mente. O soneto XXXIX sobre a sombra da amada, «que 
quem s'enganava sombra chamou», c o XLV em que mostra 
como a grandeza do seu amor não se apouca nem intimida 
perante a grandeza duma paisagem da magestosa e impo- 
nente natureza, merecem menção por serem dos mais origi- 
■naes. Só o soneto lxxii é estranho ao amor, pois com- 
prehende uma impessoal descripção de paisagem. 

Além de sonetos, Andrade Caminha escreveu numero- 
ras poesias de géneros diversos como cantigas, glosas, 
vilancetes, endechas, esparsas, trovas, epigrammas, éclogas, 
elogios, odes, epithalamios, sextinas, canções e epitaphios. 
Esta vasta productividade faz de Caminha um dos mais 
fecundos imitadores dos poetas clássicos e neo-clássicos e 
um dos mais operosos continuadores de Sá de Miranda, que 
no devotado culto das musas aproveitou os largos ócios de 
funccionario cortesão. Não teve estro poético acima da 
escala commum, mas adquiriu facilidade apreciável na ver- 
sificação, pelo que pôde com os lugares communs da escola 
construir as suas obras, tanto mais semelhantes ás dos seus 
confrades quinhentistas quanto mais acuradas de forma. 
Visto que eram os mesmos os modelos e todos possuíam 
uma concepção de belleza absoluta, conjunto de effeitos 



170 Historia da Litter 'atura Clássica 

ímmutaveis que todos aspiravam a reproduzir, «renovar a 
antiguidade.», como dizia António Ferreira, o desenvolvi- 
mento litterario era de algum modo regressivo, pois condu- 
zia á -uniformidade. Será difficil apresentar características 
estheticas, cunhos diíFerenciaes de constituição moral da 
pessoa de seus auctores que saliente a dissimelhança entre 
uma écloga de Ferreira e outra de Caminha. Apartam se 
por differenças mínimas, como as pessoas mais incaracterís- 
ticas e mais communs se distinguem, mas não por algum 
impressivo cunho de temperamento poético original. 

Pela elegância da forma e dos conceitos, tanto aquella 
como estes sempre de extrema leveza, Caminha conseguiu 
melhor êxito nas peças de gosto medieval, metros curtos. 
É. esse o seu principal papel entre os poetas da escola 
italianizante, haver vivificado e restituído á estimação géne- 
ros em via de se tornarem obsoletos. 



DIOGO BERNARDES 

Deste poeta (') existem as seguintes recopiiações poéti- 
cas: Varias Rhhas ao Bom Jesus, 1.594 ; Fhres do Lima, 1596 
e o Lima, 1596. Contêm estas collectaneas géneros poéticos 
muito variados como sonetos, epigrammas, éclogas, epistolas, 
endechas, voltas e villancetes, portanto géneros do velho 



('•) São muito reduzidas as noticias biographicas acerca de Diogo 
Bernardes. Nasceu em Ponte da Barca em anno que se ignora. Em 15Í6 
teve a nomeação de tabellião do concelho da Nóbrega; acompanhou 
mais tarde, como secretario, a Pedro de Alcáçova Carneiro, quando 
este foi a Madrid, como embaixador de D. Sebastião; em 1578, havendo 
tomado parte na expedição a Marrocos, foi captivado, só conseguindo o 
seu resgate, muitos annos mais tarde, por mediação de Filiope n, o qual 
lhe concedeu uma tença. Junto do regente do reino, Cardeal Alberto da 
Áustria, desempenhou o cargo palaciano de moço de toalha. Morreu em 
1605, segundo a versa o mais acceita. 



Historia da Litteràtitra Clássica 177 

gosto palaciano das cortes de amor e medieva, e géneros do 
renascimento, dos que Sá da Miranda importara. Enga- 
nar-se-hia quem o suppuzesse um poeta regionalista, que 
fizesse o fundo da sua obra com a paisagem minhota, episó- 
dios da vida minhota e modismos de linguagem minhota. 
Longe do poeta tal pensamento, por inconcebível numa 
epocha em que se não julgaria matéria litteraria de interesse 
e valor a diversificação regionalista. Como poderia ser esse 
o objectivo do poeta, quando o supremo ideal esthetico da 
sua epocha era o de repetir as formas de arte de gregos e 
romanos, diligenciando até apagar o cunho nacionalista ? 
Diogo Bernardes apenas deu o nome de Lima ao obrigado 
rio do bucolismo, referiu-se ao seu aífluente Vez, que «no 
Lima entrando o nome perde», e aproveitou motivos sugge- 
ridos pela devoção local do Bom Jesus. 

Parte da obra de Diogo Bernardes, principalmente o 
volume das Varias Rimas ao Bom Jesus, e á Virgem gloriosa 
sua may, e a sanctos particulares^ é dominada pelo sentimento 
religioso, formando um vivo contraste com a parte profana, 
composta de sonetos amorosos, éclogas e cartas a amigos, 
além de muitas composições menores. Essa religiosidade 
como inspiração poética proveio-lhe dos seus soffrimentos no 
captiveiro de Marrocos, os quaes lhe deram essa intensidade 
vivida que destaca algumas peças. 

A fluência da forma do poemeto Santa Úrsula mostra 
como nos assumptos narrativos alguns poetas quinhentistas 
se achavam mais á vontade que occupando-se de themas 
moraes. Como, porém, em todas as suas peças Bernardes 
cuidasse da forma, attingiu harmonia agradável em seus 
versos. 

Aos seus sonetos applica-se a caracterização já apontada 
a respeito de Ferreira e Caminha. 



\\ h* L. Clássica, vol. )•• 



178 - Ihstona da LiUeratura Classtca 



FREI AGOSTTNÍIO DA CRUZ 

Deste poeta, (') figura curiosa de cenobita, que para a 
exaltação religiosa drenou a exuberância do seu sentimento 
lyrico, possuímos principalmente, não enumerando algumas 
composições menores, cento e quarenta e um sonetos, quinze 
éclogas, dezanove elegias, alguns epigrammas, odes, um 
epitaphio e três cartas. 

Nos sonetos predomina aquella variante já por nós sur- 
prehendida no final do segundo livro dos sonetos de António 
Ferreira: a inspiração religiosa. Tal predominio não exclue, 
porém, a confissão de sentimentos de amor profano nalguns 
raros sonetos, que as circunstancias, talvez a solicitude de 
algum seu admirador, conseguiu salvar da destruição inexo- 
rável, a que o poeta os votara: 

Os versos, que cantei importunado 
Da mocidade cega a quem seguia, 
Queimei 'como vergonha me pedia) 
Chorando, por haver tão mal cantado. 



(l) Frei Agostinho da Cruz, que no século foi Agostinho Pimenta, 
irmão de Diogo Bernardes, nasceu em Ponte da Barca em 1540 e foi 
creado com o Infante D. Duarte, neto de D Manuel r. Após noviciado 
no convento de Santa Cruz, de Cintra, professou em i5<x>, vivendo em 
rigorosa observância da disciplina da sua regra Em 1605 foi provido no 
cargo de guardião do Convento de S. José de Ribamar. Resignando ssse 
cargo, retirou-se para a serra da Arrábida, onde viveu como eremita 
numa pequena habitação laboriosamente construída por suas próprias 
mãos e depois na que lhe mandou edificar o Duque de Aveiro, seu 
amigo. Morreu em 1619, recebendo excepcionaes homenagens de vene- 
ração. As suas poesias estão publicadas no pequeno volume Varias 
Poesias do Venerável Padre Frei Agostinho da Crus, Lisboa, 1771, 
edição prefaciada por José Caetano de Mesquita e Quadros, e nos 
volumes 1 ° e 2 ° do Archivo Bibliographico da Universidade de Coimbra, 
Coimbra, 1901 e 1901, e agora, graças ao sr. dr. Mendes dos Remédios 
reunidas em volume sob o titulo de Obras de Fr. Agostinho da Crus, 
Coimbra, 1918, 466 pags. 



Historia da Litter atura Clássica 179 

Esses sentimentos anteriores á entrada na vida religiosa 
são expressos em formosos versos, de agudezas subtis, de 
forma engenhosa no gosto de Petrarcha e de Camões, em 
que se eleva a uma concepção do amor, impregnada de 
devoção extrema, forma mundana da capacidade de arreba- 
tadamente adorar, que dominaria a sua vida e que, certo, o 
levaria a grande altura de inspiração. 

Mas foi outro o rumo seguido pelo poeta: á religião foi 
buscar os themas dos seus sonetos posteriores, em numero 
muito maior. Dizemos posteriores, porque se nos affigura 
fora de duvida que os poucos sonetos profanos são chrono- 
logicamente anteriores aos outros, como também cremos 
que os sonetos religiosos publicados pelo sr. Mendes dos 
Remédios sejam anteriores aos sonetos religiosos, publicados 
por José Caetano de Mesquita. São numerosos os sonetos, 
dos que temos como primeiros, em que apenas se metrifica 
o conteúdo das orações religiosas, sem se lhes juntar con- 
ceito pessoal do poeta, nem sequer lhes alterar a exposição 
geraimente estabelecida. 

São esses sonetos os que desenvolvem os seguintes 
motivos: ao levantar da cama, espécie de orações da manhã, 
protestação da fé, forma poética do Credo, Padre Nosso, 
Ave- Maria, confissão geral ao levantar do Cálix, oração após 
as refeições, oração da noite, etc. Depois Frei Agostinho da 
Cruz, colhendo sempre na matéria religiosa os seus themas, 
dá aos seus sonetos a forma de panegyrico, isto é, não faz 
descripções, nem se permitte a apresentação de sentenças 
próprias, revolvendo em combinações novas a velha maté- 
ria; porque se trata de matéria de dogma, sem admissíveis 
variantes de interpretação, limita- se a fazer delia o caloroso 
elogio, em sonoros versos, de mystica religiosidade, fazendo 
assim uma espécie de apologética em verso, cujo quinhão de 
poesia consiste na harmonia rythmica, na visão serena da 
paysagem e das coisas ambientes e no irromper do seu exal- 
tado sentimento, que faria delle um apaixonado lyrico, se as 



180 Historia da Litter 'atura Clássica 

circunstancias não o houvessem feito um fervoroso asceta, 
tão abrazado em amor divino, como o fora no amor terreno 
da belleza feminina. Não se espera, pois, que no cunho pes- 
soal do' poeta esteja a valia original dos sonetos de Agosti- 
nho da Cruz. Seria para tal necessário o génio creador dum 
Gil Vicente, que do cansado mysterio medieval soube ainda 
extrahir nova e original matéria de arte. Nem Agostinho da 
Cruz, nem os seus pioneiros, António Ferreira e Caminha, 
foram capazes dessa empresa de transformar a matéria de fé 
em matéria de emoção esthetica. Um dos seus mais curiosos 
sonetos é o que se intitula A Saudade de hum rio, em que o 
poeta bruscamente impelle para a vereda sempre trilhada, 
da meditação mystica, o curso do pensamento que ia a fugir 
nas asas do devaneio. Temos, pois, três phases capitães do 
soneto em Agostinho da Cruz: soneto amoroso, muito no 
gosto do seu tempo, genialmente expresso por Camões, so- 
neto religioso sob forma oracional e soneto religioso sob 
forma panegyrica. Da primeira phase restam-nos apenas 
nove exemplos ; é mais abundante a segunda, que é de certo 
modo a aprendizagem do poeta, e a terceira é a mais abun- 
dante versando themas como a coroa de espinhos, Deus, as 
chagas, Senhora da Arrábida, Santa Clara, S. João Baptista, 
a oração, Jesus Crucificado, Magdalena, o Natal, Santo An- 
tónio, S. Francisco, etc. 

Nas éclogas de Frei Agostinho da Cruz desapparece o 
elemento dramático, não tem movimento, descrevem tran- 
quillos instantes, doces quietações em que louva Deus; a 
primeira nem tem dialogo e poderia prescindir do nome de 
écloga, pois não tem adornos pastoris que imprimam cara- 
cter. Só ou acompanhado, sempre o pastor Limabeu entoa 
seus hymnos de divino amor. 

Outros poetas menores são geralmente nomeados nos 
livros de historia litteraria com grande encómio. Certo é, 
porem, que de alguns não se conhecem obras e de outros 



Historia da Litteratura Clássica » 181 

as obras que possuímos claramente mostram que nenhum 
movimento differencial imprimiram aos géneros poéticos. 

André Falcão de Rezende (1527 ?-i5Q8) foi auctor de 
varias obras, principalmente do curioso poema da Creação e 
composição do homem, em que perfigura todo o corpo humano 
e a sua vivificação pela alma num castello complicadíssimo 
e formosíssimo, que a breve trecho cahe em ruinas e total- 
mente se alue. 

Balthazar de Estaco (1570- ?) auctor dos Sonetos, Eglo- 
gas e outras rimas, António de Abreu, cujas Obras Inéditas só 
em 1805 se publicaram, poderão ser lembrados. Os restantes 
interessarão á bibliographia principalmente, pois em historia 
litteraria apenas attestam a extensão das influencias pela 
imitação. 



CAPTULO IV 



AS NOVELLAS 



As novellas, que constituem o objecto deste capitulo, 
representam uma forma de gosto litterario, que foi muito 
divulgada no século XVI e que é uma das mais característi- 
cas originalidades das litteraturas peninsulares. É também 
mais como documento desse gosto e como feição typica, que 
taes obras boje offerecem interesse, pois não são muito nu- 
merosas as bellezas nellas contidas, que hajam triumphado 
da obliteração do gosto que lhes deu origem. 

As litteraturas neo-classicas foram principalmente litte- 
raturas poéticas, isto é, litteraturas, em que na escala hie- 
rarchica dos géneros os primeiros lugares eram arbitrados 
aos géneros poéticos ; em prosa só a musa austera da histo- 
ria recebia o seu culto. Poetas eram os principaès modelos 
gregos e romanos. 

Pois, apesar desta condição geral, e da condição espe- 
cial de ser a nossa litteratura predominantemente lyrica, o 
nosso quinhentismo produziu vários romances em prosa, 
dois dos quaes, de influencia europêa, muito vivamente ex- 
pressaram o gosto da épocha pelas narrativas de maravilho- 
sas aventuras de amor. Na essência, estas obras eram tam- 
bém muito obras de lyrismo, algumas até de caracter 
auto-biographico, e estavam, pois, de accordo com a nossa 
tradição litteraria, só se havendo appropriado dum meio de 
expressão, pouco em apreço, a prosa. 



184 Historia da LUter atura Clássica 

O romance moderno, das litteraturas neo-latinas — que 
logo em plenos séculos xni e xiv o cultivaram, ainda na 
sua phase de intensa imitação dos modelos da Grécia e de 
Roma — constituiu-se de modo muito imprevisto,, constitui- 
ção estranha que é uma das maiores surpresas da evolução 
litteraria. As litteraturas helíenicá e latina não podiam os 
auctores pedir exemplos, porque ellas os não podiam pro- 
porcionar. A Económica, de Xenophonte, em que o celebre 
discípulo de Platão sob forma dialogai faz o elogio da agri- 
cultura, da perfeita administração caseira e expõe o proveito 
que traz a collaboração da mulher nessa administração — e 
a Cyropedia, bíographia amena de Cyro r são as únicas obras 
clássicas a que se poderá attribuir por extensão o nome de 
romances. Mas não seria licito arbitrar-lhes também a pater- 
nidade do desenvolvimento, tão intenso e tão multimodo, do 
romance, que no fim da edade média e no principio da era 
clássica ostentou modalidades tão distinctas; Menéndes 
y Pelayo, na monographia magistral que ás origens deste gé- 
nero consagrou ('), aponta, e sem ar de classificação, as se- 
guintes espécies, algumas das quaes por sua vez ainda divi- 
síveis; livros de cavallarias, novellas sentimentaes, novelias 
by2antinas de aventuras, novellas históricas, novellas pasto- 
ris e livros de geographia fabulosa. É também obvio que: 
não se pode attribuir esse desenvolvimento complexo á trans-; 
formação do conteúdo de outras obras, que já têm recebido 
um pouco apressadamente a paternidade das varias formas 
ulteriores do romance, como Daphnis e Chloe, novelia bucó- 
lica, cujo auctor se julga ter sido Longus; essa noveila é 
uma pintura idyllica da natureza e a narrativa cândida do 
amor sereno dos dois protagonistas. 

Os auctores clássicos apenas proporcionaram o meio 



(') Ortgehes de la novela — Tomo i: Introducion, Tratado histo^ 
rico sobre la primitiva novela espaffola, Madrid, 1905, 



Historia da Litteratura Clássica 185 



pastoril, isto é, a intriga entre pastores, reaes pastores umas 
vezes, e outras estranhas personagens disfarçadas; se Iheo- 
erito foi fiel pintor da vida pastoral da Sicília e da Itália 
meridional, Virgílio embutiu muitas allusões a pessoas e ca- 
sos contemporâneos nas suas éclogas. 

A intensa sympathia, que despertavam estas obras, de 
Theocrito, poeta da decadência grega, e de Virgílio, nellas 
menos original, era no geral pensar devida a dois sentimen- 
tos então muito vivos: a ansiedade por viver, por conhecer 
sequer, a vida despreoccupada e simples, sem artifícios, sem 
as pungentes mortificações que trabalhavam a vida do 
homem civilizado do século XVI, o século da historia 
•que fl % JWjMiSjf M**MÍàf* g ^°' 1 portador, anseio a que já 
alguém IfOWWU- *5£ jj| moral ; e o vivido sentimento da 
natureza, que a incultura medieval e o mysticismo religiosa 
haviam obnubilado, pelo menos na expressão litteraria. 
A poesia bucólica de Theocrito e Virgílio e o romance de 
JLongus faltavam aos homens do século XVI numa espécie 
de edade de ouro da humanidade e ofFereciam á sua contem- 
plação quadros da natureza, a montanha, o prado, o ribeiro, 
paisagens que ainda não tinham visto com aquelles olhos. 
Não vinha também esse gosto contrariar hábitos litterarios, 
pois no lyrismo provençal, por toda a península ibérica am- 
plamente cultivado, muito abundavam as serranilhas e pas- 
torellas, cantigas para pastores na serra. 

A épica medieval, ou fosse de original creação francesa, 
como é geralmente acreditado, — ou fosse também de crea- 
ção árabe peninsular, como pretende o sr. Julian Ribe- 
ra (') — , successivamente interpolada de novos episódios, 



(•) V. Discursos leidos ante la Real Academia de la Historia cn la 
recepción publica dei senor D. Jiriián Ribera y Tarragó el dia 6 de junio 
de içij. Madrid, 1915, 81 pags. Segundo suas próprias palavras, é assim 
enunciada a these do sr. Ribéra : Huellas, que aparecer, cn los primiti* 
vos historiadores niusulmanes de la península, de una poesia épica rotnan* 



186 Historia da Litteraiura Clássica 

amplificada desmedidamente e depois prosificada, tomou-se 
desde que todo o decurso das aventuras se sujeitou a uma 
certa unidade de acção em romance de cavallaria. Em França 
esta transformação foi auxiliada pela dum género seu pró- 
prio, o fabliau, narrativa graciosa com uma comprehensão 
mais larga que as gestas, o qual extrahia os seus assumptos 
da vida commum. Deveria ter contribuído para a prosifica- 
ção da gesta a divulgação da imprensa ; o verso era um 
bordão para a memoria, desnecessário quando, por serem 
impressas, as narrativas podiam ser lidas e apresentarem 
uma maior extensão. 

Alguns lais são conhecidos hoje tanto na forma poética 
antiga, como na redacção em prosa. E um delles é o famoso 
Amadis de Gaula, de que se tem pretendido que a primeira 
prosificação seja do português Vasco de Lobeira. Em Itália 
o poema arthuriano, amoroso e cavalheiresco, foi levado a 
grande brilho por Pulei, auetor do Morgante Maggiore, por 
Boiardo, auetor do Orlando Innamorato e por Ariosto no seu 
famoso Orlando Furioso, pela primeira vez impresso em 1516, 
obra de génio, que suscitou numerosas imitações sem mérito; 
depois do poema de Ariosto, que representa um thema me- 
dievo tratado com todos os petrechos intellectuaes dum ho- 
mem da Renascença, de cultura clássica, só Cervantes apre- 
sentaria uma composição nova, a satyrica. Ainda na Itália 
Boccacio déra-nos um romance pastoral, o Ameto, Boiardo as 
suas Egloghe, Sannazaro a sua Arcádia, demonstrações elo- 
quentes do gosto pastoril, logo imitado na península por 
Boscan, Garcilaso de la Vega e Sá de Miranda. 



ceada que debió florecer en Andalucia en los siglos ix y x- Póde-se ver 
uma summula das idéas do sr. Ribéra a tal respeito na resenha que pu- 
blicámos, dos Discursos, no 5. vol. da Revista de Historia, pags. 88 e 
89, Lisboa, 1916. 



Historia da bitter atura Clássica 187 



JOÃO DE BARROS 

É João de Barros, o historiador famoso que mais 
largo lugar occupará no capitulo sobre a historiographia, 
quem abre esta pequena galeria de novellistas. 

Em 1520, publicou se a Chronica do Emperador Clarimundo 
donde os Reis de Portugal descendem, obra dedicada ao principe 
D. João, depois rei terceiro do nome, de cuja infância e estu- 
dos fora João de Barros assíduo companheiro . 

O entrecho do romance é sobremodo enredado, porque 
muitas são as personagens, muitos os seus encontros casuaes, 
muitos os reconhecimentos, e repetidamente novas personagens 
accrescem com sua missão, donde derivam novas aventuras, 
correrias em busca de certo castello, encontros e recontros. 
Certo que João de Barros era fartamente lido na litteratura 
do género e que delia possuia os lugares communs de escola, 
com os quaes de prompto poderia urdir um novo romance. 
Mas, apesar da edade moça em que compôs este romance, 
não se limitou a obedecer passivamente ao gosto corrente, 
antes elementos pessoaes lhe juntou. Um sopro de lyrismo 
percorre todo o romance, c qual com elle se vitaliza e ame- 
niza ; a longa e emmaranhada acção tem sua emotividade, 
expressa já pela fluência do estylo, já pela descripção singela, 
mas viva. O que é da escola e o que é de João de Barros, 
na longa fiada de episódios, quaes os themas do cyclo e os 
introduzidos pela imaginação de João de Barros -7- é hoje 
difficil distinguir, como também não é fácil apurar o que de 
allusões pessoaes e contemporâneas se possa conter nesses 
episódios accrescidos por João de Barros. Só uma analyse 
minuciosa e uma comparação quasi juxtalinear poderiam 
offerecer indicações seguras, e tal pratica não tem cabimento 
senão em monographia especial sobre a obra. O elemento 
principal de novidade e esse bem evidentemente expresso, 
que a Chronica do Emperador Clarimundo trouxe, foi a glorifi- 



188 Historia da Litter atura Clássica 

cação da pátria. João de Barros quiz fazer uma galante apo- 
theose patriótica e, como homem de letras do seu tempo, fê-la 
com os meios que o gosto do tempo lhe proporcionava. Gil 
Vicente fê-la mais duma vez pelo seu theatro ; João de Barros 
fê-la por meio dum romance de cavallaria. Logo em princi- 
pio da obra, quando a simula traduzida do húngaro e reve- 
lada por um fidalgo allemão da corte, Carlim Delamor, que 
teria vindo no séquito da rainha, declara que a curiosidade 
dessa obra está na circunstancia de ser o imperador Clari- 
mundo, de Constantinopla, antepassado dos reis de Portugal. 
O vinculo era o Conde D. Henrique, pae de D. Affònso I, 
segundo genito de um rei da Hungria e neto do imperador 
Clarimundo. Nos dois primeiros livros é narrada a vida tem- 
pestuosa de Clarimundo, desde o seu nascimento e creação 
até á entrada em Constantinopla e occupação do throno. No 
livro 8.°, são descriptos os errores de Clarimundo, imperador, 
que passando junto á costa de Portugal, aqui desembarca e 
tem combate com um maléfico gigante, que é vencido e 
tnorto. Desejoso de igualmente medir forças com um irmão 
do gigante, que diziam habitar o castello de Torres Vedras, 
para alli pretende dirigir-se. Desviado desse propósito por 
JFanimôr e conduzido ao eirado da mais alta torre do cas- 
tello, donde a vista alcançava larga extensão de mar e terra, 
ouve em grande recolhimento a prophecia das proezas he- 
róicas que na terra praticariam os reis de Portugal, seus 
descendentes. E sob a lua cheia, no silencio da noite, Fani- 
môr faz a sua invocação, pede á divina Trindade : 

Infunde em mim graça pêra dizer 

As obras ião grandes, que hâo de fazer 

Os Reys Portuguezes com sua bondade. 

E « arrebatado de hum espirito divino, que o accendeo 
com tanto furor, que ás vezes parecia um gigante», narra a 
Clarimundo maravilhado os feitos de Afíonso Henriques e 



Historia da Litter atura Clássica 180 

dos reis subsequentes até ás navegações e conquistas de 
Africa e Oriente. A narrativa das prophecias é feita ora em 
verso, oitava rima, em estylo altiloquo, de tom épico, ora 
em prosa, representando o primeiro o discurso directo de 
Fanimôr, e a segunda a reproducção da sua falia por João 
de Barros. Esta apologia das grandezas da pátria pedia um 
estylo intenso, com expressão já diversa da narrativa tran- 
quilla do romance, e João de Barros encontrou certa vehe- 
meneia de linguagem, ainda mais na prosa que no verso. 
Esta é a originalidade principal do romance de cavallaria do 
auetor das Décadas, que está plenamente de accordo com o 
caracter predominante e a intenção da sua obra histórica, 
que ao deante evidenciaremos. Uma das estancias deste poe- 
ma da falia prophetica de Fanimôr é muito provável fonte 
da passagem correspondente dos Lusíadas, sobre a apparição 
de Jesus Christo a D. Affonso Henriques, em Ourique : 



« O campo de Ourique jágora he contente 
Da grande victoria que nelle será, 
Onde Christo em carne apparecerá 
Mostrando as chagas publicamente. 

Ao qual este Rey Sancto, prudente 

Dirá : Ó meu Deus, a mim pêra que ? 

Lá aos Herejes inimigos da Fé, 

Da Fé em que eu ardo d'amor muy ardente . 



E toda a peça poderá também ser apontada como 
provável fonte da prophecia da sereia no canto X dos 
Lusíadas. Como se vê, já então João de Barros tinha o pensa- 
mento fito da epopêa nacional. (*) 



( J ) A Chronica do Emperador Clarimundo, pela primeira vez 
publicada em 1530, foi reproduzida em 1553, 1601, 1742, 1791 c 1843. 



190 Historia da Litter atura Clássica 



JORGE DE MONTEMOR 

Em 1542 foi publicada a primeira parte da famosa 
novella Los siete libros de la Dia?ia, obra hespanhola do 
português Jorge de Montemor. Apesar da nacionalidade 
de seu auctor, tal obra pertence á historia litteraria de Hes- 
panha ; razões de facto e razões de critica nos determinam 
á deliberação de a não incluir no presente quadro do nosso 
quinhentismo. (') 



( ) Jorge de Montemor nasceu na villa, de que tomou o appellido, 
no fim do primeiro quartel do scculo xvi. Passando muito cedo a Hes- 
panha, teve o lugar de musico da capella real de Madrid. Em 1552 
acompanhou a Portugal a infanta D. Joanna, filha de Carlos v, que veio 
casar com o príncipe D. João, p>e de D. Sebastião. Foi durante esta 
estada em Portugal que escreveu a Sá de Miranda uma epistola autobio- 
graphica, em castelhano, a que c potra português respondeu do mesmo 
modo. Em J555 acompanhou a Jrglaterra o príncipe D. Filippe e em 1560 
achava-se na Itália, ro Piemonte. Ahi morreu em 1561, na cidade de 
Turim, dum duello cujas causas não são bem conhecidas Todas as suas 
obras foram escriptas em língua castelhana; do seu cultivo da lingua 
portuguesa apenas ha a tradição conservada por um editor de haver 
começado a escrever um poema O Descobrimento da índia Oriental, 
plano prejudicado pela morte. 

Ai êrca da sua novella pastoral e acerca da sua larguíssima influencia 
01a Europa, principalmente sobre a btteratura francesa, pode- se consultar 
a seguinte bibliographia : G Schõnherr, Jorge de Montemayor, sem Leben 
und seitt Schãjjcrrrcuian, Halle, 18^6; H A. Rennert, The Span>sh Pas- 
toral Novel, Baltimore, 1892; G. Ticknor, History 0/ Spanish Literatare, 
Boston, 1849; Domingos Garcia Pt-rez, Catalogo ra&onado, biográj co y 
b blw grájlco de los andores portugueses que escrib<ercn en castellano, 
Madrid, 1890; E Fernandez de Nav arrete, Bosquejo histórico sobre la 
ntvela esperneia;]. Fitzmaurice-Kclly, The Bbl ography o/lhe Diana ena- 
morada, na Revue Hispanique, 1895; Menéndez y Pelayo, Orígmes dela 
Novela, tomo i.°, Madrid, 1905; Sousa Viterbo, Jorge de Montemor, no 
Archivo Histórico Português, Lisboa, 1903; K. Tobler, Shakespeares 
Sommersnachtstrattm nnd Montemaycrs Diana. Weimar, 1898; Lu Pas- 
torale Drama tique en Vrance, Jules Marsan, Paris, 1905. As razões por 



Historia da Litteratura Classwo 101 



FRANCISCO DE MORAES 

Ao Imperador Clarimundo segue-se chronologtcamente o 
romance também de cavallarias, o Palmeirim de Ingla'erra t 
de Francisco de Moraes, ( ) que appareceu provavelmente 
em 1544. Era esta obra a contribuição portuguesa para o 
cyclo dos Palmeirins, tão abundante e tão preferido, como o 
fora o dos Amadis. Á data do apparecimento da obra portu- 
guesa era já muito divulgado o gosto desses romances, em 
Hespanha. Abrira o cyclo o original hespanhol, Palmeirim 
de Oliva, de Salamanca, 151 1 ( 8 ), escripta por auctor anonymo, 



que excluimos do nosso estudo e consideramos estranha á historia litte- 
raria de Portugal a D ana — em que só ha algumas curtas phrases e 
dois poemetos em português — estão expostas no nosso artigo, suggerido 
pelo próprio Montemor, Do critério de nacionalidade nas littcraturas, 
publicado no Instituto, vol. 64. °, Coimbra, 1917, e nos Estudos de Litte' 
r atura, 2 a Serie, Lisboa, 1918. 

i 1 ) Francisco de Moraes, o Palmeirim, nasceu provavelmente nos 
arredores de Lisboa, nos fins do século xv ou já em 1500, filho deSebas- 
íião de Moraes, thesoureiro-mór do reino. Protegido por D. João nr, re- 
cebeu nomeação de thesoureiro da rasa real Privou com os condes de 
Linhares e acompanhou como secretario o conde D. Francisco de Noro- 
nha, quísndo este partiu para França, como embaixador. Na corte fran- 
cesa deixou-se tomar de amores por uma dama de honor da rainha 
D. Leonor, viuva de D. Manuel 1 e depois esposa de Francisco 1, de 
França Não sendo correspondido, compòz a Desculpa duns amores,.. 
publicados só em 1624 Recentemente, o sr. Conde de Sabugosa recons- 
tituiu esses amores num ensaio desse mesmo titulo, Desculpa duns amo- 
res, nas Neves de Antanho, Lisboa, 1919. 

Regressou a Portugal em 1543 e casou, passando de cincoenta 
annos de edade, com Barbara Madeira. Em 1549 voltou a França com 
D. Francisco de Noronha e em 1550 estava já de volta, pois sabe-se que 
tomou parte num famoso torneio de Xabregas. Passou a ultima parte da 
sua vida em Évora, onde morreu assassinado talvez em 1^72. Usou, como 
appellido de família, o nome de Palmeirim, a isso especialmente aucto- 
rizado pelo rei D. João 111. 

(2) Reeditada esta i. a parte em 1516, 1525, 1526, 1534, 1540, 1547, 
Í555, 1562 e 1580. 



102 Historia da Litteratura Clássica 

provavelmente a filha dum carpinteiro de Burgos, segundo o 
testemunho coevo de Francisco Delicado ; a essa primeira 
parte se seguira logo em Salamanca, 15 12, o Primaleão da 
Grécia -('), segundo inferências do próprio texto, obra da 
mesma desconhecida auetora. Nelle se narram as aventuras 
corridas e os feitos praticados por Primaleão e Polendo, 
filhos do imperador Palmeirim, protagonista da i. a parte. 
Em 1533, Valladolid, outro anonymo auetor, também hespa- 
nhol, proseguia a chronica pittoresca dessa phantastica famí- 
lia dos Palmeirins e narrava a agitada e heróica biographia 
de Platir, filho do imperador Palmeirim da Grécia e de 
Gridonia ; e também se presume a existência de outra 
obra, de que hoje se não conhece o auetor, nem a data 
da publicação nem sequer nenhum exemplar, em que seria 
historiada a vida de Flortir, filho do imperador Platir e de 
Florinda, sua esposa, filha dum rei da Lacedemonia. Desta 
obra apenas se sabe que François de Vernassal, traduetor da 
Primaleão, viu um exemplar em 1549. Seu auetor crê-se 
fosse italiano, 

Francisco de Moraes escolheu para heroe da sua chro- 
nica de aventuras a Palmeirim de Inglaterra, filho de D. 
Duardos, príncipe da Inglaterra, e de Flerida. Este protago- 
nista da novella portuguesa entroncava na genealogia dos 
Palmeirins por sua mãe, Flerida, que era irmã de Primaleão 
da Grécia e filha de Palmeirim de Oliva e Polinarda. 

Resumimos a seguir, muito summariamente, o enredado 
entrecho do Palmeirim de Inglaterra. 

D. Duardos, filho de Fradique, rei de Inglaterra, viera 
á Grécia para se casar com Flerida, casamento que fez em 
meio de esplendidas festas. Acabadas as bodas, retirou-se 
com sua esposa. Algum tempo depois, como ella se sentisse 
gravida e mal passasse durante tal período, D. Duardos, para 



\}) Reeditada esta a." parte em 1516, 1524, 1528, 1534, 1563, 1566,. 
1585 e 1588. 



Historia da Litter atura Clássica 193 

a distrahir, levou-a para uns paços, que possuía em meio 
duma floresta. Como Flerida se comprouvesse naquella moradia 
e D. Duardos amasse as caçadas de montaria, por alli estan- 
cearam até ao bom successo. Uma vez que D. Duardos 
sahira ú caça, vendo fugir um javali, perseguiu-o em tão 
doida correria que, sem o attingir, se affastou muito do 
acampamento, onde ficava a esposa com suas damas, e se 
perdeu. 

Caminhando á toa, fora dar a um forte castello, em meio 
dum rio, onde o gasalharam a principio festivamente para o 
poderem surprehender desarmado e o prenderem. E que 
nesse castello vivia Eutropa, muita sabia nas artes de feiti- 
çaria e encantamento, que alli aguardava, muitos annos 
havia, o ensejo de tomar vingança da morte de Farnaque, 
gigante seu irmão, morto em combate por Palmeirim de 
Oliva. Eutropa creara desveladamente a Dramusiando, gi- 
gante filho de Farnaque, a quem confiara seus projectos de 
vingança. Fora, de facto, este Dramusiando quem subjugara 
D. Duardos, colhido no somno e sem armas. O destino de 
D. Duardos não ficara ignorado dos seus, porque Argonida, 
filha de Eutropa, o delatou, movida pelo antigo amor que a 
prendera ao esforçado cavalleiro. 

Emquanto seu esposo era traiçoeiramente aprisionado, 
Flerida, em prantos e lamentações, desesperada de rehaver 
o esposo, dava á luz dois robustos filhos, que houveram no- 
mes de Palmeirim de Inglaterra, protagonista da obra, e 
Floriano do Deserto. 

A ambos colhe e furta um feroz selvagem, que vivia da 
caça que fazia com dois leões seus companheiros. O selva- 
gem que roubara os infantes recem-nascidos não os deu a 
comer aos seus leões, como projectara, porque a mulher 
delle, tocac; i pelo instincto maternal, a isso se oppôs e até 
os creou do mesmo leite, com que alimentava outro seu ver- 
dadeiro filho. Um dos infantes, Floriano do Deserto, per- 
de- se na caça, em que aos dez annos já era' muito dextro e é 

H. da L. Clapsica, vol. 1.» 13 



194 Historia da hitUr atura Clássica 

levado para Londres por Pridos, que regressava das balda- 
das diligencias em procura do desapparecido D. Duardos. 
Na corte, Floriano do Deserto é posto ao serviço de Flerida, 
que ignora ser sua mãe. O outro infante Palmeirim e Sel- 
vião, o verdadeiro filho dos selvagens, são levados pelo ca- 
pitão dum navio, casualmente aportado áquellas paragens, 
para Constantinopla. Nesta corte é Palmeirim posto ao ser- 
viço de Polinarda, que ignorava fosse sua prima co-irmã. 
A inesperada revelação da dona do Lago das Três Fadas 
annuncia ao imperador de Constantinopla que a formosa 
creança, recem-chegada, de poderosos reis christãos des- 
cende e que lhe estão reservados grandes destinos — pelo 
que o imperador redobra a sua estima. 

Entretanto corriam mundo, por diversos caminhos, Pri- 
maleão, já nosso conhecido, e Vernao, príncipe allemão, 
genro de Palmeirim da Grécia. Primaleão conseguia chegar 
ao castello de Dramusiando. Este havia determinado que 
quem quer, que acudisse ao castello, travaria combate com 
D. Duardos, a quem para esse fim concedera limitada liber- 
dade, e depois, successivamente, com outros gigantes até 
chegar a vez de Dramusiando, se o forasteiro não houvesse 
sido morto em tão duras provas. Um dia chegou ao castello 
Primaleão. que pelejando com o sequestrado D. Duardos o 
reconhece. Vencendo aos gigantes Pandaro e Daliagão, é 
afinal vencido por Dramusiando, de quem fica também pri- 
sioneiro. 

Em Constantinopla, Palmeirim, sempre ignorada a sua 
personalidade authentica, era armado eavalleiro por seu avô 
e deixava-se enamorar da princeza Polinarda, a quem servia. 
Com um torneio, deslumbrante de sumptuosidade e concor- 
rência, festejou o imperador a concessão da cavallaria a 
Palmeirim. É pois chegado á maioridade aquelle, cujos fei- 
tos e aventuras formam o núcleo principal do romance de 
Moraes. Logo nesse dia, de surprehendente maneira, re- 
cebe elle o seu escudo, onde se achavam gravadas armas 



Historia da Litter atura Clássica 195 

allusivas á sua precedente vida de sequestro com o selva- 
gem dos leões, na floresta. 

Acompanhado de Polendos e Belcar, chega Vernao ao 
castello de Dramusiando, sem que nenhum conseguisse o 
almejado fito de libertar D. Duardos e Primaleão. Como a 
noticia e o sentimento se espalhassem por toda a parte, 
Recindos, rei de Hespanha e Arnedos, rei de França, se 
determinaram a por suas próprias mãos se empenharem na 
libertação de tão assignalados cavalleiros. Não foi outro o 
resultado senão servir o intuito mesmo de Dramusiando, o 
qual projectava tirar da morte violenta de seu pae a seguinte 
nobre vingança : sequestrar em seu poder D. Duardos, 
Primaleão e todos os esforçados cavalleiros, que em seu 
auxilio accorressem para com elles ir á conquista da ilha 
do Lago sem Fundo, que fora de seu avô Almedrago e hoje 
se achava usurpadamente senhoreada por outros gigantes. 
Conseguindo este objectivo, Dramusiando restituiria á liber- 
dade os seus violentados collaboradores. 

Neste meio tempo, ardendo em sede de gloria, o joven 
Palmeirim deixava sua senhora e namorada, a princeza Po- 
linarda, e partia em busca de aventuras, levando o escudo 
que Daliarte lhe offerecêra e acompanhando- se de Selviâo, 
seu collaço e supposto irmão. Na sua rota, tomou o nome 
de Cavalleiro da Fortuna. São numerosas e variadas as 
aventuras guerreiras, as justas e disputas em que participa 
o Cavalleiro da Fortuna, nas quaes porfiam primazias a 
valentia do seu braço, a generosidade do seu coração e a 
elegante subtileza do seu dizer, a viva e apaixonada lem- 
brança de sua ama Polinarda. Muitos são os encontros im- 
previstos, que se resolvem em reconhecimentos, para cuja 
explicação Moraes a cada passo regressa a anteriores episó- 
dios, que algumas vezes constituem matéria das outras novel- 
las do cyclo, precedentemente publicadas. 

Algumas dessas aventuras têm por assumpto themas já 
cyclicos também, como o passo da ponte, (cap. xx) que en- 



196 Historia da Litteratura Clássica 

contraremos tratado na Menina e Moça, de Bernardim Ri- 
beiro. Agora a historia complica- se com o novo disfarce de 
Palmeirim : para aquelles que ignoravam ser elle um dos 
verdadeiros filhos de D. Duardos, ainda accresce o desco- 
nhecimento em que estão de ser o Cavalleiro da Fortuna, 
«armado de armas de pardo e abrolhos de ouro por ellas», 
o mesmo que o donzel Palmeirim, creado na corte do impe- 
rador Palmeirim de Constantinopla, que o armara cavalleiro 
em meio de ruidosas festas. 

Facilmente se prevê que era a Palmeirim, o cavalleiro 
da Fortuna, que o Destino — o que equivale a dizer o plano 
do novellista Moraes — reservava o papel de libertador de 
seu pae D. Duardos e seus companheiros de captiveiro. De 
facto, depois de haver percorrido o roteiro da aventura, a 
mais extravagante geographia em que a Inglaterra, a França 
a Hungria, a Bretanha, a Syria, a Lacedemonia e o império 
romano do Oriente parecem fronteiriços ou próximos vizi- 
nhos, estreitados por extrema facilidade de communicações 
— depois de haver saltado por todas as casas do mappa da 
cavailaria, Palmeirim chegou ao valle da Perdição — é sem- 
pre expressivamente fatidica a nomenclatura topographica 
dos romances de cavailaria — e attingiu emfim o castello de 
Dramusiando. Travou lucta com D. Duardos, seu ignorado 
pae, que ficou indecisa; com Pandaro, a quem subjuga; 
com Daliagão a quem degola; e com Dramusiando que se 
abate extenuado e vencido. Quando Palmeirim, também 
muito ferido, se sentou junto do gigante vencido para lhe 
tirar o elmo e lhe dar o golpe de misericórdia, a elles desce 
a chusma de cavalleiros captivos, pedindo ao vencedor que 
poupe a vida do gigante. Rapidamente se curam os feridos, 
por intervenção opportuna dum velho e duas donzellas, das 
quaes « cada uma trazia na mão uma boceta dourada, em 
que vinham alguns unguentos necessários a tal tempo». Esta 
é a variada matéria da primeira parte. 

A segunda parte do romance começa com a partida de 



Historia da Litter atura Ctassica 197 

todos os cavalleiros para Londres, já libertados, com grande 
desespero de Eutropa, que novas vinganças premedita. Des- 
encantando o castello, Dramusiando, tornado amigo dos seus 
captivos e já christão, acompanha os cavalleiros para o novo 
percurso de aventuras, que se vae desenrolar. O reconheci- 
mento de D. Duardos e de seus filhos faz-se por meio da 
revelação do sábio Daliarte, na presença da corte assom- 
brada. 

A segunda parte é, como a primeira, um emmaranhado 
tecido de aventuras, de accesas batalhas, que sempre escure- 
cem as passadas; de novo occorre a lucta com um caval- 
leiro que guarda a ponte e, como na parte primeira, ha tam- 
bém um episodio nodal. Naquella era elle a libertação de 
D. Duardos e seus companheiros ; nesta é a tomada do 
Castello de Almourol, onde um poderoso gigante, também 
de nome Almourol, guarda a formosíssima Miraguarda. Pal- 
meirim vence o Cayalleiro Triste, que era um dos defenso- 
res de Miraguarda e que por esta é affastado do Castello. 
E ao gigante Almourol vence o gigante Dramusiando que 
se encarrega da guarda do castello, durante o impedimento 
de Almourol, muito gravemente ferido. Ás portas do Cas- 
tello, repetem -se os combates e desfilam os mais heróicos e 
experimentados cavalleiros da christandade, dos quaes é 
sempre o primeiro entre os primeiros o protagonista Palmei- 
rim. E como a fama da formosura de Miraguarda transpu- 
sesse as fronteiras da christandade e suscitasse ciúmes a 
Targiana, princeza da Turquia, servida por Albayzar de 
Babylonia, também de tão longe vem Albayzar de Babylonia. 

Seria bastante indicio da victoria dependurar o escudo 
vencedor em lugar mais alto que aquelle onde brilhava o 
escudo com o vulto de Miraguarda. Albayzar trava combate 
com Dramusiando, mas nas tréguas da noite, receoso de vir 
a ser vencido, rouba o escudo de Miraguarda e foge. Este 
episodio mostra, por parte de Moraes, prejuízos religiosos e 
de raças, pois só em Albayzar, que não era christão, e em 



198 Historia da Litteratura Clássica 

Targiana, que também christã não era, figurou as únicas 
personagens de cobardia e baixa inveja, que ha no seu ro- 
mance. 

Em busca do roubador Albayzar, parte Florendos e 
muitos riscos corre e vence, accomettendo-o sempre novos 
perigos imprevistos; a esse rosário infindo de batalhas, 
captiveiros e sortilégios, associa-se Floriano do Deserto, que 
fora aprisionado por Auderramete, irmão de Albayzar. 
O amor que Floriano do Deserto concebe por Targiana 
inspira-lhe novos heroísmos e arriscadas proezas. E logo a 
primeira é o rapto de Targiana, que Floriano faz, levando-a 
para Constantinopla, então cidade christã. Esta audácia 
determina, da parte de Grão-Turco, o aprisionamento dos 
cavalleiros que confiadamente tinham vindo aos seus domí- 
nios, a acompanhar Targiana, restituída por ordem do 
imperador, aos quaes guarda em seu poder até que lhe 
entreguem o roubador da filha. E assim, sempre mais com- 
plicada de episódios novos, mas com feliz desfecho, a que 
logo accrescem outros, que de novo enredam o entrecho e 
não deixam amortecer-lhe a vivacidade e a complicação, 

4ecorre o romance de Moraes, sequencia continua de acções 
árias, separáveis, quasi autónomas, escassamente ligadas 
por um ténue fio, cujo fim é sempre exemplificar e demons- 
trar qual era o theor de vida dum verdadeiro cavalleiro, 
sem medo, nem mácula, correndo aventuras por sua dama. 
No final da novella, aos combates singulares succedem-se as 
batalhas de exércitos ou grupos de cavalleiros, e assistimos 
ao combate dos doze batalhadores e a duas grandes bata- 
lhas campaes entre tropas christãs e tropas turcas. É por 
uma grande batalha campal onde uns enlouquecem e outros 
morrem e pela descripção da ôòr de suas damas que o 
romance fenece. 

Muita matéria ficava ainda por tratar: de um lado, a 
Ilha Perigosa, onde jaziam os mortos e as viuvas os pran- 
teavam, continuava encantada,? porque o feiticeiro Daliarte 



Historia da Lilteratura Clássica 199 

fora assassinado sem quebrar esse encanto; doutro lado, 
daquelles heroes alguns deixaram geração digna de con- 
tinuar suas proezas. O próprio Palmeirim de Inglaterra 
teve um filho delle digno, D. Duardos li, e o mesmo Fran- 
cisco Moraes annunciou a sua chronica: «como na chronica 
do segundo D. Duardos, filho de Palmeirim de Inglaterra 
se pôde ver » ('). 

Unidade de acção ninguém a procure neste romance, 
que não teve em vista a ostentação de tal predicado, mas 
opulências de imaginação, sequencia ininterrupta de impre- 
vistos, exemplos de heroísmo inesgottavel, movimento e 
agitação, extrema inverosimilhança; isso intensamente se 
observa na obra de Moraes. As obras deste género tinham 
por objectivo dois vicios de composição litteraria, a que 
modernamente, sobretudo com o realismo, se fez a devida 
justiça: o maravilhoso e o romanesco. Taes obras corres- 
pondem a um género actual, inteiramente posto de lado do 
quadro dos vaiòres litterarios, o romance de aventuras, de 
Montépin, Richebourg, Ponson du Terrail oa Perez Escrich. 
Só os petrechos com que se architecta esse maravilhoso e 
esse romanesco divergem, porque também diverge o theor 
de vida dentro do qual o enredo tem de decorrer por con- 
descendência com o mínimo de verosimilhança, a que se 
obrigam seus auctores: em vez dos feitos heróicos, dos 
amores inspiradores de épicas façanhas, dos cavalleiros 
andantes, dos gigantes e das fadas, dos encantamentos, da 
geographia maravilhosa, os meios modernos como a astúcia, 
a lethargia, a audácia, a investigação policial, a crimina- 
lidade servida por inventos aperfeiçoados. É bom recordar 
este estádio do género para se reconhercer o grande per- 
curso de progresso andado para chegar a Balzac, Flaubert, 
Zola ou Dickens e para sabermos as razões históricas e 



(*) V. pag. 382 da edição de Lisboa, 1852, 3.° vol. 



200 Historia da Lttteratura Clássica 

estheticas que relegaram o actual romance de aventuras 
para o subalternissimo lugar que se ihe abandona. 

Todavia, o Palmeirim de Inglaterra já aceusa algum pro- 
gresso na evolução do género. Mais diserta a dicção, plena- 
mente cumpre seu objectivo de dignificar a vida cavalheirosa 
dos altos ideaes, dominada por sentimentos de honra, de 
heroismo e de justiça corajosa. A imaginação mais fecunda 
ensancha a narrativa com episódios sempre variados, não 
se limitando á parte concreta e objectiva, mas demorando-se 
na pintura das physionomias e dos trajos e na descripção 
dos sentimentos. Assim, exemplificando, dá-nos o retrato de 
Dramusiando : «As condições de Dramusiando eram estas: 
de todalas cousas da natureza assaz perfeito: de corpo e 
rosto bem proporcionado : não de grandeza desmedida, 
como os outros gigantes, dotado de maiores forças do que 
seus membros pareciam; mui nobre de condição, e esfor- 
çado sobre os outros homens ; menos soberbo do que a 
gigante convinha: aprazível na conversação: grandemente 
destro em todas as armas; e sobre tudo o melhor cavalleiro 
que em seu tempo antre todos os gigantes houve > ( 1 ). 

Reproduzimos outro exemplo: «Acabado o comer en- 
trou pela porta uma donzella fermosa, vestida ao modo 
inglez de uma roupa de setim avelludado negro, e em cima 
uma capa cueta de escarlata roxa, broslada de chaperia 
rica e louçãa, com rosto sereno e algum tanto descon- 
tente» ( 2 ). 

Na sua linguagem ha não só fluência, mas elegância e 
até subtileza, sobretudo nos diálogos entre cavalleiros, onde 
não será imprudente descobrir algumas agudezas prenuncias 
do gosto gongorico. Mas o mérito fundamental será sempre 
o da exuberante imaginação, em que a variedade dos epi- 



(») V. i.° vol. da ed. cit., pags. 21-22 
(2) V. i.° vol. da ed. cit., pag. 79. 



Historia da Litteratura Clássica 201 

sodios, a concorrência de personagens, a largueza do campo 
de acção, os petrechos litterarios da epocha, a topographia 
fatídica, a geographia phantastica e a chronologia fabulosa 
se deram as mãos para produzir esse trama enredado, que 
alguns auctores não hesitaram em comparar a Homero (*) e 
que antes merecera a Cervantes o bem conhecido elogio ( 2 ). 
A esse mérito real e ao facto de haver sido objecto de 
longa controvérsia a respeito da nacionalidade de seu auctor 
deve o Palmeirim as sympathias, que tem desfructado. A 
questão da naturalidade está hoje definitivamente resolvida 
a favor de Moraes. (*) 



(') Y. Oclorico Mendes no seu Opúsculo acerca do Palmeirim de 
Inglaterra, a pag. 24 e 26, e Nicolas Diaz Benjuméa no seu Discurso 
sobre el Palmeirin de Inglaterra y su verdadero autor, a pag. 81. 

( 2 ) Por bocca do cura, occupado na queima dos romances de 
cavallarias que formavam a livraria de D. Quixote, diz do Palmeirim 
Cervantes no capitulo 6.° da Parte 2. a do seu famoso romance : . . «y esa 
palma de Inglaterra se guarde y se conserve como a cosa única, y se 
haga para el!a outra cajá como la que halló Alejandro en los despojos 
de Dário, que la disputo para guardar en ella las obras dei poeta 
Homero. Este libro, senor compadre, tiene autoridad por dos cosas; la 
una porque el por si es muy bueno, y la otra porque es fama que le 
compuso un discreto rey de Portugal. Todas las aventuras dei castillo 
de Miraguarda son bonissimas y de grande artificio, las razones corte- 
sanas y claras, que guardan y miran el decoro dei que habla con mucha 
propriedad y entendimiento. Digo pues, salvo vuestro buen parecer, 
senor Maese Nicolás, que este y Amadis de Gaula queden libres dei 
fuego, y todos los demás, sin hacer más cala y cata, perezean». 

(*) Julgamos conveniente rememorar as phases principaes da 
controvérsia que se agitou cm torno da nacionalidade do auctor do Pal- 
meirim. Foi Vicente Salva, bibliophilo e livreiro em Londres, que, em 
1826, no seu catalogo dos livros hespanhoes e portugueses impressos em 
Londres, levantou a questão, attribuindo a auetoria da obra a um hes- 
panhol, Miguel Ferrer ou Luiz Hurtado, com o fundamento de que a 
edição de Palmeirim, em hespanhol, é de 1547 e a edição portuguesa é 
de 1567, conforme reza o colophonte, e o da phrase formada pelas ini- 
ciaes do acróstico, que precede a edição hespanhola : Luis Hurtado 
autor ai lector da salud. Pascual de Gayangos perfilhou essa mesma 



202 Historia da LU ter atura Clássica 

A obra de Moraes foi traduzida para a língua hespa- 
nhola logo em 1547 a primeira parte e em 1548 a segunda 
por traductor desconhecido; para francês por Jacques Vin- 
cent em' 1552 e 1553; para lingua italiana por Mambrino 
Róseo em 1553 e 1555 e pelo mesmo continuada em 1558; 
e para lingua inglesa por A. Munday em 1596. Em portu- 
guês teve também seus continuadores: em 1586, Diogo 



opinião e deu-lhe auctoridade para que fosse acceita nos meios littera- 
rios. Em defeza da hypothese da nacionalidade portuguesa, sahiu Ma- 
nuc 1 Odorieo Mendes, humanista brasileiro, que publicou em Lisboa, 1860, 
o seu Opusculo ácèrca do Palmeirim de Inglaterra e do seu autor no qual 
se prova haver sido a referida obra composta originalmente em português, 
em que adduz os seguintes argumentos: i.° a dedicatória do romance á 
infanta D. Maria em 1544, em que se falia da obra já concluída ; 2. con- 
siderar como só referente ao acróstico a phrase que as suas iniciaes 
formam : Luiz Hurtado seria auetor só do acróstico ; 3. o episodio das 
justas ein honra de quatro senhoras francesas, uma das quaes é Torci 
por quem Moraes se apaixonara, quando estivera em França; 4 a 
declarada preferencia de Moraes pela paisagem e pelas personagens 
portuguesas. A este opusculo respondeu Pascual de Gayangos na Re- 
vista Espauola, mantendo a opinião em favor de auetor hespanhol, com 
o argumento principal de que a edição mais antiga continuava a ser a 
hespanhola e a única declaração franca era a do acróstico ; quanto Men- 
des allegava eram provas indirectas, sem segurança. Em 1877, o erudito 
hespanhol Nicolas Diaz Benjuméa volta a ventilar o problema mas deci- 
didamente a favor de Francisco Moraes. Benjuméa, muito diffusamente, 
repete as razões principaes de Odorieo Mendes, já por nós reproduzidas, 
e outros pequenos argumentos também primeiramente adduzidos por 
Mendes. Em J904 renovou esta discussão o sr. W. Purser que pormeno- 
rizou e documentou mais seguramente as allegações de Mendes, fazendo 
também investigações acerca de Ferrer e Hurtado, aos quaes alternada- 
mente se attribuia o romance, para assim produzir também a parte ne- 
gativa da demonstração. A propósito desse livro, o sr. Fitzmaurice- 
Kelly no 10. ° vol. da Rcvue Hispanique oceupou-se também desta maté- 
ria, votando pelo auetor português. Em 1916, o sr. Henry Thomas 
rememora esta discussão, que considera definitivamente resolvida a 
favor de Francisco Moraes, na sua communicação á Sociedade Biblio- 
graphica de Londres, The Palmeirin Romances. Londres. O trabalho de 



Historia da IÁtteratura Clássica 203 

Fernandes (') fez publicar o seu D. Duardos II, partes terceira 
e quarta do Palmeirim de Inglaterra; e em 1602, Balthazar 
Gonçalves Lobato ( 3 ) deu o seu Clatisol de Bretanha, partes 
quinta e sexta do Palmeirim. D. Duardos 11 era filho de Pal- 
meirim de Inglaterra e Polinarda; e Clarisol de Bretanha 
era filho de D. Duardos II e de Carmelia. 

Em torno dos heroes centraes, que deram o nome ás 
obras, muitos outros se agitam e ostentam seus heroismos. 
Os caracteristicos destas obras são semelhantes aos do Pai' 
meirim, mas em intensidade mais attenuada. 

Em 1626, por diligencias de Manuel de Carvalho, appa- 
receram em Évora, com dedicatória a Manuel Severim de 
Faria, Os Diálogos de Francisco de Moraes, author de Palmeirim 
de Inglaterra. Com um desengano de amor, sobre certos amores, 
que o author teve em França com uma dama francesa da rai?iha 
Dona Leonor. Sâo trôs os diálogos e de Índole muito outra 
da novella. No primeiro são interlocutores um escudeiro 
que allega razões contra a nobreza de herança, sua contem- 
porânea, que já não provinha da aristocracia moral, de feitos 



Benjuméa está publicado no tomo iv, parte n da collecção Historia e 
Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa e oceupa 87 pags. 
Do conteúdo do excellente livro do sr. Purser póde-se avaliar pelo 
extenso e judicioso parecer sobre elle feito por José de Sousa Monteiro 
e publicado no vol. 2. do Boletim da Segunda Classe da Academia Real 
das Sciencias, Lisboa, 1910, pags. 281-299. Também de Francisco Mo- 
raes e da sua novella se oceupou a sr. a D. Carolina Michaelis de Vas- 
concellos na Zcitsc/irift. fúr Romanische Philologie, tomo vi, Halle, 1883. 
— O sr. Henry Thomas condensou todas as investigações acerca da 
novellistica peninsular na obra recente : Spanish and Portugitese Ro- 
mances of Chivalry — The revival 0/ the romance 0/ chivalry in tlie 
spanish Península, and ifs extension and influenze abroad, Cambridge,. 
1920, 335 pags. E uma obra fundamental.— A bibliographia do problema 
da auetoria do Palmeirim está mencionada a pag. 182-5 da 3." ed. da 
nossa Critica Litteraria como Sciencia. 

( x ) Ignora-se a biographia de Diogo Fernandes. 

(2) Ignora-se a biographia de Balthazar Gonçalves Lobato. 



204 Historia da Litteratura Clássica 

ou virtudes, e um fidalgo que defende a sua classe e impugna 
tantas letras que com surpreza nota no escudeiro contendor. 
A leitura devia ser defeza a escudeiros, que só haviam «de ter 
alçada até Amadis, e não mais por diante». O segundo dia- 
logo decorre entre um cavalleiro e um doutor. Discutem 
estes um problema, que muito preoccupou nossos maiores e 
que repetidamente foi versado nas academias dos séculos xvn 
e XYlli: a primazia da carreira das letras ou das armas. Este 
dialogo é gracioso e vivo, um verdadeiro tiroteio de razões, 
frequentemente de ordem pratica e por isso mais pondero- 
sas. O terceiro, mais breve, reproduz o derrete dum moço 
de estribeira com uma regateúa e tem principal valor como 
repositório de miúdas informações sobre indumentária po- 
pular. A Desculpa duns amores narra, com encantadora since- 
ridade e elegante forma os seus não correspondidos amores 
por M. e,le de Torcy, de quem queria fazer-se comprehender 
em português, em castelhano, em prosa e em verso, mas 
sempre em vão, porque se a dama bem conhecia os desejos 
de Moraes, não sabia que cousa era «querer bem como por- 
tuguês». Esta formosa peça autobiographica, pelas seme- 
lhanças que ostenta com circunstancias da justa do Palmei- 
rim, capítulos i37.°-i47.°, em honra de quatro damas france- 
sas, constituiu novo e importante argumento em favor da 
auctoria portuguesa. 



BERNARDIM RIBEIRO 

Com alguns annos de intervailo, succedeu ao Palmeirim 
a Menina e Moça, cujo primeiro livro se publicou em Ferrara, 
no anno de 1554, e cuja primeira edição completa appareceu 
em 1557, datas ambas posteriores á morte de Bernardim 
Ribeiro. 

O primeiro livro é uma espécie de prologo á parte mais 
intensa da acção, a qual decorre no segundo livro. Repro- 



Historia da Litteratura Clássica 205 

duzimos a seguir o enredo, para que mais seguramente se- 
jamos acompanhados no nosso exame. 

Alguém, que se não nomeia, do sexo feminino, e que 
por desventuras amorosas se desterrara em plena mocidade 
de belleza para um cimo na Serra de Cintra, levanta-se uma 
manhã, absorto em pungentes recordações, como sempre, e 
põe-se a caminho, indo descansar num fresco valle, á mar- 
gem dum ribeiro. Na ramaria das arvores canta um rouxi- 
nol, que de cansado cahe e se affbga no rio. Emquanto 
lamenta a morte cruel da innocente ave, approxima-se uma 
dama de nobre presença, d'aspecto soffredor; uma instinctiva 
sympathia as attrahe, e a recem-chegada, havendo percebido 
que a donzella desejava recatar o seu segredo, propõe-se 
contar-lhe uma historia de desventurado amor, a historia de 
dois amigos que a seu pae ouvira e que decorrera naquelle 
mesmo valle, ao tempo habitado e opulento de paços nobres. 
E, após umas amargas reflexões, começa a longa narrativa: 
Alli se estabelecera em tempos um nobre cavalleiro , apor- 
tado á mais próxima praia. Lamentor se chamava elle e 
acompanhavam-no Belisa, que por devotado amor o seguira, 
abandonando a sua família e o seu paiz, e Aonia, irmã de 
Belisa. 

Ao atravessarem a ponte, sahiu-lhes ao encontro o es- 
cudeiro dum cavalleiro, que alli aguardava aventuras du- 
rante o prazo de três annos, prazo que lhe fora ordenado 
por sua exigente e desapiedada dama, findo o qual, se hou- 
vesse logrado sahir-se victorioso de todos os passos, possui- 
ria a desejada mão. Resistindo a principio, Lamentor annúe, 
acceita o desafio e o cavalleiro da ponte é vencido e morre 
pouco abaixo do lugar da justa, de olhos postos no castello 
da sua dama, quando faltavam oito dias para concluir o longo 
prazo de ansiosa espera. Alli se fixa Lamentor, e logo na 
primeira noite, quando Lamentor pesadamente dormia, Be- 
lisa dá á luz uma filha, que se chamará Arima. e morre do 
parto. 



£06 Historia da Litteratura Clássica 

Não desiste Lamentor do seu primitivo propósito de 
alli se estabelecer, e ás primitivas tendas succedem uns 
opulentos paços. Entretanto novo cavalleiro chega para dis- 
putar o passo aos que cruzavam a ponte. Attrahido pelos 
prantos, com que era lamentada a morte de Belisa, vê Aonia 
e delia promptamente se namora. Após curta indecisão, de- 
termina abandonar Cruelcia, sua primeira dama, por cujo 
amor viera correr aventuras e para disfarce toma o nome 
de Bimnarder, suggerido por uma phrase dum mateiro que 
vinha passando. Uma vez que os lobos perseguiram e mata- 
ram o seu cavallo, travou conhecimento com os pastores do 
sitio ; esse conhecimento lhe lembrou a resolução de tomar 
o disfarce de pastor, o que faz sob aquelle nome, merecendo 
a alcunha do da flauta, por neste instrumento sempre pran- 
tear suas saudades. A narradora exemplifica os cantares de 
Bimnarder. Estas cantigas e o todo de Bimnarder fazem 
crer á ama de Arima e companheira de Aonia, que o pastor 
da flauta era um falso pastor. A perspicácia da ama foi au- 
xiliada pelo seu conhecimento do paiz, pois dalli era e dalli 
sahira para por amor acompanhar alguém, de que viuvara 
no paiz de Aonia, cuja mãe a recolhera. Communicando a 
Aonia as suas suspeitas, desperta-lhe a curiosidade. Esta, 
uma vez que do eirado o espreitava, presenceia um combate 
de touros e assustada do perigo que o falso pastor corria, 
desmaia. Sabe depois por uma conversa surprehendida quem 
é o pastor. A despeito dos prudentes conselhos da ama, 
com elle falia por uma fresta alta do seu quarto. Uma noite 
que precipitadamente descera dessa fresta, Bimnarder, que 
nella trepado continuava a aguardar o regresso de Aonia, 
deixou-se dormir e cahiu, ferindo-se bastante — episodio sug- 
gerido talvez pela Ce/estitia, de Rojas, em que Calisto morre 
duma queda da janella da torre por onde chegava até Meli- 
bêa. Por uma creada, Enis, sabe delle e, indo a uma romaria 
próxima da sua choupana, consegue vê-lo. A ama, que ou- 
vira a queda dum corpo junto á parede do quarto, julgando 



Historia da Litter atura Clássica 207 

que fosse algum indiscreto pedreiro, mandou tapar a fresta. 
Entretanto, Lamentor combinava o casamento de Aonia com 
Fileno, que a leva para seus paços, com grande desespero 
de Bimnarder. 

É este o assumpto da primeira parte e esse assumpto é, 
como se vê, uma sobreposição de narrativas, que concentri- 
camente se penetram umas nas outras, como caixas chinesas. 
E como nestas nenhuma caixa chega a ser utilizada, porque 
a immediata a obstrue, assim cada historia da Menina e Moça 
è addiada e suspensa pela que a seguir surge. A primeira, 
que esperávamos, seria a da menina e moça, que conhecemos 
ao abrir o livro; é posta de lado pela historia que suppomos 
seguir-se lhe, a da sua interlocutora, que afinal apenas conta 
a historia duns amores que naquelle valle decorreram e que 
ouvira contar a seu pae. E qual é a historia que nesse valle 
.decorreu? É a do cavalleiro da ponte? Esta promptamente 
•se fecha com a morte do cavalleiro. Será a do pastor disfar- 
çado e da joven Aonia ? Esta interrompe-se bruscamente 
pelo casamento de Aonia com Fileno. E assim por successi- 
vos addiamentos se chega á segunda parte, em que decor- 
rem os amores de Arima, a filha da fallecida Belisa, que 
alli mesmo nascera. Esta primeira parte não é pois um ro- 
mance, mas uma sequencia de episódios inacabados. 

A belleza dessa primeira parte consiste no tom de me- 
lancholia profunda, na expressão de acatamento e reveren- 
cia pelos grandes amores que dão o cunho de serena gravi- 
dade á narrativa. Era a primeira vez que em lingua portu- 
guesa uma penna podia livremente correr a narrar máguas 
de amor, a lamentar-se soltamente, sem as peias do verso, o 
limite das pequenas composições ou a obrigação dum 
assumpto movimentado, como no theatro vicentino. Por isso 
se descurou a unidade da obra; os episódios succederam-se 
associados, todos elles a satisfazerem essa necessidade de 
dizer saudades e tristes amores. 

A i. a edição da Menina c Moça é de 1554, de Ferrara, e 



208 Historia da Litter atura Clássica 

apenas contem a i. a parte acima resumida (*) ; a 2.* de Évora» 
1557, comprehende também a 2. a parte da novella; e a 3.* 
edição, de Ferrara, apenas contém os primeiros dezesete ca- 
pítulos -da 2. a parte. 

Diverge muito da i. a esta 2.a parte, pelo que é corrente 
opinião não ser da auctoria de Bernardim Ribeiro. Os argu- 
mentos são as differenças intrínsecas que são principalmente- 
as seguintes: 

A primeira parte da novella é uma expansão de subjecti- 
vismo e delia, tão infrene e tão impulsivamente sentimental, 
procede a própria irregularidade de composição desses pri- 
meiros trinta e um capítulos; a segunda parte é um confuso- 
romance de cavallarias, de milito escassa ligação com a parte 
antecedente, pois não continua a intriga, nem conclue a 
annunciada historia dos dois amigos, apenas contém algu- 
mas personagens da primeira parte, mas geralmente postas 
em segundo plano, no meio das numerosas personagens no- 
vas e que em breve desapparecem. Não tem a segunda parte 
um protagonista único, mas sim dois: Avalor ou Álvaro, 
namorado de Maria ou Arima, filha de Lamentor e depois 
Tasbião. Ora este Tasbião é um dos dois amigos daquella 
historia, que na primeira parte nos foi annunciada como 
muito trágica e desgraçada, apesar do que casa com Roma- 
bisa, irmã de Lucrécia, e muito pacatamente e felizmente- 
vive. A primeira parte, sempre dominada por sentimentos 
profundos de desalento e paixão, tem o meio termo entre 
romance de cavallaria e romance pastoril, só mantendo uni- 
dade e coherencia 110 tom sentimental, que a domina ; a se- 
gunda parte é uma bem característica novella de cavallarias 
objectivamente narradas, sem o cunho subjectivo da prece- 



( l ) Desta edição só se conhece o exemplar do Museu Britannico, 
que em 1918 mandámos photograpbar para promover uma reimpressão, 
revista pelo fallecido erudito A. Braamcamp Freire. O texto accusa bas- 
tantes differenças. do das edições vulgares. 



Historia da Litkraluva Clássica 209 

dente, mas evidentes vestígios de outras leituras, principal- 
mente nas imitações de Tristão e do Amadis. 

Estas razoes são verificáveis e produzem uma justifica- 
ção sufficiente do conceito estabelecido e corrente, que con- 
sidera a segunda parte uma continuação de imitadores. Nós, 
por uma impressão de leitor, pelo sabor diverso que cada 
parte nos proporciona, pela disposição de espirito que adivi- 
nhamos em cada uma e pelo argumento extrinseco de não 
ter apparecido a segunda parte logo na i. a edição, inclina- 
mo-nos também a crer que não seja de Bernardim Ribeiro 
a segunda parte (M. Era uso corrente no século XVI prolon- 
gar um romance em extensas continuações, tomando a des- 
cendência dos heroes das partes precedentes, de modo que á 
chronologia bibliographica das obras pode corresponder uma 
genealogia das personagens (*). Mas também não podemos 
deixar de oppôr a esta nossa presumpção dois limites. O pri- 



l 1 ) Cabe ao sr. D. José Pessanha a auctoria da principal analyse 
da Menina e Moça com o objectivo de demonstrar ser apocrypha a 2. a 
parte. V. a sua edição da novella, Porto, 1891. 

As razões adduzidas pelo sr. D. José Pessanha são as seguintes: 
i. a a diversidade de maneira artística das duas partes, a primeira bucó- 
lica e subjectiva e a segunda cavalheiresca e mais impessoal, excepção 
feita da historia de Avalor; 2.* — o lapso de confusão que occorre no 
capitulo 3. da segunda parte, em que uma personagem se refere ao li- 
vro, em meio da sua exposição, lapso menos provável de ser commetido 
por Bernardim, diz o sr. D. J. P.; 3. a — a discordância entre as duas partes 
quanto á explicação do apparecimento de Bimnarder ao lugar onde co- 
nheceu Aonia ; 4.* — na segunda parte Bimnarder e Tasbião têm desti- 
nos diversos dos que lhe havia fixado a primeira; 5. a — o editor de 
1557-1558 achou logo alguma difterença entre as duas partes ; 6.» — o 
sentido implícito no titulo de cada uma das partes. V. na edição do sr. 
D. J. P. a nota A. pag. 229-243. 

(2) Para os romances do cyclo dos Palmeirins fez este trabalho de 
erigir um quadro chronologico das obras e uma genealogia da família 
dos Palmeirins o sr. Henry Thomas na sua monographia. The Palmerin 
Romances, a paper read before the Bibliographica! Society, London, 1916, 
52 pags. 

II. da L. Clássica, vol. 1.» H 



210 Historia da Litter -atura Clássica 

meiro é que estas razões differenciaes são muito relativas, 
tão relativas e contingentes que se prestam a conclusões di- 
versas para cada auctor ( T ) e até para o mesmo autor em 
epochas diíferentes ( 2 ). 

O segundo é que a Menina e Moça, na sua primeira 
parte, não é uma obra regular, é, pelo contrario, como dili- 



(') Exemplifica-se este nosso asserto com a impressão causada 
pelo romance de Avalor, peça poética engastada na 2. a parte da novella, 
no espirito de dois auctores concordes em julgarem por apocrypha essa 
2 a parte: Menéndez y Pelayo e o sr. Delphim Guimarães. Escreve o cri- 
tico hespanhol : « Algo suyo debe de haber en la historia de Arima y 
Avalor, que tiene toques rr.uy delicados, y por mi parte me cuesta tra- 
bajo creer que no sea suyo el romance inserto en el capitulo xi. Sea de 
quien fuere, es delicioso. Nada hay en las cinco éclogas de nuestro 
poeta, nada en la de Crisfal de Cristóbal Falcão, nada en la lirica portu- 
guesa de entonces, que tenga el extranho hechizo, la misteriosa vague- 
dad de este romance de Avalor». {Origenes de la novela , pag. cdsliii-iv). 
Depois segue-se a transcripção da peça poética ; sobre esse mesmo ro- 
mance de Avalor se pronunciou do modo seguinte o sr. Delphim Guima- 
rães : « Com effeito, é preciso não conhecer as producções do poeta bu- 
cólico, não ter estudado a sua maneira, para se lhe attribuirem os versos 
incorrectíssimos, intercalados na 2. R parte da novella, sob a designação 
de Romance de Avalor, em que um versejador da força de Rosalino Cân- 
dido conseguiu amontoar esta enfiada de rimas, sem elevação e sem 
senso commum». Segue-se a transcripção do romance, a que se junta 
ainda este outro commentario : «Pois esta infamissima imitação está 
correndo em selectas escolares, devidamente approvadas, como trecho 
escolhido, para as creanças aquilatarem do engenho peregrino de Ber- 
nardim Ribeiro». [Bernardim Ribeiro, o poeta Chris/al, pag. 7 e 9). 
O sr. D. Guimarães ver-se-hia, sem duvida, em grandes difficuldades, 
se lhe fosse pedida a explicação objectiva de ser esta composição poé- 
tica uma «infamissima imitação ». 

( 2 ) O sr. TheophiJo Braga teve a este respeito opinião muito di- 
versa da que actualmente professa : em 1872 claramente repudiava a 
2. a parte como falsa ; em 1897 acceita-a como authentica e lógica conti- 
nuação da i. a parte. As irregularidades, que reconhece nessa continua- 
ção, attribue-as á «decadência mental do poeta». {Bernardim Ribeiro e 
os Biicolistas, pag. 267). 



Historia da Litteratura Clássica 211 

.mos evidenciar, muito irregular e é também um fra- 
gmento apenas, pois seria illogico considerar obra acabada 
o que é simples introducção. Correspondentemente, não 
pode julgar-se incapaz de ser auetor duma segunda parte 
irregular o auetor duma primeira parte irregular. Ha também 
que attender á possibilidade de decadência intellectual muito 
verosímil num engenho, que não foi genial e que foi doen- 
tio. A consideração destas objecções faz-nos crer, embora 
nos inclinemos á opinião corrente, que este problema con- 
tinuará no domínio das probabilidades, se uma prova irrefu- 
tável se não produzir. Bernardim Ribeiro não foi um génio 
excepcional, que não possa admittir a existência de desfalle- 
cimentos, cum dormitai Homcrus, nem a segunda parte da 
Menina e Moça é obra em conjuncto tão inferior, que não 
possua partes muito dignas da auetoria cie Bernardim Ribeiro, 
principalmente os dezasete primeiros capítulos. 



JORGE FERREIRA 

Jorge Ferreira de Vasconcelios, neste livro já nomeado 
no capitulo sobre o theatro clássico, publicou em 1567 o seu 
Memorial das Proezas da Segunda Tavola Redonda, que dedicou 
a D. Sebastião. Presurne-se, com verosimilhança, que esta 
obra seja refundição de outra anteriormente publicada, os 
Triumphos de Sagramor, impressa em Coimbra, no anno de 
1554. Depois de Barbosa Machado, que a mencionou em sua 
Bibliothcca Lusitana, nunca mais foi visto exemplar desta 
obra. Outros escriptos de Jorge Ferreira se perderam com- 
pletamente antes de impressos, como o Dialogo das grandezas 
de Salomão, Peregrino, talvez comedia na estruetura da 
Euphrosina e os Colloquios sobre parvos. Sabe-sc da existência 
destas obras pelas referencias do Conde da Ericeira, em 
1724, e de Barbosa Machado. Constituíam ellas o códice das 



212 Historia da Litteratura Clássica 

Obras Moraes que se guardavam na livraria do Conde de 
Vimioso, destruída pelo terramoto de 1755. 

No prologo do seu Memorial, reimpresso em 1867, Jorge 
Ferreira accentúa a idéa, muito corrente então, do poder 
suggestivo da leitura das acções heróicas dos grandes 
guerreiros, que pelo exemplo estimulavam á pratica de 
idênticas façanhas e, evocando a memoria do pae de 
D. Sebastião, o infante D. João, fallecido aos dezasseis 
annos, declara que é também para ensinamento do joven 
rei que compõe o Memorial, onde historia as proezas dos 
cavalleiros da Tavola Redonda e narra o brilhante torneio, 
que se realizara em Xabregas, por occasião de ser armado 
cavalleiro o príncipe D. João: «Pareceo-me de obrigação e 
necessidade trazer á luz ho torneo e mostra que nos delle 
ficou, pêra que como os que ho tratamos temos na memoria 
viva a dor de tal perda. » Havemos de reconhecer que é 
precisa uma extrema benevolência para oppôr ás longas 
complicadas e numerosas aventuras da Tavola Redonda, 
ainda que de pura imaginação, um simples torneio cortesão 
e a ephemera vida dum príncipe obscuro. Depois Jorge 
Ferreira relembra as origens da ordem da cavallaria, origens 
fabulosas que piamente expõe, desde a sua creação por 
Bacho. O alegre deus do vinho, conquistador da índia, 
teria libertado alguns companheiros mais illustres de todo 
tributo e servidão, e confiára-lhes o encargo de manter sobre 
todos a lealdade e a verdade, e defender e amparar fracas 
mulheres, a quem fosse feita injuria. Alexandre Magno 
concedera novos privilégios aos cavalleiros da ordem insti- 
tuída por Bacho, permittindo-lhes o uso de ouro, purpura e 
insígnias reaes, e punindo com a pena de morte quem de 
algum modo os aggravasse; Octávio Augusto concedera- 
lhes a regalia de jantarem á mesa real. Foi, porém, com o 
rei Arthur que a ordem da cavallaria attingiu grande desen- 
volvimento e esplendor. Por este rápido resumo se verá a 
confusão histórica, que reinava nalguns dos mais esclare- 



Historia da Litteratura Classi 213 

eidos cérebros do século XVI, e poderá medir-se a grande 
tarefa da critica histórica para chegar a formular o nosso 
corpo de idéas. N 

As proezas da cavallaria, que sob o rei Arthur toma o 
nome de Tavola Redonda, preenchem todo o Memorial desde 
o capitulo li ao capitulo XLVI. São esses capítulos uma 
laboriosa compilação de quantas façanhas se attribuiam ao 
rei Arthur e seus principaes companheiros, Galvão, Laça- 
rote, Tristão, Galaaz, etc. — compilação também de labo- 
riosa leitura, porque os dotes litterarios não esmaltam essa 
tortuosa narrativa. Segue-se a descripção das esplendidas 
festas de Xabregas, com muita minúcia e reconstituição da 
parte litteraria, profusa de discursos muito rebuscados que 
substituíam os antigos breves, como o próprio nome affirma, 
muito concisos. No final da descripção destas festas, Jorge 
Ferreira annuncia novo volume que não chegou a appa- 
recer. , 

O Memorial ostenta os característicos ordinários nas 
obras do seu género, mas sem brilho, antes com exaggero 
dos defeitos próprios da sua contextura: repetição dos epi- 
sódios mais estimados nas obras iniciadoras dessa modali- 
dade do romance; falta de sequencia através da inextricável 
confusão episódica, abuso dos processos da escola e a mono- 
tonia resultante. Estes defeitos cada vez mais avultarão, 
pois a invenção de proezas esforçadas tem um limite de 
variedade, em que logo começa a repetição. 



CAPITULO VI 

A HISTORIOGRAPHIA 

Ao abrir o século XVI, os novos historiadores encontra- 
ram-se de frente com duas correntes de opinião acerca do 
modo de escrever a historia e da sua funcção; a que rece- 
biam da edade média, da tradição nacional, e a que da nova 
atmosphera de ideas e valores litterarios lhes vinha. Consis- 
tia a tradição nacional no género chronica, cultivado quan- 
tiosa e valiosamente desde que D. Duarte creára o cargo de 
chronista-mór do reino, em 1434 ('). A instituição desse cargo 



(') O cargo de chronista-mór do reino, creado pelo rei D. Duarte 
em 1434 e logo provido em Fernão Lopes, é um dos factos mais typicos 
da nossa historia litteraria. Andou quasi sempre ligado ás funcções de 
guarda-mór do archivo da Torre do Tombo. Desempenhado com varia 
regularidade, existiu até 1842, anno em que foi extincto. Foi Garrett o 
ultimo chronista-mór do reino, tendo nessa qualidade feito apenas uma 
leitura publica. Regulamentado ainda em 1839, morreu de inanição após 
a frustrada tentativa de Garrett pelo transformar numa espécie de vul- 
garização da historia por meio de conferencias. Também não surtiu 
efíeito a sobrevivência desse cargo sob a forma de chronista-mór das 
províncias ultramarinas, em que Costa e Sá chegou a ser investido. Se- 
ria de curiosidade e utilidade fazer a historia deste cargo que durou qua- 
tro séculos cumpridos. Para esse estudo, pódem-se ver as seguintes fon- 
tes principaes ; Dissertação Histórica e Critica para apurar o Catalogo 
dos Chronistas-móres do Reino e Ultramar, Fr. Manuel de Figueiredo, 
Lisboa, 1789, 19 pags; Breve Catalogo dos C/ironislas e escriptores porlu- 



216 Historia da Litteratura Clássica 

e as obras de historiadores como Fernão Lopes, Gomes 
Eannes de Azurara, Ruy de Pina, Garcia de Rezende e 
Duarte Galvão bastavam para crear uma tradição histórica 
nacionah opulenta e bem caracterizada. Bem caracterizada 
porque a chronica foi uma forma histórica bem distincta das 
outras já então conhecidas e exercitadas: não se confundia 
com a vida ou biographia, porque não era uma composição 
intencionalmente organizada por escolha de factos e com 
estructura adequada para mostrar o desenvolvimento da 
acção dum homem e a sua influencia sobre a sociedade do 
seu tempo, trabalho de arte e de psychologia; não se con- 
fundia com o retraio moral, condensação da biographia. nem 
com as memorias, depoimento testemunhal, feito de descri- 
pções, juízos e commentarios, e do mais heterogéneo con- 
teúdo. A chronica, como o seu próprio titulo indica, era 
uma ordenação dos factos não em relação a um fim deter- 
minado, a um objectivo superior aos próprios factos, mas 
em que esses mesmos factos constituiam o objectivo em 
vista; o methodo único é o critério chronologico ; não cabe, 
pois, na chronica, a habilidade artística da biographia nem 
a perspicácia psychologica do retrato ; nella só se trata de 
enseriar os factos argamassados pela narrativa do chronista. 
Essa narrativa seguida é que a distingue da forma histórica 
immediatamente inferior, o quadro de ephemerides, que já 



guezes, que florescerão no assigualado aano de ijouj a mais celebre epo- 
cha da língua por(ugueza_, Fr. Francisco de S. José, Lisboa, 1804, 22 
pags ; Memorias authcaiicas para a historia do Real Archivo, João Pedro 
Ribeiro, Lisboa, 1819; Gabinete histórico, Fr. Cláudio da Conceição, 
Vol. xii, Lisboa, 1829, pag. xxvi — l, peça preliminar sob o titulo de Re- 
flexão sobre a necessidade de se escrever a Historia c noticia dos Qhronis' 
tas-Mórcs do Reino que tem havido ; Historia dos Estabelecimentos Scien- 
UficoSj Liíterarios c Arlisticos de Portugal José Silvestre Ribeiro, Tomo 
vi, Lisboa, 1876, pags. 209-220, 298 a 307 e tomo ix, Lisboa, i88i,pags. 
25-29; O Archivo da Torre do Tombo, srs. Pedro de Azevedo e. António 
Baião, Lisboa, 1905, pags. 212-214. 



] listaria da Litteratura Clássica 217 

encontrámos na edade Média. O rei ou a alta personagem 
que dá o titulo á chronica não é figura central, é só uma 
designação que fixa os limites de extensão da obra. 

A expansão colonial da nação portuguesa já introduzira 
uma variante, melhor um alargamento das attribuições do 
chronista-mór do reino, que segundo a carta de nomeação 
de D. Duarte eram exclusivamente: «poer em caronyca as 
estorias dos Reys .que antigamente em Portugal foram». 
Mas Azurara já se oceupára dos governadores de Ceuta, 
iniciando a chronica do ultramar. 

A corrente nova do quinhentismo consistia em fazer da 
historia uma declarada apologia pessoal, de intenções lauda- 
tórias, didácticas e moraes, segundo os modelos offerecidos 
por Plutarcho e Tito Livio, com accentuação do tom orató- 
rio e do tom épico, portanto com predomínio dos elementos 
artísticos rudimentarmente contidos nos chronicons medie- 
vaes e com sacrifício da serenidade narrativa e da aprecia- 
ção critica. 

A ufania causada pelas empresas militares de Portugal, 
os seus triumphos heróicos concordavam plenamente com a 
tradição nacional, com o gosto da épocha, para accentua- 
rem o sentimento épico que dominaria grande parte da his- 
toriographia quinhentista. E dizemos só grande parte porque 
necessariamente as reflexões e o variável poder de imagina- 
ção de cada auetor haviam de imprimir cunho próprio nas 
obras; discernir essas impressões pessoaes dentro da gene- 
ralidade da concepção histórica da épocha será o objecto 
deste capitulo. A Itália não tinha ainda modelos para apre- 
sentar, porque os seus melhores historiadores do Renasci- 
mento são contemporâneos do intenso movimento historio- 
graphico português ('), em quantia apreciável estranho a 



(1) É Machiavelli (1469-1527) que abre a galeria dos historiadores 
italianos do século xvi, em que figuram principalmente: Francesco 



218 Historia da Litteratura Clássica 

influencias eruditas, só suggerido e estimulado pelos aconte- 
cimentos que regista. A vida politica colonial de Portugal 
determinará a creação dum cargo de chronista-mór do ultra- 
mar e um alargamento considerável do quadro das matérias 
históricas, o qual comprehenderá não só elementos militares, 
mas também alguns económicos, e dará grande attenção a 
povos até então banidos da historia, povos de Africa e índia, 
com seus costumes, seu passado próprio, sua individuali- 
dade. Esse cunho de cosmopolitismo colonial é a verdadeira 
originalidade da nossa historiographia quinhentista. 

A intenção de ensinamento moral da historia já estava 
expressa em vários passos dos chronistas medievos. Frei 
João Alvarez escrevera: «A memoria das cousas passadas 
dá conhecimento para as do presente e avisamento das 
que som por vir. E asy os notavees factos dos antigos se 
põem em escripturas para suas obras vertuosas seerem em 
nembrança por ensinança e doutrina de nos outros» ('). 
E o anonymo auctor da Chronica do Condestavel exprime 
igual pensamento: «Antigamente foy custume fazere memo- 
ria das cousas que se faziam : assy erradas como dos 
valentes e nobres feitos: dos erros porque se delles sou- 
besse guardar. E dos vallentes e nobres feytos aos boõs 
fezessem cobiça auer per as semelhãtes cousas fazerem» ( 2 ). 
Alguma confissão deste género sobre o conceito, que da 
historia formava, teria feito Fernão Lopes nalguma das suas 
obras assignadas, mas como o inicio da sua obra, certamente 



Guicciardini (1483-1540) ; Benedetto Varchi (1502-1565) ; Jacopo Nar- 
di (1476-1555); Bernardo Legni (1504-1559); Francesco Giambullari 
(1495-1555); Bernardo Davanzati (1529-1606); Angelo di Contanzo 
(1507- 1591); Camillo Porzio (1526-1603) e Paolo Paruta (1540-1598). 

i 1 ) V. Chronica do Infante Santo D. Fernando. Coimbra, 191 1, ed. 
do sr. Mendes dos Remédios, pag. 3. 

■) Y. Chronica do Condestabre de Portugal Dom Nuno Alvares 
Vereira. Coimbra, 1911, ed. do sr. Mendes dos Remédios, pag. 1. 



Historia da Litteratura Clássica 2 1 9 

mais vasta que as partes que conhecemos, se perdeu, com 
elle desappareceu também essa opinião do historiador. Ruy 
de Pina expõe tarnbem semelhante opinião: « Estorea, muy 
excellente Rey, he assi muy liberal Princesa de todo b^m, 
que nunqua em sua louvada conversação nos recolhe, que 
delia não partamos, sem em toda calidade de bondades, e 
virtudes spirituaes e corporaes nos acharmos logo outros, 
e sentirmos em nós hum outro singular melhoramento. Nem 
he sem causa; porque a doutrina hystorial, polo grande 
provimento dos verdadeiros enxemplos passados que con- 
sigo teem, he assi doce e conforme a toda a humanidade, 
que atem os maaos que per lição, ou per ouvida com elia 
participam torna logo boõs, ou com desejo de o seer; e os 
boõs muyto melhores. Cuja virtuosa força he tamanha, que 
per obras ou vontade, dos fracos faz esforçados, e dos 
escassos liberaaes, e dos crus piadosos, e dos frios na Fé 
Católicos e boõs christaaõs; e assi discorrendo per todalas 
outras virtudes» (*). 

Esta doutrina da historia poder transformar os caracte- 
res pelo exemplo e pela emulação é confirmada, ampliada 
e vastamente exemplificada nas obras dos historiadores 
quinhentistas. 

Como esta hi^Loriographia contém muito reduzidos ele- 
mentos de arte, nós occupar- nos hemos mais em surprehen- 
der os vestígios da personalidade dos auctores e em exa- 
minar o conteúdo das obras do que em lhes fazer a critica 
esthetica que não comportam. Apuraremos depois o cunho 
geral desta histori< .graphia do quinhentisrno. 



(!) V. C/ironica d'El-Pá D. Dtwrte, pag. 6ç, Porto, 1914, a 
?-. Alfredo Coelho de Magalhã 



220 Historia da Litleratura Clássica 



DE BARROS 



Conta este historiador (}) como a empresa de narrar os 
altos feitos dos portugueses nas partes do Oriente muito 
cedo lhe tomara o espirito e como compuzéra a novella do 



') João de Barres nasceu era Vizeu em 1496. Foi educado no paço, 
esmeradamente e em estreita amizade com D. Manuel 1 e D. João 111. 
Deste monarcha recebeu em 1522 o governo do Castello de S. Jorge 
da Mina, em que serviu até 1525. Neste anno teve a nomeação de thescu- 
reiro da Casa da índia, da Casa da Mina e da Casa de Ceuta, cargo que 
desempenhou até dezembro de 1528, como consta da respectiva carta de 
quitação. Em 1533 ascendeu a feitor da Casa da Guiné e da Casa da 
índia, após longa ausência na sua quinta da Ribeira de Litem, próxima 
de Pombal, para fugir a uma peste. Quando D. João 111 encetou a colo- 
nização do Brasil, João de Barros recebeu a capitania de cincoenta 
léguas de costa, ao norte, como consta do respectivo foral, de 1535, mas 
o naufrágio da esquadra que armara e a consequente morte dos colonos 
impediram que proseguisse no seu einprehendimento mercantil. Dos 
seus redditos de funecionario foi indemnizando as viuvas e os orphãos 
das victimas Mas parece não se haver quitado completamente porque 
por sua morte seus herdeiros fizeram declaração, datada de 1577, de 
que não queriam receber a sua herança em vista das muitas dividas que 
deixava. Em 1567 renunciou ao cargo de feitor das Casas da Guiné e da 
índia, recebendo então generosas doações para si, sua mulher e filhos. 
Passou os últimos tempos de sua vida na Ribeira de Litem, onde morreu 
em 1570. — Prepara urna sua biographia o sr. António Baião, que já 
colligiu importantes materiaes para ella na collecção de Documentos iné- 
ditos sobre João de Barros, sobre o escriptor seu homonymo contemporâ- 
neo, sobre a f omitia do historiador c sobre os continuadores das suas «Déca- 
das», no Boletim da Segunda Classe da Academia das Scicncias, 
vol. 11. o, Coimbra, 1917, de que nos soccorremos. É lamentável o estado 
de atrazo, em que se acham ainda os estudos sobre João de Barros e 
seus continuadores. No fim do século xvui, os philologos da Academia 
rejuvenesceram os créditos delle como clássico da lingua e o P. e Antó- 
nio Pereira de Figueiredo estudou mesmo o espirito da lingua portu- 
guesa, segundo as Décadas; Delphim Maia, em 1852, e Pinheiro Chagas, 



Historia da Literatura Clássica 22 1 

Imperador Ga /imundo, «afim de aparar o estilo de minha 
possibilidade pêra esta vossa Ásia.» ( l ) 

Esse emprehendirnento ia ao encontro dum vivo desejo, 
que também alimentavam os reis D. Manuel I e D. João III, 
os quaes ainda não haviam conseguido pessoa idónea e de 
deliberação que lhe desse execução. Tomando cargo dessa 
ambiciosa empresa litteraria, João de Barros esboçou um 
vasto plano de construcção histórica, que elle mesmo nos 
communicou e que parece haver cumprido em grande parte. 
Esse plano é por elle referido no capitulo i da i parte da 
I Década, que de facto constitue um prologo a toda a obra 
da Ásia. 

Na formação de Portugal e na sua expansão colonial, 
via João de Barros três principaes aspectos — justamente 
aquelles mesmos que o rei D. Manuel i com justificadas 
razões enumerava em seu longo titulo; conquista, navegação 
e çommercio. Dos três se propunha tratar. A conquista 
comprehendia toda a sua actividade militar, principalmente 
aquella em que as suas milicias propugnavam a dilatação 
da fé christã; historiá-la- hia subdividida pelas quatro partes 
do mundo onde decorrera, das quaes as correspondentes 
quatro partes da sua obra tomariam o nome: Europa, histo- 
ria da metrópole, desde as longínquas luctas dos lusitanos 
com os romanos; Africa, que principiaria com a tomada 
de Ceuta; Ásia, desde os esforços preliminares do infante 
D. Henrique, mas cuja matéria principal desde 1500 seria 



em 1867, relembraram a Ásia com admiração ; em 1917 o sr. António 
Baião apresentou a magnifica collecção documentar, que ha-de servir 
de base á nova biographia do escriptor e logo suggeriu uma nota de 
Mr. Edgar Prestage sobre os seus retratos e a reimpressão do Dialogo 
em louvor da nossa linguagem, dirigida pelo sr. Prof. Luciano Pereira 
da Silva. Excellente serviço foi também a organização duma anthologia 
de Barros pelo sr. Agostinho de Campos. 

(') V. Ásia, Década 1, Parte 1, Prologo, ed. de Lisboa, 1778. 



222 Historia da Litkraíura Clássica 

seccionada por periodos de dez armes ou Décadas; e Santa 
Crus, que se oceuparia do novo mundo, desde a descoberta 
de Pedro Alvares Cabral. O segundo aspecto, navegação, 
seria tratado em um compendio geral de geographia^ redigido 
em latim para maior circulação, no qual se comprehendia a 
descripção de todos os continentes, ilhas e mais territórios e 
mares revelados pelos portugueses, com noticias dos costu- 
mes e policia de seus habitantes. E o terceiro aspecto, com- 
mercio, daria objecto a uma espécie de systematização das 
boas, sensatas e regulares normas de trafico, de forma a 
fazè-lo sahir dos domínios da arbitraria ambição soffrega e 
sem escrúpulos, para o morigerar e tornar mais seguramente 
fecundo. Melhor nos esclarecem as suas próprias palavras : 
«A parte do Commercio, porque elle geralmente andava per 
todalas gentes, sem lei, nem regras de prudência, somente 
se governava, e regia pelo Ímpeto da cubica, que cada hum 
tinha, nós o reduzimos, e puzemos em arte com regras uni- 
versaes, e particulares, como tem todalas sciencias, e artes 
activas pêra boa policia, onde particularmente se verão 
todalas cousas de que os homens tem uso, ou sejam natu- 
raes, ora artiiiciaes, com a natureza, e qualidade de cada 
huma delias, (segundo o que podemos alcançar,) com as 
mais partes de pezos. medidas, & cetera que a esta matéria 
convém. »( 1 ) Este vasto projecto cremos que foi executado 
em grande parte, porque no texto da Ásia repetidamente 
menciona as outras partes da obra (/•') e porque ha noticia da 
sua existência em manuscripto. ( 3 ) 



(') V. Década I, ed. 1778, pags. 14-15. 

(*) Na sua Década I refere-se a Europa a pags. 137 e 268, á Africa 
a pags. 16, 23 e 133 ; á parte de Santa Cruz a pags. 389 ca 1 parte e 20 
da 11 parte; á Geographia a pags. 79, 221 e 442 da 1 parte. 285 e 323 
da 11 parte. 

(•;) Os bibliographos referem-se nomeadamente ao manuscripto da 
Geographia UniversaliSj ao ca Africa e a outro, que trata da comtnuta- 



Historia da Litleraiura Clássica 223 

Da Ásia escreveu João de Barros quatro décadas; a i.\ 
a 2. a e a 3.* foram publicadas em 1552, 1553 e 1563; e a 4.% 
após varias diligencias morosas, foi publicada por João Ba- 
ptista Lavanha em Madrid, em 1615, depois de reformada 
e accrescentada. Portanto, só as três primeiras podem attes- 
tar authenticamente sobre os méritos de João de Barros, 
como historiador. Vasta matéria alcançam essas três déca- 
das, ordenadamente distribuída. 

Trouxe João de Barros, formado na leitura fervorosa de 
Tito Livio, duas novidades á nossa historiographia: o pro- 
pósito de patriótica glorificação e as preocupações litterarias. 
Verdadeiramente estas novidades foram apenas o avultar 
com maior relevo de caracteres já implícitos na concepção 
histórica dos escriptores precedentes. Simplesmente, como 
não sabiam pôr em historia o muito escrúpulo scientifico 
que ella comporta, assim nella não punham o muito de arte 
que a mesma pôde conter; um e outro aspecto, para occupa- 
rem na construcção histórica o vasto lugar, que hoje senho- 
rêam, precisavam do lento e laborioso progresso dos séculos. 
Os escriptores precedentes, fazendo historia, apenas elabo- 
ravam o que na velha philosophia se chamava conhecimento 
vulgar; registá-lo em bôa ordem era quanto faziam. João de 
Barros, mais dominado por sentimentos artísticos e patrió- 
ticos, approxima-se mais da forma superior do conhecimento 



ção e comr.iercio com o Oriente. — O pensamento acima transcripto, de 
João de Barros, sobre a constituição pelos portugueses de normas com- 
merciaes, é exacto. Uma confirmação delle é a obra recente do sr. Almi- 
rante Vicente Almeida d J Eça, Normas Económicas na Colonisação Portu- 
guesa até 1808, Coimbra, 1921, 161 pags. que, assente sobre os textos lega es 
e regulamentares, faz resaltar que a exploração mercantil e populacional 
das colónias tinha methodos calculados e variáveis com as regiões. A obra 
é muito breve, quasi só uma indicação de problemas, mas tanto? regista 
e suggere, que poderia ser tomada como introducção ou programma 
duma serie de investigações sobre as praticas económica- da antiga 
colonisação portuguesa. 



224 Historia da Littcr atura Clássica 

histórico porque organiza num todo concatenado logica- 
mente os dados esparsos, que as informações, os depoimen- 
tos escriptos e o seu testemunho lhe proporcionam. E esse 
todo concatenado, tal como elle o concebe, não pode conse- 
guir-se, sem sacrifício da realidade. Se o propósito que João 
de Barros tem em vista é o engrandecimento caloroso da 
sua pátria, elle não poderá deixar de proceder por escolha, 
guardando os elementos que servem a esse propósito e 
engeitando os que o contrariam. Assim fez, porque só nos 
revelou os aspectos favoráveis dos heroes, dos guerreiros e 
navegadores, que em sua obra perpassam e sendo benévolo 
para com os nossos amigos do Oriente e severo para com 
os nossos inimigos. Encarou a historia da nossa conquista 
no Oriente dum ponto de vista estrictamente português e 
por isso não apontou o espirito intimo, as razões e intenções 
dominantes do procedimento dos índios para comnosco; viu 
essa occupação militar e commercial só da Europa para a 
Ásia e não também da Ásia para a Europa, pois quando 
recorreu ás chronicas asiáticas o fez só para bem apurar 
factos e não para se erguer a um ponto de vista mais cora- 
prehensivo. Dahi uma lamentável falta de espirito de pro- 
porção, de justa apreciação dos factos, principalmente na 
sua grandeza e valor. Esta voluntária exaggeração foi ser- 
vida pelas suas preoccupações litterarias: contar em bom 
estylo e de modo convincente e communicativo. Os discur- 
sos vehementes, que na obra abundam, são uma consequên- 
cia do seu propósito patriótico, a qual elle contemplava já 
prestigiosamente exemplificada em Tito Lívio. Do historia- 
dor romano tomou Barros a elegância da prosa, a composi- 
ção equilibrada até ao artificio — pois artificio é a arbitraria 
divisão em décadas — e o gosto da rhetorica. Em rhetoricos 
bem fallantes nos apparecem transmudados os seus guerrei- 
ros. Um sopro épico percorre a sua obra, que ás suas quali- 
dades litterarias deveu o êxito immediato que teve. Bem se 
comprehende como delia se inspirou tão funda e fecundamente 



Historia da Litteratura Clássica 225 

Camões: ao historiador das Décadas e ao poeta dos Lusíadas 
o mesmo propósito patriótico os irmanava. O móbil econó- 
mico das empresas ultramarinas é repetidamente apontado, 
mas João de Barros não tem coragem de o apontar como 
primacial, ou essa verdade repugnava aos seus sentimentos 
de catholico, porque é sempre a causa da religião que 
occupa o primeiro lugar; mais duma vez parece que, menos 
sincero, disfarça o grande relevo que as causas económicas 
tinham na determinação dos factos, que narra. 

E um exemplo desse embréchado hybrido de espiritua- 
lidade religiosa e interesse mercantil a passagem seguinte, 
de cujo typo muitas outras poderíamos recortar: < Vasco da 
Gama quando ouvia taes palavras, sem leixar ir El-Rey 
mais avante com ellas, disse, que verdadeiramente elle não 
punha culpa cuidarem delles muitas cousas, porque grão 
novidade devia ser a todolos seus vassallos verem naquellas 
partes nova gente em religião, e costumes ; e mais vindos 
per caminho nunca navegado, com embaixada de hum pode- 
roso Rey, que não pertendia mais interesse que sua ami- 
zade, e communicação de commercio, pêra dar nova sahida 
ás especiarias daquelle seu Reyno Calecut ; porque homens, 
armas, cavallos, ouro, prata, seda, e outras cousas á humana 
vida necessárias no seu Reyno ás havia tão abastadamente, 
que não tinha necessidade de as ir buscar aos alheios, e 
mais tão remotos como eram os da índia ; porem sabendo 
elle Çamorij o que El-Rey seu senhor quiz de mil e seiscen- 
tas léguas de costa, que elle, e seus antecessores mandaram 
descobrir, haveria não ser nova cousa enviar mais avante 
per esta mesma costa té chegar a sua Real Senhoria, cuja 
fama era muito celebrada na Christandade. E nestas mil e 
seiscentas léguas que mandou descubrir, achando-se muitos 
Reys, e Príncipes do género Gentio, nenhuma cousa quiz 
delles, somente doctrinallos em a Fé de Christo Jesus Re- 
demptor do Mundo, Senhor do Ceo, e da Terra, que elle 
confessava, e adorava' por seu Deos, por louvor, e serviço 

H. da L. Clássica, l.° vol. 15 



226 Historia da Litteratura Clássica 

do qual elle tomava esta empreza de novos descubrimentos 
da terra. E com este beneficio da salvação das almas, que 
El-Rey D. Manuel procurava áquelles Reys, e povos, que 
novamente descubria, também lhes enviava navios carrega- 
dos de cousas de que elles careciam, assi como cavallcs, 
prata, seda, pannos, e outras mercadorias. Em retorno das 
quaes os seus Capitães traziam outros, que havia na terra, 
que era marfim, ouro, malagueta, pimenta, clous géneros 
d'especiaria de tanto proveito, e tão estimada nas partes da 
Christandade, como a pimenta daquelle seu Reyao de Ca- 
lecut. Com as quaes commutações, os Reynos que sua ami- 
zade acceptavam, de bárbaros eram feitos políticos, de fracos 
poderosos, e ricos de pobres, tudo á custa dos trabalhos, e 
industria dos Portuguezes. Nas quaes obras El-Rey seu Se- 
nhor não buscava mais que a gloria de acabar grandes 
cousas por serviço de seu Deos, e fama dos Portuguezes» f 1 ). 
Se as coisas assim se houvessem passado, se Vasco da 
Gama houvesse exposto esta philosophia dos descobrimen- 
tos marítimos, de euphemismos que são hypocrisias, segundo 
a qual os portugueses se aventuravam a tantos perigos e 
sofírimentos só para enriquecerem e felicitarem os povos do 
Oriente, o soberano de Calicut e a sua corte ririam a bom 
rir. A mesma disposição insincera de fechar o espirito á 
verdade evidente, porque repugnava a um espirito grave e 
austero a grossaria do factor económico, encontramos no 
capitulo em que o historiador explica por que trocou o 
vulgo o nome de Santa Cruz pelo de Brasil. 

E também por critério religioso que João de Barros 
classifica os povos com que os portugueses tratavam no ul- 
tramar: christãos, judeus, mouros e gentios. Com os dois 
últimos pugnava Portugal, por Deus destinado a os perse- 
guir sem tréguas. Desses mouros e gentios nos descreve o 



(') V. Dccada T, Pags. 346-348, ed. de 1778. 



Historia da Litteratura Clássica 227 

historiador a situação geographica, os costumes, modos de 
governo e administração, como faziam a «guerra, se arma- 
vam cavalleiros e o cerimonial de suas cortes. E por João 
de Barros que o exotismo pittoresco entra na nossa histo- 
riographia. Mas o sentimento que lhe abre as portas não é 
uma curiosidade sympathica, nem o gosto da cor local; é 
ainda o intuito patriótico: mostrar as desvairadas e podero- 
sas gentes que os portugueses revelaram, trataram e domi- 
naram no Oriente. E para surprehender é a franqueza com 
que Barros confessa o seu assombro pelas coisas da China, 
tão inesperadas para um europeu, de educação clássica e 
todo ufano da sua pátria, que chegou a sentir esta perplexi- 
dade de duvida. Ao contrario do que se espera, depois cie 
ver o perfil que do infante D. Henrique, João de Barros não 
nos deu retratos das. personagens da sua épica historia. 

Aias, mesmo com taes caracteres e até por via delles e 
porque muito bem distribuiu a sua matéria e ordenou a nar- 
rativa, sem deslocar partes inopportunas, mas sem deixar 
de a outras partes ir buscar o que era legitimamente neces- 
sário para boa intelligencia, a obra histórica de João de 
Barros é uma das melhores do nosso quinhentismo ('). 

Da Ásia, João de Barros apenas viu publicadas as três 
primeiras décadas, que alcançam o percurso chronologico 
que vae da fundação do vice-reinado até ao governo de 



(') Todos os historiadores do século xvi grandemente utilizaram 
os primeiros chronistas, chegando a copiá-los textualmente em muitos 
passos. A João de Barros faz o sr. Th. Braga, em pag. 254 do seu Curso 
de Historia de Litterc-tura Portuguesa, Lisboa, 1885, a seguinte aceusa- 
çâo : « Plagia no primeiro livro das Décadas a Chronica de Azurara, 
fiado na existência do único exemplar manuscripto que possuía.. .». Ora 
n pag. 31 da i. a Parte da a.» Década declara João de Barros, a propósito 
de Azurara: « Gomezeanes de Zurara, que foi Chronista destes Reynos, 
de cuja escritura nós tomamos quasi todo o processo do descubrimento 
de Guiné, (como se adiante verá)...». É legitima a aceusação a Barros 
assacada pelo sr. Th. Braga? 

* 



228 Historia da IAtteratura Clássica 

D. Henrique de Menezes: 1500- 15 26. A quarta só posthu- 
mamente foi publicada por João Baptista Lavanha ("), que a 
reformou e additou. Mas aquelle vasto monumento histo- 
riographico, o mais importante desta primeira epocha do 
classicismo, apesar de representar apenas um cunhal da 
ambiciosa fabrica delineada por João de Barros, não deixou 
de attrahir outros espiritos e teve continuadores. Filippe 11 
nomeou chronista-mór da índia a Diogo do Couto ( 2 ), que 



('■) João Baptista Lavanha nasceu em Lisboa antes de 1555. Sob o 
patrocínio de D. Sebastião estudou em Roma humanidades e sciencias 
exactas, vindo a ser muito perito em mathematicas. Filippe 11 de Hes- 
panha nomeou-o cosmographo-mór do reino e Filippe m confiou-lhe a 
educação scientifica do príncipe, depois Filippe iv, e nomeou-o chronis- 
ta-mór do reino. Deixou numerosas obras de cosmographia, pela maior 
parte inéditas, e como chronista narrou a viagem de Filippe 11 a Portu- 
gal, numa publicação castelhana de 1622 e promoveu a edição da 4. a 
década de Barros, a que juntou notas geographicas. Foi tombem elle 
quem achou na Bibliotheca do Escuiial o nobiliário do Conde D. Pedro 
de Barcellos, que o 2. Marquez de Castello Rodrigo, filho de Christo- 
vam de Moura, fez estampar em Roma, 1640. Morreu em Madrid, em 
1625. 

( 2 ) Nasceu Diogo do Couto em Lisboa, no anno de 1542. Foi 
educado em casa do infante D. Luiz, em companhia do filho deste, 
D. António, Prior do Crato, e sob a direcção de D. Fr. Bartholomeu dos 
Maríyres, então no Convento de S. Domingos de Bemfica. Em 1559 
partiu para a índia, onde militou activamente, e em 1570 veio a Portu- 
gal, desde Moçambique na companhia de Camões, « aquelle Princepe 
dos Poetas do seu tempo, meu matalote e amigo Luiz de Camões, tão 
pobre que comia de amigos. . .» Regressando de novo á índia, projectou 
escrever uma historia contemporânea daquelle Estado, mas por suggestão 
de Filippe n, que o nomeou chronista official das coisas da índia em 1595 
e sempre protegeu o seu emprehendimento litterario, veio a proseguir 
a Ásia de Barros. As suas décadas soflreram contratempos grandes, em 
contraste da alta protecção de Filippe n : a sétima perdeu-se na tomada 
da nau Santiago pelos ingleses, e a oitava e a nona foram-Ihe roubadas 
de casa, achando-se doente, pelo que teve de reescrevê-las, mas mais 
abreviadamente do que antes fizera; e a sexta, apenas impressa, ardeu 
quasi totalmente em casa do impressor. Também o Dialogo do Soldado 



Historia da Litteraiura Classim 229 

escreveu as décadas quarta a duodécima; a quarta, editada 
em 1607, é uma repetição da matéria tratada por Barros na 
sua quarta, só conhecida depois que Lavanha a publicou, e 
a duodécima ficou incompleta e deveu a sua divulgação a 
Manuel Fernandes Villa Real, cm Paris, 1645, nome triste- 
mente celebre como victima do Santo Orficio ( ! ). Posterior- 
mente, António Bocarro (-) escreveu a década decima-terceira, 
em duas partes e só publicada em 1876, por diligencias da 
Academia Real das Sciencias, que confiou a edição a Lima 
Felner. Xarrando Bocarro os succcssos do governo do 
20. vice-rei D. Jeronymo de Azevedo, a Ásia veio a abran- 
ger na sua exposição o curriculo de 1500 a 16 17, mas não 
seguido regularmente, porque a década undécima de Couto 
perdeu- se, a duodécima não se concluiu e da parte escripta 
desta ao principio da de Bocarro medeiam os doze annos 
dos governos de Ayres de Saldanha, D. Martins Affonso de 
Castro, D. Frei Aleixo de Menezes, André Furtado de Men- 
donça e Ruy Lourenço de Távora. 

Pôde comparar-se a Ásia do quinhentismo com a Monar- 
chia Lusitana, do seiscentismo, ambas delineadas por um 
chefe de escola e continuadas por uma plêiade de histo- 
riadores que, a despeito do inevitável variar dos seus tem- 
peramentos litterarios, se deixou irmanar na mesma con- 
cepção histórica. A Ásia é obra do enthusiasmo épico pelas 



Pratico foi subtrahido e teve de ser reescripto. Couto casou-se em Gòa 
com uma irmã de Frei Adeodato da Trindade. Morreu em Gòa no fim 
de 1616. Frei Joaquim Forjaz, Memorias de Lit ler atura, i.° vol., revelou 
a existência de alguns mss. de Couto no Convento da Graça. 

(l) V. o opúsculo de José Ramos Coelho, Manuel Fernandes Villa 
Real c o seu processo na Inquisição de. Lisboa. Lisboa, 1894. 

(*) E J mal conhecida a vida de António Bocarro. Lima Felner, que 
dirigiu a edição académica da sua obra, não pôde prefaciá-la por ter 
cegado. Apenas se descobriram então seis documentos respeitantes ás 
suas obras. Foi nomeado guarda-mór do archivo da índia em 1631 Dei- 
xou numerosas obras inéditas. Deve ter morrido pouco antes de 1649. 



230 Historia da LÀtteratura Clássica 

conquistas e navegações orientaes, inspira-a uni alto senti- 
mento de orgulho e vitalidade; a Monarchia é obra de pro- 
phetisrno messiânico, de que o espirito critico desertou. De 
Fr. Bernardo de Brito a Fr. Manuel dos Santos ha uma 
evidente decadência, após o élo superior que António Bran- 
dão representa; também de Barros a Bocarro ha declínio, 
porque este é menos escriptor que Barros e menos histo- 
riador que Couto, dos três irrefragavelmente o melhor 
dotado para tal empresa: viveu no oriente e conheceu os 
lugares e muitas das pessoas que intervieram nos successos 
que conta, teve á mão a massa documentar do archivo de 
Gôa, de que foi chefe, cuidou mais da realidade que do 
effeito artístico, fito primacial de Barros, e não deixou 
obumbrar o seu natural espirito critico com a commovida 
admiração das façanhas heróicas. Testemunha da mudança 
dos costumes e de moralidade politica, operada no Oriente 
entre os portugueses pela cubica, não se temeu de a registar, 
abonar concretamente e censurar. E para mais de espaço a 
verberar compôs o pittoresco e elucidativo Dialogo do Sol- 
dado Pratico, pamphleto de critica politico-social contempo- 
rânea. Bocarro alimenta o mesmo escrupuloso amor da ver- 
dade, mas é ainda menos escriptor que Diogo do Couto. 
Este deixou ainda uma Vida de D. Paulo de Li?na Pereira, 
heroe de famosas façanhas no Oriente, que morreu em Africa 
em trágicas condições na viagem de regresso ao reino. Esta 
obra permaneceu inédita até 1765. 

DAMIÃO DE GÓES 

O historiador Damião de*Goes, Q) tão famoso peia sua 
obra litteraria como pela sua vida variada de episódios, nas- 
ceu em Alemquer no anno de 1502, sendo filho dum fidalgo 



(*) Ao contrario do atrazo apontado a respeito de Barros, os estu- 
dos goesianos estão muito adiantados. Irdciou-os A. P. Lopes de Men- 



Historia da Lit ter atura Clássica 231 

ao serviço do infante D. Fernando, pae de D. Manuel I, e 
duma senhora de sangue flamengo, por ser filha e neta de 
commerciantes daquella nacionalidade que, vindos a Portu- 
gal em negócios diplomáticos, aqui se fixaram a exercer a 
sua profissão. Em 151 1 foi admittido no paço do rei ventu- 
roso e ahi começou os seus estudos ; lá se conservou 
até á morte de D. Manuel 1 em 152 1, havendo noticia de 
receber moradia régia desde 15 18, como moço da camará 
do soberano. De D. João 111 continuou a receber a mesma 
protecção, e uma das suas demonstrações foi a nomeação, 
que teve para o cargo de escrivão da nossa feitoria commer- 
cial de Flandres Ç), espécie de succursal e armazéns do com- 
mercio português em Antuérpia. Para ahi partiu em 1523, 
na armada de Pedro Affonso de Aguiar, assistindo no cami- 
nho a um recontro das esquadras inglesa e francesa no canal 
de Inglaterra. 

No meio de elevada cultura litteraria e artística, que 
era então a Flandres, Damião de Góes pôde satisfazer as 



donça em 1858 e proseguiram-nos com perseverança e methodo seguro 
os srs. Joaquim de Vasconcellos, Sousa Viterbo e Guilherme Henriques 
(Carnota). Modernamente, o sr. António Baião referiu-se ainda ao seu 
processo no Santo Officio, o sr. Edgar Prestage publicou o manuscripto 
dum censor da Chronica de D. Manuel, e os srs. Fortunato de Almeida 
e Eduardo Moreira, com pontos de vista oppostos, occuparam-se da 
heterodoxia de Góes, particular já versado em 1880 por Menéndez y 
Pelayo. Deste modo, os materiaes eram já numerosos para fundamentar 
a urdidura duma biographia sequente, trabalho meritório que levou a 
cabo com pleno êxito o sr. Prof. Maximiano de Lemos na Revista da 
Historia, vols. 9. , 10. ° e 11. °, 1920-1922. — A enumeração dos estudos 
goesianos pôde ver-se a pags. 195-200 da nossa Critica Litteraria como 
Sciencia, 3.* ed. 

(') Damião de Góes trabalhou na feitoria de Flandres primeira- 
mente em alguma situação mais subalterna, porque só foi escrivão, 
quando Ruy Fernandes ascendeu a feitor. Sobre a feitoria de Flandres 
veja-se o estudo de A. Braamcamp Freire no Archivo Histórico Portu* 
guêSj vols. 6. c e 7. , Lisboa, 1908-1909. 



232 Historia da Litteratura Clássica 

exigentes necessidades do seu espirito, tão dado aos estu- 
dos humanísticos como ao cultivo das bellas artes, musico 
como era e collecionador de quadros. Já porque a natureza 
do cargo se prestava á attribuição de funcções consulares e 
diplomáticas, já porque entretanto havia Damião de Góes 
grangeado considerável prestigio, recebeu varias incumbên- 
cias diplomáticas, como ir em 1529 á Polónia, á corte do 
rei Segismundo, então residindo em Wilna, á Prússia; em 
1530 á Hollanda; em 1531 de novo á Polónia, para negociar 
o casamento do infante D. Luiz. Pouco depois, ainda em 
serviço do rei D. João ni, foi ás cortes da Dinamarca e da 
Suécia. Em missão commercial, foi também á Bósnia. Nessas 
digressões, Damião de Góes não se limitou ao estricto 
desempenho das incumbências, que lhe haviam sido com- 
mettidas; obrigado pela forma lenta por que então se 
faziam tão longas viagens, demorava- se nas cidades princi- 
paes do trajecto, procurava os homens mais ndtaveis e com 
elles convivia. 

Era nessa epocha a Allemanha theatro da batalha 
acérrima da reforma religiosa, e batalhadores de pugna 
gigantesca eram alguns dos amigos intellectuaes cem que 
Damião de Góes privara : a figura principal desse movi- 
mento, Martinho Luthero, e Filippe Melanchton, também 
em grande evidencia, que frequentou em Wiburgo; Munster 
e Grynius, de Basiléa. Estas relações tanto contribuíram 
para sua elevação espiritual e gloria como para a sua per- 
dição no futuro. 

Em 1533, sendo chamado d Lisboa, recebe de D. João 111 
a offerta do rendoso cargo de thesoureiro da Casa da 
índia, mas pretextando a promessa duma romaria a 
Sant'Iago de Compostella, dahi escreve ao rei, a pedir que 
o dispense de acceitar essa mercê e lhe permitta regressar 
ao estrangeiro. Habituára-se á vida de largo convívio 
intellectual do estrangeiro, á vida militante da intelligencia 
e não desejava trocá-la pela immobilidade dum funecionario 



Historia da Litleratura Clássica 233 

absorvido pelo seu cargo num meio, que estava longe de se 
comparar, em cultura de espirito, ás cidades que percorrera 
e em que se relacionara. Regressando á Europa septen- 
trional, visita Erasmo, que o hospeda na sua casa de Fri- 
burgo, em 1534; vae a Antuérpia cuidar dos negócios á 
sua guarda e depois, propondo-se conhecer outro aspecto da 
vida culta do estrangeiro, a outra linha da batalha religiosa, 
visita a Itália. Em Pádua, cuja universidade frequentou,, 
viveu alguns annos em cordeal convívio com o cardeal 
Jacob Saddoleto. Em 1538 já se achava de volta á Flan- 
dres, onde casou com uma senhora nobre flamenga, Joanna 
van Hargen. 

Recomeçando as suas digressões, Damião de Góes 
volta á Itália, demorando-se em Roma, visita as cortes de 
Inglaterra, ( J ) França, Hungria e Bohemia, e determinase por 
fim a fixar a sua residência em Brabante, cidade de Lo- 
vaina, sede duma celebre universidade. Ahi viveu algum 
tempo, dando-se ao estudo das humanidades, ao cultivo das 
artes e ao convívio dos bons espíritos, quando em 1542 a 
cidade foi cercada por um exercito de Francisco 1, de 
França. Apesar de estrangeiro e residindo havia pouco 
tempo na cidade, recebeu a honra sem par de ser um dos 
escolhidos para organizar e dirigir a defeza militar da 
cidade. Os outros escolhidos eram nobres, naturaes do paiz; 
era portanto elle o único estrangeiro. Este facto necessitava 
uma explicação mais pormenorizada, mas a ignorância das 
circumstancias que rodearam este episodio, torna tal expli- 
cação impossível. Levantado o cerco precipitadamente, 
Damião de Góes, que se achava fora da cidade em nego- 
ciações com os sitiantes, é aprisionado e conduzido a França, 
onde sendo julgado boa presa é internado como prisioneiro de 
guerra á espera de resgate, que só conseguiu mediante 



(1) São muito vagas as noticias da sua estada em Inglaterra. 
V. Dr. Maximiano de Lemos, Revista de Historia, vol. g.°, pag. 214. 



234 Historia da Litter atura Clássica 

elevada quantia. Estes serviços foram reconhecidos por 
Carlos v, sob cujo sceptro jazia então a Flandres, e por elles 
recebeu deste soberano um brazão de armas. 

Chamado á corte por D. João in, chega a Évora em 
1543 e recebe a nomeação de guarda-mór do archivò da Torre 
do Tombo, em 1548, em substituição interina de Fernão de 
Pina, filho do chronista Ruy de Pina. Terminava deste modo 
a quadra internacional da sua vida, durante a qual se não 
limitara ao exercicio do seu cargo commercial, das suas 
missões diplomáticas, á convivência brilhante e ao estudo 
assíduo, antes procurara litterariamente ser o mesmo distin- 
cto embaixador que era no mundo dos negócios, pois em 
pequenas obras em latim, a lingua internacional de então, pro- 
movia a divulgação dos descobrimentos dos portugueses, das 
suas façanhas militares em Africa e na índia, e dava noticias 
dos novos domínios devassados pelos conquistadores portu- 
gueses, sempre defendendo e engrandecendo o bom nome 
português. Foi este nobre propósito que dictou a publicação 
da pequena obra descriptiva Hispânia, calorosamente lou- 
vada por Pedro Nannio, professor da Universidade de 
Lovaina e seu amigo, como também inspirou a obrinha 
Hispânia? adversus Munsierum defensio, em que repudiava as 
severas apreciações que do caracter e da policia dos costu- 
mes peninsulares fizera Sebastião Munster na sua Cosmogra- 
p/iia. Ainda sobre o mesmo assumpto travou correspondên- 
cia com Jacob Fuggerum. A pedido do cardeal Bembo, o 
auctor dos Asolani, escreveu uma narração da tomada de 
Diu, Dicnsis Nobilissimcc Carmanicv sev Cambaice urbis oppugna- 
tio. Vulgarizava as bellezas de Lisboa na eloquente e eru- 
dita Urbis Olisiponis Descriptio, que dedicou ao cardeal 
D. Henrique, então ainda infante. Com Paulo Jovio discute 
questões varias sobre os feitos e sobre o império português. 
Ao papa Paulo 111 dedicou o seu opúsculo acerca do reino 
do Preste João, Fides, Religio, Moresque Aetkiopum, nova pro- 
víncia da christandade com quem os portugueses haviam 



Historia da Lilteratura Clássica 235 

conseguido estreitar relações. O theor dessas mesmas rela- 
ções entre o negus e os reis de Portugal é também des- 
cripto por Damião de Góes, que transcreve algumas i 
entre esses soberanos trocadas. Ao mesmo pontífice dirigia 
uma carta sobre os povos nórdicos, Dcploratio Lappiance 
gentis, inspirada em vivos sentimentos de philanthropia e 
num grande interesse de zelar pela unidade da fé christã. 
Dedicado ao infante D. Luiz. fazia correr outro opúsculo 
acerca do segundo cerco de Diu, De Be lio Cambaico Secundo 
Commentarii Três. Esta obra de hábil diplomacia patriótica e 
intellectual, combinada á convivência selecta que manteve 
em todos os principaes centros da Europa, faz de Damião 
de Góes uma figura brilhante do nosso século xvj e por 
esse aspecto não menos meritório que pelo de historiador. 
A predilecção da aventura e da viagem por dilatados mun- 
dos, em que os portugueses tanto se compraziam que para 
a exprimir crearam uma litteratura bem caracteristicamente 
original, como em seu próprio lugar diligenciaremos eviden- 
ciar — a esse gosto da aventura deu Damião de Góes uma 
forma sua. O sentimento era o mesmo, mas as formas em 
que o vasaram Fernão Mendes Pinto ou Damião de Góes é 
que foram diversas. Damião de Góes preferiu divagar pelos 
mundos novos do pensamento, contemplar os novos hori- 
zontes rasgados á vida europêa pelo humanismo, pela re- 
forma, pelo absolutismo monarchico, pelas descobertas scien- 
tificas, pelas viagens e conquistas dos portugueses; por isso 
viajou pela Europa, seguindo esse pendor de deambulação e 
de maravilhoso intellectual, buscando não o exotismo lon- 
gínquo dos mundos revelados pelos seus compatriotas, mas 
o exotismo e a novidade á velha intelligencia europêa reve- 
lados por todos os obreircs do grande movimento da renas- 
cença e do humanismo. 

Para que assim tão fácil e promptamente se deslocasse e 
percorresse paizes tão diversos, em tempo de diíílcilimas cora- 
municações, e para tào rapidamente se adaptar a meios diffe- 



23ô Historia da Litteratura Clássica 

rentes e se insinuar, creando por toda a parte amizades e 
dedicações, era necessário não ser um sedentário, antes ser 
um homem de acção, de prompta deliberação. E que o era 
demonstra-o a sua defeza da cidade de Lovaina. A versatili- 
dade do seu espirito, dado ás humanidades, á admiração 
das artes, ao cultivo da musica, á pratica dos neg'ocios 
cornmerciaes e politicos e aos assumptos militares, eviden- 
cia também nelle aquella admirável multiplicidade de apti- 
dões, que caracteriza a mentalidade dos homens superiores 
da renascença. 

Encarregado de escrever a Chronica de D. Manuel T, 
desse encargo se desempenhou desde 1566. 

As suas relações com os homens mais notáveis dos pai- 
zes do norte, partidários da reforma religiosa, tornaram-no 
suspeito de heterodoxia, pelo que o provincial dos jesuí- 
tas, Simão Rodrigues, o denunciou em 154.5 á Inquisição de 
Évora, denuncia que não teve seguimento ; a que o mesmo 
delator apresentou em 1550 ficou também sem resultado. 

Xa capital vivia uma vida de conforto, de elegância es- 
piritual, reunindo quadros, fazendo musica e recebendo em 
casa os melhores espíritos do tempo, como João de Barros 
que apadrinhou um seu filho. Em sua casa recebeu os emis- 
sários estrangeiros, que em 1565 vieram buscar a princeza 
D. Maria, que se ia casar á Bélgica. No mesmo anno rece- 
beu do rei D. Sebastião as honras de fidalgo cavalleiro da 
sua casa; no anno seguinte recebeu a mercê duma tença, o 
foro das terras de Magalhães e a successão para seu filho, 
António de Góes. do cargo de guarda-mór da Torre do 
Tombo. Em 1567 D. Sebastião concedeu-lhe brasão d'ar- 
mas igual ao que o escriptor recebera do imperador 
Carlos v. A successão do cargo do Archivo em seu filho 
não se cumpriu, porque, havendo sido processado em 157 1 
pela Inquisição, foi substituído no desempenho daquelle 
cargo por António de Castilho. Preso durante vinte meses, 
foi condemnado ao confisco dos bens e a penitencia rigorosa 



Historia da Litterafura Clássica 287 

em cárcere perpetuo (') no mosteiro da Batalha, onde ainda 
cumpriu parte da sua pena. Attenuado o rigor delia, 
Damião de Góes obteve permissão para recolher á sua casa 
de Alemquer, onde pouco tempo viveu, pois numa manhã 
de janeiro de 1574 appareceu morto sobre a lareira, a que 
se aquecia ( 2 ). Assim se reconheciam em Portugal os altos 
méritos e relevantes serviços de Damião de Góes, que a 
Inquisição condescendeu ser muito conhecido no mundo, 
pelo que não publicou a sua sentença condemnatoria. 

Desde Fernão Lopes, nomeado guarda-mór da Torre do 
Tombo por 141 8 e chronista-mór do reino em 1434, que os 
dois cargos andavam adscriptos para maior viabilidade do 
propósito de D. Duarte: a redacção das chronicas de todos 
os reis de Portugal de forma a constituir-se uma historia 
sequente do reino. De Fernão Lopes a Damião de Góes ha- 
viam dirigido o archivo nacional os seguintes guarda-móres: 

Gomes Eannes de Azurara ou Zurara — 1454-1475 ; 

Affonso Eannes de Óbidos — 1474 (?)-i482; 

Fernão Lourenço — 1483-1484; 

Vasco Fernandes de Lucena— 1486 (?)-i4QÒ; 

Ruy de Pina — 1497-1523; 

Fernão de Pina — 15 23- 1548; 

Foi a este, preso e afastado do cargo por motivo ainda 
desconhecido, que Damião de Góes succedeu com caracter 
de interinidade, em 1548 ; mas o seu exercício prolongou-se 
até 157 1, anno em que, por causa do seu processo inquisi- 
torial, foi substituído por António de Castilho. 

Até ao momento, em que Fernão Lopes annuiu ás ins- 
tancias do seu amigo, o infante-cardeal D. Henrique, haviam 



(') Segundo o Regimento do Santo Officio, a pena chamada de 
cárcere perpetuo durava apenas três annos. 

(i) Segundo os srs. Profs. Maximiano de Lemos e Thiago de Al- 
meida, Damião de Góes teria morrido de arterio-esclerose. V. Revista 
de Historia, vol. n.°, pags. 63-Í8. 



238 Historia da Litteraiura Clássica 

desempenhado o cargo de chronista-mór do reino os seguin- 
tes escriptores: 

Fernão Lopes — 143 4- 1459; 

(romes Eannes de Azurara — 1459-1484; 

Vasco Fernandes de Lucena — 1484-1497; 

Ruy de Pina — 1497- 15 25 ; 

Fernão de Pina — 1525-; 

D. António Pinheiro — 1550 1593. 

A remuneração destes cargos era vantajosa e accrescida 
por mercês extraordinárias dos soberanos e, para Ruy de 
Pina, segundo refere Damião de Góes, por presentes de 
suborno do seu critério julgador. Este declarado e pertinaz 
patrocínio da historiographia havia produzido seus fruetos, 
mas não todos aquelles que os reis desejavam, porque as 
circumstancias ou a falta de zelo dos chronistas algumas 
vezes os tornavam litterariamente menos fecundos. Todavia, 
no tempo de Damião de Góes, Portugal já possuía em partes 
publicadas e em circulação, e em partes inéditas toda uma 
sequente chronica pátria. Essa sequencia obtem-se gru- 
pando-se as suas varias partes por ordem lógica e despre- 
zando a ordem da redacção : 

Chronica de D. Affonso Henriques — Composta por Duarte Galvão ; 
> de D. Sancho 1 — » por Ruy de Pina; 

» de D. Affonso 11 — » por Ruy de Pina ; 

» de D. Sancho n — » por Ruy de Pina ; 

» . de D. Affonso 111 — » por Ruy de Pina ; 

» de D. Diniz — » por Ruy de Pina ; 

» de D. Affonso iv — » por Ruy de Pina ; 

* de D. Pedro 1 — » por Fernão Lopes ; 

» de D. Fernando 1 • — » por Fernão Lopes; 

» de D. João r,i.»e 2." partes — Compostas por Fernão Lopes; 
» de D. João 1, 3. a parte — Composta por Gomes Eannes de 

Azurara; 
» de D. Duarte — Composta por Ruy de Pina; 

» de D. Affonso v — » por Ruy de Pina ; 

» de D. João n — » por Garcia de Rezende 

e Ruy de Pina. 



Historia da Liiteratura Clássica 239 

Fora deste corpo geral, havia chronicas particulares de 
figuras preeminentes e dos primeiros successos coloniaes, a 
saber: 

Chronica do Condestavel — obra anonyma, que começa a ser com vero- 
similhança attribuida a Fernão Lopes ; 

> do Infante Santo — composta por Fr. João Alvares ; 
Historia das Conquistas dos portugueses pela Africa — composta por 

Affonso Cerveira. Obra perdida, mas aproveitada por Azurara. 
Chronica do descobrimento e conquista da Guiné — composta por Gomes 
Eannes de Azurara ; 
» de D. Pedro de Menezes — composta por Gomes Eannes de 
Azurara ; 

> de D. Duarte de Menezes — composta por Gomes Eannes de 
Azurara ; 

Vida do infante D. Duarte, filho de D. Manuel i — composta por André 
de Rezende. 

Seguia-se logicamente a narrativa do reinado de D. Ma- 
nuel I, morto em 152 1, cujas grandezas, mais que os feitos 
dos seus antecessores, lisonjeavam o orgulho nacional. Delia 
estiveram encarregados, por dever do cargo ou por pessoal 
sollicitação, Ruy de Pina, que a redigiu até á tomada de 
Azamor em 15 13; seu filho Fernão de Pina, António 
Pinheiro e João de Barros. Só Damião de Góes, que havia 
dez annos geria o archivo de S. Jorge ( 1 ), se desobrigou da 
incumbência. 

A Chronica do Sereníssimo Senhor Rei D. Emanuel appa- 
receu em 1566 e 1567. Nessa obra diligenciou Damião de 
Góes tomar uma attitude critica, isto é, não acceitar as ingé- 
nuas explicações, que João de Barros defendia, nem nos 



(*) São bem conhecidos os trabalhos de Damião de Góes na Torre 
do Tombo, pelos documentos publicados pelo sr. Guilherme Henriques 
e pelo Dr. Sousa Viterbo. Este deu-nos também uma apreciação na 
2. a serie dos Estudos sobre Damião de Coes, Coimbra. 1900, cap. II. 



240 Historia da Litteratura Clássica 

apresentar os factos através de amplificações patrióticas. 
Mais imparcial para com as figuras que apresenta e cuja 
actividade nos desenha, chega a esboçar um propósito de 
apreciação, mais claro sobretudo quando se occupa das vio- 
lências exercidas sobre os judeus e da politica de D. João II. 
Trata na sua obra menos de matéria da metrópole que 
dos successos ultramarinos, pelo que se podem comparar 
com os de João de Barros os seus processos ao versar 
os mesmos assumptos, na sua penna tornados mais com- 
muns e correntios. A primeira parte trata dos aconteci- 
mentos de Portugal e restante Europa dos fins do século XV 
e princípios do século XVI, dando logo demorada pre- 
ferencia ás occorrencias coloniaes, da Ásia e Africa, que 
occupam a segunda, terceira e quarta partes, em que 
são figuras centraes Vasco da Gama, Alvares Cabral, Duarte 
Pacheco, Affonso de Albuquerque, D. Francisco de Almeida, 
Tristão da Cunha, Lopes de Sequeira, Fernão Peres de An- 
drade e Pêro de Annaya. Aos acontecimentos do reino só 
regressa para fallar da beneficência da rainha D. Leonor, 
viuva de D. João II, das obras religiosas de D. Manuel i e 
das ordenações e outras leis. 

O exotismo tem também lugar na sua Chronica, onde se 
descrevem costumes dos povos tratados pelos portugueses 
no ultramar, especialmente dos abexins, parte em que 
aproveitou a sua anterior publicação sobre a Ethiopia. 
Também assim precedeu a respeito dos cercos de Diu, 
sobre os quaes escrevera opúsculos latinos. 

Parece que Damião de Góes diligenciou não fallar muito 
de matéria metropolitana, da vida interna do paiz, delibera- 
ção que tanto pôde ser devida ao plano adoptado como ser 
uma consequência dos desgostos que o chronista soífreu 
com a publicação da i. a parte da sua obra, cuja melindrosa 
matéria suscitou resentimentos e determinou mesmo a inter- 
venção do rei. Em nome de D. Sebastião se lhe emendou 
essa i. a parte, que teve no mesmo anno uma segunda edição. 



Historia da Lit ler atura Clássica 241 

Só três séculos depois se tirou a limpo este facto pelo appa- 
recimento dum exemplar das folhas substituídas. A censura 
alterou principalmente o texto que se referia á conspiração 
da nobreza contra D. João li, nobreza que se encontrava 
então no reino, rehabilitada e exercendo influencia, e passa- 
gens de caracter ethnographico que foram julgadas menos 
convenientes á orthodcxia religiosa ou talvez á moral, bem 
como apreciações tidas como severas da administração de 
D. Affonso v e D. Manuel i, das relações do rei de Castella, 
Fernando o Caiholico, com D. Manuel I e as referencias á 
infanta D. Joanna, a Excellente Senhora. Na 3/ 1 parte foram 
totalmente substituídos dois capítulos. 

Um dos mais vehementes censores de Damião de Góes 
foi o 2. Conde de Tentúgal, D. Francisco de Mello, cujas 
reprehensões foram quasi sempre dominadas por precon- 
ceitos injustos. O seu manuscripto, que se guarda no Museu 
Britannico, foi ha poucos annos publicado por Mr. Edgar 
Prestage (')• 

Este facto, as queixas de Azurara, de João de Barros e 
de D. Jeronymo Osório, o famoso bispo de Silves, a relu- 
ctancia que vários historiadores tiveram em cumprir o man- 
dato de escrever a chronica do rei venturoso, mostram que 
era bem espinhoso o officio de chronista-mór do reino, 
quando tinha de versar matéria contemporânea. As circuns- 
tancias da epocha em que escrevia e as reacções, que susci- 
tou, fazem honra a Damião de Góes, que, se é menos escri- 
ptor que João de Barros, é mais historiador. Como era 
uso em seu tempo, Góes utilizou amplamente trabalho alheio, 
nomeadamente de Ruy de Pina e Bernardo Rodrigues ( 2 ). 



(*) V. Archivo Histórico Português, vol. 9 °, 1914. 

(2) Só em 191^-1920 foi publicada a chronica inédita de Bernardo 
Rodrigues, Annaes de Arzilla, edição da Academia das Sciencias de Lis- 
boa, dirigida pelo sr. David Lopes. É a pag. xxxi a xxxv que o erudito 
editor evidencia o aproveitamento que dessa obra fez Damião de Góes. 

H. DA L. CLAS6ICA, vol. l.» ic 



242 Historia da Litteratura Clássica 

Damião de Góes também nos deixou uma Chronica do 
Príncipe D. /oão, publicada em 1567, em que narra a vida de 
D. João n desde o nascimento á ascensão ao throno. Ruy 
de Pina e Garcia de Rezende já haviam reconstituído a 
biographia do Príncipe Perfeito. Mas Góes quiz corrigir as 
versões correntes desse período, como declara: «... minha 
teçam, que he reduzir ha Chronica d'elRei dom Afonso 
quinto do nome, desno nascimento do Príncipe dom Joam 
seu filho, atte que elle falleceo, a milhor modo, & ordem da 
em que anda divulgada, ho que nas mais Chronicas destes 
Reynos seria também necessário fazersse, se ho tempo a 
isso de sim desse lugar, porque nellas faltam muitas cousas, 
que por negligencia cu receo do trabalho, hos Chronistas 
passados deixaram descrever e assentar nos lugares em que 
ho fio da historia da manifesto signal do descuido que nelles 
houve.» A novidade principal desta pequena chronica é o 
lugar que dá á exposição das explorações oceânicas do 
infante D. Henrique, de que então com desenvolvimento só 
fallára Luiz Cadamosto, participe de algumas delias. Góes 
deplora que os chronistas antecedentes não houvessem dado 
a essa matéria a attenção devida, e essas considerações, bem 
como outras que expende na Chronica de D. Manuel I, fazem 
delle o pae da critica histórica, que, como se vê, acompanhou 
o apparecimento da critica litteraria, só iniciada por António 
Ferreira. 

Para preencher a lacuna, que havia no ponto de par- 
tida da historia nacional, ordenada por chronicas, D. Manuel 1 
encarregou Duarte Galvão í 1 ) de redigir a chronica de 



(*) Duarte Galvão nasceu em Évora, em data desconhecida, 
filho de Ruy Galvão, cavalleiro e secretario de D. Affbnso v. Foi tam- 
bém secretario e conselheiro de D. Affbnso y, D. João u e D. Manuel 1. 
Desempenhou muitas missões diplomáticas em Roma, Flandres e Ethio- 
pia. Foi durante esta embaixada que Duarte Galvão morreu em 1517. — 
Sousa Viterbo reuniu em duas memorias, Duarte Galvão e sua família, 



Historia da Litteratura Clássica 243 

D. Affonso Henriques. Desobrigou-se o seu servidor da 
incumbência promptamente, mas a sua obra, acceitavel 
litterariamente, era tão insegura historicamente, que não se 
promoveu a sua publicação, porque como acervo arbitrário 
de lendas, tradições infundadas, levianas interpretações 
contrastava singularmente os progressos innegaveis do espi- 
rito critico nesse tempo. Só em 1726 foi impressa, mas 
antes dessa data circulou grandemente por copias manus- 
criptas. É um legitimo preparador de Fr. Bernardo de 
Brito, uma sobrevivência do medievalismo historiographico, 
anterior á reforma de Fernão Lopes. Também nenhum pro- 
gresso traz a refundição das chronicas manuscriptas de Ruy 
de Pina, feita por Duarte Nunes de Leão (?-i6o8), em obe- 
diência a Filippe 11, de que se publicou em 1600 a primeira 
parte, e em 1643, posthumamente, a segunda. 

BRAZ DE ALBUQUERQUE 

O filho de Affonso de Albuquerque, (') por piedade filial 
e para dar uma base de factos á alta opinião que acerca de 
seu pae reinava, organizou a sua obra Commeniaríos, publi- 



1905 e 1913, numerosos documentos, dos quaes respeitam ao chronista 
principalmente a escriptura de dote de sua mulher D. Catharina de 
Sousa, de 1486; uma carta de D. Affonso v regulando a forma de paga- 
mento de 250 ducados, apanágio do habito de SantTago ; outra carta de 
D. Manuel i concedendo-lhe 25.000 reaes brancos ; e uma carta sua ao 
secretario de Estado António Carneiro. 

(J) Braz de Albuquerque, filho natural de Afibnso de Albuquerque, 
nasceu em 1500, na Alhandra. Sendo recommendado a D. Manuel 1 por 
seu pae, em carta escripta pouco antes de morrer, tomou por ordem do 
rei o nome de Aftbnso, foi educado no convento de Santo Eloy e ligou-se 
por atfinidade á casa de Linhares. Recebeu tenças régias importantes, 
foi vedor da fazenda e presidente do senado de Lisboa. Morreu em 1580. 
O dr. António Baião publicou numerosos documentos respeitantes a Braz 

» 



244 Historia da Litter atura Clássica 

cada em 1557, que elle mesmo declara haver colligido dos 
próprios originaes que Albuquerque, em meio da agitação 
da sua vida no Oriente, escrevia a D. Manuel 1 ( 1 ). Nessa obra 
conta, com simplicidade narrativa, mas sempre com signaes 
de intensa veneração, a vida do heróico guerreiro, desde a 
sua primeira ida á índia em 1503 com seu primo Francisco 
de Albuquerque, até á sua morte em frente de Goa, dictando 
a celebre carta ao rei, na qual lhe recommendava o filho 
único, auctor dos Commentarios. A obra não tem pretensões 
litterarias, tem-nas de probidade e estas foram satisfeitas 
quanto permittiam os sentimentos de piedade filial e a con- 
cepção histórica da epocha. « Para que fallar em capitães, 
havendo AfFonso de Albuquerque na índia?» — isto dissera 
D. Sebastião uma vez, quando os cortesãos lhe apontavam 
guerreiros de génio, como conta Braz de Albuquerque. E 
dentro deste conceito, dos sentimentos de filho extremoso e 
da concepção da historia como meio de formar altos cara- 
cteres, que Braz se dispõe a dar uma demonstração de factos. 
Só do aspecto guerreiro se occupa e, como é obvio, occulta 
quaesquer episódios que revelem facetas menos nobres da 
individualidade de seu pae, por as não acreditar e por não 
servirem ao seu propósito. A suspeita de parcialidade repu- 
dia-a Braz de Albuquerque só com a seguinte consideração : 
«E não devem de ter menos crédito, e auctoridade diante 
de Vossa Alteza estes Commentarios poios eu colligir, sendo 
seu Filho, do que César tem, pelo Mundo, escrevendo de si 



de Albuquerque na obra Alguns descendentes de Albuquerque e o seu 
filho á luz de documentos inéditos, Lisboa, 1915. São cartas de padrão, 
confirmações de tenças, mandados de pagamento, um aviso para as 
Cortes de 1578, que reuniram em Almeirim, e um pedido de 6.000 cru- 
zados, feito em 1524 por D. João 111. 

( x ) A Academia Real das Sciencias prestou o alto serviço de 
publicar a collecção dessas Cartas de Affonso de Albuquerque, 6 vols., 
1884-1915. Dirigiram a publicação Bulhão Pato e o sr. Henrique Lopes 
de Mendonça. 



Historia da Lit ter atura Clássica 245 

ha tantos annos, pois neste estylo rudo conto a verdade do 
que se passou.» Esta fraca razão mostra como Braz de 
Albuquerque ignorava a existência das inclinações involun- 
tárias, tendências dominantes que se installam na consciência 
e dominam toda a sua vida, creando mesmo uma lógica sua. 
A probidade histórica pôde ser um acto da vontade, mas 
não pode esta conseguir a imparcialidade, que só nasce do 
desinteresse. 

Muito de accordo com o processo do seu tempo, só no 
fim dos quatro livros da obra, no breve capitulo derradeiro, 
nos proporciona alguns informes acerca da vida de Albu- 
querque antes da partida para a índia, antes de entrar na 
historia, poderemos dizer, e nos aponta alguns dados moraes 
da sua personalidade. Falhos dé' dotes psychologicos, os 
nossos quinhentistas sabiam miudamente pulverizar em fa- 
ctos toda a grande actividade dum homem superior, mas 
eram de todo incapazes de restituir num todo integro a mo- 
ral da personalidade, nunca chegando por isso a bem sur- 
prehender a causa intima e profunda dessa superioridade, 
cujas affirmações em factos nos contavam por narrativas 
incansáveis. 

FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA 

Vinte annos gastou Castanheda ('), bem como toda a 
sua fazenda, em colleccionar os materiaes para a sua Histo- 
ria do Descobrimento e Conquista da índia pelos portugueses — 
di-lo elle e repete-o o alvará de privilegio para a impressão 



(') Nasceu Fernão Lopes de Castanheda em Santarém, provavel- 
mente em 1500. Muito novo entrou para a Ordem de S. Domingos, de 
que pouco depois sahiu. Em 1528 partiu para a índia; regressando ao 
reino em precárias circunstancias, acceitou um modesto lugar de bedel 
na Faculdade das Artes, da Universidade de Coimbra, onde falleceu 
em 1559. 



246 Historia da Litter atura Clássica 

da obra, — e que os trabalhos de ordenação desses materiaes 
lhe apressaram a morte — dizem-no seus filhos. Assim seria, 
porque Castanheda accumulou com extrema avareza todos 
os factos que rigorosamente pôde apurar, para abonar os 
quaes colleccionou papeis, ouviu testemunhas, inquiriu pro- 
tagonistas e visitou os lugares, pratica que entre nós 
inaugurara" Gomes Eannes de Zurara. A sua obra é por 
isso uma compilação quanto possível exhaustiva de factos, 
fastidiosamente enumerados numa grande despretensão litte- 
raria. 

Este escrúpulo de informação faz da sua obra uma 
espécie de revisão das airirmações da historiographia qui- 
nhentista. Pelo lado theorico, para a historia das idéas 
sobre historia, a obra de Castanheda contém no seu prefacio 
a exposição e defeza dum modo de comprehender a capa- 
cidade educativa da historia, que é Castanheda o primeiro a 
affirmar. Segundo elle, a lição da historia era a mais efficaz 
maneira de preparar os príncipes para o governo de seus 
estados; a r elles era mais necessária que aos particulares, a 
elles devia por isso ser destinada. Esta concepção de Casta- 
nheda, a que só faltou o amplo desenvolvimento, para o 
qual a sua intelligencia não tinha a necessária malleabili- 
dade, contém em si a opinião que sobre a utilidade da 
historia formulou mais tarde Bossuet e também a que tem 
defendido o sr. Seignobos, partidário da educação politica 
por meio da historia. Escreve Castanheda: «Em grande 
obrigação sam os homês aos historiadores, muito alto & 
muito poderoso Rey nosso Senhor, principalmente os prin- 
cepes peraquem parece q. õ especial se fez a historia, cousa 
tão proueitosa pêra a vida humana q. ensina o q. façamos 
& do q. avemos de fugir, o q. conuè muito mais aos prince- 
pes q. aos outros homês porq qualqr home privado q. faça 
ha erro não he nada pois não dana mais que a si mesmo, & 
hú princepe se ho faz dana a todos os q. tê debaixo de sua 
gouernãça, porq dela ser boa ou má depêde ho bem & mal 



Historia da Litteratura Clássica 247 

de todos os da sua Repubrica. Pelo q. he muito necessário 
ser ho princepe mais virtuoso, mais sabedor & mais pru- 
dente que todos, & peraque aprenda estas cousas não te 
melhor preceitor q. a historia, pprque? Que doutrina, q. dis- 
crição, q. prudêcia ha pêra boa gouernança de Repubrica 
assi na paz como na guerra que a historia não insine com 
experiecia de exempros, que sam muito mais do que hu 
home pode ver em sua vida por mais comprida q. seja, & 
por isso todos esses princepes famosos assi Bárbaros como 
Gregos & Latinos forão tão dados a ler historias.» (') 

Dos livros, que Castanheda annunciou, só appareceram 
oito; a obra completa comprehenderia a narrativa dos pro- 
cessos da dominação portuguesa em territórios da índia, 
desde o descobrimento do seu caminho por Vasco da Gama 
até ao segundo cerco de Diu, em 1546. 

GASPAR CORRÊA 

A vasta obra de Gaspar Corrêa ('), Lendas da índia, 
permaneceu inédita cerca de três séculos, havendo corrido 
riscos não pequenos. Foi D. Miguel da Gama, neto de 
Vasco da Gama, que, sabendo que nas Lendas grande 
lugar occupavam as façanhas do navegador seu avô, adqui- 
riu no espolio do historiador o manuscripto, e foi a Acade- 
mia Real das Sciencias, que em 1858-1866 conseguiu publi- 
cá-lo. As Lendas alcançam a historia militar da índia até ao 



0) V. Castanheda, Prologo, i.° vol., ed. de 1833. 

(2) É muito mal conhecida a vida de Gaspar Corrêa. Apenas se 
sabe que partiu muito novo para a índia, em 1512, onde militou, que foi 
secretario de Affonso de Albuquerque, que por 1529 veio ao reino, que 
por seus serviços recebeu de D. João m a mercê de ser cavalleiro da 
casa real, que exerceu vários cargos obscuros no Oriente e que morreu 
em Gòa, no anno de 1561. 



248 Historia da Litteratura Clássica 

governo de Jorge Cabral, que terminou em 1550. Não tem 
Gaspar Corrêa o menor prurido artístico; só expõe em 
linguagem despretensiosa, em mais dum passo diffusa. as 
Lendas que os portugueses na índia crearam, isto é, os feitos 
que a lendas se assemelhavam. Suppôs que a circunstancia 
de ter podido visitar os lugares, ter ouvido muitos coopera- 
dores e haver presenceado grande parte da matéria que 
historiava, lhe bastaria para crear obra nova, que comple- 
tasse ou substituísse a de João de Barros, como manifesta- 
mente dá a entender. Faltavam-lhe, porém, a educação 
litteraria de João de Barros, os seus dons de escriptor e de 
historiador; o titulo de landas já denuncia uma concepção 
dada ao maravilhoso, depois no texto da obra exemplificada 
pela invenção ou acceitação crédula da existência dum filho 
de Duarte Pacheco Pereira, chamado Lisuarte Pacheco, mais 
épicamente esforçado que seu pae, pois as suas façanhas 
attingiam o sobrenatural. 

Muitos outros historiadores se occuparam da vida por- 
tuguesa do século XVI, principalmente António Galvão ('), 
André de Rezende (1498-1573) (*), Gaspar Fructuoso (1522- 
1591), auctor das Saudades da Terra, a historia do descobri- 



(') António Galvão, filho do chronista Duarte Galvão, nasceu tal- 
vez em 1490, mas não na índia, como se suppoz. Foi governador das 
Ilhas Molucas, cargo que exerceu com supremo heroísmo e desinte- 
resse, e promoveu a expensas próprias a divulgação da fé christã e a 
construcção de templos, pelo que grangeou o nome de Apostolo das 
Molucas. Passando ao reino, aqui viveu longos annos em abandono e 
extrema miséria. Morreu em 1557. Escreveu o Tratado dos diversos e 
desvairados caminhos per onde nos tempos passados a pimenta e a espe- 
ciaria veio da índia . . . Lisboa, 1563. 

('-) Sobre o eminente humanista escreveram copiosamente Diogo 
Mendes de Vasconcellos e Francisco Leitão Ferreira. O trabalho deste 
foi publicado com importantes notas de A. Braamcamp Freire no Arçkwo 
Histórico Português, vols. 7. , 3.° e ç.°, Lisboa, 1909-1914. 



Historia da Litteratura Clássica 249 

mento das ilhas do Atlântico, Lopo de Sousa Coutinho 
(i5i5?-i577), Frei Marcos de Lisboa (1511-1591), etc. 

Porém estes auctores, muito úteis para os estudos de 
erudição para confronto das informações que sobre a mesma 
matéria proporcionam e assim mutuamente se rectificarem, 
não offerecem interesse para a historia das idéas sobre 
theoria e funcção da historia e para a historia da arte litte- 
raria. Todos se comprehendem na concepção da historia já 
por nós apontada como professada por alguns historiadores e 
todos são mais do que escassamente artistas; era á curiosidade 
e ao patriotismo de seus leitores que elles se dirigiam ; longe 
delles o intuito de visarem a produzir emoção esthetica, 
então só reservada ás obras de pura imaginação. Entre si 
differem apenas pelo grau maior ou menor de credulidade, 
pela cautella das suas informações, por pormenores da nar- 
rativa e por maior ou menor destreza no uso da lingua. 
Exposição systematica da sua concepção histórica, com 
desenvolvimento, nenhum escriptor quinhentista a fez. De 
resto a intelligencia portuguesa sempre se tem mostrado 
pouco propensa a estudos theóricos, e se não fossem peque- 
nos trabalhos de gente moça, já do século XIX, ainda hoje 
estaria por abrir a nossa bibliographia dessa matéria ( J ). 

É opportuno momento de perguntar se a historiogra- 
phia, que nós muito summariamente caracterizámos, reproduz 
com fidelidade o typo humanístico da historiographia do seu 
tempo ou se delle se afFasta e em quê. 

A historiographia do século xvi, tal como a idéa do 
regresso á antiguidade clássica e o humanismo a fizeram, é 
uma creação inteiramente italiana, como também italianos 
furam os primeiros historiadores humanistas dos outros 
paizes, por exemplo Paulo Emilio, que á França deu o seu 



(*) V. o appendice bibliographico sobre theoria da historia no 
nosso trabalho, O E^/irito HistoricOj 3.* ed. 



250 Historia da Litter atura Clássica 

modelo, De rebus gestis f rancor um, Poiidoro Virgílio, que 
semelhantemente procedeu para com a Inglaterra, e Lúcio 
Marineo para a Hespanha. (*) 

O .typo humanístico da historiographia tinha algumas 
predominantes feições. O abandono do quadro genérico in- 
troductorio, que nas obras medievaes chegava a remontar á 
creação do mundo, permittia uma considerável concentração 
da matéria; a rejeição do milagre e da intervenção divina 
dava um mais amplo lugar á causalidade humana; a fabula 
passava para os romances de cavallaria; a anecdota e o pit- 
toresco muito se reduziam como prejudiciaes á intenção, que 
tinham os auctores, de restituírem á historia uma grave 
dignidade. 

Ao mesmo tempo que se deixava cahir em descrédito 
extremo a historiographia medieval, por se reconhecerem os 
seus defeitos, por ignorância e tendenciosa inclinação de 
seus auctores, illogicamente se passava a dar aos historiado- 
res clássicos uma fé excessiva. E quanto á composição, a 
forma chronistica foi substituída por outra, de mais arte, 
posto que mais pessoal e por isso mais arbitraria: as datas 
e os factos miúdos na idade média superabundantes foram 
reduzidos e os successos, agora ligados entre si, argamassa- 
dos pela exposição do auctor em construcção compacta, 
puderam formar um todo, uma resurreição e uma interpre- 
tação da epocha. Simplesmente a intelligencia humana, 
recem-sahida das faixas medievas, ainda não inventara os 
meios mais aperfeiçoados para servirem esse intuito de orga- 
nizar um todo, de reconstituir e interpretar uma epocha. 

A cor local e seus meios, os retratos, as descripções, 
a flexibilidade do espirito critico só appareceriam trazidas 



('■) Vejam-se as paginas magistraes do sr. B. Croce sobre a histo- 
riographia do renascimento no seu estudo, Interno alia Síoria. delia 
Storiographia, Bari, 1913. 



Historia da Litteratura Clássica 251 

pelo progresso da própria historia, dum género a princi- 
pio convizinho da historia, o romance, e do espirito phi- 
losophico. 

Ao bárbaro latim medieval succedeu o apurado latim 
dos humanistas, que na imitação de Cicero e Tito Livio se 
desvelavam ; o nacionalismo estricto dos chronistas cede seu 
lugar a uma sympathia mais larga, a um interesse curioso 
pelo que occorre fora das fronteiras, pelas outras parcellas 
da humanidade europêa e christã. 

A historiographia portuguesa do século xvi permaneceu 
muito chronistica, abriu é certo as portas ao interesse e 
curiosidade dos europeus a povos até então ignorados, mas 
com tal originalidade ganhou mais valia ethnographica que 
histórica e pelo largo lugar dado á matéria ultramarina 
muito se distanciou da vida politica e intellectual da 
Europa. 

Emquanto os historiadores italianos á historia estran- 
geira davam a sua attenção, nós permanecíamos muito obsti- 
nadamente nacionalistas e deixávamos aos nossos humanistas 
a tarefa das relações com o pensamento europeu. 

A inspiração épica, que domina a nossa historiographia, 
o nacionalismo fervente, a unilateralidade de critério de 
avaliação, de que é um exemplo a doutrina do Soldado Pra- 
tico, eram germens dissolventes que ella em si abrigava, 
promptos a avultarem e a imperarem, reduzindo considera- 
velmente os lugares occupados por outros elementos menos 
gratos, a imparcialidade e o espirito critico. Bastaria que 
causas enérgicas, externas, compellissem para esse trilho da 
desproporção do seu conteúdo a historiographia creada pelo 
fugaz imperialismo de Portugal. Assim succedeu; essas 
causas foram a rápida decadência da moralidade adminis- 
trativa e do espirito heróico no Oriente, e a perda da inde- 
pendência nacional. A historiographia foi então a voz desa- 
nimada dos louvadores dos velhos tempos, só na lembrança 
vivos, a voz evocadora dos patriotas; intensificou-se o seu 



252 Historia da Ldtteratura Classiea 

patriotismo, o seu tom épico, reduziu-se o seu criticismo e 
tornou-se na historiographia mystica e até um pouco sebas- 
tianista do século xvn. A jorros sobre ella se precipitou 
o maravilhoso religioso e heróico, o milagre e o esforço 
sobrenatural e então, rica de estylo, variada de expressão, 
impregnada de sentimentos vivos, tornou-se verdadeira- 
mente arte. 



CAPITULO VII 

CAMÕES 
A VIDA 

Longa e accesa tem sido a disputa sobre a naturalidade 
e data do nascimento de Luiz Vaz de Camões, sendo hoje 
geralmente acceito que a nossa primeira figura litteraria do 
quinhentismo tenha nascido em Lisboa, no anno de 1524, 
filho de Simão Vaz de Camões e de sua mulher Anna de Sá 
e Macedo ( l ). Os Camões são nomeados já desde o terceiro 
quartel do século xiv e provêem de uns fidalgos gallegos 
que do seu paiz emigraram para Portugal, onde gozaram de 
estima e favores reaes. Mais do que muito escassas são as 
noticias acerca da sua primeira infância, que segundo infe- 
rências muito contingentes de algumas suas poesias, teria 
decorrido em Coimbra. Possível será que Camões tenha fre- 
quentado desde 1537 os estudos de algum Collegio das Ar- 
tes, como necessária preparação para passar á Universidade. 
Nesse anno, D. João 111, reformando o ensino, concentrara 
nesses collegios os estudos de humanidades, só deixando 
que fora delles se exercesse o ensino das primeiras letras. 



í 1 ) É de Coimbra a outra naturalidade, que com mais sólidos fun- 
damentos se lhe attribue. V. Vida e Obras de Luiz de Camões, I Parte, 
Wilhelm Storck, trad. port. da sr. a D. Carolina Michaêlis, Lisboa, 1898, 
ed. da Academia Real das Sciencias, em pag. 105-117. 



254 Historia da Lit ter atura Clássica 

Também nesse anno foi transferida de Lisboa para Coimbra 
a Universidade, que para sempre alli permaneceu. Julga-se 
ordinariamente que em Coimbra estanceou Camões até ao 
anno de 1542, em que suspensos os seus estudos se trans- 
portaria a Lisboa. 

Para attenuar um pouco o desconhecimento, em que 
estamos, de quanto se refere a esse primeiro periodo da 
vida do poeta, talvez o seu único momento de sossegado 
estudo e calma meditação, não deixaria de ser opportuno 
recordar o plano de trabalhos escolares que o poeta haveria 
seguido e assim conjecturar algumas das influencias que 
sobre o seu espirito se hajam exercido. Porem, apesar da 
historia da nossa primeira universidade ter sido objecto de 
demorados estudos, não se pode fazer essa conjectura (*), 
para formular a qual também seria necessário saber primeiro 
a faculdade que o poeta teria cursado. 

Em Lisboa Camões frequentou a corte, onde teria desde 
logo revelado o seu génio poético e onde a convivência fe- 
minina teria estimulado o seu temperamento amoroso. Dessa 
frequência do paço parece ter nascido um dos seus grandes 
amores, o que lhe inspirou a dama por elle occulta sob o 
anagramma de Nathercia, a qual parece haver occupado 
grande lugar no seu coração, nas suas recordações e dado 
repetidamente fecunda inspiração poética. A identificação 
deste anagramma tem dado motivo á formulação de hypote- 
ses muito subtilmente imaginosas. Parece todavia que os 
argumentos mais resistentes se alliam á tradição, segundo a 
qual teria Nathercia sido D. Catharina de Athayde, filha de 
D. António de Lima, nascida talvez em 1531 e morta em 1556. 



(') O sr. Theophilo Braga, nos quatro grossos volumes da sua 
Historia da Universidade de Coimbra, tratou vastamente da matéria, 
mas sem plano lógico, incluindo muita matéria desinteressante e inoppor- 
tuna, esquecendo a principal. Essa obra não corresponde ao titulo, por- 
que é apenas um cahotico amontoado de apontamentos. 



Historia da Litter -atura Clássica 255 

O accesso á corte julga-se haver sido preparado pela 
influencia dos Condes de Linhares, que Camões privou. Da 
corte sahiu, em 1546, para o Ribatejo, affastado pelo desa- 
grado no animo do rei, que se costuma attribuir ás allusões 
que o Auto de El-Rei Seleuco fazia ao amor de D. João III por 
sua madrasta — segundo se interpretaria na epocha — ou 
simplesmente por serem conhecidos os seus amores, que o 
rei, movido pela família de Nathercia, quereria contrariar. 

Em 1547 Camões parte para Ceuta, a militar na guarni- 
ção dessa praça forte. O que esse passo na sua vida signifi- 
caria facilmente se interpreta, a deliberação por determinado 
caminho, a carreira militar, após um periodo de descuidada 
perplexidade ou de frustrada espectativa na curte. Em Ceuta 
militou valentemente e perdeu num combate um dos olhos. 

No fim de 1549 já estava em Lisboa e logo no anno 
seguinte projectou partir para a índia, pois o seu nome fi- 
gura entre os alistados na guarnição da armada daquelle 
anno, na nau S. Pedro dos Burgaleses. Envolvendo-se em rixa 
com Gonçalo Borges, moço do paço, foi preso em 1552, 
obtendo perdão em 1553, anno em que parte para a índia na 
nau 6*. Bento. 

Na índia toma parte, obscura parte que não mereceu 
registo de contemporâneos, em algumas expedições, nomea- 
damente ao Golpho Pérsico e ao estreito de Meca. Em 1555 
estava de volta a Goa e contribuía com o seu auto de Vhilo- 
demo e a Sátira do torneio para as festas da investidura do 
vice-rei. Na cidade de Goa se deixou prender de amores da 
escrava Barbara, que lhe inspirou as famosas Endechas. É tam- 
bém durante essa estada na capital do vice-reino que Camões 
escreve e faz circular a satyra dos Disparates da índia. Re- 
gressando á actividade militar, toma parte em outra expedi- 
ção ao sul e oriente, em 1556. Dois annos depois esteve em 
Macau, como provedor-mór dos defunctos e ausentes do pe- 
queno estabelecimento concedido pelo império chinês para 
ponto de appoio das esquadras portuguesas, que perseguiam 



256 Historia da Litteratura Clássica 

os piratas. Incriminado de prevaricação, é preso e compel- 
lido a abandonar o cargo para vir justiíicar-se á índia. Re- 
gressando a Goa soffre um naufrágio, em 1.5,59, na * oz do 
rio Mekong, estanceia em Malaca e chega á capital da índia 
portuguesa. Não se sabe o seguimento do processo ; apenas 
se sabe que foi liberto pelo Conde de Redondo. Foi por 
essa occasião que o poeta offereceu aos seus amigos o 
gracioso banquete das trovas, em que os convivas acharam 
versos em vez de iguarias. Em Goa conheceu Garcia da 
Orta, a cujos Simplices e Drogas antepôs um seu soneto, 
espécie de apresentação do sábio, num tempo em que ainda 
não eram bem discriminados o meio scientifico e o meio 
littérario. 

Em 1567 partiu para o reino, demorando-se de passagem 
em Moçambique, e em 1570 já se achava de regresso em 
Lisboa, trazido pela nau Santa Clara. Devia trazer consigo, 
já completo ou em via disso, o seu poema, pois dois annos 
depois, apparecia a i. a edição dos Lusíadas. Difficeis teriam 
sido decerto os últimos annos da sua existência penosa, que 
em 1580 terminava, quando também terminava a autonomia 
politica da sua pátria, cujos altos feitos calorosamente glori- 
ficara. Como recompensa, só conseguiu em 1572 uma. pe- 
quena tença regia, em 1582 renovada a favor de sua mãe, 
que lhe sobreviveu. 



Não ha elementos em quantidade sufnciente nem de 
solidez indiscutível que permittam a reconstituição da per- 
sonalidade de Camões. A fazer-se, esse esboço de synthese 
moral seria só um trabalho dé imaginação artística, phanta- 
sia de romancista. Noutro domínio, onde ordinariamente o 
quinhão de contingência é menor, na biographia, do qual 
alguns factos seguros se conhecem, em phantasia artística,. 



Historia da LU ter atura Clássica 257 

em imaginosos romances deram os esforços devotados de 
tudo apurar, dos principaes biographos. Tanto a biographia 
architectada por Storck. como a do sr. Th. Braga, nada mais 
são do que um tecido de hypothsseB engenhosas, ligadas 
pelas fracas escoras dos poucos factos incontroversos. 

Para levar a cabo o alto emprehendimento litterario da 
sua epopt-a, para idealizar a sua vida interior com a pro- 
funda e intima emoção das suas lyricas, Camões teria de 
viver uma intensa vida individual, subjectiva, que em senti- 
mentos, idéas e juizos pessoaes magicamente transmudava 
os baldões e as dores acarretadas pela onda amarga e re- 
volta da vida. Mas qual fosse o cunho próprio, o caracter 
essencial dessa personalidade, que em sua desprotegida 
humildade exerceu a maior e mais perduradora soberania, 
que ainda dominou em Portugal, quaes os processos moraes 
por que essa personalidade pôde concentrar com a ávida in- 
tensidade dum foco e reflectir com a poderosa fidelidade 
dum crvstallino espelho, quanto havia de intenso e de origi- 
nal no coração e no espirito dos portugueses do século xvi, 
para sempre, como tocado do annel de Giges, se fechou esse 
segredo. Quanto se tentasse seria propor vãs hypotheses, 
fazer inopportuna arte litteraria — e ha sempre qualquer 
coisa de irreverente mau gosto, quasi sacrílego, em tomar a 
personalidade de quem fez litteratura de génio para pretexto 
de má litteratura. 

O LYRICO 

Aquella matéria poética, que, extrahida do ideal amo- 
roso e litterario de Petrarcha, vimos vir sendo elaborada 
desde Sá de Miranda, em suecessivos ensaios como á busca 
da perfeita expressão nunca attingida, encontrou no tempe- 
ramento poético de Camões cabal realização, e dentro da 
forma para que nascera: o soneto. Todo o cyclo de themas 
H. da L. Clássica, vol. !.• 17 



258 Historia da Litteratura Clássica 

poéticos, que andava no ar, o tomou Camões, revolvendo-os 
de todos os modos para lhes extrahir quanto podiam offere- 
cer á sua genial imaginação. Era essa matéria o ideal da 
transcendente abnegação amorosa, já confessado nos senti- 
mentos complexos e contradictórios que essa mystica ado- 
ração em si abrigava, já explicados pela belleza divina do 
rosto que recebia essa adoração; por um lado a subtil psy- 
chologia da paixão amorosa, por outro o retrato da belleza 
sua inspiradora. Dentro destes dois pólos, amplo, — porque 
não infinito? — era o espaço aberto á imaginação individual. 
Penetrar incansavelmente até aos mais absconditos escani- 
nhos da alma; procurar a expressão ao mesmo tempo intel- 
ligivel e bella desses novos mundos de sentimento e variar 
no processo de produzir o conjuncto de summa formosura, 
que se queria delinear; juntar o cunho pessoal das emoções 
da vida, metamorphoseando em juizos, sentimentos e idéas 
o que para outros ora facto ordinário, vulgar, da existência 
quotidiana, tal era o horizonte illimitado que á phantasia 
poética dum Camões se offerecia. Ninguém como elle soube 
devassar esse horizonte, percorrendo-o palmo a palmo. Como 
conseguiu o poeta passar da categoria de imitador do soneto 
petrarcheano á categoria de creador do soneto camoneano? 
Em primeiro lugar dominando completamente a execução 
externa do soneto, já quanto á estructura da phrase que se 
lhe torna plástica para se moldar obediente' ao seu propó- 
sito, já quanto á metrificação que pratica com extrema cor- 
recção e fluência, á parte os fataes pequenos deslises; deste 
modo conseguiu Camões as condições do primeiro grau de 
belleza, a que resulta da harmonia e da elevaçãp, da conci- 
são bem equilibrada, da clareza da linguagem, isto é, a bel- 
leza da forma, como idóneo instrumento da expressão. Em 
segundo lugar manejando de modo novo e pessoalíssimo a 
matéria que se lhe offerecia. Dotado dum excepcional poder 
de intuspecção e também trazendo em si permanentemente 
um mundo revolto de sentimentos e idéas, Camões soube 



Historia da Lit ler atura Clássica 259 

discriminar a emmaranhada rede do seu mundo interior, 
decompô-la, e a cada parte, a cada peça, a cada fio dar 
expressão litteraria, soube traduzir em linguagem poética 
todo aquelle vasto mundo de phenomenos psychicos, que 
então laboriosamente os philosophos ainda se acuravam em 
analysar e designar na sua incipiente terminologia. Mas 
como era poeta e não philosopho, como era só arte litteraria 
e não psychologia geral que elle queria fazer, dá-nos desse 
encapellado mar da sua alma só os movimentos seus pró- 
prios, as variantes pessoaes, muito suas, da alma que na 
generalidade humana os pensadores analysavam. Para se 
confinar no limitado invólucro de quatorze versos, Camões 
condensa a sua matéria tanto e tanto que torna o seu soneto 
conceituoso, quasi sempre subordinado a uma final conclu- 
são subtil, elegante no pensamento, que indica que para ella 
foi feito o soneto, que delia é preparação quanto a antecede. 
Á clareza, precisão e harmonia da forma correspondia a 
existência dum fundo de idéa também claro, preciso e ele- 
gante, dessa delicada elegância de pensamento de que foi 
Camões um dos inauguradores no mundo. Em terceiro lugar, 
á comprehensão do amor, corrente no mundo litterario da 
epocha, — um delicioso soffrimento, um procurar de vontade 
a dor e delia se lamentar e comprazer — deu Camões tradu- 
cção poética por meio dos paradoxos, que repetidas vezes 
ensaiou. Esse processo poético tão simples e tão bello, e ao 
mesmo tempo apparentemente tão fácil de occorrer, não o 
tinham descoberto os quinhentistas: ao paradoxal amor 
pinta-o Camões por paradoxos. Em quarto lugar, a esse 
thema, já tão repetido, do retrato da mulher supremamente 
bella, traz Camões alentos novos, com variar as tintas do 
quadro, que são umas vezes as cores da natureza, são outras 
os effeitos em sua alma nascidos da contemplação e são 
ainda outras as divinas expressões que irradiam as feições 
bellas que contempla. Estes retratos, absolutamente ideaes 
porque de elementos absolutamente ideaes se compõem, 



260 Historia da Litter atura Clássica 

representam sem duvida o acumen da inspiração lyrica da 
alma de Camões, que nesses momentos como que se librou 
num transcendente mundo de idealidades, onde nem a cor 
tinha .cabida. E exprimir tal requinte de abstracção, tor- 
nando-o não só intelligivel, segundo a terminologia philoso- 
phica, mas bello, duma emoção intensa e profunda, sem 
deixar de pairar nessa luminosa região, mas dando-nos azas 
para ascendermos até ella — é ter génio. Por isso os retratos, 
engastados nos sonetos camoneanos, já nãb são esboços, di- 
ligencias, estudos para um sonho de arte, são todos elles 
ideaes perfeitos, formam uma galeria de obras-primas, como 
mais tarde as Virgens de Murillo, em cada uma das quaes o 
poeta semrre varia o seu processo. É por Camões e por 
Anthero de Quental que a lingua portuguesa é inseparável 
da evolução do soneto, forma poética cosmopolita, na qual 
a nossa lingua introduziu duas phases geniaes. 

Postos de lado, alguns de intuito laudatório ou comme- 
morativos de públicos acontecimentos, que repugnam á 
essência intima do soneto e outros religiosos que não são 
os mais adequados á Índole artística do poeta, os sonetos 
de Camões organizam-se numa verdadeira encyclopedia poé- 
tica do amor, formando um poema com unidade, com sua 
proposição, sua acção intensa, o drama duma alma que 
intensamente amou e soffreu, e deliciosamente encontrou na 
poetização do seu sorfrimento a sua própria felicidade, com 
suas conclusões e seus propósitos de edificação moral. 

Eis os caracteres predominantes do mundo poético con- 
tido nos sonetos. 

Xão será sem vantagem fazer uma pequena exemplifi- 
cação de quanto affirmámos. .Os sonetos a seguir transcriptos 
mostrarão Camões a manejar o paradoxo, como magico remo 
que o conduz com segurança no mar da paixão, batido de 
ventos contrários, o furacão irreprimível do illogico, da 
contradicção, do irracional, do imprevisto: 



Historia da Litteratura Clássica 261 



Tanto de meu estado me acho incerto, 
Que em vivo ardor tremendo estou de frio ; 
Sem causa juntamente choro e rio ; 
O mundo todo abarco, e nada aperto. 

He tudo quanto sinto hum desconcerto : 

Da alma hum fogo me sahe, da vista hum rio ; 

Agora espero, agora desconfio; 

Agora desvario, agora acerto. 

Estando em terra, chego ao Céo voando ; 
Num, hora acho mil annos, e he de geito 
Que em mil annos não posso achar hum J hora. 

Se me pergunta alguém, porque assi ando, 
Respondo que não sei : porem suspeito 
Que só porque vos vi, minha Senhora. 

Carece este soneto de intensidade e condensação no 
conceito final, que em outros melhor se demonstra, naquel- 
les em que o poeta define o por que «de matar-se vive», 
quando se entrega á felicidade de amar a «cara sua inimiga» 
e do tempo em que foi livre se arrepende : 

Amor he um fogo que arde sem se ver ; 
He ferida que doe e não se sente ; 
He um contentamento descontente ; 
He dor que desatina sem doer ; 

He hum não querer mais que bem querer ; 
He solitário andar por entre a gente ; 
He hum não contentar-se de contente ; 
He cuidar que se ganha em se perder ; 

He hum estar-se preso por vontade ; 
He servir a quem vence o vencedor ; 
He hum ter com quem nos mata lealdade. 

Mas como causar pode o seu favor 
Nos mortaes corações conformidade, 
Sendo a si tão contrario o mesmo Amor ? 



262 Historia da Litteratura Clássica 



Que doudo pensamento he o que sigo ? 
Após que vão cuidado vou correndo ? 
Sem ventura de mi ! que não me entendo ; 
Nem oque calo sei, nem o que digo. 

Pelejo com quem trata paz comigo ; 
De quem guerra me faz, não me defendo. 
De falsas esperanças que pretendo ? 
Quem do meu próprio mal me faz amigo ? 

Porque, se nasci livre, me captivo ? 

E pois o quero ser, porque o não quero? 

Como me engano mais com desenganos ? 

Se já desesperei, que mais espero ? 

E se ainda espero mais, porque não vivo? 

E se vivo, que accuso mortaes danos ? 

Vejamos como Camões elaborou o thema mal delineado 
por Sá de Miranda no seu melhor soneto, o do contraste 
entre o mudar cyclico da natureza, que envelheceu para 
rejuvenescer, e o mudar da vida humana: 

Mudâo-se os tempos, mudão-se as vontades, 
Muda-se o ser, muda-se a confiança : 
Todo o mundo he composto de mudança, 
Tomando sempre novas qualidades. 

Continuamente, vemos novidades, 
Differentes em tudo da esperança : 
Do mal ficão as mágoas na lembrança. 
E do bem (se algum houve) as saudades. 

O tempo cobre o chão de verde manto, 

Que já coberto foi de neve fria, 

E em mi converte em choro o doce canto. 

E afora este mudar-se cada dia 
Outra mudança faz de mor espanto, 
Que não se muda já como sohia. 



Historia da Litteratura Clássica 263 

A concepção platónica do amor vasou-a Camões no se- 
guinte soneto, que ainda conserva vestígios da linguagem 
philosophica: 

Transforma-se o amador na cousa amada, 
Por virtude do muito imaginar : 
Não tenho logo mais que desejar, 
Pois em mirn tenho a parte desejada. 

Se nella está minha alma transformada, 
Que mais deseja o corpo de alcançar? 
Em si somente pôde descansar 
Pois com elle tal alma está liada. 

.Alas esta linda e pura semidéa, 

Que como o accidente em seu sojeito, 

Assi com a alma minha se conforma : 

Está no pensamento como idéa ; 

E o vivo e puro amor de que sou feito, 

Como a matéria simples busca a forma. 

Esta identificação do sujeito e do objecto e a vivifica- 
ção duma doutrina abstracta em formoso pensamento poé- 
tico revelam a multiplicidade de dons da imaginação de Ca- 
mões, que em pleno século XVI, á vontade e com pleno 
êxito, nos dava exemplos da forma do soneto, que no fim do 
século xix immortalizaria Anthero de Quental. 

Percorramos agora alguns retratos da sua galeria e 
apontemos em cada um a matéria prima empregada para 
desenhar e perspectivar a causa primaria de todos os seus 
anceios, o gérmen que fecundou a sua alma com farta messe 
de sonhos, aspirações, sentimentos e idéas, aquella causa 
incoercível : 

Que dias ha que na alma me têe posto 
Hum não sei quê, que nasce não sei onde ; 
Vem não sei como; e doe não sei porque. 



264 Historia da Litteratura Classiet 



Primeiramente a belleza concreta e pictórica dum rosto 
desenhado com as cores e encantos da natureza primaveril 
e florida : 

Está-se a Primavera trasladando 
Em vossa vista deleitosa e honesta 
Nas bellas faces, e na boca e testa. 
Cecéns, rosas e cravos deb-oxando. 

De sorte, vosso gesto matizando, 
Natura quanto pode manifesta, 
Que o monte, o campe, o rio e a floresta, 
Se estão de vós, Senhora, namorando. 

Se agora não quereis que quem vos ama 
Possa colher o frueto destas flores, 
Perderão toda a graça os vossos olhos. 

Porque pouco aproveita, linda Dama, 
Que semeasse o Amor em vós amores, 
Se vossa condição produz abrolhos. 

No seguinte soneto só com gestos e expressões abstra- 
ctas reconstitue a ideal formosura da sua musa: 

Hum mover de olhos, brando e piedoso, 
Sem ver de quê ; hum riso brando e honesto, 
Ouasi forçado ; hum doce e humilde gesto, 
De qualquer alegria duvidoso : 

Hum despejo quieto e vergonhoso ; 
Hum repouso gravíssimo e modesto ; 
Huma pura bondade, manife 
Indicio da alma, limpo e gra 

Hum encolhido ousar; huma brandura; 
Hum medo sem ter culpa ; hum ar sereno ; 
Hum iongo e obediente sofFrimentc ; 

Esta foi a celeste formosura 

Da minha Circe, e o magico veneno 

Que pôde transformar meu pensamento.- 



Historia da Litteratura Clássica 205 

O soneto seguinte, que iodos sabem de cór, é o mais 
flagrante exemplo do poder de intensa expressão de Camões 
para traduzir a aspiração vebemente duma saudade apaixo- 
nada. Ha neste soneto, só prejudicado pela sua extrema 
vulgarização, a reverencia piedosa duma oração, que como 
que molda, contem e limita o arroubo desesperado duma 
grande dor sem consolação, prestes a irromper. Um mar 
encapellado se adivinba sob aquella apparencia de contenção : 

Alma minha gentil, que te partiste 
Tão cedo desta vida descontente, 
Repousa lá no Céo eternamente, 
E viva eu cá na terra sempre triste. 

Se lá no assento Ethereo, onde subiste, 
Memoria desta vida se consente, 
Não te esqueças de aquelle amor ardente, 
Que já nos olhos meus tão puro viste. 

E se vires que pôde merecer-te 
Algua cousa a dôr que me ficou 
Da mágoa, sem remédio de perder-te; 

Roga a Deos, que teus annos encurtou, 
Que tão cedo de cá me leve a ver-te, 
Quão cedo de meus olhos te levou. 

E ; no muito pouco pedir deste soneto, apenas a recor- 
dação do antigo amor, se ella no ceu se consente, que sob 
uma irónica amargura se contem a maior intensidade de 
sentimento, em contraste com o estado de extrema dôr nas 
outras partes do soneto revelado. 

Nas éclogas, Camões, encontrando já estabelecida uma 
interpretação, praticou-a apenas accrescentando esse pouco, 
que é muito, da sua inspiração poética. Os quinhentistas 
fizeram da écloga um género lyrico e uma peça auto-biogra- 
phica; só lyrico é o bucolismo de Camões, que também 



266 Historia da Lilteratura Clássica 

algumas éclogas piscatórias compôs. Amores ardentes, apar- 
tamentos dolorosos, inconstancias volúveis, indifferenças 
desdenhosas e lamentações de saudade pelos que para sem- 
pre partiram, formam o fundo das éclogas camoneanas. 
Somente, a riqueza de imaginação do poeta e o seu senti- 
mento da natureza como que renovam esses themas, dando- 
lhes expressões mais vivas e mais fieis, mais sensibilidade; 
a sua forma é transparente, promptamente deixa ver seu 
fundo, sem as subtilezas rebuscadas e difficeis argucias, que 
era uso attribuirem-se aos pastores, desde que a Diana os 
intellectualizára, tornando-os quasi sophistas. De todas a 
mais bella é a quinta, em que falia um só pastor, o qual 
confessa o seu amor ardente e firme até além da morte, 
apesar da fria indifferença da amada. A riqueza das imagens 
e a sequencia de provas desse amor, que tudo alegrava ou 
entristecia, exemplo magnifico desse outro divino Amor, 
pelo qual na natureza «se move tudo», mostram bem o 
poder do estro camoneano, ao versar um thema, que para 
outro poeta se tornaria monótono, por ter de ir buscar fora 
da sua imaginação e do seu coração, ás recordações littera- 
rias, ás aiiusões mythologicas, aos conceitos vulgares e 
inexpressivos a matéria para essa longa peça. 

No bucolismo, Camões foi acima de tudo poeta lyrico. 
E os dois oppostos escolhes do género pastoral, — intele- 
ctualizar os pastores rudes, de grosseiras inclinações e aca- 
nhadas opiniões ou, para evitar esse inconveniente, descahir 
nessa mesma grossaria e acanhamento vulgar (') — não os 
praticou Camões, nem os adivinhou como navegante perito 
e feliz que passasse entre Scylla e Carybdes sem o suspei- 
tar, pois lyrismo subjectivo quiz fazer e não pequenos qua- 
dros de género. 



(*) O problema da adopção do estylo rústico no género pastoral 
foi discutido na litteratura portuguesa, no século xvnr, por António Diniz. 
V. Historia da Critica Littcraria em Portugal, 2. a ed., pag. 96-97. 



Historia da Litteratura Clássica 207 

O mesmo mundo de sentimentos, que Camões engastou 
nos sonetos, deu a matéria poética para as canções, elegias, 
sextinas e odes ; mas ahi, sem a severa limitação da estreita 
moldura do soneto, os sentimentos do poeta correm livre- 
mente : 

Soltando toda a rédea a meu cuidado. 

Só do conteúdo riquíssimo da sua alma extrahe o 
poeta os motivos poéticos, sempre variados, porque a sua 
sensibilidade experimenta sempre de modo novo as mais 
velhas emoções e porque a sua imaginação se não cansa 
de encontrar na natureza as mais delicadas metaphoras 
e de achar no próprio mundo do sentimento as expres- 
sões mais subtis para traduzirem os requintes da sua 
alma e os extremos apaixonados de quem fez do Amor um 
culto e da belleza feminina uma divindade, para quem cons- 
tantemente idealizar e sentir era um indispensável alimento 
espiritual e que erigiu a torrente de sentimentos do seu. 
coração numa espécie de philosophia, que com esses mate- 
riaes sentimentaes. todos tecidos de pessoaes emoções, explica 
a vida e o mundo. Para traduzir esta concepção artistica é 
necessário crear uma linguagem própria, que á harmonia 
junte a profundeza, a intensidade e que não recue ante os 
paralogismos que se lhe possam deparar, antes obediente se 
adapte á lógica, á symetria e ás ultimas consequências dessa 
idealissima architectura. Ao fim o que se achará não é uma 
construcção que se deva aferir pelos valores correntes do 
mundo, nem pelas leis geraes da lógica, mas que se ha-de 
somente acatar como reconstituição duma alma eminente- 
mente esthetica. É nesse todo que se organizam as lyricas 
de Camões. Não como os sombrios cavalleiros do ideal, que 
fazem do seu sonho a única realidade da sua vida e que em 
cómicas decepções sentem o conflicto da sua phantasia com 
a positiva existência, mas conciliando plenamente o espirito 



268 Historia da Litter -atura Clássica 

de realidade com a elaboração intima dessa soffrida realidade, 
o poeta deu- nos. no seu lyrismo as ideaes verdades de quem 
com uma espécie de segunda vista vê as mais longinquas 
perspectivas da vida e que, onde outros se detinham, seguia 
avante na aza do sonho. Como um escholastico de olhos 
fechados, só pensando, constrae o seu systema, só ao espirito 
pedindo materiaes, avançando destemido de deducção em 
deducção, assim o poeta vae descendo nas espiraes profun- 
das que ao intimo da sua alma conduzem. Lyricos, subjecti- 
vos, curiosos de si mesmos, haviam sido os outros poetas 
quinhentistas e todos elles se apetrecharam das formas 
poéticas novas, das correntes idéas estheticas, do alvião da 
analyse e da sonda da intuspecção, mineiros promptos a 
penetrarem nas entranhas fugidias da alma humana. Mas na 
sua alma só havia superfície, quando muito um immediato 
sub-sólo. Só Camões em si tinha profundidades occultas, 
desvãos esconsos, meandros confusos e a esse labyrinto des- 
ceu elle confiadamente e pôde auscultar-se, sentir as palpita- 
ções do seu coração e largamente e em todos os sentidos 
percorrer esse novo mundo de liberdade e plenitude. Este 
descobrimento da própria alma pelo caminho da dor é na 
nossa litteratura um momento de génio supremo, porque é 
a vez primeira que se exemplifica a these de que para ter 
génio litterario é preciso ter uma personalidade própria, que 
é daquelle a primeira creação. 

A dor de amar, se limitadamente porque a mais não 
pôde, se com transporte porque só soffrimento colhe, occorre 
a cada passo nas suas lyricas como thema sempre viçoso, 
porque toda a sua belleza não a podia colher. E vê-se que 
esse estado de permanente tensão da sua alma era para 
Camões o mais difiicil de exprimir, porque constantemente 
a elle regressa e quando o exprime, ora avança ás ultimas 
consequências, ora pára a restringir e aclarar: 



Historia da Litteratura Clássica 269 



Formosa e gentil Dama, quando vejo 

A testa cTouro e neve, o lindo aspeito, 

A bocca graciosa, o riso honesto, 

O collo de crystal, o branco peito, 

De meu não quero mais que meu desejo, 

Nem mais de vós, que ver tão lindo gesto. 

Alli me manifesto 

Por vosso a Deos e ao mundo ; alli m J inflamo 

Nas lagrimas que choro ; 

E de mi que vos amo, 

Em vêr que soube amar-vos me namoro ; 

E fico por mi só perdido de arte, 

Ou J hei ciúmes de mi por vossa parte. 

Se por ventura vivo descontente 

Por fraqueza d^esprito, padecendo 

A doce pena qu'entender não sei, 

Fujo de mi, e acolho-me correndo 

A vossa vista ; e fico tão contente, 

Que zombo dos tormentos que passei. 

De quem me queixarei, 

Se vós me dais a vida deste geito 

Nos males que padeço, 

Senão de meu sogeito, 

Que não cabe com bem de tanto preço ? 

Mas inda isto de mi cuidar não posso, 

Doestar muito soberbo com ser vosso. 



Sempre as categorias lógicas do seu mundo amoroso 
umas nas outras se penetram, se sobrepõem para logo se 
repudiarem e em seguida se juxtapôrem num incansável e 
dolorido esforço de, com phrases de sentido feito, aquelles 
caixilhos immutaveis, aquelles conceitos crystallizados que 
introduziram no mundo dos sentimentos e das idéas a 
mesma descontinuidade espacial, que separa os objectos 
materiaes — de com a linguagem commum dizer o que de 
mais individual em si havia. 

E assi de mi fugindo traz mim ando 



270 Historia da Literatura Clássica 

no desatino e no desconcerto que lhe vêm de em si trazer 
um revolto oceano de ideal, de cujas profundezas se erguem 
em grita aspirações e tendências, de que o poeta não 
pode ser fiel porta- voz: 

S J este meu pensamento, 

Como he doce e suave, 

D J alma pudesse sair gritando fora ; 

E dando ouvidos ás vozes que dentro em si clamam, o 
poeta vivamente sente o seu illogismo e a sua descommuni- 
dade, e por isso pede que não julguem os effeitos que des- 
creve pelo vulgar entendimento humano: 

Canção, se quem te lêr 

Não crer dos olhos lindos o que dizes, 

Por o que a si s'esconde ; 

Os sentidos humanos (lhe responde) 

Não podem dos divinos ser juizes, 

Senão hum pensamento 

Que a falta suppra a fé do entendimento. 

Quando o poeta pinta e descreve a natureza, mistura 
também ás tintas a coloração dos seus sentimentos, attri- 
buindo assim aos quadros uma expressão subjectiva, um 
tom de melancholia calma, mas profunda. 

As suas obras menores em redondilhas reservou o poeta 
a elegância conceituosa, galante e ligeira, o commentario 
ameno, gentil ou irónico do giro quotidiano em convívio. 
Apartam-se estas peças em terem a sua belleza na sua mesma 
facilidade, no prompto relevo com que offerecem todo o seu 
conteúdo, ao passo que as lyricas graves, como as canções 
e os sonetos, pertencem a este género de arte que na repe- 
tição não perdem, porque como uma musica rica em seu 
complexo de harmonias na successão das audições lentamente 
se vae deixando possuir, assim aos poucos vae descobrindo 
o seu occulto mundo de emoções. 



Historia da Litter atura Clássica 271 

Como a alma, que tacs sentimentos experimentou, era 
original e complicada, assim a sua expressão poética o era; 
por isso, só uma frequência assídua nos descobre esse vasto 
mundo. 

Xão que a forma não seja duma simplicidade surprehen- 
dente, mais duma vez quasi vulgar, mas porque ella veste 
conceitos tão requintados e traduz attitudes da alma tão pes- 
soaes e tão novas, que necessário se torna, para passar aiêin 
desse vestido singelo e gozar a intrínseca belleza, ter em 
receptividade esthetica um pouco daquella ultra sensível 
elegância espiritual que Camões teve sob a forma de produ- 
ctiva actividade. Não se repetiu Camões, antes muito lhe fi- 
cou por dizer, como elle declara no fecho daquella muito 
formosa canção auto-biographica : 

Não mais, Canção, não mais; qiTirei fallando, 

Sem o sentir, mil annos; e se acaso 

Te culparem de larga e de pesada ; 

Não pode ser (lhe dize) limitada 

A água do mar em tão pequeno vaso. 

O COiMZDTOGRAPHO 

O breve theatro camoneano. que só de três peças se 
compõe, não traz novidades á evolução do género, mas offe- 
rece á critica algum interesse pela sua mixta composição. 
Nessas três peças se combinam três influencias não só muito 
diversas, mas até contradictorias : a do auto vicentino, a da 
comedia clássica e a do romance de cavallarias. 

Pretendendo seriar as três peças chronologicamente, 
aproveitar-nos-hemos das informações históricas acerca das 
circunstancias, que rodearam a sua representaeão e apurare- 
mos que os Amphytriões foram escriptos para um divertimento 
escolar, ainda no tempo de Coimbra ; que El-Rei Seleuco o foi 
por 1545 ; e que o Philodemo foi representado na índia, em 



272 Historia da Litterainra Clássica 

1555, nas festas ao governador Francisco Barreto. Dizemos 
que este ultimo foi nessa data representado e não escripto, 
por uma razão externa e uma interna. A razão de ordem 
externa é a grande differença que faz o texto conservado 
por João Lopes Leitão no seu Cancioneiro do publicado pos- 
thumamente ; a razão de ordem interna é que os caracteres 
litterarios dessa comedia fazem-nos crer que, por defeituosa 
em extremo, será da mocidade do poeta, porventura o seu 
primeiro ensaio dramático, e não obra da plena maturidade 
do seu engenho. Certamente o texto publicado em 1587 era 
a reproducção da primitiva redacção, que entrara em circula- 
ção. Seguiremos a ordem, a que somos chegados pelas nos- 
sas inferências. 

O Philodemi no ..orne é theatro. na essência é uma 

serie de quadros episódicos juxtapostos chronologicamente 
e lado a lado para nos fazerem assistir a uma narrativa. 
O poeta conta-nos um romance complicado de aventuras, as 
quaes decorrem por muitos lugares e preenchem muito 
tempo, lugares que levam alguns dias a percorrer e tempo 
que abrange mais de um mês. Um irmão de D. Lusidardo, 
uma das personagens, aggravado de el-rei, emigra para a 
Dinamarca, cujo rei o cumula de honrarias, a que elie retri- 
bue raptando-lhe uma filha. Fogem numa galé, que já pró- 
ximo das costas de Hespanha o mar destrue. Só a pobre 
princesa, adeantadamente gravida, consegue salvar-se, segura 
a uma prancha. Dá á costa, põe-se a caminho, mas dando á 
luz, junto duma fonte, a dois gémeos, morre exhausta. Esses 
recem-nascidos, creados por um caridoso pastor, são Philo- 
demo e Florimena. O primeiro, não se resignando á vida 
humilde do pastoreio e tornando-se galã e bem prendado, é 
recebido em casa de D. Lusidardo, de quem é sobrinho sem 
o saber e toma-se de amores pela filha do seu amo, Dionysa, 
de quem vem a ser primo ; Florimena, de formosura pere- 
grina, accommoda-se á vida pastoril e tranquillamente vive 
com seu pae adoptivo. A alta ascendência e a procedência,. 



Historia da Liitcraíura Clássica 273 

das duas creanças soube- as o pastor pela pratica das artes 
magicas, em que era douto. Um dia, Venadoro, irmão de 
Dionysa, vae á caça e no impeto da carreira perde-se do 
seu monteiro. Logo os seus o procuram por toda a parte, só 
o vindo a encontrar, mais de um mês depois do seu desap- 
parecimento, quando se iam celebrar as suas bodas com a 
pastora Florimena, de quem se enamorara ao vê-la junto 
duma fonte. Esclarecido sobre a proveniência de Florimena 
e Philodemo e sobre o parentesco que com elles tem, Lusi- 
dardo consente com alegria em os tomar por nora e genro. 
Se analysarmcs a forma por que Camões desenvolveu 
esta narrativa, facilmente discriminaremos os seus elemen- 
tos constitutivos, os endossaremos ás suas legitimas paterni- 
dades e concluiremos ser esta peça o que noutro lugar (*) 
chamámos uma obra tecida com os lugares communs de es- 
cola. O maravilhoso romanesco das creanças perdidas, reco- 
lhidas per um pastor e creadas em casa de parentes na igno- 
rância do seu parentesco ; a parte pastoril do entrecho ; o 
desapparecimento dum caçador que se abandonou ao impeto 
da carreira ; a eliminação duma personagem supérflua, a par- 
turiente dos futuros protagonistas, por meio da morte, são 
elementos suggeridos pelos romances de aventuras, em gosto 
na epocha ; a gaiatice do creado Vilardo e o seu alegre des- 
contentamento, que da própria situação precária se ri, bem 
como a adopção do metro curto, de sete syllabas, são de Gil 
Vicente, que muito tratou esse veio do cómico ; o papel de 
Solina é confessadamente semelhante ao de Celestina em 
Calisto y Melibca, de Fernando de Rojas ; e a methodica divi- 
são em cinco actos com suas scenas e a ousada adopção da 
prosa, á mistura, é evidente influencia da comedia clássica. 
Assim pois, Camões organizou a sua peça com os ele- 
mentos heterogéneos, que andavam no ar, como recorda- 



(1} V. Historia da Litteratura Romântica, Lisboa, 1913. 
H. da L. Clássica, \.° vol. 



274 Historia da Litter 'atura Clássica 

cão das leituras mais em moda. Esta confusão de géneros, 
romance e theatro, em suas estructuras plenamente adver- 
sos, dá causa a essa dispersão da acção no tempo e no espaço 
— que já vimos ser um grave defeito no theatro vicentino 
e que tem sido sempre um dos maiores óbices ao progresso 
do theatro. 

Os Amphytriões têm por assumpto o thema da comedia 
de igual nome de Plauto : o disfarce do trefego Júpiter em 
Ampkytrião para vencer a mulher deste, a virtuosa matrona 
Alcmena, que se consumia em saudades de seu marido 
ausente. São as mesmas as personagens, análogo o desen- 
volvimento, só o cómico é menos grave que em Plauto, 
porque Camões com melhor veia cómica soube aproveitar 
os qui-pro-quo, as confusões a que dá lugar o desdobra- 
mento de Amphytrião e seu creado Sósia em duas persona- 
lidades iguaes, só inimigas por não poderem soífrer a pre- 
sença uma da outra. Como no Philodemo, é a redondilha o 
metro adoptado e é praticada com o mesmo rigor a divisão 
em cinco actos e suas scenas. Sem duvida por influencia do 
próprio original de Plauto, a acção apresenta-se mais con- 
centrada no seu desenvolvimento e na sua localização e até 
no seu próprio thema, bem se podendo dizer que Camões 
praticou a regra das unidades. 

El-rei Seleuco é a sua peça mais regular. Tem por assum- 
pto o caso antigo, narrado pelos auctores clássicos e repetido 
por um contemporâneo de Camões, o Dr. João de Barros, 
homonymo do historiador, no seu Espelho de Casados, a cessão 
que o rei Seleuco fez de sua própria esposa ao filho, enteado 
delia e delia enamorado. Viram os contemporâneos nessa 
peça uma allusão ousada ao caso, parcialmente semelhante, 
succedido com o rei D. João in, quando principe. 

El-rei Seleuco compõe-se dum prologo em prosa, dialo- 
gado entre personagens estranhas á peça, cuja representação 
estão preparando e aguardando, e dum único acto em redon- 
dilhas em que se reconstitue a doença moral do principe e 



Historia da Litter -atura Clássica 275 

o remédio que lhe dá a generosidade do pae. O mérito prin- 
cipal deste auto, como das outras comedias camoneanas, 
consiste na destreza do verso, que corre espontâneo e fácil, 
já sem as bruscas quebras de tom e de expressão, que em 
Gil Vicente notámos, e em linguagem já mais avançada na 
sua progressiva evolução, mais desligada das faixas dos 
archaismos. 

O ÉPICO 

Como a tragedia, na definição clássica, deve expressar 
uma súbita mudança da fortuna com tempestuosa exaltação 
das paixões que desperte, no dizer dos theoricos «o terror 
e a compaixão», assim a epopéa tem por objecto prcprio 
o estado de lucta da humanidade, aquelle estado em que 
uma mudança violenta se opera nas consciências e nas con- 
dições sociaes, fértil já de acontecimentos heróicos, já de 
inspiração da phantasia sacudida sob esse estimulo. Sem 
diligenciar achar a normalidade causal, a regularidade 
sequente para desses tempos fazer exposição lógica, serena 
e explicativa, como a historia, a epopéa escolherá da farta 
messe de episódios heróicos aquelles que mais avultarem 
pelas proporções, pelo agigantado esforço que revelam e 
pelo amplo significado, comprazendo-se assim no maravi- 
lhoso. A lucta que produz um theor de vida maravilhosa, 
a aventura feita de tradição e lenda, não já de facto apurado 
e rigoroso, mas visão collectiva, synthese artística de peri- 
phrases e hyperboles, constitue a matéria própria do poema 
épico. Ao trágico, que exalça os seus auctores com o 
cothurno e lhes dá retumbante voz, importa principalmente 
a violência titânica das paixões que encapellam a alma dos 
seus protagonistas, o mundo interior do coração humano 
tornado lobrega caverna onde rugem impetuosos ventos; 
ao épico importa principalmente a acção externa da alma do 

* 



276 Historia da Litteraiura Clássica 

protagonista, a sua agitação dramática e heróica. E\ pois, a 
epopêa movimento narrativo mas sempre em tom heróico,, 
onde se canta com voz grandíloqua a lucta temerosa pela 
realização dum grande ideal collectivo. Os poemas homéri- 
cos, concebidos quando a intelligencia grega ainda não for- 
mulara o ideal de pátria, cantam as luctas duma família de 
heroes e têem por ideal a união familiar sob um commum 
princípio, o amor da victoria e da honra. Virgílio canta a 
formação da pátria romana; Dante expressou a aspiração da 
unidade italiana. 

Quando Camões delineou o seu poema haveria em Por- 
tugal, no meio litterario, o pensamento duma epopêa ? Este 
pensamento andava no ar, era idéa que todos os espíritos 
respiravam, já suggerida pelos modelos da antiguidade, já 
acordada pelas circunstancias históricas da nação portu- 
guesa. O historiador Gomes Eannes de Azurara, em mais de 
um passo cita Lucano, o creador da epopêa histórica latina, 
que pela sua Pharsalia quasi convertera o género épico em 
amena historia contemporânea, tanto carece de sopro épico. 
Em 1533 no seu Panegyrico a D. João III, o historiador João 
de Barros muito francamente declarava a sua preferencia da 
epopêa ao lyrismo e ás novellas de cavallaria : ...«ás mesas 
dos príncipes e grandes senhores se cantavam antigamente 
em metro os feitos notáveis dos .grandes homens, donde 
primeiro nasceu a poesia heróica, e segundo eu tenho ouvido 
ainda neste tempo os Turcos, em suas cantigas, louvam 
feitos de armas de seus capitães, o que se fosse usado em 
Hespanha e toda a Europa, se me não engano, mais proveito 
de tal musica nasceria, do que de saudosas cantigas e trovas 
namoradas». Já em 1520 o mesmo escriptor, no seu romance 
Chronica do Emperador Clarimundo, introduzira a originalidade 
de embutir nessa obra uma intenção de apotheose patriótica. 
Na ultima parte da novella, um propheta prenuncia a Clari- 
mundo a gloria dos reis seus descendentes, que formarão a 
pátria portuguesa e a engrandecerão pelas navegações e 



Historia da Litteratura Clássica 277 

•conquistas. Já apontámos em lugar próprio este facto e 
registámos a possibilidade de ter sido o romance do Clari- 
mundo fonte dos Lusíadas. A própria forma poética de oitava- 
rima ou verso heróico é por João de Barros exemplificada 
nesse seu romance. António Ferreira claramente suggere 
essa empresa a Pêro de Andrade Caminha, indicando-!he 
como personagem central um dos filhos de D. João i: 

Dos mais claros Heroes hum, que cante 

Escolha teu sprito, real sujeito 

Tens na alta geração do grande Inffante. 

Ergue-te, meu Andrade, arca esse peito 
Inflamado d J Appolo, cante e sôe 
igual tua voz ao teu tam alto objeito. 

Ouça-se o grã Duarte, por ti voe 
Pelas bocas dos horr.ês; de sua mão 
Inda Palias, ou Phebo te coroe. 

O mesmo poeta, espécie de theorico do ideal clássico e 
orientador dos nossos primeiros quinhentistas, exhortava 
António de Castilho a organizar uma historia pátria, cuja 
intenção e sentimento dominante não distariam muito da 
intenção e sentimento dominante da epopêa, segundo as idéas 
da época: 

Quando será que eu veja a clara historia 

Do nome português por ti entoado. 

Que vença da alta Roma a grã memoria? 

Igual incitação fazia o auctor da Castro a D. António de 
Vasconcellos, na ode 8. a do livro i.°, a António de Castilho, 
guarda-mór da Torre do Tombo, na carta 6. a do livro 2.°, a 
Diogo de Teive, poeta latino. E Diogo Bernardes em carta 
a António de Castilho justificava-se de não tentar a empresa 
por falta de um Augusto, «a quem tão bom trabalho seja 
acceito. > 



278 Historia da Litteratura Clássica 

A ventilação desta idéa duma epopêa nacional, ainda 
noutros passos dos Poemas Lusitanos, de Ferreira alludida, 
(ode i. a do livro i.°, carta 3.* do livro i.° e ode i. a do li- 
vro 2. }, a sua satyra contra os Chérilos e os epigrammas 
têm sido combinadas de modo a reconstituir a celeuma de 
protestos e inimizades que o génio de Camões e o seu ambi- 
cioso projecto duma epopêa haveriam despertado na corte. (') 

A própria historiographia do século XVI palpita dum 
sopro épico; João de Barros desfigura em heroes de epopêa 
• as personagens da historia que narra em sua Ásia, complexo 
de façanhas que Gaspar Corrêa appellidou de lendas e a que 
elle mesmo misturou seu elemento phantastico. E a prefe- 
rencia dada por todos os historiadores aos successos decor- 
ridos no remoto Ultramar, mesmo quando declaradamennte 
a incumbência recebida era para tratar das coisas do reino, 
é também um evidente signal da ufania dum povo que levara 
a cabo grandes empresas. Já no principio do século XVII, 
Diogo do Couto, quando nos seus diálogos do Soldado Pra- 
tico, investiga das causas da decadência do dominio portu- 
guês na índia, é aindef com critério épico que faz o seu 
exame, pois ao amollecimento do espirito guerreiro, do en- 
thusiasmo heróico attribuia a decadência do dominio que, 
em seu critério, só por armas se devia manter. 

A matéria épica oíferecia-se a Camões, palpitante de 
realidade e opportunidade. Toda a historia de Portugal de 
Affonso Henriques a D. João III estava narrada com sequen- 
cia de methodo e doutrina; todos os chronistas haviam im- 
pregnado suas obras de sentimentos de vivo patriotismo e 
ardente piedade religiosa, factores únicos reconhecidos. O 
milagre, o elemento cavalheiresco e o elemento lyrico e trá- 
gico dessa historia estavam também revelados, Ourique, a 



(') V. para exemplo as pacientes e profundas investigações do sr. 
Doutor José Maria Rodrigues, Fontes dos Lusíadas, cap.o 7.0, publ. no 
Instituto, de Coimbra, trabalho incompleto. 



Historia da L literatura Clássica 279 



infanta D. Maria, Ignez de Castro, Nun'Alvares, os infantes 
de Ceuta, as lendas dos mares ainda não navegados povoa- 
dos de gigantes e monstros. Estava suggerido o titulo, estava 
exemplificada a forma, estava demonstrada a capacidade 
épica de figuras como Vasco da Gama e Affonso de Albu- 
querque, figuras centraes dos successos do Oriente e perso- 
nagens principaes da historiographia que os narrava. Esta- 
vam dadas idéas para a composição da obra, o processo da 
prophecia por João de Barros, treinada a lingua portuguesa 
num incessante exercício de metaphoras, periphrases, euphe- 
mismos e numa experimentação continua de adjectivos, de 
modo que se creára um estylo de austera grandiloquencia. 
Organizar esses dispersos elementos sob a unidade duma 
principal acção, dentro delia sob a forma de episódios que 
se narram e que se futuram embutir a historia anterior e 
posterior a essa principal acção, converter em symbolos o 
que era typico e representativo nessa historia,, revolver todos 
os episódios lyricos, trágicos ou cavalheirescos para lhes 
encontrar a face épica e para nós a voltar, visto que só o 
engrandecimento da gente portuguesa se tinha em vista — 
era crear a epopêa nacional. Tal emprehendimento de syn- 
thetica intuição executou-o Camões com os seus Lusíadas. 

Após o formoso pórtico da proposição, da invocação e 
da dedicatória, abeiramo-nos da acção, que, segundo manda- 
vam os theoricos. desejosos de cavar distincções nítidas en- 
tre a chronica e a epopêa, já ia adiantada. 

Já os portugueses navegavam no Oceano Indico havendo 
até lá passado muitos perigos e trabalhos, quando os deuses 
do Olympo reúnem seu concilio para deliberar sobre se ha- 
veria de ser concedido aos navegantes que attingissem a 
almejada Iadia. Apesar da opposição de Bacho, ciumento 
por não querer que a fama do seu domínio na índia se 
perdesse offuscada pelo valor dos portugueses, preva- 
lece a opinião de Marte, que nos navegantes vê herói- 
cos guerreiros e protegidos de Vénus, sua amada. Essa é 



280 Historia da Litier atura Clássica 

também a vontade de Júpiter,* porque assim se promettia 
nos Destinos. 

Entretanto chegam os portugueses a Moçambique, onde 
estiveram a ponto de soffrer traição, passam em frente de 
Quiloa e surgem em Mombaça onde, auxiliada por Bacho, 
maior traição se prepara e de que só escapam por virtude 
da mediação de Vénus e suas nymphas, que impedem a 
entrada da armada no porto. Novas instancias faz Vénus 
junto de Júpiter pelos portugueses, ainda perseguidos de 
aventuras arriscadas, apesar do que se deliberara no olym- 
pico concilio. 

Logo parte para a terra Mercúrio, que em sonhos acon- 
selha e inspira confiança em Vasco da Gama, a quem 
annuncia a próxima chegada a Melinde, cujo rei o gasalhará 
amigavelmente. Visitando o rei de Melinde a frota, pede a 
Vasco da Gama que de noticias da situação geographica da 
sua pátria, do seu nobre rei, da historia delia. Isso faz o 
Capitão e essa narrativa é um dos muito habilidosos artifí- 
cios usados por Camões para ter ensejo de cantar a historia 
anterior á viagem da índia, muito bem escolhida para acção 
fundamental, porque ella foi a principal das navegações 
portuguesas, já assim considerada no seu tempo, em que se 
reconhecia ser ella o coroamento dos longos e sequentes 
esforços iniciados pelo infante D. Henrique. 

A narrativa ao rei de Melinde comprehende a des- 
cripção da Europa, localização de Portugal nesse continente 
e os feitos principaes de D. Henrique, D. Thereza, D. Affonso 
Henriques, D. Sancho I, D. Affonso II, D. Sancho n, 
D. Affonso III, D. Diniz, D. Aífonso IV, D. Pedro i, D. Fer- 
nando, D. João I, D. Affonso V e D. João II. Mas como o 
poeta épico canta e não conta, terá de escolher e fazer 
avultar os episódios que ao seu propósito melhor sirvam. 
E assim é a batalha de S. Mamede, em que sobresahem o 
arrojo e a altivez de D. Affonso Henriques fundando uma 
pátria; é a batalha de Ourique, er.tãc uma formidável bata- 



Historia da Liderai ura Clássica 281 

lha, que daria consagração bellica ao novo rei, o ungiria de 
sar.cção divina e lhe daria o pleno acatamento dos seus; é a 
generosidade de AfFonso IV, que ante as lagrimas commovi- 
das da filha depõe os seus resentimentos contra o genro, 
acode em seu auxilio, contribue para a victoria e volta 
desinteressado dos despojos; é a morte de Ignez, em que 
sobresahe a vehemencia do amor português e a rigidez da 
razão de estado, do interesse da rjatria que esses reis caval- 
leiros vinham construindo; Nun'Alvares e Aljubarrota, o 
heroísmo santo e o mais exaltado amor da pátria; de 
D. João ii os seus esforços por attingir a índia e de 
D. Manuel a decisão de mandar a frota, que ora o rei de 
Melinde visita e festeja. 

Mas, repetimos, como Camões era poeta épico e não 
historiador, não fez derivar essa decisão da fria conclusão 
de estudos scientificos e das informações de precedentes; 
seria isso uma exposição de razões, que só perderia com ser 
feita em verso. Como manejava symbolos e imagens para 
construir uma obra de arte e não enseriava factos apurados 
para fazer uma obra histórica, usou do artificio muito do 
gosto clássico, já amplamente exemplificado em epopêas da 
epocha, dum sonho; em sonho apparecem a D. Manoel i os 
rios Indo e Ganges, que pela voz do primeiro lhe propheti- 
zam que dominará na índia, mas á custa de dura guerra. 
Conta depois Vasco da Gama como o rei promptamente 
ordenou a partida da expedição do seu commando, a sua 
partida e a sua viagem até á chegada áquelle posto amigo; 
e como a viagem, feito principal da nação portuguesa, sym- 
boiiza a parte principal da actividade dessa nação, a sua 
parte de interesse humano, assim de symbolos é tecida essa 
narrativa. É um symbolo o velho do Restello, personificação 
do descontentamento popular, do bom-senso rasteiro, aziu- 
mento, mas a que sempre se vem a reconhecer razão, tardia 
razão; é um symbolo o episodio de Fernão Velloso, aventu- 
reiro gabarola; é um symbolo a prosopopêa magnifica do 



282 Historia da Littcraiura Clássica 

gigante Adamastor, que é para nós, portugueses, o que 
foram as columnas de Hercules para os phenicios e todos os 
antigos, o non plus ultra afinal desmentido. Tal hymno á 
pátria, enthusiasticamente entoado perante o rei de Melinde, 
tinha uma conclusão, que se não dirigia áquelle longínquo 
soberano, mas a todos os portugueses e ao mundo inteiro: 
que os heroismos portugueses, verdadeiros e duplos pelo 
que acommetteram e pelo que resignadamente elles soffre- 
ram pelo seu Deus e pelos seus reis, excedem toda a densa 
massa de phantasiosas aventuras de phantasiosos heroes do 
mundo antigo e moderno, excedem a própria força humana: 



Julgas agora, Rei, que houve no mundo 
Gentes, que taes caminhos commettessem ? 
Crês tu, que tanto Eneas, e o facundo 
Ulysses pelo mundo se estendessem ? 
Ousou algum a ver do mar profundo, 
Por mais versos que d J elle se escrevessem, 
Do que eu vi a poder d"*esforço, e de arte, 
E do que inda hei-de ver, a oitava parte ? 

Esse, que bebeo tanto da agua Aonia, 
Sobre quem têm contenda peregrina 
Entre si Rhodes, Smyrna e Colophonia. 
Athenas, los, Argos e Salamina : 
Essoutro, que esclarece toda a Ausonia, 
A cuja voz altisona e divina, 
Ouvindo o pátrio Mincio se adormece, 
Mas o Tibre co J o som se ensoberbece : 



Cantem, louvem, e escrevam sempre extremos 
B J esses seus semideoses, e encareçam, 
Fingindo Magas, Circes, Poliphemos, 
Sirenas, que co J o canto os adormeçam : 
Dêm-lhe mais navegar á vela e remos 
Os Cicones, e a terra, onde se esqueçam 
Os companheiros, em gostando o Loto: 
Dêm-lhe perder nas aguas o piloto : 



Historia da Litteratura Clássica 



Ventos soltos lhe finjam, e imaginem 
Dos odres, e Calypsos namoradas, 
Harpias, que o manjar lhe contaminem, 
Descer ás sombras nuas já passadas ; 
Que, por muito, e por muito se afinem 
Nestas fabulas vãs, tão bem sonhadas, 
A verdade que eu conto nua e pura, 
Vence toda grandíloqua escriptura. 



Depois de farta e generosamente obsequiado pelo rei 
de Melinde, que solemnes promessas de viva amizade 
declara, põe-se a frota a caminho, guiada por fiel piloto 
melindano. E prospera e confiadamente vae navegando, 
quando Bacho, vendo approximar-se o termo da viagem que 
o será também da sua fama de conquistador do Oriente, 
reúne os deuses marinhos e os persuade á destruição dos 
seus zelosos competidores. Effectivamente, as divindades 
marinhas afanosas acodem em auxilio de Bacho e quando 
em amena confraternidade a marinhagem ouvia a historia 
dos doze de Inglaterra, pagina eloquente do heroismo por- 
tuguês, contada por Fernão Velloso, desencadeia-se a tem- 
pestade. Delia se salvam ainda por mediação de Vénus que 
com sua corte de nymphas e deusas abranda em ternura 
amorosa a fúria destruidora dos ventos. E emfim chegam a 
Calicut. Ahi é Vasco da Gama festivamente recebido do 
Samori. Entretanto o Catual de Calicut, particularmente in- 
formado da gente portuguesa por Monçaide, quer visitar a 
armada. 

E durante essa visita que Paulo da Gama, explicando as 
pinturas das bandeiras, que ornam as naus, vae expondo ao 
soberano indio, não já a historia seguida como em Melinde 
fizera seu irmão, mas uma galeria de episódios que nova 
demonstração sejam do heroismo sobre-humano dos portu- 
gueses: Egas Moniz, D. Fuás Roupinho, D. Prior Theoto- 
nio, Mem Moniz, Giraldo Sem Pavor, Martim Lopes, Paio 
Peres Corrêa, Gonçalo Ribeiro e outros. 



284 Historia da Litteratura Clássica 

Em sonho, é o Samori advertido por Bacho da supposta 
falsidade da gente portuguesa e contra elles concebe má 
suspeita. Prepara o Catual a sua destruição, dificultando o 
embarq-ue do Capitão e impedindo o livre commercio, entre- 
tendo delongas sem fim á espera das naus de Meca que po- 
riam em obra a sua traça. Conseguindo partir a salvo, 
põem-se os portugueses a caminho da pátria, quando Vénus, 
sempre sua generosa protectora, lhes prepara a grata sur- 
presa da ilha dos Amores, éden terrestre que no caminho 
se lhes depara e onde colhem as mais gostosas delicias de 
amores divinos e banquetes divinos. Novo ensejo prepara 
Camões para cantar o heroísmo que os portugueses exerci- 
tariam nas partes do Oriente, cujo caminho acabavam de 
descobrir. O artificio agora adoptado é o da prophecia que 
uma nympha cantando faz, na qual annuncia aos enlevados 
portugueses a vinda de successivas armadas por aquelle ca- 
minho, agora devassado, a vingadora destruição da traiçoeira 
Calicut, as façanhas sobre-humanas do invencivel Duarte 
Pacheco, D. Francisco de Almeida, D. Lourenço de Almei- 
da, Affonso de Albuquerque, a figura máxima do oriente, 
em que o poeta põe o reparo da crueldade, Soares de Al- 
bergaria, Sequeira, Menezes, Heitor da Silveira até D. João 
de Castro. Depois, subindo a um monte, Tethys mostra ao 
Gama a machina do mundo e a descreve circunstanciada- 
mente. E nessa descripção que se contém aquella estancia 
de mau gosto, que parece proceder de exigência da censura, 
-sempre sollicita em guardar a pura orthodoxia: 

Aqui só verdadeiros gloriosos 
Divos estão ; porque eu, Saturno, e Jano 
Júpiter, Juno, fomos fabulosos, 
Fingidos de mortal, e cego engano : 
Só para fazer versos deleitosos 
Servimos; e se mais o trato humano 
Nos pôde dar, é so que o nome nosso 
Nestas estrellas poz o engenho vosso : 



Historia da Litter 'atura Clássica 285 

Dentre desta composição, sem duvida a mais feliz que 
á sua imaginação se podia offerecer, Camões não teve des- 
falecimentos, quebras de tom épico, manteve a unidade es- 
tructural, sóbria e equilibrada, e a sequencia de levantada 
inspiração. Só parece quebrar a unidade do poema, retirar-lhe 
um pouco aquelle caracter de exacta necessidade, em que 
cada parte está no seu lugar próprio e se mostra indispensá- 
vel, a final descripção da machina do mundo. Porque faria 
Camões que Tethys tão circunstanciadamente descreva o 
systema geral do mundo, pondo assim um tão scientifico re- 
mate a umas horas de deliciosos amores, remate que parece 
inopportuno ? Porque, querendo os portugueses tudo devas- 
sar na terra, mares e continentes, condigna recompensa de 
suas façanhas seria erguê-los ao intimo conhecimento da 
machina do universo ? Pôde ser essa uma explicação, pois 
a outra, que occorre, de querer a bella deusa apontar as par- 
tes do mundo por onde os portugueses discorreriam e obra- 
riam feitos illustres, não é defensável, já porque muito pouco 
lugar oceupam os portugueses na oração da deusa, já por- 
que essa descripção de muito mais se oceupa, além dessas 
partes percorridas dos portugueses. Mesmo esse intuito seria 
mal servido, pois em presença dum tão grande todo, a acti- 
vidade dos portugueses era bem pequena coisa. 

Para nós, não se offerece uma explicação esthetica 
acceitavel. 

É sempre na clave heróica que Camões canta a maravi- 
lhosa acção, sequencia de causas e effeitos maravilhosos. Dos 
portugueses têm os deuses ciúmes ; por esses zelos se cava 
a cizânia na corte celeste ; deuses os perseguem, deuses os 
protegem. 

Para sobre elles desencadear uma tempestade, reune-se, 
na opulenta e profunda corte de Neptuno, um concilio de 
deuses marinhos e delles mandados rijamente sopram sobre 
as frágeis naus os mais furiosos ventos ; para impedir a des- 
truição visada por esses ventos, acode Vénus e toda a amo- 



286 Historia da Litteratura Clássica 

rosa corte. Quem pretende oppôr-se á passagem dos portu- 
gueses e quem, delles vencido, perpetua vingança tirará 
inexoravelmente? Um gigante, deus, que na guerra dos 
deuses andara. É sempre no dominio da causação maravi- 
lhosa que se mantém o entrecho dos Lusíadas. 

Por isso, mais surprehende, o gosto infeliz, incoherencia 
em meio da geral congruência do poema, trahido na exposi- 
ção do s}'stema do mundo por uma deusa, que por sua pró- 
pria bocca declara não existir, só servir para adornar versos, 
mas que no emtanto tudo sabe. Essa penúltima parte do 
canto décimo dos Lusíadas é um problema na comprehensão 
esthetica do poema, talvez um enigma. 

Da symbolcgia camoneana, é a prosopopéa do Adamas- 
tor a mais genial concepção, sem duvida a pagina mais 
bella do poema e uma das creações mais altas da poesia 
humana. Ignez de Castro e Aljubarrota são de extrema bel- 
leza, mas os elementos seus componentes são bem conheci- 
dos de modo a limitarem um pouco o campo de pura creação 
individual do poeta, depois a nota lyrica do episodio da 
morte trágica da amante de Pedro, como lyrismo é dema- 
siado oratório para um poeta que repetidas vezes, nas suas 
lyricas, bateu á porta da eterna belleza ; e o reverso politico 
e patriótico desse trágico medalhão é muito secundário. 

O episodio de Aljubarrota, com a parte de Nun'Alva- 
res, é exemplo da eloquência vibrante de linguagem, da vi- 
veza movimentada, da decisão heróica, intensa e invencível, 
daquella imprudência, que uma scentelha divina esclarece e 
guia : 

. . .são grandes as cousas, e excellentes, 
Que o mundo encobre aos homens imprudentes. 

Esses episódios são principalmente superfícies bellas, 
opulentamente adornadas e coloridas, mas o Adamastor é o 
acumen do génio pcetico de Camões e da imaginação litte- 
raria dos portugueses, o mais perfeito exemplo do bello 



Historia da Lilteratura Clássica 2S7 

sublime da epopGa. A localização, a personificação escolhida 
e a historia desse monstro, que perfigurava o medonho cabo, 
um todo único e harmónico formam. O medonho cabo, que 
constituiu o maior obstáculo da navegação portuguesa, ver- 
dadeiro cabo das Tormentas, e depois de transposto, o maior 
triumpho, verdadeiro cabo da Boa- Esperança, não podia ser 
melhor personificado que em um gigante, o maior, mais 
horrivel de aspecto e proporções, que a phantasia humana 
creára. O Atlante da mythologia era muito impreciso, inhu- 
mano e por isso inconcebível, quasi uma abstracção, e os 
gigantes-cavalleiros das novellas em moda eram só homens 
invulgares. Mas o Adamastor é um gigante humanamente 
concebível, embora preencha todas as grandes disponibili- 
dades dessa imaginação perplexa. E um gigante, que abra- 
çamos em todo o seu conjuncto, a figura horrenda e domi- 
nadora fechando os mares e a sua historia triste. Sobretudo 
a sua historia triste é duma commovente belleza, enternece- 
dora e põe nessa rocha abrupta e medonha uma crispação 
humana, uma vibração de amor, daquelle Amor, eterno 
causador de todo o bem e de todo o mal, cujos arcanos 
invios, em lingua portuguesa, ninguém percorreu como 
Camões. Cumprindo sempre rigorosamente o seu propósito 
de todo o maravilhoso entrecho sujeitar a uma também 
maravilhosa causação, o poeta conta-nos, explica-nos muito 
coherentemente porque alli se encontrava aquelle gigante, 
em tão avio recanto do mundo, longínquo, isolado e perigoso 
a mais não poder ser, até para um deus. Estava alli o gigante 
porque amara e por amor se rebellára contra Júpiter. Que 
effeitos surprehendentes de belleza sublime, dos mais arro- 
jados contrastes nos deu Camões nesse quadro : enchendo o 
horizonte e escurecendo o mar immenso a figura colossal do 
cabo, ainda mal perdidas as antigas formas humanas ; sobre 
as ondas agitadas, débeis e apoucados, os navios dos portu- 
gueses ; e das profundidades cavernosas uma voz enchia o 
espaço a rugir coléricas ameaças e logo brandamente a dizer 



288 Historia da Litter atura Clássica 

uma delicada historia de amor que enternecera, humanizara 
até á infantilidade a extincta alma desse gigante. 

E quem acordara do seu silencio millenario essa voz, 
quem depois de Júpiter com elle media forças e o vencia 
como só Júpiter o vencera, quem vencendo-o agora vencia 
o próprio Júpiter, por cujo mandado elle guardava aquelle 
passo ? Os portugueses. Por isso dizemos que o intuito épico 
de engrandecimento da gente portuguesa em nenhuma outra 
parte do poema se cumpriu com tão supremo génio, como 
nesta creação do Adamastor — bella como nenhuma outra 
por servir com exacção inexcedivel esse propósito e pelo 
contraste delicado entre a força potente desse gigante e a 
terna paixão que por Thetis concebe, o contraste da audácia 
desse gigante rebellado contra Júpiter que é afinal joguete 
duma frágil deusa «única despida >>. 

Outra creação camoneana de grande belleza e também 
originalmente camoneana é a do velho do Restello, face 
opposta ao heroísmo cavalheiresco. A philosophia desse 
velho, vulgar, mas tão profunda e desdenhada, sempre velha 
por ser repetida, sempre nova por não ser ouvida, a desillu- 
são sceptica e o bom senso conservador, forma bello con- 
traste com todo o furacão de heroísmo, que bate as estancias 
do poema ; contraste que trinta e três annos depois, desen- 
volvido sob forma narrativa e pittoresca, daria matéria a 
outra obra de génio, o D. Quixote. 

Psychologo, como o vimos nas lyricas, pensador como 
se revela em todo o conjuncto da sua obra e particularmente 
nas muitas sentenças argutas e profundas, em linguagem 
lapidar, que esmaltam o poema, narrador habilissimo e des- 
criptor elegante e incisivo, Camões fez convergir todos os 
elementos que podiam servir á elaboração da obra, mas 
nenhum lhe serviu tão bem, além do seu génio creador de 
symbolos e imagens, como esse deslumbrante dom da lin- 
guagem intensa, de hyperboles que avultam as proporções, 
de periphrases que avultam a vulgaridade, eloquente e 



Historia da Littcratura Clássica 289 

vibrante até ao enthusiasmo, ao exaggero glorioso. E esses 
effeitos magníficos do seu estylo, principalmente nos discur- 
sos e diálogos, conseguiu-os o poeta não por meios artifi- 
ciosos, adjectivos sonoros, a musica enganosa das palavras, 
mas em pleno connubio de sentido e expressão; é o senti- 
mento que sobe a alturas ainda não attingidas na velha 
gamma dos affectos e comsigo a expressão que o veste. 
Elle é que fez as phrases de sentido certo, petrificadas, que 
evocam sempre o mesmo sentido, porque foi elle que as 
creou para seu uso. 

Está já apurado por sólidas investigações o que é Camões 
como pintor da natureza, qual a verdade objectiva da fauna 
e da flora, que em seu poema elle nos refere, da sua geogra- 
phia e da sua cosmographia, quaes as prováveis fontes 
inspiradoras, quaes as idéas geraes que ao poeta, como 
moralista e como pensador, guiaram. Fazê-las era repetir sem 
opportunidade os resultados dessas investigações. (*) Só se 
não tem feito muito a simples coisa de dar á critica litteraria 
o poema como thema de analyse esthetica, um pouco impres- 
sionista, ainda que tende bem presentes valores litterarios 
menos caducos que os do arbítrio pessoal. Tempo é de se 
fazer esse trabalho. 



Ao poema camoneano seguiram-se outras tentativas 
desse género, legitimamente justificadas já em ser a epopêa 
um dos mais nobres géneros de gosto clássico, já na exube- 
rância de matéria épica nacional, que aos poetas de engenho 
se offerecia e ainda proximamente suggeridas pelo êxito 
dos Lusíadas. 



(') V. a bibliographia dos estudos Camoneanos na Critica Littera- 
ria como Scicncia, pags. 185-195. 

H. da L. Clássica, l.* vol. 19 



290 Historia da Litter atura Clássica 

Jeronymo Corte Real (') publicou em 1574 o Successo do 
Segundo Cerco de Dm, a Felicíssima victoria concedida dei cielc 
ai senor Don Juan d' Áustria, en el golfo de Lepanto, 1578, e o 
Naufrágio c lastimoso successo da perdição de Manuel de Sousa de 
Sepúlveda e Dona Lianor de Sá, sua Mulher e Filhos, posthu- 
mamente publicado por diligencias de seu genro, António 
de Sousa, em 1594. Luiz Pereira Brandão ( 2 ) escreveu o 
poema da Elegiada, sobre a guerra, perda e morte do rei 
D. Sebastião, 1588, e Francisco de Andrade ( ? ) o Primeiro 
Cerco de Diu, em 1589. 

Os dois poemas sobre os cercos de Diu e o outro sobre 
o naufrágio de Sepúlveda são como pormenorizações de epi- 
sódios já contidos nos Lusíadas, no lugar e papel que lhes 
cabia como pedras do grande edifício: os dois cercos entre 
as prophecias ouvidas na ilha dos Amores, e o naufrágio 
no caudal de vinganças que o Adamastor cobrará dos portu- 
gueses. Tirá-los desse lugar para constituírem matéria de 
longos poemas só seria legitimo, quando elles revestissem 
um interesse humano, superior ao seu significado episódico, 



(') Jeronymo Corte Real nasceu em Lisboa, filho de Manuel Corte 
Real, donatário da Ilha Terceira; ignora-se a data do seu nascimento. 
Exerceu cargos militares em Africa e na índia, entre elles o de capitão- 
mór duma armada. Regressando ao reino, foi viver para uma sua quinta, 
próxima de Évora, onde cultivou as artes e onde morreu em 1588. É 
frequente affirmar-se que tomou parte na batalha de Alcácer Kibir, mas 
não ha fundamento seguro para tal asserção. „ 

(*) Luiz Pereira Brandão nasceu no Porto, entre 1520 e 1540. Pro- 
fessou na Ordem monastico-militar de Christo. Era filho do capitão das 
Molucas, António Pereira Brandão. Tomou parte na batalha de Alcácer 
Kibir, onde foi aprisionado. Conseguindo a sua libertação, voltou ao 
reino onde morreu em lugar e data, que se ignoram. 

(3) Francisco de Andrade nasceu em Lisboa; ignora-se em que 
anno. Foi filho de Fernão Alvares de Andrade, fidalgo da corte de 
D. João ih. Por morte de António de Castilho, recebeu os cargos de 
guarda-mór da Torre do Tombo e de Chronista-mór do Reino. Publi- 
cou em 1613 uma Chronica de D. João III e morreu em 1614. 



Historia da Litter atura Clássica 201 

mas essa transfiguração não souberam os poetas oprrá-la ou 
não a comportavam tacs themas. São, por isso, só narrativas 
poéticas só complicadas da apparelhagem mythologica e dos 
artifícios da composição literária. Estes reduzem se na Ele- 
giada, plangente narrativa chronologica da derrota de Mar- 
rocos, matéria de todo destituída do espirito épico. Quanto 
se contem de melhor, na pintura, na symbolização ou no 
estylo poético destes poemas, já está comprehendido com 
relevo inexcedivel nos Lusíadas. 



CAPITULO VIII 



A PROSA MYSTICA 

Noutro lugar dissemos que considerávamos como uma 
das fundamentaes caracteristicas da litteratura portuguesa a 
persistência dum certo mysticismo intellectual e summaria- 
mente expuzémos o conteúdo que para nós comporta essa 
expressão de mysticismo. Os tópicos, que então apresentá- 
mos, constituem um typo muito especifico de estados de 
consciência, em que abunda certo Irybridismo, queremos 
dizer, em que co-existem as disposições de espirito mais 
oppostas, como são a acceitação do determinismo e da su- 
perstição, dos hábitos creados pela educação scientifica e 
dos grosseiros prejuízos repetidos pela rotina mais ingenua- 
mente crédula. Não é deste mysticismo na accepção de 
estado da consciência, que nos queremos agora occupar, 
muito embora grandemente delle participe aquella espécie 
de mysticismo, para a qual reclamamos por alguns momen- 
tos a attenção: o mysticismo como género litterario. 

O mysticismo para nós consiste no isolamento, tão com- 
pleto quanto possível, do mundo exterior, e na meditação 
sobre um thema único. Elle é um extremo de subjectivismo, 
porque ou é o próprio espirito esse thema único da medita- 
ção ou, quando se exerce sobre outro thema, é o próprio 
espirito que fornece os materiaes para construir o edifício. 
Portanto o mysticismo exclue toda a observação, procede 
pela mais cerrada lógica deductiva e exerce-se pela intus- 



294 Historia da Litteratura Clássica 

pecção, que desse modo é a principal faculdade do espirito 
interessada. Este exclusivismo da idéa única, que ha quem 
chame mono-ideismo, tanto pode conduzir á liberdade espi- 
ritual, pela pratica e aguçamento do dom da intuspecção, 
como á irnmobilidade espiritual, attingindo-se assim um 
estado muito vizinho da loucura, com total perda da noção 
de tempo. 

A idea de tempo tem como bases a consciência das 
mudanças, da successâo das variações e a consciência da 
repetição das mesmas mudanças. Essas variações e essas 
repetições deixa o mystico de as surprehender na sua flagrân- 
cia, desde que mergulha na meditação da idea única, inespa- 
cialmente e intemporalmente, para attingir a suprema forma 
do mysticismo, o estado de êxtase. Isso trahiam os próprios 
mysticos, quando chamavam á eternidade um perpetuo presente. 
O êxtase é um estado que se caracteriza pela máxima con- 
centração de espirito, mas também por uma actividade do 
mesmo absolutamente simples, vizinha da suspensão, frontei- 
riça dos limites da consciência. Durante elle não ha atten- 
ção, nem sensibilidade, nem sequer receptividade sensorial. 
As agiographias contêm numerosas descripções deste estado 
de êxtase mystico, produzido por causas internas ao próprio 
espirito. Visão se lhe chama nessas narrativas, mas esse 
modo de o chamar não é exacto, porque presuppõe ainda 
um desdobramento para o exercício do ver, que já não 
existe, pois uma completa identidade se estabelece então 
entre o sujeito e o objecto. Acode-nos um exemplo extrahido 
dum prosador mystico que doutro mystico escreveu, uma 
visão de S. Frei Gil narrada por Frei Luiz de Sousa: «Cele- 
brava hum dia em Santarém : Eis que no meio da Missa fica 
subitamente arrebatado: e a cabo de grande espaço torna 
rindo, e fazendo festas com huma alegria tão fora do ordiná- 
rio, que deu em que cuidar a muitos Padres, que acudirão 
ao rapto, chamados do ministro, e fazião vários discursos, 
tendo por descomposição o que virão, em tal lugar, e tempo. 



Historia da Litteratura Clássica 295 

Acabada a Missa, fez-lhe pergunta o Prior polo que vira, e 
ouvira, como quem fora hum Sós que o ministro chamara : 
e que causa houvera pêra tal, sendo assi que sempre acabava 
aquelles santos mysterios com lagrimas, e as extasis com 
queixas, e sospiros. Não pode o Santo negar nada, a quem 
inquiria como Prelado, e foi-lhe contando, que naquella hora 
se lhe representara, e vira com os olhos corporais a alma de 
hum grande seu amigo, e grande Santo, que se hia ao Ceo 
cercado de resplandores de gloria, e levada por mãos de 
Anjos.» O 

O mysticismo é um estado de espirito eminentemente 
litterario, participa até de attributos do lyrismo, disposição 
moral que deu origem ás maiores obras primas das litteratu- 
ras do mundo; delle se differença porém porque o lyrismo 
é sentimental, e o mysticismo é também racional e tanto o é 
que deu base a uma philosophia das mais coherentes e har- 
mónicas construcções metaphysicas. Também participa do 
moralismo, mas delle se aparta em que o moralismo pode 
ser, e é-o frequentemente, activo, e o mysticismo é sempre 
passivo. 

Na sua forma religiosa, o mysticismo foi fomentado pela 
religião christã. É elle «a doutrina philosophica, que acceita 
a communicação com a divindade e que, como processo, 
consiste' na indagação introspectiva do que se passa num 
espirito, fiscalizando severamente todo o seu mecanismo, não 
vá elle afastar-se um passo da vereda directa que a Deus 
conduz. . .» ( 2 j, ou mais simplesmente, segundo a pratica de 
cada um, a realização do reino de Deus a dentro da própria 
consciência. Esta simples coisa foi a innovação essencial do 
christianismo e a maior revolução da historia. A principio 
pela abnegação, logo a seguir pelo flectir-se do espirito 



(') Primeira Parte da Historia de S. Domingos, Lisboa, 1866, 
vol. i.°, pag. 233-4. 

(2) Características da litteratura portuguesa. Lisboa, 1915, 2. a ed. 



296 Historia da Litteratura Clássica 

sobre si mesmo, os primeiros christãos desinteressaram-se 
dos bens do mundo terreno, renunciaram á felicidade terrena 
do bem estar, que os bens terrenos unicamente podiam pro- 
porcionar, e sentindo dentro do próprio espirito a liberdade, 
a eternidade e a felicidade, architectaram a bella fabrica da 
sua fé, o reino de Deus. 

Os quatro escriptores, que constituem o assumpto deste 
capitulo, são exemplos dos muitos espiritos que pela histo- 
ria adeante vieram reconstituindo esse extincto sonho. Per- 
dendo a realidade, a aspiração do reino de Deus foi ganhando 
em recursos imaginosos, em pictórico, em variedade e com- 
plexidade. Em vez dum simples quadro, a ridente paisagem 
oriental, assoalhada, um lago tranquillo, um bando de po- 
bres, que da pobreza se orgulhavam, e os ensinamentos 
aprazíveis, em parábolas, imperativas sentenças e exemplos 
dum mestre adorável, em vez do seu martyrio, no seu tempo 
muito commum, que taes eram os materiaes que á medita- 
ção dos primitivos mysticos se offereciam — os futuros mys- 
ticos tiveram todo o grande edifício do christianismo como 
instituição social, como moral, como philosophia, como or- 
gânica concatenação de todos os sentimentos, actos e pensa- 
mentos da consciência humana; tiveram tudo que a historia 
multi-secular, a imaginação e o commentario dos Padres da 
Igreja accrescentou ao primitivo christianismo galileu. 

Isto fez do mystico um pensador e, quando se aprimo- 
rou na moda de registar e expressar a sua meditação, um 
escriptor. Era agora bem differente do antigo mystico que, 
segundo Renan « sans rêve millénaire, sans paradis chiméri- 
que, sans signes dans le ciei, par la droiture de sa volonté 
et la poésie de son âme, saurait de nouveau créer en son 
cceur le vrai royaume de Dieu ! » 

E o século XVI que em Portugal produz os primeiros 
corypheus desse género. A religiosidade medieval, sentin- 
do-se tranquilla e ao abrigo de intimas dissenções e sem os 
progressos mentaes, que a Renascença traria, foi esponta- 



Historia da I Alter atura Clássica 207 

neamente descuidada, só se applicando em defender-se com 
as armas da guerra dos inimigos externos, dos infiéis. Mas 
as grandes scisões da reforma lutheriana obrigaram o chris- 
tianismo a defender-se dos seus inimigos internos com as 
mesmas armas e também com as armas do espirito. O mys- 
ticismo litterario toma assim um caracter doutrinário, de ca- 
techese, e em Portugal ainda o de refugio de alguns espí- 
ritos combalidos, pois três dos escriptores representantes 
deste género, Frei Heitor Pinto, Frei Thomé de Jesus e Frei 
Amador Arraes, só numa phase adeantada do quinhentismo 
se revelam, quando as desgraças da pátria já eram matéria 
de sérias apprehensões. 



SAMUEL USQUE 



A obra de Samuel Usque, judeu português, muito douto 
e entre os seus contemporâneos muito venerado, appareceu 
em 1553 sob o titulo de Consolaçam ás tribulaçoens de Israel, 
publicada em Ferrara, annos depois do êxodo violento dos 
seus correligionários ordenado por D. Manuel I. Aos seus 
companheiros de exilio e de soffrimento se dirigia na lingua 
que fallavam na pátria que os havia expulsado, para os con- 
solar dos males presentes com a recordação de mais acerbos 
males passados e a perspectiva de melhores dias, segundo 
asseguravam os seus prophetas. Esta obra de edificação 
religiosa e de intuitos moraes emprega para o seu objectivo 
não só os elementos que a mesma religião proporciona: a 
resignação ao soffrimento e a interpretação do transcendente 
significado desse soffrimento, mas também uma odienta 
cólera. E uma obra nobilíssima, que honra a lingua portu- 
guesa, cujos recursos de expressão da dor serena e da espi- 
ritualidade religiosa se não evidencia nesta obra menos do 



298 Historia da Litter atura Clássica 

que com os mysticos christãos se ha-de evidenciar ( 1 ). Abre 
o livro uma dedicatória â benemérita dona israelita, Gracia 
Nasci, que sacrificou o seu bem -estar e pôs os seus haveres 
ao serviço dos seus correligionários. Depois num prologo 
explica o auctor os motivos da obra e a forma de composi- 
ção adoptada. 

Quiz Usque fazer decorrer ante a imaginação maravi- 
lhada do leitor o passado grandioso da sua pátria e as des- 
graças que sobre ella cahiram ; para esse fim adoptou uma 
perfiguração muito ao gosto do seu tempo : o dialogo e o 
scenario pastoril. Icabo, anagramma de Jacob, representando 
Israel, embrenha-se pelos bosques penando suas pungentes 
e desesperadas maguas, como fizera a narradora da Menina e 
Moça ; encontram-no casualmente Numeo, derivado de Nahum, 
e Zicareo, derivado de Zahariahu, pastores, aos quaes conta 
a sua triste historia e dos quaes recebe consolações. O meio 
pastoril, em que decorre a perfiguração symbolica da obra, 
era o obrigado disfarce da epocha, a composição obrigada 
para todas as obras onde a phantasia tomava largo fôlego, 
quando se não tratasse de géneros prefixamente regulados. 
Também modernamente, quando os poetas querem interpre- 
tar artisticamente a historia dum povo numa larga synthese, 
adoptam o processo posto em voga por Victor Hugo e entre 
nós praticado com brilho pelo sr. Guerra Junqueiro^ na sua 
Pátria : representar a evolução histórica desse povo nos seus 
mais salientes vultos e episódios e fazê-los desfilar ante nós, 
fallando em inflados alexandrinos. 

Ao tempo de Samuel Usque era o disfarce pastoril o 
usado. Eloquentemente se lamenta Icabo, a todas as partes 
do mundo dirigindo o seu protesto vehemente e a sua plan- 
gente confissão, e nessas passagens põe Usque um senti- 



( 1 ) De Samuel Usque, israelita português, ignora-se toda a bio- 
graphia, incluindo o próprio lugar de naturalidade e as datas de nasci- 
mento e morte. 



Historia da Litteratura Clássica 299 

mento tão profundo de desespero, de saudade e de cólera, 
que só a muito viva lembrança de males recentes poderia 
inspirar-lhe essas litanias vehementes : «O mundo mundo, 
jaa que tuas racionaes creaturas nam consentes se doiam de 
minhas tribulações e lazeiras, se nas insensíveis influíram os 
çeos algum modo secreto de piadade, daa licença aos rios 
que daltas montanhas com espantoso rumor vem quebrar 
suas escumosas agoas em bayxo, que detendo o seu arreba- 
tado passo, com manso e lamentoso roydo, acompanhem o 
cõtinuo cursso de minhas lagrimas, e em seu correr cansado, 
mostre novo sentimento de minhas longuas misérias: e vos 
outros princepes de todos elles, Nilo, Ganges, Eufrates, Ti- 
gre, que desatandouos do paraíso terrestre desenfreados vin- 
des abreuar os sequiosos Egípcios, os molles e cheirosos Yn- 
dios, e torcedo o passo, e escondedouos nas áreas por muitos 
dias, sahis depois a mostramos aos bárbaros e queimados 
guineos, e sobindo e descendo por ásperos e montanhosos 
desertos, ys tambê saudar os guerreiros e cruéis tártaros 
pois laa vos comunicaes coaquelle tam desejado mèsageiro 
que em carro e caualos de fogo arrebatado foi leuado aos ecos, 
rogouos que aqui manso me digaes este segredo. 

«Quando cansaram meus males, e fadigas, minhas injurias 
e offensas, minhas saudades, e misérias, as feridas nalma e 
minhas magoas, as bemaventuranças em sonhos, as desauen- 
turas certas, os males presentes, e esperanças longas e tam 
cansadas ; e quando terá paz tanta guerra contra um fraco 
subgeito, temor, sospeita, reçeos de minhas entranhas, tee 
quando gemerei, respirarei, matarei a sede co as lagrimas 
de meus olhos ?•* ( T ) Corno os pastores, prophetas disfarçados, 
o surprehendessem e pedissem lhes referisse a causa de tão 
grande desalento, elle referiu-lhes a sua historia, que é afinal 
a historia do povo de Israel, commentada com lamentos e 



(1) V. Consolaçam às Trihulaçoens de Israel. Coimbra, 1906, ed, 
do sr. Mendes dos Remédios, i o vol., pag. B i. 



300 Historia da Litter atura Clássica 

apreciações. E Icabo conta-lhes toda a sua vida, como o 
Doido da Pátria, do sr. Junqueiro. São paginas formosas pelo 
seu poder descriptivo e pictórico, e mais aindas pelos senti- 
mentos que a impregnam, paginas de prosa, onde sobra 
inspiração poética. 

A historia dramática, mais duma vez intensamente trá- 
gica, de Israel, onde o sobrenatural, o maravilhoso e a cer- 
teza da intervenção divina andam sempre presentes, impri- 
mem esse cunho tão caracterisco a essa chronica, tal como 
tradicionalmente se teceu, da Biblia e dos prophetas. 

Os factos argamassou- os Samuel Usque com a sua 
imaginação, organizando uma visão plangente, dominada de 
fatalidade, que é também uma interpretação histórica, ainda 
que nella predomine a sensibilidade artística e um propósito 
de edificação e de apologética. Um vivo sentimento da 
realidade impregna a obra : aconselha Usque resignação aos 
divinos desígnios e apella para o effeito consolador da reli- 
gião porque muito soffrera e vira sorfrer, e porque em toda 
a historia de Israel só via misérias, perseguições, um vento 
permanente de desgraça. Esta circunstancia, esta base de 
realidade dá ao seu mysticismo um caracter especial, torna-o 
mais sentido, mais vivido, mais eloquente e mais tocante. 
Ordinariamente, o mystico christão aborrece o mundo e 
contra elle se indigna, contra elle dirige as suas invectivas 
coléricas, sem o haver visto e soffrido, quantas vezes em 
plena mocidade feliz e em meio de propicio bem- estar. 
E de olhos fechados, com a alma posta em Deus, que elle 
phantasia o mundo da graça, só conhecendo e só reconhe- 
cendo o soffrer de Christo e dos martyres, que o repetiram. 
Dos nossos mysticos christãos, só Fr. Thomé de Jesus, o 
heróico captivo de Marrocos, possuiu um pouco o dote emi- 
nente de Samuel Usque, o espirito de realidade, apparente- 
mente tão opposto á posição moral dum mystico religioso. 
Sobre esse, outros dotes litterarios avivam a obra: o estylo 
parenetico, vibrante de convicção, caloroso, em intensas 



Historia da Litter atura Clássica :>()1 

evocações ; a todos os povos, a toda a terra, a todos os ele- 
mentos se dirige para que todos e tudo, juntamente, oiçam 
as desgraças sem nome de Israel, para que unisonamente 
vibrem com as lamentações tétricas de Icabo : « Sede pre- 
sentes gentes a ouuir, e vós outros povos pêra estar attentos, 
ouça a terra e quanto nella ha, a redondeza e todas suas 
plantas, que a yra do Senor vem sobretodalas gentes, e seu 
furor sobre todos seus exércitos, com maldições as offereceo, 
e ao sacrifício e matança as entregou para que seja seus 
mortos arremessados, e de seus corpos se levante pestenen- 
cial fedor, e estilem os montes com seus sangues, apodrecera 
também todo o exercito celeste, e revolverseam os ceeos 
como o volume de hum livro se revolve, e todo seu exercito 
cahirá como cahem as folhas da vide e figueira. » Mais duma 
vez a sua linguagem attinge uma intensidade de expressão 
e uma violência de sentimentos até então inteiramente des- 
conhecidas na nossa lingua. A máxima expressão, intensa 
até á violência, e o lyrismo eloquente foram cordas pela 
primeira vez desferidas na historia da nossa litteratura 
por Samuel Usque, que só Ferreira repete na sua Castro, 
pela bocca do infante D. Pedro e pelo coro final do 
4. acto, e que só Camões excedeu nos seus Lusíadas. 
A cada passo se trahe uma imaginação habituada a pre- 
sencear desgraças, incestos e sacrilégios, a só meditar 
nos casos mais terríficos da maldade humana, a vibrar de 
piedade religiosa e a confranger-se de horror perante blas- 
phemias e destruições iconoclastas. O soffrimento perde o 
caracter de dôr physica para ascender á sublimidade de 
sagrada cólera determinada por offensas a Deus, sem numero 
e sem nome. Usque soffre principalmente como creatura que 
com Deus tem alguma communicação, que pelo menos sem- 
pre sobre si postos sente os olhos perscrutadores dum Deus 
vingador e inexorável. «Vi daquelles que desatinados da 
incomportauel fome, sem temerem outra morte (por mais 
crua que fosse) que aquella de que começauam jáa a morrer, 



302 Historia da LdM&r atura Clássica 

entregarsse híía grande cãtidade nas mãos do cruel ymigo 
q. no cerco estava ; e vivos lhe abrirem as barrigas os árabes 
assyrios que em fauor de Titos vieram, buscando-lhe o ouro 
dètro nas entranhas, que algús auião englutido pelo não 
auerem os tiranos da pátria : assi que sahyam da bocca da 
loba faminta ; e cahiam nas unhas do esfaimado lião, como 
Yehaschel primeiro antevio dizendo : De fogo sahiram e 
fogo os queimará, o lião que faz cerca de suas cidades tudo 
o que delias sahir espedaçará. 

«E per remate e concrusão de todos meus males: com 
cornos de brauo touro dos desertos despanha, e com forças 
de ensanhado lião Africano entre ouelhas, e cõa raiua vnhas 
e bico de monstruoso Tigre de Hircania trás os filhos rou- 
bados, vi entrar em Yerusalaim aquella Águia romana nas 
mãos do fero Titos, desatando as azas, ensanguentando o 
bico, estragando bosques de humanas criaturas, inglutindo 
carnes, chupado sangues, destríçãdo ossos, espedaçando 
membro a membro milhões de corpos, de sacerdotes, prín- 
cipes, velhos, mancebos, molheres prenhes, formosas meças, 
e de criaturas pouco antes nacidas ; e cõ o duro bico (ve- 
dando os santos sacreficios) ateou o foguo nelles, e em todo 
o corpo do divino templo, tee penetrar no mais interior e 
vedado, e voando com elle ligeirissimamente na soberana 
altura das torres o sobia, nos muros, e em todolos ricos 
edeficios e ingeniosa architetura da maravilhosa cidade o 
pegava. 

« Aqui muitos sacerdotes posto que lançandose da parte 
dos romanos, se podia salvar, antes se lançavão elles mes- 
mos no foguo, por se queimar cõ o templo, entre os quaes 
foram Merio, filho de Belga, e Joséfo, filho de Darea, e ou- 
tros muitos côas arcas e caixões do tisouro em cinza se con- 
verterõ...» ( l ). E após uma descripção tão viva, a lamentação 



(l) Ed. cit. i.° vol., pag. xix e xx. 



Historia da Litteratura Clássica 308 

tão intensa: «Ay derribada he minha fortaleza, donde me de- 
fendia dos dous ymigos, desfeito he o ninho da única Fé- 
nix, arrancada a arvore, que de seus divinos frutos me 
mantinha, secas sam suas folhas, que me faziam delitosa 
sombra, sobida hc aos ceos a verdadeira Alma do meu espi- 
rito, tendido deixa em terra nas unhas das cruas feras o 
corpo onde morava. Ó misquinho de mi, que me lançarom 
do meu terrestre paraizo, pisarõ cõ os pés as virgens de Is- 
rael, que eram suas boninas e flores, de que estava semeado, 
destruíram a gentil mancebia e grave velhice, seus novos 
cedros e antiguos aciprestes que suas raizes tinhão sobello 
derradeiro ceco arreigadas; turbarom com sangue e amar- 
gura as suas claras agoas de ley divina que os regava, asso- 
larom os justos e prophetas cerca de seus muros, que repa- 
ravam as yras do senor, finalmente o meu claro Sol se escu- 
receo, e em profunda tenebra me deixou envolto Num paiz 
de forte tradição litteraria e apurado gosto, esta obra, se 
houvesse podido circular livremente, teria grandemente con- 
tribuído para dois importantes effeitos litterarios : revelar os 
recursos de arte da historia de Israel, que tanta matéria trá- 
gica contem e offereceu aos poetas do tempo de Luiz xiv, 
com o que desempenharia papel um pouco semelhante ao do 
Génic do Christianisme , cerca de três séculos mais tarde ; e 
preparar o gosto épico, grandiloquo e evocativo, tão próprio 
do nosso quinhentismo que desse gosto sahiu a sua obra- 
prima, os Lusíadas. 

A obra fecha consoladoramente com o annuncio de me- 
lhores tempos para Israel, segundo a mesma vontade de 
Deus, que deixara os maiores males arHigircm o seu povo. 
E assim a obra de Usque é, para os israelitas, rigorosamente 
orthodoxa e para nós eminentemente litteraria, duma belleza 
original, exemplo de ardente amor da pátria alliado, con- 
fundido a fervorosa religiosidade, ambos expressos com bri- 
lhante relevo. 



304 Historia da LÁtteratura Clássica 



FREI HEITOR PINTO 

Frei Heitor Pinto (') publicou a sua famosa obra Ima- 
gem da Vida Christã, em 1563. Grande foi o seu êxito, por- 
que varias vezes se reeditou e para varias linguas foi tradu- 
zida. 

A reedição e a traducção eram já então, como agora, as 
formas supremas do triumpho litterario por denunciarem a 
existência dum largo publico de leitores. Modernamente só 
accresceu a homenagem da critica. 

O titulo completo da obra já indica o seu conteúdo : 
Imagem da Vida Christã ordenada por diálogos, como mêòros de 
sua composiçam. Os diálogos são seis : Da verdadeira philoso- 
phia ; da religião ; da justiça ; da tribulação ; da vida solitária ; da 
lembrança da morte. 

O primeiro dialogo, entre um ermitão dos campos de 
Coimbra e um philosopho, decorre todo em torno da res- 
posta, que o ermitão dera ao philosopho que o cumprimen- 
tara: «Eu nõ estou, nê tenho hu soo ano de idade, e o 
mesmo pode de si dizer todos os homês». Como o philoso- 
pho, com grande copia de argumentos, pretendesse rebater 
a asserção do eremita, este justifica-se depois longamente. 
Esta justificação constitue o segundo capitulo, em que pro- 
cura provar a brevidade da vida humana, comparada á vida 
eterna. A sua demonstração é tirada do « thesouro infallivel 



(*) Frei Heitor Pinto nasceu na Covilhã, suppõe-se que em 1528. 
Professou no convento dos Jeronymos, de Belém, e seguiu os seus estu- 
dos no convento da Costa, na Universidade de Coimbra e na de Si- 
guenza. Em 1565 teve a nomeação de reitor do Collegio de Coimbra e 
em 1571 foi eleito provincial da sua ordem. Ensinou na Universidade de 
Coimbra, na cadeira de Escriptura, para elle especialmente creada. No- 
bremente aífecto á causa nacional, que D. António, Prior do Crato, re- 
presentava, foi affastado do ensino e transferido por ordem de Filippe 11 
para o convento dos Jeronymos de Silla, onde morreu em 1584. 



Historia da Litter atura Clássica 305 



da sagrada Scriptura e da liçam dos Doctorcs Theologos » 
(pag. 10). E conclue do seguinte modo muito elucidativo 
quanto ao processo lógico da sua demonstração : « E com 
isto ficam provadas as duas proposições, que eu auia de 
provar, que nem eu estaua, nê tinha dias de idade. E não 
vos enganeis cõ vos parecer que me vedes estar, porq. assi 
como híí home qu vay níía náo com todas as velas despre- 
gadas a força dos vetos atrauessando as duuidosas ondas, 
caso q. elle vá assêtado, todavia anda chegãdose ao porto, 
assi eu ainda q. pareça que estou, cõ tudo caminho para a 
morte. E olhay, quã pouco ha q. vos aqui topey, que des 
então ategora passey hila hora de vida, q. agora tenho me- 
nos. E esta perdi este espaço que vivi, porq. viver he per- 
der a vida, & perdela he morrer, e morrer he deixar de ser, 
q. o nosso viver & o nosso ser andam ao livel unidos, & in- 
separáveis híí do outro. Dõde se colhe q. quê deyxa de vi- 
ver, vay deixando de ser, & deixado de ser, não está sem- 
pre níí ser. E daqui se cõclue ser falso o que vos dizeis, 
que me vieis cõ vossos olhos viver & estar. Porq. como vi- 
ver seja passar a vida, & passar seja não estar, seguese que 
se me vedes viver, vedesme passar & nã estar. Quanto mais 
q. me não vedes viver. Hiía cousa he verdesme vivo, outra 
he verdesme viver. A primeira he verdadeira, a segílda falsa. 
Porq. se me vísseis viver, verieis ir caminhando a vida, & 
ella não se vê, dado q. se vejam seus effeytos ; porque como 
â cor seja objecto da vida corporal, & ella nam possa ser se- 
não cousa corada, porq. nenhiía cousa se vê senão por meo 
da cor, & a vida não tenha cor, seguese que he invisivel. 
Dõde está clarissimo que me não vedes viver» (pags. 130 e 
seg.). 

Como o philosopho, sollicito em defender os sentidos, 
fizesse um caloroso elogio da vista, cujos dados particular- 
mente o ermitão refutara, este rebate-o, allegando entre 
outros argumentos o de que a vista contenta o coração e 
distrahe o pensamento cujo único objecto deve ser Deus. 
H. da L. Clássica, vol. 1.» 20 



306 Historia da Litteratura Clássica 

Confessando, como confessa, o seu horror da observação 
sensorial, Frei Heitor Pinto mostra o seu perfeito estado de 
sincero mysticismo. Apontando os perigos do homem prestar 
attenção aos dados dos sentidos, é levado a definir a sua 
idéa de Deus: «Ninguém he bom senão só Deus. Assi como 
o centro he hú, & indivisível, & está no meo, & delle, sae 
as linhas para a circuferencia, assi Deus he hua unidade 
simplicíssima, hu acto puríssimo, q. está em todas as cousas, 
do qual procede os rayos da fermosura das creaturas. Elle 
está d£tro em nós, & he fonte de todo o ser sendo mesmo 
nosso ser, mais intimo a nós q. nós». E algumas linhas 
abaixo: < DEOS he hum principio sem principio, a mesma 
bondade, dõde vem tudo o que he bom. A fermosura da 
terra com suas heras, flores, plantas, rios & animaes: a 
beleza do ceo com toda a tapeçaria das claras & resplande- 
centes estrellas, toda a graça, sapiência, virtudes, & orna- 
mètos cTalma, finalmete toda a fermosura assi interior, como 
exterior, he hum resplandor dos rayos da divina fermosura. 
Tudo vem de Deos, daquella fermosura antigua, daquella 
sapiência infinita, daquella bondade immensa, daquelle cen- 
tro summo & sempiterno, que he Deos». (Pag. iS e 18 v.). 
A verdadeira philosophia deve começá-la o homem pelo 
conhecimento de si mesmo, e deste conhecimento de si 
próprio virá elle ao conhecimento supremo de Deus, porque 
seria com conhecer-se bem a si que elle poderia medir a 
terrena miséria e por contraste alcançar a infinita grandeza 
de Deus. Mas conhecer-se o homem a si mesmo é conhe- 
cer somente aquella parte digna de alguma meditação e 
analyse, a alma, porque a outra, o corpo, era uma parte 
inferior do género humano, que não merecia que nella se 
attentasse. Este conhecimento da alma, esta intuspecção da 
própria consciência, ainda que quanto ao methodo se appro- 
ximasse da moderna psychologia, era quanto ao fim coisa 
muito diversa, porque não visava ao conhecimento da indi- 
vidualidade moral de cada um, ao mecanismo espiritual do 



Historia da Ldtter atura Clássica 307 

commum dos homens, sequer, mas apenas a chegar ao con- 
vencimento da baixa origem do género humano, e a pro- 
duzir a mais contricta humildade. Porque nalgum tempo os 
homens se affastaram da pratica do amor de Deus e da 
humildade e, em contrario, se possuíram de enfatuada pro- 
sápia, é que se tornou necessária a vinda de Jesus. «E 
estando o mundo feito híí labirintho de incomportáveis erros, 
falsas, & diabólicas opiniões, avendo Deos misericórdia do 
home que criara, mandou seu filho unigénito, Christo, nosso 
Deos, para nos salvar. Veo o bom Jesus, aquelle explendor 
da Gloria, como lhe chama S. Paulo, & figura de sua subs- 
tancia, veo aquella verdade sempiterna, aquella verdadeyra 
vida, aquella sapiência sem fim, aquella bondade immensa, 
aquelle lume do lume, aquelle verbo divino nosso summo 
bem, & tomada nossa humanidade conversou cõnosco para 
nos ensinar, & mostrar o caminho da bemaventurança & 
allumiar nosso entendimento. Porque nas cousas sobrenatu- 
raes sem o lume divino está cego o engenho humano». 
(Pag. 34 v). Depois de explicar a encarnação de Jesus, para 
sob a forma humana maior diffusão poder dar ás suas dou- 
trinas, de narrar o seu ensino e a sua morte generosa, Frei 
Heitor Pinto chega á conclusão sobre a verdadeira philoso- 
phia que é o amor de Deus com todas as suas consequências: 
conhecermo-nos a nós mesmos, subirmos por este próprio 
conhecimento ao de Deus, amá-lo de todo o coração, a elle 
nos entregarmos totalmente, e amar ao próximo como a 
nós mesmos, desinteressando-nos de todos os valores da 
vida, não receando a morte, fugirmos das vaidades e enga- 
nos do mundo, mais velar que dormir. 

O segundo dialogo decorre entre dois frades portugue- 
ses, que se encontram na Lombardia, entre Parma e Plasen- 
cia. Conversando das saudades, que um delles, frade Jero- 
nymo, tinha da tranquilla clausura que em Portugal gozara, 
antes de partir a tratar de negócios da sua Ordem, este faz 
o elogio da vida monástica. Com grande belleza, logo de 



308 Historia da Ldtteraiura Clássica 

entrada nos aponta a felicidade do repouso solitário: «O ramo 
da oliveira com que a pomba hia contente ]evando-o no bico, 
he a esperança de certa & propinqua tranquillidade, na qual 
posta' híía alma fica clara, ainda que antes estivesse escura. 
Que isto tem a quietação: aplacar o espirito & aclarar o 
entendimento. Assi como agua dum tanque, se a moverdes e 
removerdes, fica turva, e escura, mas acabado todo o movi- 
mento, estando ella em paz, e sem se bolir, fica clara e limpa, 
assi alma distrahida e perturbada está escura e cuja, mas 
quietando-se e repousando, vae-se aclarando até que de todo 
fica limpa. E assi como estando agua turva e bascolejada 
nam vos vedes nella, mas como está quieta, vos representa 
logo vossa imagem, assi o desassossego e perturbaçam na 
alma faz com que vos não vejaes nella, mas sua quietação 
e repouso faz com que vos esteis nella conhecendo e vendo 
quem sois. De maneira que a tranquillidade do espirito he 
como híí espelho, que vos está pondo ante os olhos vossa 
própria imagem. E creio eu que não haí lugar onde se ella 
milhor alcance & conserve, que no recolhimento do mosteiro 
e da cella». Distinguindo a religião, como virtude moral, 
do estado da religião, como modo de viver separado, explica 
a etymologia da palavra, delia extrahindo ora o sentido de 
ligação espiritual, que a religião estabelece, ora o de aparta- 
mento a que obriga os que a ella se votam. Depois enumera 
as virtudes e os hábitos espirituaes, que cabem ao religioso. 
O terceiro dialogo, sobre a justiça, decorre entre um 
doutor theologo, um mathematico e um cidadão. As idéas e 
sentimentos expostos neste, como nos seguintes diálogos são 
todos os que uma viva imaginação pôde extrahir da fé chriatã 
fervorosa; prevê-se por isso que, muitas vezes antes e depois 
dos Diálogos de Frei Heitor Pinto, hajam sido affirmados. 
Não são o mérito principal e muito menos a razão da origi- 
nal belleza da obra; o que se distingue caracteristicamente 
é o estylo calmo, serenamente analytico, que da comparação 
a cada passo se soccorre e que, todo preoccupado em fazer 



Historia da Litter atura Clássica o O 9 

comprehender, não se detém ante a mais longa metaphora, 
a mais minuciosa descripção. 

Vejamos esta que allude á influencia dos sentimentos 
sobre os juizos: «Assi, disse o mathematico, como o sol 
que entra pelas vidraças, tal cor representa, qual he a das 
vidraças, assi qual he a affeição, tal he a sentença. O sol 
quando nasce, & quando se põe parece mayor que ao meio 
dia sendo elle sempre de hti tamanho, mas enganam-nos a 
vista os vapores, que pela manhã e á tarde se nos põem 
ante os olhos, atravessando-se entre nós & o sol, os quaes 
vapores nos servem de óculos, em que os raios visuaes 
batem como em vidros transparentes, e estendendo-se por 
elles, fazem parecer o sol mór do que parece ao meio dia, & 
doutra cor, porque quanto os rayos visuaes mais se alargam, 
tanto mór nos parece a cousa que vemos. Estes vapores, 
que sobem da terra, são nossas affeições, que são de nós, 
que somos terra: & elles são os que atravessando-se- nos 
diante dos olhos d'alma nos fazem parecer-nos as cousas 
vistas mayores, & doutra cor. E assi enganado o juizo, e 
corrupto o entendimento, julgamos as cousas nam segundo 
a verdade delias, mas segundo afeiçam do amor, ou do 
ódio que lhe temos. E esta he causa porque na terra ha tão 
pouca justiça. Assi como o pintor per arte de perspectiva 
nos faz parecer as cousas altas e baixas, sendo a taboa igual 
e toda lisa, assi nossa estimativa per industria da affeiçam, 
nos faz parecer híías mesmas obras em híís grandes e emi- 
nentes, e em outros pequenas & escuras, sendo a substancia 
delias níía mesma igoaldade & resplandor. E desta enganosa 
perspectiva da affeiçam ser commíl a muitos, vem a desen- 
ganada justiça a estar em poucos > (Pag. 91). Em Heitor 
Pinto as comparações, muito numerosas, desempenham ver- 
dadeiramente o papel de razões e argumentos, e sobre ellas 
construe o seu raciocínio e delias extrahe conclusões, con- 
fundindo com um trabalho de lógica demonstração o que só 
é trabalho de artística approximação. Alem da profusão das 



310 Historia da Litteratura Clássica 

circunstanciadas comparações, frequentemente tão longas 
que envolvem miúdas descripções, uma característica saliente 
do seu estylo é a serenidade, já de concepção já de expres- 
são, que o affasta dos modos de dizer muito intensos, muito 
extremos, dos superlativos categóricos. Comparando e des- 
crevendo, mostra a cada passo procurar a fiel expressão, 
não a mais concisa, mas sempre a mais verdadeira. Que o 
estylo lhe mereceu carinhos de artista, provao a exuberância 
de metaphoras e circumloquios, já referida, e também o 
gosto relativamente frequente das formas parallelisticas e dos 
contrastes: «... mais descontente me faz a lembrança do 
contentamento que tive, que o descontentamento que tenho. 
Bem passaria com o trabalho, senão fosse a lembrança do 
descanso que perdi : porque então causam insoffrivel dor os 
males presentes, quando são acompanhados da memoria dos 
bens passados». (Pag. 49). Os Diálogos são um tratado de 
psychologia, semelhante aos que modernamente se publicam 
como auxiliares da auto-educação do caracter. Os processos 
são os mesmos, analysando a consciência intima e nella 
influindo, ou sejam a intuspecção e auto-suggestão; os obje- 
ctivos é que são oppostos. Nos tratados hodiernos ensaia-se 
excitar a actividade, avigorar a energia e despertar impulsos 
combativos, ensina -se a luctar e a triumphar, graças ao 
esforço diligente e vigilante, á persistência e á audácia — 
como não podia deixar de ser numa sociedade, em que são 
de lucta as condições normaes, e o ideal é o triumpho fácil 
dessa lucta. Nos Diálogos Frei Heitor Pinto ensina o homem 
a conhecer-se a si mesmo, para que desolado da sua mesqui- 
nhez extirpe os vícios, os seus mais terrenos attributos, 
vença as paixões, evite o fragor do mundo, suas ambições, 
seus vãos triumphos, suas enganosas seducções, para se 
entregar na solidão á meditação das verdades christãs e a 
ellas aspirar, esperando a morte terrena sem a recear, só 
após a qual começará verdadeiramente a viver. São dois 
ideaes oppostos, a febril actividade de hoje e a obstinada 



Historia da Litler atura Clássica 311 

passividade do mystico quinhentista. A dor, que este ideal 
activo e combativo de hoje pretende evitar a todo o transe, 
como o maior inimigo da felicidade humana, aponta-a Heitor 
Pinto como uma maneira de superiormente viver a vida, 
porque sendo a paciência uma virtude essencial, só o soffri- 
mento a gerava: «Mas não haverá paciência, senão havendo 
tribulação. E por isso he a tribulação necessária pois obra 
paciência. Diz S. Joam no Apocalypsi, que vio ante o throno 
de Deus grande numero de sanctos com palmas na mão, & 
que lhe disse bit delles: Estes são os que vieram da grande 
tribulação. Isto he o que dizia Christo a seus discipuios: 
O mundo será ledo e vós tristes, mas a vossa tristeza se con- 
verterá em alegria. Oppõe o mundo aos discípulos como 
cousas contrayras, como se dissesse: Os que são do mundo 
terão aqui alegria, mas ser-lhe-ha convertida em perpetua 
tristeza, mas os meus terão aqui tristeza, de que depois nas- 
cerá eterna alegria. O falsos prazeres do mundo convertidos 
tão azinha em pesares, ó enganosos contentamentos que logo 
no principio da viagem sossobram, e antes de verem a barca 
se vão ao fundo, suecedendo em seu lugar insoffriveis tormen- 
tos. Diz Salomão que o pranto oceupa o fim do contentamento. 
E assi como a serenidade do gosto dos mãos se torna em dilu- 
vio de lagrimas, assi o diluvio das lagrimas dos bons se torna 
em serenidade de contentamentos>. (Pag. 139 v). Mostra neste 
particular Frei Heitor Pinto um claro conhecimento da alma 
humana, dos effeitos vários que nella operam a alegria e a dor, 
já empedernindo e couraçando de egoismo, já afinando-a, re- 
quintando-lhe a sensibilidade e a generosa sympathia: «assi 
com híía mesma tribulação hus se afinam, outros se queimam, 
hus se mostram soffridos, outros impacientes, finalmente hús 
se melhoram, outros se empeóram». (Pag. 142 v). 

Só da sua calma se afFasta o escriptor, quando abeira 
themas que para elle comportavam matéria para arrebatada 
eloquência, Deus e Christo. Então anima-se e procura deli- 
beradamente a expressão intensa, os termos extremos. 



3íã Historia da Liiteratura Clássica 



FR. AMADOR ARRAES 

E-de 1589 a i. a edição dos Diálogos, de Fr. Amador 
Arraes, re-impressos em 1600, após revisão cuidadosa de 
seu auctor. E, portanto, á 2. a edição que nos referimos na 
nossa resenha. (') 

Sobre os Diálogos dá uma informação inteiramente ines- 
perada o P.° Pereira Sotto Maior (? — 1632), no seu Tratado 
da Cidade de Portalegre: «... foi muito bom letrado e estu- 
dioso. Acabou hus Diálogos que o Doctor Hieronymo a Rais 
s^u irmão, auia começado, cheos de muita Doctrina e eru- 



('') Frei Amador Arraes nasceu em Beja em 1530. Em 1546 pro- 
fessou na ordem dos carmelitas descalços; cursou a Universidade de 
Coimbra onde se doutorou em theologia. Foi pregador régio com D. Se- 
bastião, coadjuctor do cardeal infante D. Henrique, quando este gover- 
nou o arcebispado de Évora, e esmoler-mór do reino, quando o mesmo 
reinou. De Filippe 11 teve a nomeação de bispo de Portalegre, onde pas- 
toreou de 1582 a 1596, anno em que renunciou á dignidade episcopal, 
recolhendo-se a Coimbra, onde morreu em 1600. — Sobre Frei Amador 
Arraes, principalmente sobre o seu governo do bispado de Portalegre, 
sua personalidade moral e motivos que o levaram a renunciar esse cargo, 
ha noticias desenvolvidas e muito curiosas num manuscripto recente- 
mente publicado pelos srs. A. J. Torres de Carvalho e Luiz Keil, o pri- 
meiro como editor e o segundo como prefaciador e revisor, intitulado 
Trotado da Cidade de Portalegre- e de suas anliguidadas e fundação, 
bispos que nélla residiram, e outras antigualhas e curiosidades, feií o pelo 
Padre Diogo Ver eira ae Solo Maior j indigno capellão em a Sane ta See 
da dita cidade, dirigido a Dom Rodrigo da Cunha, bispo de PorlalegrÇ, 
ele., Elvas, 1919, si 63 vn pags. E no capitulo 9. , pags. 25-29, que 
Sotto Maior se oceupa de Arraes, 3. bispo daqueila diocese, mostrando 
o seu caracter dadivoso e caritativo, sóbrio, disciplinador e voluntarioso. 
Resignou o bispado por motivo duma demanda contra el!e intentada pelo 
Cabido sobre os redditos de certa igreja. Como a sentença não fosse 
inteiramente conforme ao "*?ç:u juizo opinioso, retirou-se. Do valor das 
noticias ministradas por Sotto Maior póde-se julgar pela declaração se- 
guinte: «Eu sou testemunha e fallo verdade que estive em sua compa- 
nhia quasi dous annos, até sua partida. (Pag. 29). 



Historia da Litteraiura Cíassioa 3Vó 

dição pêra todo o fiel Xpão se aproueitar delles. » (Pag. 29). 
Não podemos negar valor a este informe, porque Sotto 
Maior viveu na privança do escriptor e é geralmente exacto 
nas suas noticias, mas não podemos derimir claramente o 
assumpto. Não encontramos nas bibliographias referencia a 
Jeronymo Arraes, nem vestigio de relevo da sua existência. 

A obra do benemérito bispo de Portalegre é inteira- 
mente semelhante á de Frei Heitor Pinto, quanto á compo- 
sição, mas delia se aparta quanto á Índole, intrinsecamente. 
Como o auctor da Imagem da Vida Christã, ordenou a sua 
exposição sob a forma de diálogos, em que um interlocutor 
é a alma a catechisar, que com suas objecções e resistência 
provoca a argumentação do outro, que expõe a doutrina do 
auctor. Esse dialogo não é natural, pois a naturalidade não 
era sequer o propósito do auctor, é lento e longo, profuso, 
representando verdadeiramente a conversa sincera do auctor 
com a sua consciência, expondo todas as razões de crer, em 
voz alta pensando e respondendo a todas as duvidas que se 
possam levantar, accumulando todos os argumentos possí- 
veis, os da intelligencia e observação, os da historia clás- 
sica e os elementos da biographia das grandes individualida- 
des. A erudição é também um bom subsidio para argumentar. 

Trata Frei Amador Arraes nos seus Diálogos : das queixas 
dos enfermos e curas dos médicos ; da gente judaica; da gloria e 
triumpho dos lusitanos ; das condições do bom príncipe ; da conso- 
lação para a hora da morte ; da paciência e fortaleza christã ; do 
testamento christão ; da invocação de nossa senhora. Como se vê 
deste enunciado, Frei Amador Arraes é mais comprehensivo 
na sua obra que Frei Heitor Pinto; este é o verdadeiro 
mystico só para as coisas da alma voltado; aquelle também 
para a matéria profana volve olhos attentos e delia se occupa. 

O segundo, terceiro e quarto diálogos versam assumpto 
mundanal, são mesmo dissertações profanas; um expõe a 
historia judaica, dispersão do povo judaico, sua situação nos 
paizes catholicos e explicação da mesma, outro faz o desen- 



314 Historia da Litteratura Clássica 

volvido perfil moral dum príncipe modelo, justíssimo, pru- 
dentíssimo e christianissimo, e outro resume a historia de 
Portugal, incluindo a velha Lusitânia, e occupa-se dos des- 
cobrimentos e conquistas de alêm-mar. E claro que o pensa- 
mento religioso domina: os judeus eram justamente punidos 
do procedimento havido com Jesus Christo; o príncipe justo 
e bom, só com justiça e bondade seria ajudado de Deus e 
serviria a sua causa; e os portugueses haviam subordinado 
todo o seu esforço ao pensamento de derramar a fé, e só 
com a ajuda de Deus se podiam explicar os seus triumphos. 
Mas o sentimento religioso de Fr. Amador Arraes não tem 
a exaltação do de Frei Heitor Pinto, e por isso também é o 
seu estylo mais equilibrado, com menor brilho artístico, 
menos profusamente ornado das poéticas metaphoras, em 
que o auctor da Imagem da vida christã tanto se comprazia. 
Isto mesmo se vê nos diálogos que só versam matéria de 
edificação religiosa. Frei Amador Arraes até mostra estimar 
a cultura litteraria e humanística, e curiosa é a passagem 
dos seus Diálogos, em que expõe o que seria a illustração 
dum espirito elevado e distincto do seu tempo, a qual de 
seguida reproduzimos: «Herc. — Não me digaes nada porque 
me sobeja razão. 

Também entendo o que entendo, e tenho mêu pedaço 
de latim, e grego, e de Tópicos, e elêchos, e dos Metheoros : 
e sei algo da sphera, porque quando Pêro Nunez a lia a 
certos homês Principes, eu me achava presente. E li as 
décadas de João de Barros, e o Petrarcha em sua lingua, e 
essa mercê me fez Deus, que pronuncio, e escreuo o Italiano, 
quomo se fora hum dos naturaes; e li as historias do Jonio 
en latim, e as antiguidades de Florião de Campo en Caste- 
lhano, e o summario de Esteuam de Gariba Cãtabro, e a 
historia Imperial do vezinho de Sevilha, e a Pontifical do 
Illescas de Duenas, e as Republicas, e os lettreiros do Mo- 
raes Cordubense: e sabe de mim que faço sonetos, que corre 
por este Reino, festejados, sen se saber o nome do auctor. 



Historia da Litteratura Clássica 315 

Deixo o saber do paço, estimado de muitos, por ser galante, 
e não ganhado ao fumo da candea, quomo o scholar dos 
Bacharéis, que nenhum primor tem, nem passo substancial 
para homês de arte: na qual cuido ninguém me fazer vanta- 
gem, en saber cometer híía mõ de cortesãos. Também sou 
lido nas chronicas dos Reys, e sei as linhajes dos fidalgos 
de sua casa, e os modos per que alcançarão medrança: cou- 
sas essenciaes do paço.» (Pag. 42, ed. 1589). 

Em Amador Arraes ha, a par do fervoroso sentimento 
religioso, que a seu serviço pôs a penna do escriptor, 
maior observação da vida e do seu tempo, mesmo certo 
fundo de bom senso, revelado principalmente no dialogo 
sobre as qualidades moraes, que deve ter um bom príncipe. 
Todavia, convém limitar, muito sahe do seu tempo e da 
observação da commum natureza humana, para procurar 
argumentos na velha antiguidade. Assim, exemplificando, 
para atacar a medicina terrena, á qual contrapõe a medicina 
espiritual dos consolos religiosos, não se refere a vivos, «pois 
a enueja os persegue, e roe com seu dente canino», mas 
disputa sobre Hippocrates e Galeno. 

FR. THOMÉ DE JESUS 

Os Trabalhos de Jesus, escriptos no captiveiro de Marro- 
cos, em meio das mais agras atribulações, foram dedicados 
á nação portuguesa, que á data soffria todo o cortejo de 
consequências do desastre de Alcácer- Kibir. Na carta, datada 
de 158 1, que Fr. Thomé de Jesus endereçou aos seus com- 
patriotas, explica com vivo patriotismo e viva uncção reli- 
giosa o por que o fazia e o que tinha em vista. Podia ser 
que, sob o peso de tão amargas humilhações do dominio 
estrangeiro, os portugueses perdessem a paciência e a resi- 
gnação, que são essenciaes virtudes christãs e dos maiores 
méritos da vida. Era, por isso, opportuno lembrar-lh'as e 
exhortá-los ao amor de Deus, como aos povos dTtalia fizera 



316 Historia da Litter atura Clássica 

Santo Agostinho, fundador da ordem a que pertencia 
Fr. Thomé de Jesus (*), quando o vento da desgraça furiosa- 
mente soprara por sobre elles. Diz o escriptor, tendo apon- 
tado as separações no género humano, que resultam das 
variedades de opinião sobre matérias incontroversas: «A 
reformação destas variedades, e desatinos do humano coração 
consiste em entender, que huma só he a cousa no ceo, e na 
terra, no tempo, e na eternidade importante, que he cumprir- 
se a divina vontade em tudo por sua honra, e gloria, e em 
o querer assi como o entende com humilde sujeição. Aqui 
está a fonte de todos os bens quantos de Deos podemos 
esperar, e o remédio, e cura de todos os males quantos 
causam, e fazem pesada, e perigosa a vida humana, e a 
quietação do humano coração em todas as mudanças, e per- 
turbações da vida.» (Pag. xxn). Seria necessário que os por- 
tugueses, longe de se abysmarem no desespero, levantassem 
o pensamento para o muito que pela humanidade Christo 
soffrêra, considerassem no muito de favor e protecção que 
de Deus haviam recebido, se conformassem agora na adver- 
sidade á vontade divina e ainda agradecessem o haverem 
sido por Deus eleitos para lhe provarem a perseverança da 
sua fé e executarem a sua divina vontade. «Fundados nestas 
puras e eternas verdades, charissimos meus, e Christianissi- 



(') Frei Thomé de Jesus nasceu em Lisboa em 1529, filho do alto 
funccionario da coroa, Fernão Alvares de Andrade. Entrou e fez o novi- 
ciado no Convento dos Agostinhos, da Graça, de Lisboa, onde professou 
em 1544, anno em que passou ao Coliegio de Coimbra a concluir os seus 
estudos. Regressando a Lisboa exerceu o delicado cargo de mestre de 
noviços. Para mais se isolar, retirou-se para o convento de Penafirme 
no termo de Torres Vedras, onde exerceu o priorado. Foi também visi- 
tador da ordem. Em 1578 acompanhou a expedição de D. Sebastião, 
tomando parte na batalha de Alcacer-Kibir, onde foi ferido e aprisionado, 
quando exhortava os combatentes e acudia aos feridos. No cárcere soífreu 
os peóres tratos e humilhações, com piedosa resignação até á sua morte, 
oppondo-se sempre a que o resgatassem. Morreu em 1582. 



Historia da hitteratura Clássica 317 

mos Portugueses, não façais conta da ignorância dos que vos 
têm por nação já desamparada de Deos, e desfavorecida 
delle pelos muitos trabalhos que nos tempos presentes vos 
deo. Mas conhecendo a paternal condição do amor de nosso 
Deos que aos filhos que mais ama, mais castiga (como diz a 
Divina Escriptura) e aos que lhe são mais acceitos menos 
defeitos lhes soffre, agora vos havei por mais lembrados 
delle e confiai que vossos presentes trabalhos são para muitos 
maiores bens: e que serão vossas dores as medidas de vossas 
consolações: não pêra se medirem huma por huma, mas por 
cada huma muitas. Lembrai-vos das grandes mercês que 
vossa oração tem de Deos recebido, e a muita honra que 
por ellas entre todas as nações quiz esse Senhor que tivésseis. 
E confiai que nenhumas mudanças são poderosas para escu- 
recer vosso nome: se da vossa parte não faltar firme fé, e 
segura confiança na bondade, e poder daquelle Senhor que 
sempre até agora vos alentou e favoreceo. Agradecei, Chris- 
tianissimos Portugueses, a nosso Senhor ser de vós escolhi- 
dos entre todas as nações do mundo por hum muito principal 
instrumento de accrescentar por vós a gloria do seu santo 
nome, e quantas e largas mercês para isso vos fez, das quaes 
vos deveis lembrar para não acabarem os castigos presentes 
de derribar vossos corações. Mas tomarde-los com humildade, 
por disposições pêra procurardes mais com a vida, e sangue, 
fazendas e forças, de prosseguir o accrescentamento de sua 
honra por todo o mundo : e accenderdes mais seu amor em 
vossos corações, e resplandecer mais agora em vós seu ser- 
viço á Christandade.» (Pag. xxv). Os portugueses, que 
longe da metrópole, em captiveiro duro dos infiéis, não 
podiam presenciar os soffrimentos que no reino occorriam, 
não soffreriam menos. Se os males, que aos portugueses 
livres da metrópole affligiam, tinham maior resonancia, 
«maior toada» pelos tempos adeante, tinham também as 
consolações da livre pratica do culto, da frequência dos tem- 
plos, da privança dos ministros da igreja, das consolações e 



818 Historia da hitUr atura Clássica 

arrimos que de taes fontes provêm. Porem, os captivos dos 
mouros, entre os quaes se contava Frei Thomé de Jesus, ao 
tempo da redacção da sua capital obra, soffriam como os 
outros,' mas ainda com o aggravamento de não terem aquellas 
consolações e de correrem grande risco de queda espiritual» 
a do desespero, da duvida ou da cólera. Para consolar os 
seus irmãos da pátria e de amarguras, desses soffrimentos 
dentro e fora do captiveiro é que Frei Thomé de Jesus com- 
pôs os Trabalhos de Jesus, bálsamo de piedade ineffavel, que 
pelas circunstancias adversas em que foram escriptos e pelo 
acabamento e êxito alcançados o próprio auctor julgava 
dictados por inspiração divina. Elle no-lo diz: «Fazendo-me 
Deos do numero destes seus filhos atribulados, e posto só 
em escura prisão, ora em ferros, ora sem elles, com os mais 
annexos do estado de captivo, sabendo quanto maior era 
minha fraqueza que a de todos os outros, assi como sem 
meus merecimentos me fez mercê destes trabalhos, assi só 
por sua bondade me fez de me inspirar que passasse o tempo 
nelles (que tinha desoccupado) em recopilar os Trabalhos 
de Jesus, que me podiam ser allivio certo de minhas affli- 
cções. Commetti esta obra, havendo por industria, e muito 
segredo papel e tinta, e escrevendo as mais das vezes sem 
mais luz que a que entrava por gretas da porta, ou agulhei- 
ros e buracos das paredes. Furtava para isto o tempo, por 
me não verem, e os mais aparelhos necessários, senão só o 
que de graça a luz divina a meus interiores e cegos olhos 
dava, sem eu lh'o merecer. Cuidei no começo, fazer huma 
muito breve recopilação dos trabalhos do Senhor; e confesso 
a sua bondade, que nem sabia por onde começasse, nem 
como continuasse, nem em que acabasse. Mas indo escre- 
vendo, e levado não de meu cabedal, senão da sua mão, 
costumada a guiar as ovelhas perdidas, achei-me no cabo 
com dous volumes feitos, a historia de seus trabalhos, consi- 
derações e exercícios, e doutrinas que sobre elles, elle, sem 
eu o ouvir, me ensinou, As quaes, confesso a sua misericor* 



Historia da Litteratura Clássica 319 

dia, que nunca, nem antes, nem depois, nem então soube 
sentir da maneira que m'o elle fazia escrever. E como isto 
foi sem nenhuma ajuda de livros, e sem nenhum uso de 
escrever cousas desta matéria; ainda que eu não queria, 
ficam todas as faltas e imperfeições desta obra minhas, e o 
que nestes livros pode aproveitar só fazenda sua.» (Pag. 
XXVI e xxvil). 

O plano dos Trabalhos de Jesus é muito differente do das 
outras obras congéneres, anteriormente referidas; não tem o 
cunho artístico da de Frei Heitor Pinto, nem de Samuel 
Usque ou de Frei Amador Arraes ; é mais didáctico. Divi- 
dem-se em duas partes: a primeira alcança vinte e cinco 
trabalhos soffridos por Jesus desde o seu nascimento até á 
Paixão; a segunda toda a Paixão. Cada trabalho é circuns- 
tanciadamente narrado, em seguida devidamente interpretado 
e apreciado nos chamados exercícios, que propõem matéria 
para meditação. Alem dos exercícios correspondentes aos 
•vinte e cinco trabalhos narrados em cada parte da obra, ha 
alguns exercícios extraordinários sobre outras matérias. 
Conhecimento da natureza humana, grande resignação ao 
soffrimento, conceitos substanciosos e argutos, linguagem 
límpida e as mais das vezes fluentíssima, são as principaes 
feições dos Trabalhos de Jesus, obra traduzida para varias 
línguas (*). 



(') V. a lista das traducções inglesas em *Os Trabalhos de/esus», 
de Frei Thomé de Jesus, do sr. Edgar Prestage, publicado no iv vol. do 
Boletim da Segunda Classe da Academia das Sciencias de Lisboa, Lisboa, 
191 1. Para as traducções francesas ver Biblioilieque de la Compagnie de 
Jesus, Bibliographie, tomo i.° Ha também traducções em italiano, hespa- 
nhol e latim. 



CAPITULO IX 

GÉNEROS MENORES 
A. - ESCRIPTOS MORALISTAS 

Abre esta pequena galeria o Dr. João de Barros (') com 
seu Espelho de Casados, publicado em 1540 e reproduzido em 
1874 por esforços de Tito de Noronha e António Cabral. 
O manuscripto, que se guarda na Bibliotheca de Évora, com 
o titulo de Doze razões sobre o casamento, deve ser uma pri- 
meira redacção do Espelho de Casados. Nessa obra, o auctor 
impregnado da philosophia dos antigos e conciliando-a em 
sua consciência com o christianismo, propõe-se tirar conclu- 
sões úteis, pragmáticas da vasta sciencia, pois como elle diz, 
citando Aristóteles, vários são os fins com que cada um 
pretende saber. Doze são as razões que João de Barros reu- 



(*) João de Barros, que é necessário não confundir com o auctor 
das Décadas, seu homonymo, era natural do Porto, segundo uns, e de 
Braga, segundo outros, entre elles fundadamente Camillo ; foi doutor em 
leis pela Universidade de Coimbra. Foi ouvidor do arcebispo de Braga, 
escrivão da camará de D. João 111 desde 1548 e desembargador dos aggra- 
vos em 1549. Fez parte duma commissão encarregada de rever os im- 
postos e, por ordem do Cardeal D. Henrique, dirigiu a reforma dos 
cartórios de vários conventos. ígnoram-se as datas do seu nascimento e 
morte. O sr. Frazão de Vasconcellos deu alguns informes sobre a famí- 
lia deste escriptor no opúsculo, Ascendência materna do Desembargador 
João de Barros, Lisboa, 1917, e o sr. António Baião publicou alguns do- 
H. da L. Clássica, vol. 1.» 21 



322 Historia da Litter atura Clássica 

niu dentre as allegadas contra o casamento, as quaes enun- 
cia e rebate, segundo os processos demonstrativos da epocha 
já por nós referidos noutros passos. 

Essaá razões são as seguintes : ser o matrimonio um es- 
tado cheio de encargos; o desgosto a que se sujeitam os ca- 
sados com perderem os filhos ; a servidão que no fundo elle 
é ; a inferioridade moral e mental da mulher ; a inconstância 
delia ; a sua incontinência ; as discórdias acarretadas pelo 
adultério ; a impossibilidade de viver com a adultera ; as 
«tachas e manhas» das mulheres; a pobreza, a doença e a 
velhice; a desegualdade de haveres; a indissolubilidade do 
casamento. A estas razões de opposição contrapõe João de 
Barros outras tantas em defesa do casamento ; a necessidade 
de o homem se perpetuar ; ser um sacramento divino ; a sua 
gloria e alegria ; o exemplo dos antepassados ; a grande re- 
petição do casamento mesmo entre os modernos ; os praze- 
res da paternidade ; a honra; o respeito da amizade ; o proveito 
que delle resulta para o paiz ; a ajuda que ao homem traz a mu- 
lher ; ser com o estado de religião dos dois únicos estados polí- 
ticos admissíveis ; e evitar o peccado. Numa terceira parte nova 
discussão e additamentos fez o auctor a estas doze razões, e 
numa quarta e ultima parte enunciou doze requisitos que se 
devem observar para que os casamentos sejam felizes. 



cumentos a elle referentes na seguinte collecção valiosíssima: Documen- 
tos inéditos sobre João de Barros, sobre o escriptor seu homonymo con- 
temporâneo, sobre a família do historiador e sobre os continuadores das 
suas cDécadas», no Boletim da Segtmda Classe da Academia das Scien- 
cias, vol. ii, Coimbra, 1917. Os documentos biographicos sobre o auctor 
cio Espelho de Casados, divulgados pelo sr. A. B., são : alvará de 1562, 
pelo qual se faz mercê de quatro moios de cevada emquanto servir o 
cargo de escrivão das cousas da comarca da Extremadura, que declara 
desempenhar ha quatorze annos, ou seja desde 1548; declaração de 1586 
sobre a successão dum padrão de juros concedido em 1563 ; mercê de di- 
nheiro em 1571 ; carta de aposentação no cargo de escrivão da comarca 
da Extremadura, em 1572; mercê de dinheiro em 1575. 



Historia da Litter atura Clássica 323 

Todo o arrazoado de João de Barros, feito de fundamen- 
tos tirados da generalidade da natureza humana e de auctori- 
dade dos antigos, mostra bem o desconhecimento em que se 
compraziam estes auctores a respeito da diversidade infinita 
dos caracteres e a sua completa carência de instincto psy- 
chologico. Mais original é o pequeno tratado encomiástico 
do licenciado Ruy Gonçalves intitulado Dos privilégios e pre- 
rogativas que o género feminino iem por direito commum éf orde- 
nações do Reyno mais que o género masculino, publicado em 
1557. Essa obrinha, dedicada á rainha D. Catharina, tida 
como um exemplo das superioridades femininas defendidas 
pelo autor, tem uma evidente intenção de galantaria, a que 
até se adequou a forma extrínseca, que lhe dá o aspecto do 
que hoje .se chama uma plaquettc. Com grande erudição e 
grande copia de argumentos, que não excluem certa inge- 
nuidade, o auctor enuncia as seguintes virtudes, em que as 
mulheres igualaram ou excederam os homens, do que dá 
exemplos : doutrina e saber ; conselho ; devoção e temor de 
Deus; liberalidade: clemência e misericórdia, castidade e 
outros elevados dotes moraes ; a seguir aponta algumas es- 
peciaes disposições legaes, que beneficiavam o sexo femi- 
nino. Ruy Gonçalves tratou este assumpto, tão fecundo de 
matéria litteraria, muito mecanicamente, só com erudição e 
muito pequena observação da alma feminina. Bem merece, 
não obstante, ser lembrado, porque a sua voz foi a primeira 
que se ergueu a defender o sexo das opiniões tradicionaes, 
que sobre elle pesavam, 

O historiador das Décadas também nos deixou escriptos 
de moral, mas em exposição didáctica, sem qualquer propó- 
sito de arte ou mesmo alguma implícita belleza artística na 
dicção. Os escriptos moraes de João de Barros são a Ropi- 
capnefma, de 1532 (*); o Dialogo de João de Barros com dons fi- 



(') V. a edição do Visconde de Azevedo: Compilação de varias 
obras do insigne portitguês João de Barros— Contem a Ropica Pnefma e 



324 Historia da LitUr atura Clássica 

lhos seus sobre preceitos moraes em forma de jogo, 1540; e o 
Dialogo da Viciosa Vergonha, (*) do mesmo anno. São todos 
estes escriptos trabalhos de educador e por elles, bem como 
pela sua Cartinha e pela sua Gramática da lingua portuguesa, 
se prende indissoluvelmente o nome de João de Barros á 
historia da educação em Portugal. 

A Viciosa Vergonha tinha já sido promettida no prologo 
da Cartinha e com ella e com a Grammatica forma um sys- 
tema de educação da primeira infância. A moral que domina 
estes escriptos é a ethica enrista, acerescida de sentimentos 
activos, como o amor da gloria e o heroísmo, a dedicação 
civica, que trahem influencia de Plutarcho, o biographo dos 
grandes caracteres da antiguidade, e que, também, se har- 
monizavam perfeitamente com a concepção histórica do au- 
ctor da Ásia. De arte só têm a forma em diálogos e as per- 
sonificações de sentimentos, de faculdades da alma ou de 
abstractas idéas: na Ropicapnefma são interlocutores o tempo, 
o entendimento, a vontade e a razão. Além do interesse,, 
que devem merecer ao historiador das idéas moraes e das 
idéas sobre educação da mocidade, estas obras são um ves- 
tígio bem accentuado da influencia de Plutarcho e Séneca, 
auetores verdadeiramente cosmopolitas pela acceitação in- 
fluente que em toda a parte tiveram. 

A pequena obrinha de D. Francisco de Portugal ( 2 ) r 



o Dialogo com dons filhos seus sobre preceitos moraes. Porto, mdccclxix, 
340 pags. 

(i) V. Compilação de varias obras do insigne porluguez foão de 
Barros, Lisboa, mdcclxxv, 340 pags. 

(2) D. Francisco de Portugal, i.° Conde do Vimioso, nasceu etn 
Évora em anno que se ignora, e foi filho de D. Affonso de Portugal, 
depois bispo daquella cidade. Gozou de grande prestigio entre os seus 
contemporâneos e desempenhou missões de responsabilidade e confiança : 
acompanhou D. Manuel 1 numa sua viagem a Castella, acompanhou a 
princesa D. Isabel na sua viagem para a Allemanha, para se casar com 
Carlos v. Distinguiu-se por seus feitos militares em Arzilla. em 1509, 



Historia da Litteratura Clássica '525 

Sentenças, é o primeiro escrito deste género, máximas, em 
lingua portuguesa. Só em 1605 seu neto D. Henrique de 
Portugal publicou as Sentenças, o que faz attribuir a esta 
publicação tardia e fora das vistas de seu auctor as irregula- 
ridades de texto e deficiências de pontuação, que evidente- 
mente existem na obra, hoje mais divulgada, graças á 
reedição que delia fez em 1805 o sr. Prof. Mendes dos 
Remédios. Contém o livrinho duzentas e quarenta e seis 
sentenças em prosa e cento e trinta e oito em metro, as 
quaes versam, na sua grande maioria, a natureza humana, 
vista através dum pessimismo normativo, que simultanea- 
mente reprehende e quer ensinar. Elias e o theor de vida, 
activa, digna, esmoler e despretensiosa do seu auctor, attes* 
tam uma elevada vocação de moralista. E se nós fizermos 
uma combinação, nem muito profunda, nem muito subtil- 
mente philosophica, das tendências da moral christã, do 
estoicismo de Cicero, da lição dos grandes varões de Plu- 
tarcho e do pessimismo aristocrático e severo de Séneca, 
teremos recomposto o conteúdo dessa curiosa obra. Já por- 
que a lingua ainda então não possuía a necessária malleabi- 
lidade, já porque D. Francisco de Portugal, collaborador do 
Cancioneiro Geral, de Garcia de Rezende, não se acurasse 
em limar o seu estylo de modo a produzir a máxima ex- 
pressão e relevo, como mais tarde La Rochefoucald, de quem 
se conhecem differentes redacções das mesmas máximas, 
a dicção das Sentenças nem sempre é clara, antes muitas 
vezes o seu pensamento é obscurecido, mesmo occulto por 
uma redacção infeliz. Isto succede mais frequentemente nas 
sentenças em verso do que nas sentenças em prosa. Numas 



em Azamôr, em 1513, tendo chegado a governar esta praça em substi- 
tuição do Duque de Bragança, D. Jayme. Foi vedor da fazenda de D. 
Manuel 1 e de D. João in e camareiro-mór dos filhos deste rei. No fira 
da Tida resignou a vida publica e retirou para Évora, onde morreu em 
1549, deixando de si a recordação da muita beneficência que praticara. 



326 Historia da Litteratura Clássica 

e noutras predomina a forma parallelistica, quanto ao sentido; 
cada quadra tem dois pensamentos, que se exprimem por 
dois versos, mas nem sempre o segundo termo joga com o 
primeiro em correspondência lógica. D. Francisco de Portu- 
gal, porque viu muito mundo e porque o soube ver, conheceu 
bem a fragilidade da argilla humana, interesseiramente astuta 
e malévola e ás vezes um pouco inclinada ao bem, emquanto 
essa rara inclinação não envolve compromettimento. Essa 
fragilidade a aponta elle repetidamente, ensinando também 
algumas boas e sãs normas de prudência, de senso e gene- 
rosidade. Devemos, porem, notar que é mais arguto e mais 
amplo na comprehensão, emquanto observa e expande o seu 
desilludido pessimismo, do que na reprehensão, quando 
construe a sua moral. Esta é um conjuncto de máximas 
abstractas, que seriam o proceder duma consciência christã, 
justa e desambiciosa. O seu lado negativo é todo fundamen- 
tado na observação ; o lado positivo deriva da contemplação 
dum ideal inattingivel, quando muito de alguns casos em 
que a verdade e a justiça se revelavam ostentando o caudal 
das suas consequências. Surprehende como um fidalgo da 
corte de D. Manuel I pôde ter da vida uma visão tão desan- 
nuviada de preconceitos e uma tão critica interpretação, que 
o levaram a formular as opiniões seguintes, corajosamente 
declaradas : 



O que está na pessoa se deve estimar ; tudo o mais é da fortuna. — 

Calando se desonra quem com medo se cala. — 

Bem basta para desprezar o mundo, serem os homés julgados pellos 

homés. 
O poder endurece os máos, e justifica os bôs. 
A justiça como as mãos do sorurgião com quanta mais leuidão cura 

melhor he. 
A desestima dos bons dá ousadia aos máos. 
Para conhecer quem cada hú he, não ha differença de estados. 
O home somente a Deos, & á vergonha deve auer medo. 
O saber comú" aproua o q. se usa. 



Historia da Litteratura Clássica 327 

O estado dos Reys são os homés, o que os tem melhores he mais 

poderoso. 
O poderoso deve somente usar do poder da razão. 
Ao bom somente obriga o em que a virtude obriga. 
Rey deve ser triaga contra a mentira. 
Quem não emmudece vendo que falia com as orelhas dos homés, & não 

com os corações dos homés ! 
Os homens são jornaleiros do mundo ; paga mal a quem o despreza. 
Mais se sente ao? Reys calãdolhe ( sic ) verdades que dizendolhe {sic) 

mentiras. 
O verdadeiro a si mais que a todos deseja satisfazer. — 
Espanto he sosterse o mundo côa idolatria dos poderosos. — 
Ser sogeito a outrem he desterro da vontade. — 
Quem quizér emmendar o mundo seja em si. — 
Quem deseja ordenar o mudo não segue o mudo. — 
Os homens são alcatruzes do mudo, pellos sãos vem a ordem, e pellos 

quebrados se vay a virtude. 

Estas sentenças, que escolhemos e reproduzimos, mos- 
trarão que D. Francisco de Portugal, entre desdenhoso e 
desilludido, bem conheceu os homens, bem penetrou os 
motivos das suas acções, intelligentemente mediu o grande 
lugar que o mal occupa, só limitado pelo medo. A sua 
analyse profunda a todos observou, não detendo a sua curio- 
sidade nem ante os prejuízos do mundo, nem ante os pode- 
rosos, nem ante os reis. A todos apontou o mal e o bem, 
mas como este é só uma aspiração, desdenhou o mundo, 
fugiu delle, acoitando-se á sua consciência e a Deus ; á sua 
consciência porque era um individualista e a Deus porque 
era christão. 

Ser tão declarada e affoitamente individualista e, sendo 
christão, construir para expansão do seu individualismo uma 
moral tão nobre e tão ampla, e também tão estranha ao mys- 
ticismo, tão laica, como hoje se diria — é em que consiste a 
originalidade destas Sentenças, escriptas num tempo em que 
o mysticismo era a solução de todos os pessimismos. O que 
D. Francisco de Portugal pretendia era que, desilludido, se 
procurasse bem proceder: 



328 Historia da Litteratura Clássica 

He ignorância esperar 
Por outro tempo melhor 
E no presente acertar 
Convém sempre ao Sabedor. 

Apesar de claramente haver escripto: não ha buraco na 
mundo para escapar do mundo senão Deos, o auctor das Senten- 
ças nunca teve em mira a renuncia do mysticismo. Disso o 
preservaram as suas leituras dos moralistas clássicos, prin- 
cipalmente de Cicero, Séneca o Philosopho e Plutarcho, que 
ha a certeza de serem bem conhecidos nesse tempo em Por- 
tugal. 

A obrinha de Joanna da Gama, (*) Ditos da Freira, publi- 
cada a primeira vez em 1555 (?) foi muita mal conhecida até 
á reproducção feita por Tito de Noronha. Consta de vários 
pensamentos, ordenados alphabeticamente por seus títulos, 
a saber: affeição, adversidade, amizade, amor, amor próprio, 
arreceios, auctoridade, abilidades (sicj, bem do espirito, bens 
temporaes, bemaventurança, bons, contentamento, castidade, 
cegueira do coração, consultação, conselho, conversação, 
cortezia, cólera, coração, culpa, costume, cobiça, Deus, des- 
canso, discreção, desenganos, desejo, desassocego, descuido, 
dor, etc, etc. Sobre tão vasta e múltipla matéria compôs 
Joanna da Gama os seus pensamentos cuja philosophia se 
reduz ao desengano dum coração que reconheceu a inani- 
dade dos bens terrenos, expresso de modos muito communs, 
que não aceusa a perspicácia psychologica nem a redacção 
concentrada de D. Francisco de Portugal. Modestamente, a 



í 1 ) Joanna da Gama nasceu em Yianna do Castelo em anno, que 
se ignora. Após a morte de seu marido, retirou-se para Évora, onde 
fundou o Convento de S. Salvador do Mundo, no qual praticou as regras 
de S. Francisco até ao momento em que, por ordem do cardeal D. Hen- 
rique, as recolhidas se dispersaram. Morreu em Évora, em 1586. A sua 
obra corre na impressão dirigida por Tito de Noronha, Porto, 1872. 



Historia da Litter -atura Clássica 320 

auctora explica a sua obrinha: «Estes ditos me estam amea- 
çando que por elles heide ser condemnada no juizo de muv- 
tos: se a ignorância sobeja me faz sel-o que tenha necessi- 
dade de perdão, d'aqui o peço aos que o lerem. 

Assaz de muita pequice e pouca prudência, grande ou- 
sadia e alta presunçam seria a minha se cuidasse que ha 
ninguém de achar sumo ou sabor nestes ditos, pois sam fei- 
tos de quem nam sabe; pêra mim só os fiz por ter fraca 
memoria» ( 1 ). São effectivamente reflexões dum espirito 
propenso ao isolamento e já conhecedor dos valores do 
mundo, que curioso de a si mesmo se conhecer, de organi- 
zar o seu corpo de opiniões e. sentimentos, se deu ao tra- 
balho de registar o que lhe ia occorrendo. Não tem, nem 
pretendem ter originalidade, nem profundeza, nem brilho 
litterario. Acompanham os Ditos algumas peças poéticas, 
onde não sobra a inspiração e que repetem as reflexões da 
parte em prosa. 

B- ROTEIROS DE VIAGENS 

Dcs muitas viagens, que por mar e por terra, aventuro- 
samente fizeram os portugueses no século XVI, numerosas 
narrathas se fizeram, sem se limitarem aos trágicos episó- 
dios dcs naufrágios, quando das maritimas se occupavam, 
como os auctores dos opúsculos colleccionados sob o titulo 
genérico de Historia Tragico-maritima . Estas narrativas mais 
circurstanciadas foram os roteiros e itinerários, que só por 
coincilencia podem constituir géneros litterarios, por coinci- 
denciaporque o seu objectivo não era deliberadamente pro- 
curar a emoção esthetica, mas servir os estudos geographi- 
cos e . curiosidade de exotismo e maravilha. Litteraria- 
mente, aes obras participam de caracteres próprios do 



(*) \ Ditos, Pag. 23, ed. de 1872. 



330 Historia da Litter atura Clássica 

romance, da historia e das memorias. Como o romance de 
cavallaria, são apologias do heroimo individual e das virtu- 
des da perseverança, da abnegação e espirito de sacrifício, 
ainda .como o romance de cavallaria no maravilhoso roma- 
nesco cifram o seu interesse, e as suas aventuras decorrem 
em paizes exóticos litterariamente tão vagos como os da 
phantastica geographia dos Amadises e Palmeirins onde 
por consequência cabia toda a aventura. Da historia têm o 
escrúpulo de exactidão e das memorias a intenção autobio 
graphica; divergem, porem, daquellas porque visam mais i 
narrar as deslocações affoitas e complicadas do auctor-pro- 
tagonista no espaço, do que os feitos no tempo dum rei ou 
governador, e das memorias porque não têm os juizos e 
reflexões, que estes sempre comportam, as intimas revela- 
ções que delias fazem o principal mérito. Quem escreve me- 
morias abstrahe por completo do publico e sente-se, por 
isso, numa posição amplamente livre. Ora este cunbo das 
opiniões e julgamentos dos auctores é que não exiíte nos 
roteiros itinerários. 

Um dos mais curiosos e mais úteis roteiros é o da via- 
gem de Vasco da Gama, attribuido a Álvaro Velhq o qual 
é certamente de todos o menos litterario. D. João di Castro 
(1500- 1548), o famoso vice-rei da índia, escreveu tós rotei- 
ros e projectou um quarto, que provavelmente de projecto 
não passou. São esses três o Roteiro em que se contem a viagem 
que fizeram os portugueses no anno de 1541 de Gôa aii Suez, 
publicado em Paris, em 1833, por diligencias do 3outor 
Nunes de Carvalho; o Roteiro da Costa da índia, de Gã a Dio, 
publicado no anno de 1843 por Diogo Kõpke; e < Roteiro 
de Lisboa a Gôa, editado em 18S2 com importantef annota- 
ções históricas, geographicas, náuticas e astronómicas por 
Andrade de Corvo. O projectado teria sido um oteiro de 
outra parte das costas da índia. Estas obras intressam á 
historia da sciencia náutica principalmente, pois são a nar- 
rativa, em forma de diário, das viagens do illustrí guerreiro, 



Historia da Litter atura Clássica 331 

em que cada dia é designado sob a rubrica de caminho, e ó 
o caminho que realmente se descreve, só dessa descripção 
sahindo para nos referir as operações do calculo da altura 
do sol, fazer as suas notações e extrahir os seus corollarios. 

A seguinte passagem dará uma idéa do texto, naquella 
parte menos tomada pelas operações astronómicas : «Sesta feira 
3 1 de maio todo dia foi o vento calma ; quanto a naao gouer- 
naua, rizemos o caminho ao susueste e ao sul quarta de 
sueste : ( l ) o Piloto e mestre tomarão o sol, e acharanse em 
20 grãos -T-: este dia vimos muitos (*) grajaos e Rabiforca- 
dos. 

De noite toda foi o vento nordeste e lesnordeste muito 
bonança ; ao quarto da prima gouernamos ao sul quarta de 
sueste e ao susueste ; mas a modorra e alua gouernamos ao 
susueste e ao sueste quarta do sul » ( 3 ). 

O Padre Francisco Alvares ( 4 ) contou o que observara 
na corte do negus da Abyssinia, que longamente privou, na 
obra Verdadera informaçam das terras do Preste João... 1540. 

De Frei Gaspar da Cruz ( 5 ) possuímos uma curiosa obra 



(') Altura do meo dia. Nola de D. João de Caslro. 
(2; Aves aparecerão. Idem. 

(') V. Roteiro de Lisboa a Gôa, ed. da Academia Real das Scien- 
cias, Lisboa, 1882. Pag. 178. 

( 4 ) Francisco Alvares, cuja biographia em grande parte se ignora, 
fez parte da embaixada que, em 1515, D. Manuel 1 enviou ao soberano 
da Abyssinia, de que foi chefe Duarte Galvão, morto no caminho. Suc- 
cedeu-lhe no cargo D. Rodrigo de Lima, que o P. e Alvares acompanhou 
do mesmo modo, residindo na Abyssinia até 1526. Em 1527 voltou a 
Lisboa, donde ainda sahiu para acompanhar a Roma um embaixador 
abexim. Os seus serviços foram recompensados por D. João rn. 

( 5 ) Frei Gaspar da Cruz nasceu em Évora em data desconhecida 
e professou no convento de Azeitão. Em 1548 partiu para a índia com 
mais doze religiosos, sob a direcção do vigário Diogo Bermudes. Viveu 
em Gôa e Malaca, onde activamente trabalhou pelos progressos da reli- 
gião enrista, esteve no reino de Cambaia e em 1556 passou a missionar 
na China, onde foi o primeiro apostolo. Igual ministério exerceu no reino 



332 Historia da Litteratura Clássica 

de informação, mais quantiosa de noticias que os simples 
roteiros e itinerários, o Tratado em que se contam muito por 
extenso as cousas da China, com suas particularidades , e assim do 
reino de Ormus, Évora, 1570. 

António Tenreiro, Fr. Pantaleão de Aveiro e Fernão 
Cardim contaram também o itinerário de suas viagens. Po- 
rém sobre todos destaca Fernão Mendes Pinto, (*) auctor da 
Peregrinação, na qual alem do interesse geographico, que é o 



de Ormuz. Em 1569 regressou ao reino. Provido por D. Sebastião no 
cargo de bispo de Malaca, declinou essa dignidade. Falleceu em Setúbal, 
em 1570, victima de peste, quando se oceupava na caridosa enferma- 
gem dos pestíferos. 

(') Fernão Mendes Pinto nasceu em Montemór-o-velho provavel- 
mente em 1509, de familia humilde. Em 1521 um seu tio trouxe-o para 
Lisboa, onde serviu uma senhora nobre, de cuja casa fugiu por causas 
que não confessa, embarcando logo numa caravella que partia para Se- 
túbal. Nessa viagem foi a caravella accommettida por piratas, que apre- 
saram Mendes Pinto com outros tripulantes. No caminho para Marrocos, 
aonde ia ser vendido, os piratas assaltaram uma nau, que vinha da 
Africa, com opulenta carga, pelo que abandonaram os captivos na costa 
de Portugal para poderem vender no norte da Europa a carga roubada. 
Servindo vários amos se conservou no reino até 1537, anno em que par- 
tiu para a índia. No Oriente correu as aventuras extraordinárias, que na 
sua Peregrinação conta, e regressou a Lisboa em 1558. Passou o resto 
da vida em Almada, onde morreu em 1583. Filippe 1 concedeu-lhe uma 
tença de dois moios de trigo.— Devem-se ao sr. Christovam Ayres pro- 
gressos importantes no conhecimento das relações de Fernão Mendes 
Pinto com o Japão, consignados nas duas memorias Fernão Mendes 
Pinto — Subsídios para a sua biographia e para o estudo da sua obra, 
Lisboa, 1904, 127 pags., e Fernão Mendes Pinlo e o Japão, Lisboa, 1906, 
1.55 pags. A primeira funda-se sobre cartas de padres da Companhia de 
Jesus, contemporâneos do viajante, das quaes existe uma collecção na 
Bibliotheca da] Academia Real das Sciencias, e reconstitue completa- 
mente a viagem de Fernão Mendes ao Japão, desde a sua sahida de Gôa 
em 18 de abril de 1554 até á chegada ao porto japonês de Bungo em 
principio de julho de 1556, e depois a viagem de regresso a Lisboa, 
aonde chegou em 22 de Setembro de 1558. A segunda memoria escla- 
rece vários pontos importantes, como as relações do viajante-escriptor 
com a Companhia para cujo grémio entrara por occasião dos solemnes 



Historia da Litter atura Clássica :]:):) 

principal nas obras dos outros auctores nomeados, se exem- 
plificam dotes litterarios. A Peregrinação só publicada em 
1614 é um notável exemplo da arte de serenamente contar, 
que em grau eminente possuíram os portugueses do século 
xvi, minuciosos chronistas da historia episódica, e exempli- 
fica também flagrantemente o que era a vida aventureira dos 
viajantes e exploradores do seu tempo, que anciosos de ver 
e observar pacientemente corriam os maiores riscos e sof- 
friam humilhações para homens de hoje incomportáveis. 
Esse homem, que foi o primeiro europeu que desembarcou 
no Japão, muitos trilhos novos percorreu no Extremo Oriente 
e muitas cortes e costumes exóticos revelou á Europa. Na 
fluência da sua linguagem, feita de serenidade narrativa e 
sincera simplicidade, e na matéria, uma fieira complicada de 
aventuras, que vão do martyrio á extravagância complicadai 
da extrema miséria á grandeza cumulada de honrarias, se 
cifra o interesse litterario da obra. Os outros interesses, 
que ella pode despertar, são de natureza geographica. como 
obra de informação, pela sua prioridade e veracidade. 

C - RELAÇÕES DE NAUFRÁGIOS 

As relações dos naufrágios foram um dos géneros crea- 
dos pelo theor de vida que em Portugal se viveu, durante o se- 



funeraes de S. Francisco Xavier e donde sahiu por causas mal conheci- 
das, e a prioridade do seu descobrimento do império japonês. A discus- 
são deste ponto ultimo, ainda não derimido de modo definitivo, é feita 
á luz de fontes japonesas, a par de outras europêas. — São também de 
apreciar as contribuições do sr. Jordão de Freitas com os dois estudos 
Subsídios para a bibliographia portuguesa relaliva ao Japão e para a 
biographia de Fernão Mendes Pinto, no Instituto, vols. 51. ° e 52. °, Coim- 
bra, 1904-1905, e Fernão Mendes Finto — Sua ultima viagem a China 
(ijj4-ijjS), no Archivo Histórico Português, 3. vol., Lisboa, 1905. 
Este segundo escrito contem uma carti do P. e Luiz Froes, não mencio- 
nada entre as divulgadas pelo sr. Christovam Ayres. 



334 Historia da Litter atura Clássica 

culo xvi. Como eram periódicas as partidas de armadas 
para a índia e para o Brasil, repetidos eram os naufrágios, 
consequência já do permanente estado de guerra com mou- 
ros e piratas, já de insufficiencias da construcção naval, que, 
apesar de muito aperfeiçoada pelos nossos navegantes e de 
ser a navegação regida por sólidos princípios scientificos, 
ficava áquem da ousadia dos longos e perigosos percursos 
transcorridos. Ansiosa era a curiosidade de noticias das ar- 
madas que partiam, pois grandes eram os perigos e escassos 
os meios de haver essas noticias. Tão raras eram ellas que 
frequente era darem-se por mortos parentes ausentes, cujo 
destino longo tempo se ignorava, os quaes mais tarde ines- 
peradamente appareciam. Este regresso inesperado de paren- 
tes, do marido sobre todos, proporcionou alguma matéria 
litteraria aos comediographos deste século, como já vimos 
no capitulo respectivo. Esses auctores é que não extrahiram 
todos os recursos que esse thema comporta, o que Garrett 
muito mais tarde fez com superior inspiração dramática. Para 
satisfazer a curiosidade de noticias e para divulgar os nau- 
frágios sensacionaes, pelo grande perigo corrido ou pelo 
heroismo revelado, surgiu um género litterario novo, a rela- 
ção dos naufrágios, folha volante, que pela repetição e actua- 
lidade, se approximava um pouco do caracter periódico e 
noticioso do jornal moderno. Era um jornal sinistro que só 
pretendia divulgar as fúnebres noticias das mortes, incêndios 
e mil misérias que corriam no mar os que se aventuravam a 
essas longas travessias. Eram seus auctores humildes narra- 
dores, que reproduziam quanto haviam presenciado ou que 
compunham o que sabiam de outiva dos próprios figurantes 
desses pungentes dramas no alto mar. Numerosas teriam 
sido essas folhas volantes, de que muitas se conservam ainda, 
e cujo gosto durou alem do século xvi. No século xviii, 
um erudito curioso e de gosto, Bernardo Gomes de Brito 
(1688 — ?) reuniu uma collecção apreciável desses opúsculos 
em circulação, sob o titulo geral e bem appropriado de His- 



Historia da Litleratura Clássica 335 

toria Tragico-maritima, cujos dois primeiros volumes, únicos 
publicados, appareceram em 173,5 e 1736 (*). 

Nessa suggestiva collectanea estão comprehendidas as 
seguintes relações de naufrágios occorridos dentro do alcance 
chronologico deste livro: do galeão S.João, em 1552; da 
nau S. Bento, em 1554; da nau Conceição, em 1555; viagem 
e successo das naus Águia e Graça, em 1559; da nau Santa 
Maria da Barca, em 1559; da nau S. Paulo, em 1561 ; e da 
nau de Jorge de Albuquerque, em 1505. Estas relações são 
o que nós chamaremos arte litteraria por coincidência, pois 
não nasceu dum deliberado propósito de crear belleza per- 
duradora. A vivacidade de linguagem, impregnada de reali- 
dade, o tom simples da narrativa de casos por si mesmos 
intensamente emocionaes, que dispensam adornos e artifícios, 
a novidade das situações que descreve — o perigo extremo 
no alto mar • — fizeram dessas narrativas verdadeiras obras 
de arte. Por ellas, entrou no quadro dos themas litterarios 
o naufrágio, e duma delias nasceu até um poema épico, o 
Naufrágio de Septtlveda. Essas relações abrem horizontes 
novos aos olhos cansados de verem o mar através dos 
poemas homéricos e da Eneida, com suas tempestades regu- 
ladas por aquelles modelos e povoadas de nymphas; as 
relações revelam o mar tal como o viram, singraram e 
soffreram os marinheiros da índia. Grandes paginas de dor 
humana alli se contêm em esboços rápidos, mas não pouco 
vigorosos. E desenhando esses rápidos esboços, os narrado- 
res fazem-no como comparsas dos grandes dramas, pungen- 
tes e desesperados, que para sempre ficariam ignorados sem 
esses humildes e vibrantes chronistas. Fieis á verdade e 
entendidos na arte e nos perigos da navegação, não se 
preoccupam só com os effeitos dramáticos, dizem-nos a 



(') Em 1904-1907 appareceu nova edição da Historia Tragico-ma- 
ritima, em 12 pequenos volumes. Ao texto primitivo aggregaram-se ou- 
tras relações posteriores. 



336 Historia da Litteratura Clássica 

causa próxima do naufrágio, qual a peça da mastreação que 
primeiro o vento levou, e porque a não puderam reparar, 
quaes as velas despedaçadas e porque é que o novo leme, á 
pressa- construido, se não pôde collocar em seu lugar. 
Frequentemente o narrador «se achou no dito naufrágio»; 
por isso nos descreve com tão intensas cores essas horas 
trágicas de lucta com os ventos no mar deserto, com a 
única companhia e o único testemunho da viva fé religiosa. 
Esses transes agudos foram provas bem árduas da tempera 
heróica desses homens de enérgica vontade, de estreita 
solidariedade e forte crença em Deus. Após o perigo maior, 
«dissimulando cada um quanto podia o interno descor- 
çoamento que levava», enérgica e confiadamente corriam a 
novos riscos. Raros momentos de confusão nos são referidos, 
pois no ultimo lance quasi todos, resignadamente, se despe- 
diam, imploravam perdão de passados aggravos e aguar- 
davam a morte. Sem duvida a mais pungente narração é a 
do naufrágio de Sepúlveda e dos seus sorfrimentos em terra 
de cafres, daquelle Sepúlveda que enlouqueceu e morreu de 
dor, á vista da mulher e dos filhos, nus, mortos de tantas 
vexações e privações. 

Outras collecções de narrativas de naufrágios, inéditas, 
se guardam nas Bibliothecas Nacional de Lisboa e Munici- 
pal do Porto ( x ). 

D - EPISTOLOGRAPHIA 

Este género, só sob a forma poética teve cultivo intenso 
no século XVI, ao contrario do que veio a succeder nos 



(') V. Navegação portuguesa dos séculos xn e xvii — Naufrágios 
inéditos {Novos subsídios para a Historia Tragico-maritima de Portugal, 
Carlos de Passos, O Instituto, vol. 64. °, n.° 2, Fevereiro de 1917, Coim- 
bra, pags. 69-93. O auctor dá minuciosa descripção da collecção manus- 
cripta da Bibliotheca do Porto e publica, escrupulosamente copiadas, 
seis relações inéditas. 



Historia da Litter atura Clássica 337 

séculos subsequentes, em que quem alguma coisa tinha a 
dizer com pruridos litterarios, sempre adoptava a forma de 
carta, quando não tivesse preferido o dialogo pastoril, por 
já muito exhausto. Em lingua portuguesa, pois cí arte litte- 
raria elaborada com a matéria prima da lingua portuguesa 
sempre nos referimos, merecem especial menção as Cartas Por- 
tuguesas do bispo de Silves, D. Jeronymo Osório ( l ). É muito 
curiosa esta faceta do espirito do benemérito erudito, tão 
profundo e probo em seus estudos humanísticos como 
preoccupado do bem publico. São cinco as cartas recopila- 
das em 1819 e foram endereçadas ao rei D. Sebastião para 
o demover do seu projecto da jornada a Marrocos, ao mesmo 
aconselhando-o a casar com princesa da casa real francesa, 



(') D. Jeronymo Osório (1506-1580) é uma das mais illustres figu- 
ras do humanismo português do século xvi e ainda das menos estudadas, 
posto que as suas obras sejam de importância grande para a historiogra- 
phia, para a historia da philosophia, para a do direito e para a do uso 
litterario da lingua latina, em que brilhou entre os seus contemporâneos. 
A fonte principal para a sua biographia é o esboço, redigido por seu 
sobrinho e homonymo, que precede as suas Opera Omnia, Roma, 1592. 
Da sua estada em Salamanca é difficil colher novas noticias, porque o 
archivo universitário apresenta grandes lacunas correspondentes a essa 
epocha. Da sua chronica De rebus Emmanuelis geslis, publicada em 1571, 
deu Filinto Elysio uma traducçâo portuguesa em 1804-1806. As suas car- 
tas chamam-se portuguesas em opposição á que em latim dirigiu em 
1567 a Isabel de Inglaterra, a quem exhortava a voltar ao catholicismo. 
O texto dessas cartas é variável segundo os editores. Publicaram-nas no 
todo ou em parte Barbosa Machado, o Marquez de Pombal, (nas Provas 
da Deducção Chronologica), Bento José de Sousa Farinha, António 
Lourenço Caminha e Alvares da Silva. Recentemente a Imprensa da 
Universidade fez uma edição, em que adopta os textos de Barbosa 
Machado e Alvares da Silva e exclue uma 6. a carta, endereçada ao 
Cardeal-rei D. Henrique, que defende a candidatura de Filippe 11, de 
Hespanha, ao throno português. Cândido José Xavier deu uma resenha 
da edição de Alvares da Silva, Paris, 1819, nos Annacs das Sciencias, 
das Artes c das Letras, vol. 4.°, Paris, 1819, em que aponta importantes 
variantes textuaes. 

H. da L. Clássica vol. 1.» 22 



338 Historia da Litteratura Clássica 

ao Padre Luiz Gonçalves da Camará acerca da politica do 
reino e das influencias que sobre o moço rei deleteriamente 
se exerciam, á rainha D. Catharina solicitando-lhe que não 
sahisse do reino, ao rei sobre um litigio em Tavira occorrido 
por motivo dum conflicto entre os direitos reaes e as commu- 
nidades ecclesiasticas. Todas ellas tém grande desenvoltura 
de linguagem e ostentam coragem civica, desassombro e 
tino politico de quem muito havia estudado nos livros e nos 
homens. As duas cartas sobre o casamento do rei, sobre a 
jornada de Africa e sobre as influencias cortesanescas que 
sequestravam o rei do convívio e até o forçavam a residir 
em Lisboa, são muito frizantes exemplos dos dotes litterarios 
e moraes dessas cartas, que deixam a perder de vista as 
quasi gaguejantes cartas de Sá de Miranda, salvo o mérito 
da prioridade no uso da quintilha. E muito curioso e muito 
fecundo de effeitos lógicos o processo usado em duas cartas 
por Jeronymo Osório, de começar por defender e suppôr já 
realizado justamente o que elle depois vae impugnar. 



CONCLUSÃO 



De harmonia com a nossa concepção critica, procu- 
ramos descrever nos seus caracteres mais geraes, explicar 
pelas suas próximas determinantes e apreciar nos seus va- 
lores de maior vulto a productividade de arte litteraria 
desde 1502 a 15S0, desde o theatro vicentino, que ao renas- 
cimento deveu alentos, até que a perda da independência 
nacional, o mysticismo, o sebastianismo e o desenvolvimento 
próprio dos germens de mallogro, que em si mesma trazia 
essa litteratura, puzeram termo a essa epocha litteraria e 
iniciaram nova epocha, mais psychologica que artística. E 
agora que a consideramos no seu conspecto geral, bem po- 
deremos concluir que tal litteratura não cumpriu o seu pro- 
gramma. Não que alguma vez esse programma chegasse a 
ser posto duma maneira clara, objectiva, mas porque todas 
as litteraturas neo-classicas tiveram, implicito ou declarado, 
se não um ambicioso programma, pelo menos um sentido de 
evolução, um destino próprio. E esse destino não poderia 
deixar de ser o autonomizarem-se das litteraturas antigas 
para viverem de vida sua, não poderia deixar de ser o fazer 
uma construcção nova sobre as velhas e solidas fundações, 
que gregos e latinos lhes offereciam. A imitação dos velhos 
clássicos foi um bordão para o alvorecer da nova phase das 
litteraturas europêas, que, após a dissolução do gosto me- 
dieval, bárbaro e infecundo, a tal bordão tiveram de se arri- 



340 Historia da Litteratura Clássica 

mar emquanto não puderam caminhar com segurança, alfor- 
riadas dessa tutela. Mas, em breve, por toda a parte onde 
esse feracissimo movimento do Renascimento produziu seus 
fructos, esse bordão tornou-se supérfluo, e delle nada mais 
ficou que o sentido geral, o cunho dominante dentro de 
cujos moldes se executou a evolução histórica das modernas 
litteraturas ou a esperança e o recurso a que sempre se re- 
gressou, quando as forças de creação desfalleciam. 

Effectivamente é este o cunho geral, esta atmosphera de 
antiguidade que por toda a parte caracteriza o conjuncto da 
elaboração litteraria dos séculos XVI, xvu e xviii ; e são 
essas reviviscencias do espirito clássico que repetidamente 
contemplamos durante esse transcurso de tempo. 

Mas também o que vemos é que os vários géneros, nas- 
cidos da imitação dos antigos, ou porque conservassem ele- 
mentos medievos ou porque encorporassem outros poste- 
riormente accrescidos, soffreram transformações profundas, 
de modo que, dentro desse espirito de antiguidade, diver- 
síssimos são os idyllios de Theocrito e as bucólicas de Ver- 
gilio da Arcádia de Sannazaro, a Eneida de Vergilio do Or- 
lando de Ariosto ou dos Lusíadas de Camões, o theatro de 
Aristophanes e Plauto do de Molière, a tragedia de Euripi- 
des da tragedia de Corneille, como diversíssimos são os 
princípios por que taes obras se apresentam á nossa admira- 
ção. Mas dos modelos primeiros a estes exemplos modernos 
decorreu uma evolução complicada, sequente e consciente. 
Verificou-se, em Portugal, essa evolução complicada, se- 
quente e consciente ? Crearam os géneros vida própria e por 
seu mesmo passo acharam trilhos novos, formas novas e bel- 
lezas novas? E ao que vamos diligenciar responder. 

Logo á primeira vista se reconhecerá que tendo esta 
incipiente elaboração litteraria, que nós designámos de qui- 
nhentismo, soffrido o remate violento de 1580, com as suas 
consequências, incluindo a da penetração hespanhola, não 
poderia dentro do escasso currículo de três quartéis verifi- 



Historia da Litteratura Clássica 341 

car-se toda uma evolução litteraria — como em parte ne- 
nhuma se verificou. Em Itália, a litteratura clássica apresen- 
ta-se já então em plena maturidade, mas por ter sido prece- 
dida de alguns séculos de preparação, a todas se anteceden- 
do; em Hespanbe só no século xvn alguns géneros attin- 
gem plena florescência, como em Inglaterra ; e em França 
igualmente no século xvn se forma a sua epocha de esplen- 
dor. O século xvi foi a epocha de iniciação, em que os imi- 
tadores, sem qualquer noção de progresso litterario e de na- 
cionalidade em litteratura, apenas procuravam servilmente 
imitar os velhos modelos. Igualmente o foi em Portugal, 
mas aqui dessa phase não passou. 

Por esta razão nos insurgimos contra o dizer daquelles 
auctores que qualificam o século xvi como a epocha áurea 
da nossa literatura, e insurgimo-nos não porque no século xix 
localizemos esse esplendor, mas porque percorremos atten- 
tamente toda a nossa evolução litteraria sem nella nunca en- 
contrarmos esse esplendor, em parte alguma. O quinhen- 
tismo foi um embryão lançado á terra, que se não achava 
convenientemente preparada para o receber e fazer germinar 
com exuberância, e a esse mesmo lento germinar veio um con- 
juncto de circunstancias fazer abortar, A terra, neste caso o 
espirito nacional representado pelos seus escriptores, não se 
achava convenientemente preparada, porque não havia em 
Portugal nem viva tradição humanística, nem os hábitos do 
esplendido mecenatismo. O humanismo ao tempo dos en- 
saios de Sá de Miranda reduzia-se ao conhecimento de pou- 
cos auctores da antiguidade, restricto a um escasso numero 
de eruditos : só depois da reforma da Universidade e da 
creação dos collegios das artes, em 1537 e 1548, por D. 
João iii, a corrente dos estudos de humanidades engrossou e 
avultou, chegando a produzir nomes illustres no cultivo des- 
ses estudos, como os Gouvêas, os Estaços e os Caiados. Ay- 
res Barbosa, o primeiro professor universitário de grego, re- 
geu em Salamanca e já no primeiro quartel do século. E es- 



342 Historia da Litteratura Clássica 

tes eruditos portugueses professaram no estrangeiro e re- 
gressaram a Portugal, chamados já por D. João ni, de modo 
que, embora elles hajam attingido grande saber e capaci- 
dade, não foram obreiros da renascença litteraria da sua pá- 
tria, antes foram delia derivados, do espirito que ella infun- 
dia e derramava, foram uma consequência e não uma causa, 
ao invés do que lá fora succedêra. Creado em Coimbra, por 
esforços de D. João in, um foco de cultura humanística — 
no amplo sentido que esta designação pode comportar — 
logo as devassas e perseguições da Inquisição e a perda da 
independência politica o dispersam. E quanto a mecenatismo 
igualmente poderemos allegar que os escassos actos de pro- 
tecção ás jletras que nos são conhecidos partem exclusiva- 
mente, de reis e principes, ás letras se reduzem e a pedir 
copias de obras e conceder tenças se limitam . Dahi a estimu- 
lar com o gosto sincero e esclarecido, a organizar um meio 
idóneo, a recompensar com amplas munificencias que elevem 
e dignifiquem, vae grande distancia. 

A infanta D. Maria com suas damas é mais uma mulher 
illustrada, que se compraz na leitura e no estudo que uma 
protectora das letras. As grandes obras do mecenatismo são 
a creação do cargo de chronista-mór do reino, ainda' no 
século XV, por D. Duarte, e o acolhimento dado no paço 
ao theatro de Gil Vicente, que á rainha D. Leonor princi- 
palmente foi devido. Infelizmente o cargo de chronista- 
mór vinha servir uma intenção interesseira do amor próprio 
dos reis, e a protecção dada a Gil Vicente não tendo sequen- 
cia não pôde salvar o auto da morte a que a sua condição 
interna o condemnava. 

Mas a estas duas causas geraes, outras accresciam tam- 
bém de determinante influencia, como eram a incultura 
espiritual, o theor de vida nacional, a falta de espirito critico 
e philosophico, a [Inquisição e a perda da nacionalidade 
em 1580. 

A sociedade portuguesa desse tempo não era uma socie- 



Historia da Litteratura Clássica 343 

dade de intensa cultura intellectual. Estranha ao movimento 
scientifico da Renascença, ainda que para elle de modo 
decisivo houvesse contribuído com os seus descobrimentos 
maritimos e conquistas ultramarinas, quasi se reduzia a sua 
actividade puramente intellectual ao exercício poético, e o 
seu ensino na única Universidade se concentrava, cujo func- 
cionamento fora modernizado só por D. João III, como já 
referimos. Pedro Nunes, um mathematico, Garcia da Orta, 
um botânico, Francisco de Mello e os humanistas já nomea- 
dos, Rezende, um archeologo e antiquário, constituem o 
escol da mentalidade scientifica e philosophica. 

Mas, ou pela sua Índole de ténue influencia sobre o 
vulgo ou por s*e haverem exercitado e divulgado fora de 
Portugal, esses estudos de modo nenhum podiam crear uma 
sociedade culta, de gosto litterario elevado e exigente, de 
fino espirito critico, um publico criterioso, exigente com sóe 
ser o das grandes epochas litterarias, que são funcção da 
productividade dos auctores e das solicitações e receptividade 
do publico. Sem esse publico, não pode haver a potenciação 
de talento creador, multiplicando-se em cambiantes vários, 
que está no fundo de todas as epochas de esplendor litterario. 
Não podia a sociedade portuguesa ser uma sociedade de 
refinada cultura espiritual também porque todas as suas 
energias e recursos, o melhor sangue do seu sangue, tudo 
absorvia no emprehendimento bellico das navegações e 
conquistas; esse emprehendimento era um esforço titânico 
para um paiz de minguados cabedaes, de gente e dinheiro. 
Annualmente, no bojo dos navios que partiam, se ia boa 
parte da sua riqueza ('), que não era resgatada pelos pro- 



(') Seria de extrema utilidade para vários géneros de estudos 
elaborar quadros das armadas partidas do reino, como os que delineou 
o sr. Braamcamp Freire para os annos de 1488 a 1490, nos quaes se 
dessem informaçôss sobre a data da partida, destino, [composição da 
armada, capitão, tripulação e demora da viagem, quando chegavam a 



344 Historia da Litteratura Clássica 

ventos da troca dos productos coloniaes, troca dirigida por 
uma defeituosa administração económica. Era um empobre- 
cimento continuo, uma absorpção das attenções para o alèm- 
mar, que desnorteava os espíritos e os inadequava para o 
trabalho sereno da meditação. E, porGm, de justiça esclarecer 
que este modo de vida nacional se por um lado contribuiu 
para a impossibilidade de crear um meio litterario, solido e 
elevado, na metrópole, não foi de todo infecundo litteraria- 
mente porque abriu novos horizontes, revelou novas 
emoções, assim dando origem a géneros novos, como a 
historiogcaphia colonial, os roteiros, as narrações de naufrá- 
gios e a epopêa das navegações, a todos vivificando com o 
espirito novo da aventura. Se não houve' rspirito critico, 
e menos ainda critica litteraria, limitada aos conselhos e 
suggestões de Ferreira, se esta epocha litteraria não teve 
a presidi-la e guiá-la a acção normativa da critica, quizéram 
as circunstancias do viver, que então em Portugal se vivia, 
que ella formasse um conjuncto do certa originalidade, e 
essa originalidade consiste no cunho que sobre ela imprimiu 
esse theor de vida nacional, já suggerindo alguns novos 
themas á litteratura clássica ou metropolitana, já determi- 
nando a creação de novos géneros. A essa originalidade 
corresponde um interesse e uma curiosidade, certo prazer 
de leitura, que são dominados pelo exotismo, que prompta- 
mente cansa e se esgota. 

Influiu a Inquisição nos destinos desta litteratura, con- 
tribuiu mesmo para o seu mallogro ? Evidentemente. Pequeno 
paiz, cansado do sobresalto permanente que era o seu normal 
viver, empobrecido pelo esforço gigantesco que representava 



bom termo. V. Expedições e Armadas nes mino* de 140S e 1498. Lisboa, 
1915, 192 pags. V. também do mesmo auctor Emmcnta da Casa da índia, 
copia manuscripta dum livro fundamenta] da escripturação da Casa da 
índia, na qual se dão noticias das armadas desde 1503 até 1583. Foi 
publicada no Boletim da Sociedade de Geographia, Lisboa. 1907. 



Historia da Litteratura Clássica 345 

a manutenção dos seus emprehendimentos colonizadores e 
pela expulsão dos judeus, homens do dinheiro e de multípli- 
ces capacidades, levando a vida incerta duma fictícia pros- 
peridade mercantil, quando a Inquisição assentou em Lisboa, 
Coimbra, Évora e Goa os seus rigorosos tribunaes, começou 
as suas devassas e exemplificou os seus cruéis rigores, 
servindo umas vezes a intolerância religiosa e outras a cupi- 
dez do rei, abriu-se uma era de terror, — o que poderia ser 
ainda um estimulante de enei-gias de curto fôlego e de fisca- 
lização dos rumos que o pensamento seguia. — e esta espécie 
de severa policia espiritual é que veio estancar as fontes da 
originalidade creadora. Servida pelos Índices expurgatórios 
e pelas complicadas formalidades de exames e licenças que 
precediam a publicação dum livro, essa policia espiritual 
correu uma cortina sobre os vastos horizontes do mundo 
profano e da heterodoxia, limitando por longo tempo e 
inexoravelmente o campo da creação á matéria religiosa, á 
estreitamente afim ou intimamente de accordo com ella. A 
publicidade morosa e dirficil reduziu-se consideravelmente, 
a leitura limitou-se de tal modo que alguns auctores e algumas 
obras esqueceram, apagaram-se da memoria nacional, dor- 
mindo um vasto somno de catalepsia, só terminado á força 
ie sacudidelas da erudição. Em taes casos, como era possível 
uma tradição litteraria nacional ? 

Poderia a Inquisição, com as suas devassas e defesas, 
com a sua tyrannia, impellir a originalidade creadora para 
nova vereda, a do mysticismo, onde os auctores e o publico 
encontrassem a mesma pujança de lyrismo, a mesma vehe- 
mente eloquência, a mesma delicadeza conceituosa que nou- 
tra parte buscavam. Para tal acontecer seria necessária uma 
potencia creadora, que entre nós não existia então e que, 
pequeno, centralizado e combatido como era o Portugal de 
então, se não deixasse absorver inteiramente pela acção illa- 
queadora do Santo Officio. Isso conseguiu a Hespanha, paiz 
muito maior, que no seu imperialismo europeu ampla com- 



34 G Historia da Litter atura Clássica 

pensação encontrava para as despesas de energia feitas na 
America e que possuia forças creadoras muito superiores. 
Isso succedeu em Hespanha, mas só no século immediato, 
em que a Inquisição e a liberdade de creação litteraria pode- 
ram coexistir, porque esta soube encontrar uma plataforma 
acceitavel. 

Para o mysticismo pela via do sebastianismo derivou 
effecti vãmente o espirito nacional, mas com tão completa 
obliteração do senso critico que seria pedir-lhe o impossivel 
esperar delle novas creações litterarias. 

Mas muito melhor se verificará a veracidade do nosso 
modo de apreciar o quinhentismo português se nós apontar- 
mos o destino que seguiu cada género litterario do que se 
nos limitarmos a considerações geraes, necessariamente teci- 
das com espirito deductivo. 

Ora esse exame á saciedade nos demonstrará que o 
embryão do classicismo, a esthetica clássica, não fructificou 
em Portugal, pois das suas varias partes umas morreram 
sem successão, outras continuaram-se sem brilho e outras 
ainda só fora de fronteiras conseguiram a plena expansão 
dos seus recursos. 

Em matéria de theatro, esta epocha litteraria produziu 
os autos vicentinos, os medíocres ensaios de comedias clás- 
sicas, de António Ferreira e Jorge Ferreira de Vasconcellos 
e as tragedias Vingança de Agamenon de Victoria e Castro 
do mesmo Ferreira. O auto — género feito de indetermina- 
ção, lyrico, satyrico, pastoral, cavalheiresco, patriótico, ple- 
beu no tom, baixo na linguagem — morreu com Gil Vicente, 
pois os seus continuadores nenhum movimento lhe atribuí- 
ram, que comportasse modificações estructuraes. 

E se fossem repetir os progressos mais ousados, conse- 
guidos por Gil Vicente, mais e mais se arrastariam do cami- 
nho do aperfeiçoamento do theatro. Se se houvesse chegado 
a estabelecer uma creação dramática nacional, outro não 
poderia ter sido o sentido dessa tradição senão a fusão do 



Historia da Litteratura Clássica -'U7 

auto vicentino e da comedia clássica; o auto tomaria da 
comedia a sua perfeição estructural, pois estulto é querer 
arripiar caminho e desdenhar os resultados da experiência 
seleccionadora dos séculos; a comedia acceitaria do auto a 
nova matéria cómica que elle mesmo soubera achar. Deste 
modo se tornaria consciente, autónomo e nacional, esthetica- 
mente differenciado, o theatro, e não teríamos visto morrer, 
afundado no anonymato e na insignificância da litteratura 
popular, a magnifica creação de Gil Vicente, como não se 
limitaria ás servis imitações, que só possuímos, o nosso thea- 
tro clássico, de Paulo e Terêncio tomando as intrigas e os 
meios servis, em que decorrem. 

Em El-Rei Seleuco Camões fez uma tentativa feliz ; gra- 
ciosa, mas com os defeitos próprios do auto e por isso mesmo 
extemporânea, foi a tentativa de D. Francisco Manuel de Mello, 
com seu Fidalgo Aprendiz. As modificações em seu theatro 
introduzidas por António José da Silva, já no século xvin 

— texto mixto, prosa e verso, e elemento musico e coral 

— não puderam eliminar o hybridismo desse theatro, antes 
o complicaram. Foi em Hespanha que o auto vicentino con- 
tinuou a sua evolução, onde o génio de Lope de Vega, Cal- 
deron de la Barca e Tirso de Molina lhe esgotaram todo o 
conteúdo, levando-o ás suas ultimas consequências. Das 
imperfeições do género triumpharam a imaginação, o instin- 
cto dramático e o estro lyrico destes poetas. 

É certo que foi António Ferreira quem primeiro ensaiou 
a nova forma, que a tragedia iria revestir e que faria o 
triumpho desse género em França, mas como não teve con- 
tinuadores e como todas as novidades em historia litteraria 
se costumam datar daquelles que as fizeram triumphar, 
perdeu-se o significado do seu papel innovador. De theatro 
trágico, apenas teremos muito depois, já no movimento res- 
taurador da Arcádia Lusitana, de António Diniz, aquella 
abundante profusão de peças, que se dizem trágicas, mas a 
que totalmente falta o espirito trágico. Durou essa moda 



348 Historia da Litteraiura Classim 

até ao século xix, e nella chegou a cooperar o próprio 
Garrett. 

Do lyrismo, conseguiu-se estabelecer uma tradição para 
o soneto, que vivificado pelo génio de Camões, acompanha 
desde então a nossa lingua. Vimo-lo nascer, sob a influencia 
de Petrarcha, cultivado com êxito pequeno por Sá de Miranda 
e seus discípulos, vimos formar-se um mundo poético próprio 
do soneto, por todos tentado, mas só por Camões ampla, 
original e genialmente tratado. Conhecemos outras modali- 
dades, como o soneto laudatório e o soneto mystico. Umas 
e outras serão cultivadas depois, o soneto mystico de Antó- 
nio das Chagas, o soneto gongorico, o soneto bocageano, o 
soneto pinturesco e o soneto philosophico. Estranho a limi- 
tações de escolas, este pequenissimo género poético todas 
atravessará e de todas escolherá os elementos que melhor se 
adaptarem á sua estructura, e o seu êxito muito dependerá 
da conservação dessa mesma estructura incólume. 

A novellistica de fora veio e para fora regressou, O 
triumpho da novella pastoral deve-se a um português, Jorge 
de Montemor, que por haver escripto em lingua hespanhola 
á historia da litteratura hespanhola pertence. De fora nos 
veio, porque a sua modalidade pastoril é de proveniência 
italiana e a sua modalidade cavalheiresca, embora se prove 
a existência duma redacção portuguesa do Amadis de Gaula, 
não é originalmente portuguesa. Para fora regressou porque 
foi em Hespanha com Cervantes, em França com Lesage 
e em Inglaterra com Fõe que novas e progressivas formas 
revestiu. Em Portugal o género continuou-se sob a forma 
pastoral, tecido de lugares communs da escola, sem accres- 
cimo de novidade ou interesse, e um dos seus continuadores 
immediatos foi Rodrigues Lobo, fatigante auctor da trilogia 
da Primavera. 

A historiographia foi quantiosa, mas deixou-se impregnar 
em excesso de espirito épico, que lhe dá o tom grandíloquo 
e exaggerador, que nella observamos e lhe retira espirito 



Historia da Litter atura Clássica :U0 

critico; carece geralmente de espirito de proporção, de cri- 
tério de realidade e na maior parte dos casos é uma narra- 
tiva de factos miúdos, que se não apreciam, antes se avul- 
tam. Este defeito nota-se mais na parte colonial que na 
metropolitana. E todavia meritória por trazer á tela histórica 
mundos e povos até então mudos para os europeus e ainda 
pelo caracter pittoresco que ostenta. Esse caracter da nossa 
historiographia, grandemente colonial, affastou-a do typo 
humanístico de construcção histórica, creado pela Itália, 
como em seu próprio lugar referimos. Dessa tendência huma- 
nística poucos são os signaes em Portugal, a saber: o en- 
cargo commettido a Matheus Pisano e a D. Frei Justo Ba!- 
dino, bispo de Ceuta, ambos italianos, de traduzirem para 
latim as chronicas do reino; a obra do bispo de Silves, 
D. Jeronymo Osório, De rebus Emmanuelis gestis ; e a traducção 
parcial da obra do italiano Sabellico (1436- 1506) Enneades ou 
Rhapsodice historiarum, por D. Leonor de Noronha, (1488- 
x 5 6 3)- O Tomamos como signal de tendência humanística o 
projecto da traducção para latim das chronicas porque esse 
trabalho não se limitaria a uma rigorosa versão, seria antes 
uma paraphrase, uma recomposição da obra, como era usual 
na epocha e como ainda Pisano chegou a fazer no seu Livt0 
da Gueira de Cetita, em relação a Azurara. Em se affastar do 
typo humanístico da historiographia italiana e se crear um 
typo próprio, a chronica ultramarina, consistiu a originali- 
dade da nossa historiographia quinhentista. Enganar-se-hia 
porem de todo em todo quem a essa historiographia fosse 
pedir complicada philosophia histórica ou elevados dotes 
litterarios, reconstituições psychologicas , vivas descripções, 
pois geralmente o seu estylo é apathico e uniforme, só se 
animando para louvar e encarecer. A fidelidade da narrativa 
vem a reduzir- se consideravelmente, porque o mvsticismo 



( 1 ) V. Coronyca geral de Marco António Cocio Sabeliro des Jm. 
começo do mundo ate nosso tempo. . ., Coimbra, 2 vols., 1550 e 1553. 



350 Historia da Litter atura Clássica 

virá obliterar essa rudimentar forma de espirito critico, verda- 
deiramente mais probidade que outra coisa. A historiographia 
alcobacence e os historiadores mysticos introduzirão neste 
género uma credulidade dogmática, e Jacintho Freire de 
Andrade fará avultar o seu tom oratório. 

Será uma excepção a Historia de los movimientos , separa- 
cion y guerra de Cataluíia, en tiempo de Felipe IV, que por ser 
escripta em lingua castelhana, como a Diana, á litteratura 
castelhana pertence. Será a Academia Real da Historia, 
creada por D. João V, que abrirá uma nova epocha de pro- 
bidade histórica. Todavia, cumpre registar, será sempre o 
século xvi, a epocha que estudámos, a parte mais florescente 
da nossa historiographia, e pelo seu assumpto o de mais 
largo, mais humano interesse. 

Na épica, conseguiu o génio de Camões crear uma epo- 
pêa nacional, conciliando os moldes clássicos com o espirito 
do seu tempo e as condições históricas do seu paiz. Em que 
consistiu a originalidade do poema camoneano, em seu pró- 
prio lugar o dissemos. Agora perguntaremos se as frias 
narrativas rimadas, sem espirito épico, que se lhe seguiram, 
bastam, com a sua abundância quantiosa, para podermos 
considerar como vivificado o género épico na lingua portu- 
guesa e através dos séculos XVII e XVIII vivendo de vida 
própria, intensa e sempre nova? Evidentemente que o poema 
épico com Camões morreu, pois nunca mais outro génio 
creador, como o poeta dos Lusíadas, abeirou esse género e 
nunca mais a vida politica e social de Portugal offereceu tão 
abundante e inspiradora matéria épica como a que no século 
XVI Camões tomou, nem teve mais originalidade igual. 

A prosa mystica estabeleceu-se e perdurou, até com 
variantes e progresso, principalmente no P. e Manuel Bernar- 
des, conceituoso e purista. 

E aquelles géneros, que das especiaes condições da vida 
do tempo nasceram e que ao gosto do exotismo ou da origi- 
nalidade e aventura correspondiam, necessariamente morre- 



Historia da Litteratura Clássica 351 

ram logo quo essas condições caducaram e essa curiosidade 
satisfeita verificou a sua forçosa monotonia. Só por coinci- 
dência eram elles obras litterarias, não podiam por isso 
multiplicar e variar attractivos que não tinham em vista. 

É esta litteratura suficientemente rica e variada para 
ser appellidada do século áureo, epocha de esplendor, como 
Irmos em tantos auctores, até nos de melhor critério, e como 
se ensina nas escolas publicas? Se assim fosse, ainda mais po- 
bres, insufficientes e escassos de originalidade deveriam ser os 
séculos anteriores e posteriores da nossa historia litteraria. 

Se o quinhentismo, por nós descripto, clássico porque 
dentro dos moldes estheticos da antiguidade decorreu, clás- 
sico porque já não é medieval e ainda não é romântico, se 
este quinhentismo português fosse também clássico por ser a 
phase mais rica de valores litterarios, mais significativa pela 
sua comprehensão humana, se elle fosse para nós o que foi 
para a França o século de Luiz xiv, o que foi para a Ingla- 
terra a epocha da rainha Anna e de Jorge 1, o que foi para 
a Allemanha a epocha de Herder, Goethe, Lessing e Schil- 
ler, o que foi para Itália a epocha de Ariosto, Machiaveli e 
Tasso — certamente encontraríamos nelle outras mais altas 
virtudes estheticas que as que lhe apontámos. Elle não seria 
tão imitador, viveria mais de si mesmo, da concentração das 
suas próprias forças creadoras e teria capacidades de expan- 
são penetradora, de suggestiva irradiação; embora elabo- 
rasse elementos outrora recebidos de fora, reagiria podero- 
samente e seria uma epocha litteraria de capacidades 
determinantes e estimulantes, irradiaria mais do que pediria. 
E assim não succedeu. 

Nessa hypothese, a nossa litteratura quinhentista teria 
produzido os melhores modelos da boa linguaguem portu- 
guesa, perfeita como meio de expressão e instrumento de 
belleza e a ella teríamos sempre de regressar para tonificar- 
mos a nossa lingua em pureza, belleza, elegância, poder 
expressivo por meio da lição desses clássicos. 



352 Historia da LiHcratiira Clássica 

Ora isso não succede: não são do século XVI os melho- 
res clássicos da lingua portuguesa, antes muito posteriores, 
como Vieira, Bernardes, Frei Luiz de Sousa e Lucena, e nús 
não cremos que entre Damião de Góes, João de Barros, Gil 
Vicente ou Moraes, d'um lado, e Vieira, Lucena, Bernardes 
e Frei Luiz de Sousa possa haver hesitação quando se quizér 
discriminar quaes são verdadeiramente os clássicos da lingua 
portuguesa. O quinhentismo não teve esses clássicos — por- 
que a lingua não attingira o acumen da sua perfeição — 
referimo-nos ao nosso ponto de vista esthetico e critico e 
não philoiogico, pois para o philologo uma lingua esthetica- 
mente perfeita é um monstro. A lingua dos quinhentistas ou 
está muito próxima da sua phase archaica, como em Gil 
Vicente, Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam 
Falcão, ou não assimilou ainda a grande riqueza lexicogra- 
phica, syntaxica que os estudos humanísticos lhe proporcio- 
navam, nem achou ainda a vasta variedade de modos de 
dizer que a necessidade e a própria experiência da arte de 
escrever ensinariam, como vemos nos auctores restantes. Se 
ella tem em João de Barros certa gravidade e em Fernão 
Mendes Pinto certa simplicidade pittoresca, em todos carece 
de variedade, é monótona, move-se dentro de alguns poucos 
caixilhos que enquadram e apertam o discurso, comprimem 
a expressão. Essa monotonia em Damião de Góes desce até 
á pobreza, quasi até á uniformidade. A lingua dos nossos 
quinhentistas será um passo progressivo na historia da lin- 
gua portuguesa, está porém longe da sua forma perfeita. 

Um pouco hirto, sem plasticidade, esse estylo estava 
ainda virgem de certas adaptações, como o estylo philoso- 
phico e scientifico, com suas complexas e bem definidas 
terminologias. 

Uma condição só, cremos nós, se verifica, ao menos 
Darcialmente, no nosso quinhentismo daquellas três que 
usualmente ostentam as epochas de esplendor das varias 
litteraturas, e é ella o ter um forte cunho nacional. Ainda 



Hwtona <fa IÀtteratum Clássica 3§8 

que limitado pelo patriotismo, esse cunho nacional é evidente 
e caracteriza se principalmente por aquelles géneros e aquel- 
les themas provindos das especiaes condições de vida do 
paiz e que nós já apontámos. Mas esse nacionalismo não 
teve energia para reduzir a dependência das litteraturas 
estrangeiras em que se encontrava a litteratura portuguesa. 

Estas três condições — independência ante as litteraturas 
estrangeiras, perfeição da língua, fiel reproducção do caracter 
nacional — discriminou-as Brunetière nos períodos áureos 
das varias litteraturas da Europa, e da convergência das três 
extrahiu a noção de classicismo, não já com referencia aos 
velhos modelos de Grécia e Roma. mas em sentido abstracto, 
de bom, de perfeito. Não as verificamos nós no nosso século 
xvi. Depois, se applicarmos ás creações deste século, pura- 
mente artísticas, theatro, poesia ou romance, um módulo de 
valores litterarios, se formos indagar que themas elaborou 
que ainda hoje fallern com emoção á nossa consciência de 
homens e de portugueses, mesmo feitas as necessárias acla- 
rações da relatividade do gosto, acharemos em quasi todos 
esses themas um caracter de frívola infantilidade, que não 
interessa, nem commove, nem edifica moralmente e que faz 
um contraste desagradável com o esforço desses gigantescos 
homens de acção, heróicos e temerários, que eram os guer- 
reiros, os navegadores e os missionários de Marrocos, da 
índia e do Brasil. São exemplos disso sobretudo o bucolismo, 
os ensaios de theatro clássico e os romances. Estes ainda 
têm a attenuante de servirem com sua enredada intriga a 
necessidade de distracção e devaneio por meio da frequência 
ideal dum falso mundo, tido como tal e por isso mesmo 
attrahente, o mundo da maravilha. Esses romances eram 
para os leitores do século xvi o que são hoje para as crean- 
ças as historias phantasticas. A belleza da vulgaridade quo- 
tidiana só souberam achá-la mais tarde outros auetores e 
outro publico, 

Do que fica dito se conclue o infundado da doutrina 

H. Vi L. O.ARR1CA, TOl. !.• 



354 Historia da Litter atura Classie-a 

daquelles escriptores modernos que, concordes em que é 
necessário promover uma reviviscencia das letras portuguesas, 
apontam como solução o que elles chamam o regresso á 
tradição portuguesa representada na sua idade de ouro, este 
abortado e exhausto século xvi. Sollicitados para exemplifi- 
carem a sua doutrina, grandes seriam as suas perplexidades. 
De facto, se puzérmos de lado prejuizos nacionalistas, feitos 
de exaltado patriotismo e de outros sentimentos, mas não 
inspirados por imparcial espirito critico, poderemos procurar 
com attenção, paciência e infinita boa- vontade que nunca 
lograremos saber qual a capacidade determinante da obra de 
Sá de Miranda ou do theatro de Jorge Ferreira ou do buco- 
lismo abundante desse século. Será licito esperar uma epocha 
fecunda de valiosas obras dramáticas da leitura e imitação 
de Gil Vicente? O que ultimamente se tem presenceado já 
responde pela negativa, pois da moda vicentina não vieram 
forças novas para os géneros dramáticos, entre nós em ex- 
trema decadência. Será licito esperar que a lição dos chro- 
nistas determine a restauração dos estudos históricos e o 
apparecimento dalgum moderno historiador, de larga com- 
pleição intellectual como para esse districto dos estudos se 
exige? Não, porque até uma das boas normas de quem 
modernamente pretenda fazer historia, será reduzir cada vez 
mais a leitura e o acatamento dos clássicos, por menos dignos 
de crédito. Terá fundamento legitimo a esperança de que 
da novellistica quinhentista possa provir uma nova forma ao 
moderno romance português? Não, porque desde então até 
ás formas ultimas do romance grande caminho se ha percor- 
rido, e insensato seria querer regressar a uma forma obsoleta 
ou delia querer extrahir o que os séculos já ha muito extra- 
hiram e lentamente elaboraram. 

Não, decididamente, não é aos quinhentistas que se 
hão-de ir buscar as forças credoras de novas bellezas littera- 
rias, mas á vida moderna, representada já nos estados de 
consciência, que nas modernas litteraturas estrangeiras se 



Historia da Lit ter atura Clássica 355 

trahem, já na vida — triste vida! — que em Portugal se vive. 
Ter-se-ha de inaugurar uma epocha de imitação, de ampla e 
insatisfeita neophilia, de vasto cosmopolitismo, haverá que 
se intensificar — deixemo-nos de euphemismos — , haverá que 
se iniciar o gosto dos estudos críticos e philosophicos, pois 
não ha litteratura superior sem espirito critico e sem espirito 
philosophico. 

Sahindo do estricto nacionalismo, essa litteratura aberta 
a todas as influencias veria entrar em seu seio, trazidos por 
fortes rajadas de pensamento e de arte, os germens fecundos 
de novas formas e novas idéas. Desnacionalizada a principio 
e fecundada depois pelo pollen vigoroso que um vento de 
novidade de longe lhe trouxera, cobraria alentos e elaboraria 
de maneira própria esses germens, nacionalizá-los-hia. O 
nosso mal tem sido a obstinação em querermos ser só portu- 
gueses, esquecendo-nos que essa qualidade tem de convergir 
com outras, a de europeus e a de homens. Ora, sem um fundo 
de permanentes valores humanos e sem a solidariedade ideal 
que liga todas as principaes litteraturas europêas, não é 
possível um progressivo movimento litterario. 

Deste modo, a revolução a fazer seria de sentido inverso á 
que Herder levou a cabo no seu paíz, conduzindo a litteratura 
allemã da imitação estrangeira á originalidade nacional. 



ADDIÇÕES E CORRECÇÕES 

A 2.* EDIÇÃO) 



Pags. 38-39 . . Os créditos litterarios de Fernão Lopes, cujo estude» 
desenvolvido estava fora do plano deste livro, têm 
subido grandemente nos últimos tempos, graças á 
monographia, que lhe dedicou o insigne lusitani- 
sante Mr. Aubrey F. G. Bell e que é a 2. a da serie 
portuguesa das Hispanic Notes o Monographs, que 
a Hispanic Society of America vem publicando ; e 
aos três volumes cia vuigarisaçâo das suas mais 
formosas paginas, que lhe destinou na sua Anlholo- 
,í,ia Portuguesa o sr. Prof. Agostinho de Campos. 
Cabe a estes dois illustres campeões da nossa cultura 
litteraria a gloria do inicio dum movimento de sym- 
pathia e curiosidade pelo velho chronista, á luz dum 
gosto mais esclarecido e também mais liberto da 
concepção clássica dos valores litterarios. 
A esta corrente de opinião pretende oppôr-se .Mr. W. 
Bentley, que da comparação do texto da Chronica 
de D. João 1 com o dum manuscripto da Bibliotheca 
Nacional conclue ter sido Fernão Lopes somente um 
plagiário. 
Pag. 60, nota. . Além dos notáveis estudos vicentinos, apontados a 
pags. 176-180 da Critica Litteraria como Sciencia, 
a sr.* D. Carolina Michaclis de Vasconcellos fez 
recentemente, quando já estava impresso o capi- 
tulo deste livro sobre Gil Vicente, uma importan- 
tíssima publicação, pelo Centro de Estudos Históri- 
cos de Madrid, Autos portugueses de Gil Vicente e 
da escola vicentina. É uma introducção á edição fac- 
similada de 19 autos a saber: 



358 Addições e Correcções 



Summario da Historia de Deus e Auto de Inês Pereira, 
de Gil Vicente ; Auto do Nascimento e Auto de Santa 
Caterina, de Balthaza r Dias; Auto de Santiago e 
Auto de Santo António, de Affonso Alvares; Auto 
do Dia de Juízo, anonymo ; Auto das Re gat eiras, de 
António Ribeiro Chiado ; Auto dos Dous Ladrões, 
de António de Lixbôa ; Auto de Florença, de Joam 
de Escovar; Auto da Bella Menina, de Sebastião 
Pires ; Auto do Duque de Florença, anonymo ; Farsa 
penada, anonyma ; Auto de Vicente Anes Joeira, ano- 
nymo; Auto de D. Fernando, anonymo; Auto dos 
Capellos, anonymo; Auto dos enanos, anonymo; 
Auto de D. André, anonymo; e Atuo de D. Luiz e 
dos Turcos, anonymo. 
A gloriosa auctora recapitula as conclusões, a que che- 
gou nas Notas Vicentinas, precedentemente publi- 
cadas, descreve externamente os opúsculos avulsos 
que bibliographicamente formam os autos, cuja 
existência lhe foi revelada por D. Ramon Menén- 
dez Pidal, e apresenta noticias sobre os auctores e 
dados novos acerca da censura inquisitorial. Como 
se vê, a publicação que este trabalho prefacia, vem 
enriquecer de espécies desconhecidas e noticias 
inéditas a modesta historia do theatro português do 
do século xvi. 

Pag. 69, lin. io.a Em vez de 1532 leia-se 1535. 

Pag. 69, lin. i2.a Em vez de 1470 leia-se 1535. 

Pags. 257-271. . Só em 1920 lemos as conferencias de Joaquim Nabuco 
sobre Camões e os Lusíadas, proferidas nos Esta- 
dos- Unidos, das quaes se publicou modernamente 
uma traducção em lingua portuguesa, devida ao 
sr. Arthur Bomilcar. Entre a nossa apreciação do 
lyrismo camoneano e a interpretação delle pelo 
insigne orador brasileiro ha pontos de coincidência, 
que, sem aíTectarem a nossa inteira autonomia 
espiritual, muito nos lisonjeiam. 

Pags. 339-355- • A conclusão deste livro foi redigida á luz dum con- 
ceito esthetico inteiramente clássico, com o qual 
fomos aferir os valores litterarios do nosso quinhen- 
tismo — designação menos compromettedora que a 
de classicismo , porque apenas tem sentido chrono- 
logico sem prejuízo esthetico — e compará-lo com 



Addições e Correcções 359 



a avoluçâo litteraria de outros povos, de condições 
históricas e moraes bem diversas das da sociedade 
portuguesa. A bellezae a originalidade da litteratura 
nacional do século xvi reside precisamente, exce- 
pção feita de Camões, nas obras e nos géneros que 
mais se apartam do typo neo-classico do | umanis- 
mo : theatro vicentino, historiographia colonial e 
narrativas de viagens. Taes obras e taes géneros 
affastar-se-hão dos cânones helleno-romanos, mas 
são os que mais fielmente traduzem a individuali- 
dade nacional, no momento supremo da sua exis- 
tência histórica. 
Assim fica suggerído o caminho a futuros impugna- 
dores. 



ÍNDICE 



N»TA TRÉTIA 5 

Ihtbcducção : A litteratura medieval. — O humanismo. — O re- 
nascimento 7* 

Capitulo 1 — Gil Vicente 53 

i. a phase (1502-1508) 59 

2. a » (1508-1516) 62 

3 . a » (1516-1536; 70 

Capitulo II — Sá de Miranda : 

A vida 99 

O homem 105 

O poeta 107 

O comediographo 119 

Capitulo III — theatro c/assico : 

A — A tragedia 129 

B — Comedia 144 

Capitulo IV — Lyrismo 153 

Bernardim Ribeiro 154 

Christovam Falcão 157 

António Ferreira 166 

Pedro de Andrade Caminha 173 

Diogo Bernardes 176 

Fr. Agostinho da Cruz 178 

Capitulo V — As novellas 183 

João de Barros 187 

Jorge de Montemor 190 

Francisco de Moraes 191 

Bernardim Ribeiro 204 

Jorge Ferreira 211 



362 Índice 



PAG. 



Capitulo VI — A historiographia 215 

João de Barros 220 

Damião de Góes , 230 

Braz de Albuquerque 243 

Fernão Lopes de Castanheda , 245 

Gaspar Corrêa 247 

Capitulo VII — Camões: 

Ávida ^ . . . 253 

O lyrico. 257 

O comediographo 271 

O épico 275 

Capitulo VIII — A prosa mystica ........ 293 

Samuel Usque ........ 297 

Frei Heitor Pinto 304 

Frei Amador Arraes. ...... 312 

Frei Thomé de Jesus " . . 315 

Capitulo IX — Géneros menores : 

A — Escriptos moralistas 322 

B — Roteiro de viagens 329 

C — Relações de naufrágios ..... 333 

D — Epistolographia 336 

Conclusão 009 

Addições e corkkcções 357 






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